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RECORTES DA LITERATURA NO SARAU A ESTRADA COLOCAM CONQUISTA EM FOCO

Poderia falar em pedaços, retalhos ou até mesmo reflexões, mas preferi recortes porque fica mais apropriado por se tratar de um estudo em formação sobre a história da literatura em Vitória da Conquista que requer uma pesquisa com maior profundidade para fechar seu ciclo. É como um trabalho artesanal feito de recortes de tecidos, elaborado por muitas mãos até se tornar numa bela colcha.

Olha que não coloquei a preposição de Conquista, se bem que temos uma literatura regional, mas não é o nosso caso. Para ir direto ao que nos interessa, esse tema tão importante foi debatido no último sábado à noite (dia 14/12/24) pelo Sarau a Estrada, no Espaço Cultural que leva o mesmo nome, com diversas pontuações dos participantes que se penduraram no gancho da pesquisa feita pelo filósofo e escritor Nélio Silzantov, que nos brindou com sua contribuição.

Tudo que ia dizer aqui sobre o que ocorreu no Sarau acerca do assunto e as manifestações culturais já foram expostos pelo nosso estradeiro Dall Farias no grupo. Para mim restaram poucas palavras e fui obrigado a mudar de gênero, não aquele em que vocês estão pensando, mesmo porque a idade não mais me permite e cairia no ridículo.

Estou me referindo ao gênero literário. A professora e poetisa Viviane Gama disse que dá belas risadas com minhas crônicas e fez rasgos de elogios. Será que alguém também rir, ou tem outro olhar crítico, como a formação histórica da literatura em Conquista?

Em meu entendimento ainda temos recortes e pontuo que a nossa literatura está associada ao surgimento dos jornais impressos no início do século XX, precisamente em 1911 com o periódico “A Conquista” feito por Bráulio de Assis Cordeiro Borges e José Desouza Dantas, literatos que instalaram a “Tipografia Minerva” trazida em lombo de animais de Caetité. Gostaria de assinalar aqui também o nome do poeta “Maneca Grosso”, do jornal “A Palavra”, que defendia os pesduros na guerra contra os meletes que tinham como defensor “O Conquistense”. Não podemos desassociar uma coisa da outra porque foram os jornais que revelaram os nossos escritores e escritoras, se bem que naquela época praticamente só tinham homens na literatura.

De volta ao nosso Sarau, o Nélio se fez presente, mesmo distante, através do seu texto no Zap e na voz de áudio, graças aos recursos da nova tecnologia da internet que costuma falhar no momento preciso da transmissão e nos faz passar aquele sufoco, mas no final deu certo e ouvimos suas considerações.

Entre mortos e feridos, todos se salvaram dando suas opiniões e chegando à conclusão que muito ainda tem que ser feito para a costura completa da colcha formativa da literatura em Conquista, como incluir os contemporâneos, essa leva de entusiastas da cultura.

Temos hoje um grande movimento em torno de novos lançamentos de livros, em sua maior parte obras poéticas, talvez inspiradas pelo clima e ambiente de uma “Suíça Baiana”. Sentimos ainda a carência de outros gêneros, como ensaios, pesquisas históricas, romances, contos e crônicas. Precisamos apurar mais a qualidade e o conteúdo dos textos, mas é um momento fervilhante que está acontecendo na cidade, sem o devido apoio do poder público e privado.

Vejam que estou sempre fazendo um ziguezague para agradecer o trabalho da comissão no sarau, ao colaborador Nélio com sua pesquisa, um estudo aberto como já disse o nosso Dall, a todos presentes (alô professor Itamar Aguiar, nosso maior frequentador) e àqueles que fizeram suas considerações. Não podemos deixar de destacar o ambiente de confraternização com um farto e suculento jantar do nosso chefe cuca Dall, com suporte de Cleu Flor, Nete, Vandilza e Cleide. Tivemos ainda a comemoração das aniversariantes Karine e Rosângela.

Não podemos deixar de ressaltar aqui as motivações dos compositores e músicos Baducha, Manno Di Souza e Jaime Cobra com suas cantorias de viola, os causos de Fozim de Anagé, as declamações poéticas autorais de Jeremias Macário e Vandilza Gonçalves, Dall Farias, Viviane com sua homenagem intitulada “Estradeiros”, fazendo referência ao sarau que já completou 14 anos e foi ganhador do troféu Glauber Rocha, do convidado Carlos Maia com sua verve filosófica da vida e outros novos membros que estão se juntando ao nosso evento.

Pretendia apenas fazer uma crônica sobre o sarau, mas fico devendo para a próxima. Registro aqui o agradecimento de Nélio pela sua contribuição, apesar de reconhecer que é uma pesquisa em andamento. Torço para que nossa literatura seja ainda mais apreciada, valorizada e que possamos muito aprender sobre ela. Nélio afirmou vir acompanhando nosso trabalho de longe através das postagens nos blogs e nas redes sociais.

Sobre o áudio do Nélio, que a tecnologia picotou um pouco, quero aqui fazer algumas citações da sua fala a respeito da sua pesquisa. Ele próprio diz que não é conclusiva, mas ao longo do tempo vai lograr êxitos e deixar seu legado de conhecimento e saber. Na ocasião aproveitou para apontar alguns textos a respeito do tema, como “por uma cena literária local e sem fronteiras, a formação da literatura conquistense – primeiras questões, o centenário de uma obra esquecida – marcos históricos e desmemorias”.

