“UMA HISTÓRIA DO MUNDO”
COMO SE FORMOU A PRIMEIRA CIDADE
COMO NASCEU O PRIMEIRO DEUS ÚNICO
COMO FOI INVENTADA A CULPA
Numa linguagem pedagógica e num tom simples metafórico de gozação que prende o leitor, sem aquele academicismo pesado, o jornalista e escritor de vários romances, David Coimbra começa esta obra falando do homem de neandertal que durante cerca de dois milhões de anos (outros apontam seis) viveu feliz em suas selvas, caçando, pescando e colhendo, sem pensar no futuro. Seu esquema era viver o dia de cada vez.
Costumamos afirmar que a gente era feliz e não sabia quando nos referimos há 50 ou 60 anos ainda meninos com aquelas brincadeiras tradicionais do nosso tempo onde crianças e jovens respeitavam os mais velhos e a humanidade era mais humana, sensível e solidária. Pois é, mas Coimbra nos faz entender que a felicidade total estava mesmo no neandertal solteiro de um metro e 65 centímetros, forte e cheio de músculos.
Tudo era inocência que nem se sabia que o homem era um reprodutor. O sexo era grupal, sem culpa, e a mulher ficava na caverna esperando o caçador. Quando engravidava, achava que era da lua cheia ou de um mosquito qualquer que lhe picava no rio. Veio, então, o sapiens sapiens, há 120 ou 130 mil anos, e começou a bagunçar tudo. Nessa passagem, a mulher domesticou o homem e criou a civilização a partir da agricultura. Ensinou também o sapiens a domesticar e a criar animais para o abate.
Segundo Coimbra, alguns cientistas desconfiam que haja traços de neandertal em certas pessoas do século XXI. Pode ter havido relação amorosa entre um neandertal e uma sapiens sapiens. Em sua visão, os neandertais eram mais masculinos do que nós. Saia em bandos de machos para caçar, pescar e colher, arrastar uma fêmea pelos cabelos, pegá-la no colo, jogá-la no solo e fazer dela mulher. Não arava a terra, não acumulava e nem constituía família. Não meditava sobre a existência e não se angustiava ao ponto de cair em depressão.
As sapiens queriam era criar seus filhos e, para isso, teve que domesticar os machos. Inventaram a agricultura, tornando impossível o deslocamento por serras, praias e florestas. De nômades a sedentários, fundaram a civilização, a política, a economia, a ganância, a angústia e o psicanalista para curar seus tormentos.
Hoje, o homem solteiro que bebe com os amigos, não reclama da solidão e cativa outras mulheres, é o fracasso das mulheres. Foi por isso que elas inventaram o amor romântico, “que deve seu prestígio à Idade Média quando o cristianismo temperou o sexo com a culpa e elevou o espírito em detrimento da carne”. Esse cristianismo tornou vulgar o prazer e sublime o sentimento. O amor romântico transformou-se na forma de dar sentido à vida humana neste Vale de Lágrimas.
O neandertal não precisava procurar o sentido da vida, porque o sentido da vida era viver. O escritor, com leveza sarcástica, escreve que o ócio feminino matou o neandertal. “Quem inventou o trabalho não tinha o que fazer”. Durante dois milhões de anos de alegria e vadiagem, o homem não trabalhou.
Tanto um como o outro (neandertal e sapiens) viviam para comer e se reproduzir. Freud dizia que tudo na vida é casa, comida e sexo. Lá atrás, o homem nem sabia que fazia filhos. Tudo piorou quando se passou a pensar no futuro há mais de 70 ou 100 mil anos, tempo que o neandertal e o sapiens partilhavam o planeta, caçando e coletando. A agricultura deve ter surgido há 10 mil anos e dela vêm a propriedade e a herança.
A mulher, nas baladas loucas da caverna, ao transar com um chefe do clã, de acordo com Coimbra, foi quem descobriu a reprodução através do sexo. Antes ela viu um casal de filhotes de animais, caso do lobo, ancestral de todos os cães do mundo, copulando e depois parindo. Ficava na caverna cuidando dos filhos e começou a plantar as primeiras sementes extraídas dos frutos que o homem trazia.
Como foi dito antes, da agricultura vieram a propriedade e a herança, mas como o macho poderia ter certeza que o filho era dele para ter o direito de ficar com seus bens? Só a mulher tinha porque o filho saia da sua barriga.