Em suas reflexões ele indaga quem eram os escritores conquistenses e quais eram suas obras. Nos estudos por ele realizado ressaltou ter encontrado a Ala das Letras Conquistenses e das Academias de Letras. Indaga ainda qual foi a primeira obra publicada em Conquista. Isso implica responder em qual período histórico surgem esses escritores. Qual a visão estética e ideológica?

Para Nélio, falar sobre a caatinga e o sertão conquistense não é somente descrever sobre o coronelismo, a seca, a fome e a miséria. Existem outros elementos. Existe escritor que foge dessa visão estereotipada ou as únicas imagens são aquelas cantadas por Elomar e projetadas nos filmes de Glauber?

Quando falo de Formação da Literatura Conquistense, de acordo com Nélio, estou pensando nessa palavra para além do seu sentido comum. Não basta identificar os nomes dos escritores e períodos que eles surgem no campo literário, mas buscar compreender os modos como a literatura se constituiu, seus valores morais e intelectuais, o papel social e o impacto que ela tem na sociedade.

Ainda em seu comentário, pontua o centenário do livro de Ernesto Dantas, intitulado “Traços Crassos”, publicado em 1924. Ele também lembrou do livro “A luz desce da estrela”, de Laudionor Brasil, em 2001, em comemoração ao centenário do seu nascimento (1901).

Salve, salve a Ala das Letras, fundada em outubro de 1938, que se tornou mais conhecida, em 1945, no início da efervescência cultural de Conquista, o Grêmio Literário Dramático Conquistense, criado em 1911, juntamente com o primeiro jornal impresso, o Grêmio Ruy Barbosa, o Grêmio Dramático União, o Grêmio Castro Alves, de onde surgiu a revista literária “A Ribalta” (1919-49), a Academia Conquistense de Letras, no ano de 1980, a Breve História da Literatura Conquistense, de José Mozart Tanajura, o Foro Literário Sertão da Ressaca, o Coletivo de Escritores e o nosso Sarau a Estrada que estão entre os recortes da nossa literatura.

OS LADRÕES DE TÚMULOS

Por volta de 1600 a 1500 a. C., os faraós deixaram de erguer pirâmides e passaram a escavar os rochedos do Vale dos Reis, para dentro deles construir galerias e câmaras que serviriam de sepulturas para os seus faraós. Outros eram enterrados nas areias do deserto no sentido de coibir a ação criminosa dos ladrões de túmulos que roubavam valiosos tesouros e dividiam entre suas comunidades, numa espécie de distribuição de renda pós morte.

Mesmo assim, os ladrões continuaram agindo em grupos e eram exímios caçadores de túmulos. As peças encontradas eram vendidas no mercado clandestino para o exterior. Muitas antiguidades preciosas terminaram sendo contrabandeadas para museus de países estrangeiros.

Por muito tempo, o ocidente era desinformado quanto a civilização egípcia, mas foi com Napoleão Bonaparte entre o final do século XVIII com seus sábios quem conquistou o Egito para a Europa, a começar pela Pedra de Roseta, conforme descreve o jornalista e escritor David Coimbra através da sua obra “Uma História do Mundo”.

O livro “A Descrição do Egito”, de autoria de Dominique Vivant Denon, um dos participantes da comitiva de Napoleão, incendiou a imaginação europeia e despertou a atenção de arqueólogos e cientistas ingleses, alemães e norte-americanos.

Por incrível que pareça, foram os próprios europeus que reprimiram o tráfico de antiguidades e fundaram o Museu Egípcio do Cairo. O inglês Howard Carter foi autor de uma das maiores descobertas da arqueologia que foi a tumba do faraó Tutancâmon, uma das poucas que haviam se mantido a salvo dos ladrões de sepulturas. Sua descoberta se deu no final de 1922.

Mesmo assim, segundo Coimbra, o mausoléu do rei foi conspurcado por pelo menos dois arrombamentos, mas, por algum motivo, os ladrões não conseguiram acessar os tesouros nem o cadáver do faraó. Esses ladrões sempre agiram durante os três mil anos em que os faraós governaram o Egito.

Pelo seu feito, Carter se tornou no arqueólogo mais famoso da história, sendo comparado a Heinrich Schliemann, o descobridor de Troia, ou a de Jean-François Champollion, que decifrou os hieróglifos egípcios da Pedra de Roseta.

A fim de manter as múmias e seus tesouros a salvo das violações, os administradores egípcios camuflavam os túmulos das formas mais engenhosas nas areias do deserto e atrás de paredes de pedras. Se um ladrão descobrisse a entrada, poderia se perder em um labirinto.

No começo dos anos 80 do século XIX, um grupo de arqueólogos europeus vivia e trabalhava no Egito, com o objetivo de descobrir e estudar as antiguidades do tempo dos faraós. Seguindo a pista de um desses ladrões, o alemão Emil Brugsch-Bey fez uma descoberta impressionante.

Ao tentar ameaçar entregar o ladrão às autoridades muçulmanas, ele levou o cientista ao local onde subtraia as antiguidades. Em julho de 1881, o alemão conseguiu encontrar em desordem os ataúdes, as múmias e objetos dos maiores soberanos do Egito Antigo, como os corpos de Amósis I, Tumés III e o próprio Ramsés II, o Grande e mais poderoso de todos os tempos.

 

QUANDO NÃO COÇA, ELE PIA

(Chico Ribeiro Neto)

Era o único dia em que a gente lá em casa comia maçã e chupava uva. Tinha que estar doente para que essas caras frutas chegassem até a cabeceira da cama.

Nesse ponto dei sorte, pois fui um menino doente. A partir dos 7 ou 8 anos comecei a sofrer de asma e o bicho era brabo.

Lá fora, a zoada dos meninos jogando bola na rua. “Cadê Chico?” “Ele não vai hoje, não, tá doente”.

O problema era que quando curava uma coisa, vinha outra. Quando o médico passava remédio pra asma, eu parava de sentir falta de ar, mas aí aparecia a coceira, e vice-versa. Eram 15 dias se coçando e 15 dias piando. Já em Salvador, depois da consulta no médico, na Piedade, mamãe me levava para merendar na Lobras (Lojas Brasileiras), em São Bento.

A asma até que me ajudou em algumas situações. Quando meu pai Waldemar vinha me dar uma surra, eu simulava logo uma crise e mamãe Cleonice alertava: “Waldemar, você não tá vendo que o menino tá com falta de ar?”. E eu escapava do cinturão. O problema é que essa simulação muitas vezes provocava a asma de verdade.

Lembro uma piada de Juca Chaves. O cara passou a noite com uma mulher no motel e de manhã disse que precisava confessar algo. “Você é casado?”, perguntou ela. “Não, é outra coisa”. “Fique à vontade, pode falar o que é”.

“Eu queria lhe dizer que … eu sou asmático”. “Ainda bem que você me contou, porque eu pensei que você estava me dando vaia a noite toda”.

Ah, os velhos e intragáveis remédios. Tinha um tal de óleo de ricínio (óleo de rícino), pra combater vermes, que era terrível. E o Emulsão de Scott? Cleonice dava voltas na mesa da sala até conseguir segurar um dos quatro filhos pra engolir aquele negócio branco e intragável na colher de sopa.

Mamãe usava Colubiazol pra garganta e vovô Chico não ficava sem Sal de Fruta  Eno em casa. E papai passava na cabeça a loção Tricomicina pra ver se ainda nascia cabelo.

A gente ia no inferno e voltava quando o Merthiolate era aplicado em cima do ferimento no joelho adquirido no “baba” da rua. A chegada do Band-Aid foi um alívio. Os pequenos curativos deixaram de ser feitos com gaze e esparadrapo, que saía arrancando os cabelinhos a torto e a direito. Quando não era raladura, era uma porrada na perna, usava-se  o Iodex, uma pomada preta que tinha um cheiro forte.

Difícil mesmo era engolir uma gemada. Beber o chá de fedegoso contra asma era outro processo doloroso. Gripe? Chá de limão com alho. Tomar bem quente e entrar debaixo da coberta. Vai suar em bicas e no outro dia tá bom. Pode escalar Chico pro “baba” de hoje.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

AS PALMEIRAS DA TANCREDO NEVES

Realmente a Praça Tancredo Neves, ou das Borboletas (antiga Rua Grande), em Vitória da Conquista, é uma das mais lindas do interior baiano, com destaque para as exuberantes palmeiras imperiais que parecem se enamorar com as nuvens, sem falar que é um local com fortes energias na catedral, nas águas, na diversidade das plantas e das flores. É um local onde você pode acalmar seu espírito e deixar ele se elevar aos céus. Ela fica ainda mais encantadora e atraente no período natalino quando é toda iluminada. É um ponto inspirador e poético que merece ser visitado. Aqui em Conquista ainda temos a vista lá do alto do Cristo crucificado do artista escultor Mário Cravo, na Serra do Periperi. É a cidade dos biscoitos e uma das que mais cresce no Nordeste, mas não são esses requisitos que a faz de turística, nem tampouco de ser chamada de a “Suíça Baiana”.  Vez ou outra ouço a mídia falar em turistas que vistam Conquista. Não é bem assim. Muitas vezes é um visitante que está de passagem ou alguém da área de negócios que aproveita uma folga para conhecer a cidade. Alguém deve estar perguntando o que tem a ver as palmeiras, o Cristo, os biscoitos e até a Lagoa das Bateias com o assunto do turismo. É que muitos acham que esses cartões postais podem fazer de Conquista uma cidade turística e convencer alguém de outro estado a vir visitá-la, e por aqui ficar por três ou mais dias. É bom que se entenda que a vocação de Conquista é bem outra diferente que se chama de comércio e serviços, mas vivam para sempre as belezas das palmeiras da Praça Tancredo Neves.

AS TRAPAÇAS DOS PATRIARCAS

De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

De Ur veio Abraão,

Lá da terra dos Caldeus,

Com Sara e seu clã,

Com suas sandálias, desertos rasgou,

Orou ao seu Deus,

Até chegar a Canaã,

Com a escrava Agar se deitou,

E dela nasceu Ismael,

Renegados de casa pelo pai,

Pra ele restou o fel,

Dos ismaelitas fez-se a nação árabe,

Mas Jeová deu-lhe a graça,

E assim nasceu a trapaça,

Tudo por herança,

Pra encher a pança,

Do primeiro monarca patriarca

Das religiões monoteístas,

Para esconjurar os politeístas,

Que delas precisaram um dia,

Pra matar a fome,

Que a seca os consumia.

 

Foi no Egito do faraó,

No escaldante sol,

Que a bela e ambiciosa Sara,

Se passou como irmã,

Do esposo Abraão,

Ela foi servir seu harém,

Ambos deram a mão,

E o patriarca fez outra trapaça,

Dessa vez pela caça,

Se deu bem com um bom rebanho,

Ainda saiu no ganho,

Do seu Deus a maldição,

Mas nunca acabou a desunião,

Tudo por herança,

Para encher a pança.

 

Depois de muito tempo,

Abraão ganhou o filho Isaac,

Fora do antigo almanaque,

Que no lajedo amarrado,

Quase foi sacrificado,

Como prova de fé do seu genitor,

E o menino depois de homem,

Com Rebeca, a formosa gananciosa,

Namorou e se casou,

Gerou os gêmeos Esaú e Jacó,

Este último mais uma vez,

Com seu plano da mãe,

O irmão trapaceou,

Se passando como primogênito,

Com um prato de cabrito,

Ganhou a benção no grito,

Tudo por herança,

Pra encher a pança.

 

Esaú amargurado chorou,

Jacó para não ser morto fugiu,

Caiu nas mãos do tio Labão,

Mais esperto do que o sobrinho,

Deu uma de moço bonzinho,

Tudo por herança,

Pra encher a pança.

 

Foi lá na Mesopotâmia,

Que tudo se sucedeu,

Quando Jacó se apaixonou,

Ficou perdido de amor,

Pela linda ardilosa Raquel,

Como sopa no mel,

Por ela sete anos trabalhou,

Tudo por herança,

Pra encher a pança.

 

No dia do casamento,

Teve aquela festança de arromba,

Todo mundo caiu na dança,

O noivo tomou aquele porre,

Que de besta se embriagou,

Dormiu com a feia Lia baranga,

Com a mais velha se refestelou,

E mais sete anos foi servir a Labão,

Pela ditosa flor,

Tudo por herança,

Para encher a pança.

 

Na enrolada negociação,

Ganhou mais duas criadas,

Com quatro mulheres ficou,

Mais seis anos como administrador,

Em vinte fortuna acumulou,

E na fuga pra se livrar do vilão,

Raquel roubou os deuses ídolos do pai,

Se mandaram para Canaã,

Noutra lasca de trapaça,

Tudo por herança,

Para encher a pança.

 

O tempo gira e tudo embola,

Como no meio campo da bola,

Jacó criou doze tribos de Israel,

E o mais querido José,

O Judá do povo judeu,

Foi vendido pelos irmãos,

Para os descendentes de Ismael,

Aquele bastardo de Abraão,

Todos sempre foram meios-irmãos,

Árabes islâmicos e hebreus,

Que têm um único deus,

Assim como os cristãos.

 

A história nunca está acabada,

A gente pega ela pela rabada,

José, o belo bonitão,

Foi escravo do Putifar,

Guarda chefe do faraó do Egito,

Rejeitou a mulher do patrão,

Que lhe entregou como assediador,

Se lascou na masmorra prisão,

Depois ganhou as graças do rei,

Dos sonhos fez sua lei,

Armou suas trapaças,

Aumentou a herança,

E ainda encheu a pança,

Do seu pai e irmãos.

 

 

 

 

 

NATAL EUROPEU NUM PAÍS TROPICAL

Assistimos este filme todos os anos dentro de um Natal europeu num país tropical, com papais noéis com seus trenós e renas no gelo, muitas luzes para encantar crianças e adultos como se estivéssemos nos países nórdicos em pleno solstício de inverno, lembrando as festas “pagãs” dos celtas para louvar a passagem de uma estação para outra. Não quero falar aqui de religião, nem do nascimento de Cristo na liturgia católica.

Além dos shoppings e praças, cada um quer exibir seus presépios com seus noéis de barbas brancas que tomam toda casa. É tempo de banquetes fartos, presentes e muitas bebidas. O consumismo explode e logo aparece o “Natal sem Fome” como se o pobre só se alimentasse naquele dia. As crianças ganham seus brinquedos e tudo faz crer que as desigualdades sociais desaparecem.

Tudo é muito lindo e atraente, mas dificilmente vemos um presépio tropical brasileiro ou rústico agreste no caso específico do nosso Nordeste. O negócio é imitar os europeus até nas comidas importadas. Aliás, fazemos questão de demonstrar que somos um país colônia, como se não tivéssemos adquirido a nossa própria cultura. Muitos me criticam pelo meu comentário “radicalista” e antropofágico, mas pouco me importo com isso.

Ah, ia me esquecendo dos shows musicais sertanejos, românticos de Roberto Carlos, de arrochas, sambas, sofrências e pagodes com muito colorido, belas coreografias de mulheres se rebolando no palco, mas uns lixos de letras em sua grande maioria. Por falar em arte, estamos na fase da banana amarrada na parede com uma fita adesiva.

A mídia e as propagandas nos injetam todas as horas e todos os dias a necessidade premente de consumir e consumir cada vez mais. Como porta-vozes comerciais dos lojistas, nos ensinam como renegociar as dívidas para ficarmos cada vez mais endividados. Deixamos até de pagar as nossas prioridades para ficarmos bonitos na fita. É o pobre tentando imitar o rico e se lascando na vida.

Nas doações das campanhas “solidárias”, cada um quer mostrar sua imagem na televisão para dizer que é um bonzinho caridoso que se compadece com a miséria do outro. É uma forma de se redimir de seus pecados durante o ano. Nas ruas é aquele alvoroço e aquela agonia de compras estressantes, mas todos amolecem o coração e fingem bondade humanista nos abraços e no “Feliz Natal”.

Não gosto desse Natal hipócrita e falso, não que eu não seja um pecador cheio de defeitos e ranzinza implicante, mas procuro ficar longe dessas congratulações. Melhor tomar aquele porre e ir dormir como se nada tivesse acontecido. Não sou europeu e nem ando com Papai Noel de trenó no gelo da Noruega, Dinamarca, Suécia ou Finlândia. Sou nordestino e não troco minha paisagem, costumes e hábitos por lugar nenhum, tampouco minha cultura.

Me desculpem, mas sinto aquele vazio dentro de mim diante de tanto fingimento e muita falta de autenticidade para com o nosso próprio Brasil tropical, tão rico em suas paisagens de belezas naturais. Por que não fazermos um Natal tipicamente brasileiro sem essas imitações fajutas e enganosas? Para onde foi a nossa valiosa cultura miscigenada? Parece que o gato comeu.

Só na noite de Natal as pessoas ficam sinceras, bondosas, tolerantes e as famílias mais “unidas” do que nunca. Qualquer discussão um pouco mais acalorada e aí aparece alguém para ralhar e dizer: “Gente, hoje é noite de Natal”! No outro dia tudo volta como antes onde sempre predomina o individualismo e o egoísmo. O ser humano não é mesmo confiável!

 

NOS TEMPOS DOS CARTÕES POSTAIS

– Quando chegar, não esquece de mandar um cartão postal. Os mais velhos se lembram bem dessa recomendação quando algum familiar, amigo, namorado ou namorada viajavam para uma cidade distante ou uma capital, no caso Salvador, que muitos chamavam de Bahia ou Baia. A viagem era sempre aguardada com muita ansiedade. Na véspera nem se conseguia dormir direito.

As viagens, em sua grande maioria, eram feitas de ônibus em estradas de cascalho e demoradas, umas com o propósito de passeio e outras até mesmo para ficar de vez na casa de um parente para arrumar um trabalho e melhorar de vida porque o interior pequeno era muito acanhado e não oferecia condições de crescimento. E as malas de couro cru! Cabia tudo dentro.

As partidas eram chorosas e calorosas como se a pessoa estivesse indo para o fim do mundo, para a China ou para o Japão. Os abraços e beijos eram demorados, e o motorista se danava a buzinar o carro para apressar os passageiros. Na saída eram aqueles adeuses!

Boas recordações daqueles tempos dos cartões postais onde a pessoa ia numa lojinha de lembranças e comprava aquelas belas imagens fotográficas e as remetia pelos Correios. Demorava um pouco de chegar ao remetente, mas era batata! Não falhava e nem desviava.

– Para minha amada, com muitas saudades do meu amor. Este é um lugar que nos une, mesmo tão distantes. Você está sempre em meu coração.

– Para meu pai e minha mãe querida, com muito carinho. Fiz uma boa viagem e estou adorando esta cidade. Em breve envio mais notícias.

– Ao meu amigo, ou amiga, um forte abraço. Aqui tudo é bonito e estou aproveitando esses dias para conhecer vários lugares encantadores. Quando a viagem era rápida, a pessoa trazia na bagagem um monte de cartões postais para comprovar sua visita.

Esses e outros dizeres, de acordo com cada intimidade que um tinha para com o outro, eram escritos nos versos dos cartões postais com distintas caligrafias, não esses garranchos de hoje que quase ninguém entende.

Naquele tempo, muita gente fazia coleção de cartões postais. Eu mesmo conheci uma pessoa que era fissurada nessa mania e tinha cartões de várias partes do mundo, sem contar do Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e de outras capitais do país. Quantas saudades!

Por que hoje você diz que tal lugar é um cartão postal da cidade? Em Vitória da Conquista, por exemplo, dizem que o Cristo de Mário Cravo ou o Poço Escuro? Em Salvador, o cartão postal pode ser o Elevador Lacerda, o Farol da Barra ou a Ponta de Humaitá, na Ribeira. No Rio de Janeiro é o Cristo Redentor ou o Bondinho do Corcovado. Em Paris é a Torre Eiffel.

Atualmente não existem mais cartas e nem recantos de cartões postais. Hoje é tudo instantâneo pelo celular através de uma foto ou selfies, com uma legenda troncha cheia de erros de português. Na maior parte, as mensagens são feitas por áudio e, praticamente, sem ligações telefônicas.

Será que alguém aí ainda guarda, lá no fundo do baú, algum cartão postal ou carta de antigamente? Muitos foram jogados fora como velharia imprestável para dar lugar ao moderno. Dia desse encontrei um cartão postal em minha pasta. Só não vou revelar a mensagem.

NO ESTILO “VIVER SERTANEJO”

A Rede Globo de televisão está aí com um programa cujo título é “Viver Sertanejo” que está mais para viver fazendeiros cercados de suas boiadas e cavalos de raça no pasto, no pantanal ou à beira de rios, para mostrar a vida dos famosos cantores desse estilo (muitos estão mais para o arrocha e a sofrência) em suas casas luxuosas de piscinas, estúdios, salões de jogos, belas suítes, pias douradas e muitos empregados e capatazes.

É uma maravilha um “viver sertanejo” assim de ricos músicos cantores cheios da grana no desfrute de seus confortos. Quero ver é apresentar um viver sertanejo autêntico, de preferência típico nordestino de homens e mulheres pobres vivendo na labuta do dia a dia no campo, plantando e cuidando de suas lavouras no rigor do sol, morando em suas taperas e rezando para que não bata a seca e destrua tudo.

Nesse caso, não seria um estilo opcional sertanejo de deleites desses artistas de maga-shows, mas um modo de vida de sobrevivência mesmo, dependendo da agricultura de subsistência, com um pequeno rebanho (muitos nem têm um gadinho para tirar o leite matinal para seus filhos), com seus costumes e hábitos de uma gente sofrida pouco assistida pelos governantes e políticos.

O sertanejo de verdade, ou o catingueiro, é aquele que se levanta ao raiar do dia e vai para a roça com suas ferramentas para lavrar a terra até o pôr do sol, isto quando caem as trovoadas e molha o chão. Nos sábados vai à feira da sua cidade para vender seus produtos.

Quando chega a estiagem e a cisterna fica seca (quando se tem uma), o jeito é botar a lata d´água na cabeça ou através do jumento, caminhando quilômetros de distância atrás de uma fonte, poço, um tanque ou um açude que ainda conserva um pouco do precioso líquido da vida.

Uma coisa é o “viver sertanejo” dos grã-finos Leonardo, Daniel, Jorge e Mateus, Chitãozinho e Xororó, Maiara e Maraísa, José de Camargo, Ana Castela e tantos outros que nem vivem da terra e vão ali vez ou outra para fazer suas festas com os amigos ao redor das fogueiras nas varandas suntuosas com suas cantorias.

Outra é o viver do nosso sertanejo, chamado até de tabaréu residindo em sua casa simples com seu chapéu de couro surrado para se proteger do sol escaldante. Ele faz suas preces ao se levantar e ao se deitar para rogar ao seu Deus ou ao seu santo que lhe dê coragem para enfrentar as intempéries do tempo e poder criar seus filhos.

Por que não fazer um programa, um documentário ou uma série de reportagens sobre esse viver sertanejo roceiro, como se comporta, o que faz durante o dia e a noite, suas atividades e as dificuldades para vencer os obstáculos? Falo isso porque eu mesmo fui um sertanejo desse e vivi essa experiência.

É muito prazeroso esse “viver sertanejo” das celebridades, não querendo com isso dizer que o nosso de verdade seja infeliz e amargurado.  Mesmo diante dos problemas, ele é solidário entre seus compadres da comunidade; está sempre com um sorriso no rosto; recebe bem as pessoas; e sabe como driblar as angústias e as tristezas.

 

AS TRAPAÇAS E ASTÚCIAS DOS HEBREUS QUE EM CANAÃ FUNDARAM O JUDAÍSMO

Hebreus e árabes são meios-irmãos, mas brigam há milênios por propriedade e herança, conforme narram historiadores arqueólogos e a própria Bíblia através do livro do Gênesis. Tudo começou com Abraão quando saiu de Ur, da terra dos caldeus, na Mesopotâmia, e foi parar em Canaã (Retenu Superior), na Palestina, com seu clã.

O jornalista e escritor David Coimbra, em “Uma História do Mundo” faz um relato numa linguagem simples da trajetória desse patriarca, inspirador do judaísmo, e de seus descendentes de forma compreensível ao leitor e recheado de trapaças e astúcias. Na verdade, o cristianismo e o islamismo também têm Abraão, o seminômade, em suas escrituras religiosas.

Por volta de 2000 ou mais a.C. aconteceu uma seca braba em Canaã que causou muita fome e, como fazem os nordestinos, Abraão e sua bela Sara, ou Sarai, seu sobrinho Lot e demais formaram uma caravana até o Egito onde existia alimentos em fartura. Como os egípcios não podiam ver um rabo de saia, Abraão combinou com sua cobiçada Sara a dizer para o faraó que eles eram irmãos.

Uma versão conta que o patriarca temia ser morto pelo rei se ele contasse que Sara era sua mulher e outros dizem que Abraão fez uma negociação para ser bem recebido e adquirir o que queria. De qualquer forma, ele foi astuto e Sara serviu o faraó em seu harém. Por causo dela, Abraão foi bem tratado e recebeu ovelhas, bois, jumentos, servos e camelos. Se deu bem com seu esquema.

Ocorre que logo depois da chegada dos hebreus houve uma praga nas lavouras do Egito, fato que levou os egípcios a suspeitarem que a culpa estava em Sara que foi devolvida ao marido e seu povo expulso de suas terras. Cita a Bíblia que o Senhor ficou furioso e feriu o faraó e toda sua casa.

Abraão retornou com seus rebanhos para Canaã e Lot foi para Sodoma, a cidade do pecado que foi queimada por Jeová, juntamente com Gomorra. No entanto, Lot, sua esposa, que virou uma estátua de sal que, por curiosidade (coisa de mulher), ter olhado para trás, e suas duas filhas foram poupados. Ele foi para uma cidade chamada Segor e depois refugiou-se numa caverna com suas filhas, as quais embriagaram o pai e fizeram sexo com ele. Cada uma gerou um filho, Moab, o pai dos moabitas e Bem-Ami, pai dos amonitas.

O Antigo Testamento tem muita lenda, mas também verdade. A história descreve que Sara era estéril e Abraão, com o consentimento de Jeová, deitou-se com a escrava Agar com a qual  teve Ismael que fundou os ismaelitas e se tornou patriarca de todos os povos árabes depois de ter sido expulso de casa sem nada com sua mãe pelo próprio pai por insistência da ambiciosa Sara logo após gerar Isaac com noventa anos de idade. Ela temia que o mais velho se tornasse o verdadeiro herdeiro da família, como assim regia o costume antigo.

Como todos sabem, Isaac quase foi sacrificado pelo pai por ordem de Jeová para testar sua fé, mas depois tornou-se homem descendente de todos hebreus. Está escrito que Sara morreu com 127 anos e Abraão ainda teve seis filhos com Quetura e faleceu com 175 anos.

Issac casou-se Rebeca que levou vinte anos para engravidar e deu os gêmeos Esaú, o peludo, e Jacó que significa o suplantado. A mãe gostava mais do segundo filho, um dos patriarcas dos hebreus, pacífico que preferia morar na tenda, enquanto o primeiro, um hábil caçador, despojado de valores materiais e de caráter era o querido do pai.

Por ser mais sedentário, Jacó representava a civilização. Como era o primogênito, Esaú tinha direito a ser o chefe da família e a herdar os bens na morte do pai, mas cedeu esse lugar para o irmão em comum acordo ou por ter caído na lábia de Jacó. Mesmo assim, Jacó usou o irmão lá na frente para trapacear e chantagear.

De acordo com o autor da obra, o que temos nesse episódio são a civilização e a selvageria, e também o homem e a mulher, a fraqueza e o ardil, a imprevidência e a astúcia. No final de sua vida, muito doente e cego, Isaac sentiu ser a hora de dar a benção simbólica paterna que confirmaria a primogenitura.

Isaac resolveu, então, abençoar Esaú e mandou que ele preparasse um prato bem suculento da sua caça. Esaú partiu com sua arma para caçar um animal. Ao ouvir a conversa por detrás da porta, a gananciosa Rebeca chamou Jacó e preparou outro plano para trapacear Esaú e o marido.

– Faça o que digo: Vá ao rebanho e traga dois belos cabritos. Prepararei com eles um prato para teu pai, como ele gosta. Tu vais levar o prato a ele e Isaac comerá e vai te abençoar no lugar de Esaú.

– Mas, mãe, argumentou Jacó – meu irmão é peludo e eu tenho pele lisa. Se meu pai me tocar passarei por embusteiro e serei amaldiçoado. No entanto, Rebeca orientou Jacó a cobrir os braços e as pernas com as peles dos cabritos esfolados de forma que o pai, se o tocasse, iria pensar se tratar do cabeludo Esaú.

Isaac até que desconfiou, mas terminou dando a benção para Jacó. Quando Esaú chegou com sua caça para oferecer ao pai já era tarde demais. Esaú ficou amargurado e mesmo assim pediu a sua benção, mas não tinha como o velho voltar atrás. Apenas disse que ele foi trapaceado pelo irmão.

– Eis que a tua habitação será desprovida de gordura da terra e do orvalho que desce dos céus. Viverás da tua espada, servindo ao teu irmão, mas se te libertares, quebrarás o teu jugo de cima do teu pescoço. Com essa alternativa, Isaac deu permissão a Esaú para vingar-se de Jacó.

Ao sentir o perigo, Rebeca mandou o filho para a casa do seu irmão Labão que morava na Mesopotâmia. Como para um esperto, outro mais esperto ainda, o tio deu uma boa enrolada nele ao ter se apaixonado pela bela prima Raquel.

Labão disse que seria uma honra tê-lo como genro, mas teria que serví-lo de graça por sete anos. Foi aí que Jacó caiu no esparro. Trabalhou por sete anos e no dia do casamento tomou aquele porre de deixar embriagado e terminou se deitando com Lia, a irmã baranga mais velha.

No outro dia tomou aquele susto e foi reclamar do tio que teria sido passado para trás. Labão astucioso explicou que havia mandado Lia para seu leito conjugal, em vez de Raquel, porque em sua terra o hábito era casar a irmã mais velha antes da mais moça.

Para consolar Jacó, afirmou que ele teria também a Raquel desde que trabalhasse mais sete anos como escravo para ele. Jacó, doido pela Raquel (homem é um bicho besta e romântico), topou a empreitada e terminou ganhando ainda as duas criadas Zilpa e Bila. Ficou com as quatro e passou mais seis anos como administrador de Labão, acumulando posses e filhos.

Depois de vinte anos possuía um tremendo rebanho, quatro mulheres, doze filhos e uma filha. Os doze terminaram sendo os fundadores das doze tribos de Israel, nome pelo qual Jacó passou a ser chamado.

Quando esse novo Israel decidiu retornar para Canaã, o tio não permitiu. Então ele tramou uma fuga com Raquel, que esperta levou as estatuetas ou terafins do pai. Esses terafins eram deuses que, além de servirem para adoração e idolatria, davam a quem as possuía o direito à herança familiar. Essas estatuetas eram uma prova de que alguns hebreus pioneiros também praticavam o politeísmo sem serem incomodados.

Na fuga houve outras trapaças entre Raquel e o pai, mas Jacó conseguiu se safar e chegar a Canaã onde fez boa fortuna ao ponto de ser o mais rico da Palestina. Entre seus filhos aparece o José, Judá (a tribo de Judá é a Judeia donde veio a designação “judeu”) que acabou sendo jogado num poço seco pelos irmãos, não por inveja por ser o mais querido do pai, mas porque era um tipo dedo duro, um X-9 das conversas dos irmãos.

Como todos conhecem bem a história, esse José, casado com uma cananeia de nome Sué (é um outro caso interessante) foi vendido pelos irmãos, sem o mais velho Rúben saber, a uma caravana de ismaelitas que levava resina, bálsamo e ládano (muito usados para embalsamar múmias) para o Egito. O José, Judá, terminou sendo escravo de Putifar, o chefe da guarda do faraó. Como era bonitão de corpo, a bela e gostosona da mulher de Putifar tentou seduzí-lo dando em cima dele na cara de pau.

José caiu na besteira de rejeitá-la e a mulher contou outra versão ao marido de que seu escravo havia flertado ela. José foi direto para o cárcere e lá começou a adivinhar os sonhos dos presos. Caiu nas graças dos guardas e de lá foi chamado para morar no palácio para desvendar os sonhos do faraó.

O resto da história já é conhecido de todos quando ele se encontrou com os irmãos famintos no Egito. Com uma seca em Canaã eles foram procurar abrigo na terra dos faraós que governaram o Egito por mais de três mil anos.

 

 

 

 

 

 

 

“SAI DO SERENO MININO”

(Chico Ribeiro Neto)

Sete da noite, mamãe Cleonice me chamava: “Sai do sereno, Chiquinho, senão você adoece!”

Eu ficava pensando que diabo era esse sereno, um negócio que a gente nem vê e faz mal. A chuva, pelo menos, a gente vê.

Os barquinhos de papel, feitos com folhas de caderno, desciam a enxurrada. Tinha vontade de escrever o nome nos barquinhos: “Chico I”, depois viriam “Chico II”, “Chico III”, até o oitavo. E essa frota desceria o rio de Contas, passaria em Barra do Rocha, Ubatã, Ubaitaba, Aurelino Leal e Itacaré, onde desfilaria no Oceano Atlântico.

Falar em escrever, já escrevi um bilhete e o coloquei numa garrafa que joguei no mar do Unhão. Era adolescente, já em Salvador, não lembro mais o que escrevi. Se fosse hoje, eu escreveria: “Um náufrago em terra firme”.

De volta a Ipiaú. Depois da chuva (ou antes, não lembro) a  gente ia à noite pra ver as mariposas em volta da lâmpada dos postes. Aposta para ver quem conseguia contar quantas mariposas estavam a voltear.

Tem coisa mais gostosa do que um banho de bica? Era uma festa para a meninada, aquele toró caindo na cabeça da gente. Na hora de dormir, sentir aquele leve chuvisco que caía do telhado e vinha borrifar a cabeça, e se cobrir com uma coberta Dorme Bem, que espinhava e esquentava.

Usei galochas para ir à escola primária. Galocha era um calçado todo de borracha que se calçava sobre o sapato de couro para não molhá-lo em dia

de chuva. Não sei por que se chama um cara muito chato de “chato de galocha”. Talvez seja porque era chato calçar a galocha: a borracha embolava na ponta e no calcanhar.

As tanajuras apareciam no período de chuva. A gente enfiava um palito na bunda da tanajura só para ouvi-la vibrar as asas. Ela acabava morrendo. Menino tem arte do capeta. “Cai, cai, tanajura, na panela da gordura”, todos cantavam. A bunda de tanajura frita ou na farofa é muito apreciada no Nordeste. “A tanajura é rica em proteínas e minerais e tem um perfil de ácidos graxos semelhante ao da carne do boi e do porco”, dizem os especialistas.

 

Vovô Chico fez um tanque de cimento que saía do chão, na área de serviço da casa (entre a cozinha e o quintal), para aparar água de chuva, pois ainda não havia água encanada. Era a chamada água de gasto, para limpeza e banheiros. A de beber era comprada dos aguadeiros, homens que traziam os carotes de água nos burros e passavam de casa em casa descarregando-os nos porrões de barro. Duas bicas conduziam a água da chuva para o tanque que era fechado com madeira pra não cair bicho dentro. Eu gostava de subir num banquinho pra brincar com a água do tanque.

Na enchente descia de tudo pelo rio de Contas: bois, galinhas, porcos, melancias, abóboras, pedaços de cerca, árvores, um cenário de destruição.

Vinte e poucos anos. Namorar de noite, debaixo de chuva, na praia de Amoreira. Outra bela lembrança.

Começa a chover no Chame-Chame, em Salvador, tô sem guarda-chuva e começo a correr. “Vai devagar, meu tio, que o senhor pode escorregar. E velho não pode cair, não é?”

(Veja crônicas anteriores em leiamais.com.br)

 

 

 

 

 





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