Naquela época não havia laboratório para fazer o teste de DNA. A forma segura foi obrigar a fêmea a fazer sexo só com ele. Lá vem a monogamia, subproduto da herança. Os homens podiam ter várias mulheres, mas, com o tempo, elas não se submeteram a essa nova ordem. Os problemas estavam só começando.
DESPEDIDA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, há 60 anos.
Voam aves da inocência,
De galhos em galhos,
Cantam a liberdade,
No frescor da abundância.
Os tempos passam,
A escassez aparece,
Surrupia a alegria,
Alastra o sofrimento,
Piedade Senhor!
Ao menos, escute minha prece!
Se a natureza,
Sente-se compungida,
Pela seca esturdiada e virulenta,
O mar encanta a jangada lenta,
Por que ulular o véu da vida?
Passam anos e os dias chegando,
Abrem as cortinas da cena.
Deparo num futuro;
Vou meditando,
No claro ou no escuro.
Passageiros!
Folheai o opíparo livro,
E vedes capítulos ataviados,
Com nossos nomes d´alma
Em fé livre,
Nesta história decadente,
De dias atormentados.
Quantos aqui se ingressaram,
Daqui se foram saudosos,
Dessa gleba se formaram,
Estandarte de braços amorosos!
Adeus farol, adeus timoneiro,
Que nos desviaram das pedras!
Adeus luzeiro;
Sigo em livre mar.
O vento que soprou em doidivanas,
Não conseguiu…
Mesmo forte me arrastar.
Senhor Deus!
Ouvi-me, Senhor Deus!
Se na terra,
Como sementes não crescemos,
Se foi egoísmo,
Nos castigue,
Dai-nos forças,
Para distantes vencermos.
Amigos!
Para aonde vão?
Bate o adeus;
Tartamudeia minha voz.
Já é hora da partida:
Um dia nos veremos,
No além do além.
Enxuguem suas lágrimas,
Nesse grito de despedida.
O MATUTO E A TECNOLOGIA
Tudo hoje é movido pela tecnologia que está destruindo o próprio homem, embora ela tenha suas vantagens de facilitar a vida, conforme se extrai das opiniões praticamente unânimes. Disso quase todos sabem, mas agora imagine um matuto que sai do seu sertão agreste e se mete em visitar a capital.
Foi o que aconteceu com seu Carmerindo que juntou um dinheiro da venda de seus produtos da roça e botou na cabeça que ia conhecer a cidade grande, aquela que ele via passar na televisão e ouvia falar naquele rádio modelo antigo que seu pai lhe deixara como herança.
A mulher chamou ele de maluco, mas o cabra tinhoso arrumou a mala com algumas peças de roupa e uma boa grana para se hospedar num bom hotel. Seu compadre, que até tinha vontade de também fazer aquela aventura, o incentivou e foi logo dizendo que com dinheiro tudo ia dar certo. Carmerindo é mesmo um sonhador.
A viagem foi longa passando de cidade em cidade até desembarcar na capital. Seu Carmerindo, com seu chapéu de couro típico nordestino ficou assustado com aquele formigueiro de gente pra lá e pra cá. Uma correria dos infernos – imaginou.
O motorista malandro ao ver aquela figura esquisita se aproximou com seu papo envolvente e se prontificou a lhe arrumar um carro para lhe levar ao hotel, cujo nome trazia escrito no papel em seu bolso. Tinha alguma coisa ligada com citytur, coisa de gente chique.
Os carros cortavam velozes entre avenidas, viadutos e arranha-céus de concreto. Seu Carmerindo ficou deslumbrado enquanto o cara rodava com ele dando voltas fora do itinerário para lhe cobrar um preço bem mais caro até chegar ao ponto marcado.
Agradeceu a “gentileza” com um aperto de mão, pagou em dinheiro vivo e se dirigiu àquela porta de vidro que como mágica se abriu sozinha antes dele encostar a mão. O matuto ficou espantado e até se sentiu importante. Lembrou da conversa que teve com o compadre sobre ter o dinheiro, de que tudo podia.
Ao entrar, com aquele traje de tabaréu do campo, ficou ali parado sem saber para onde ir, mas Carmerindo era destemido. Vendo aquele estranho, o “fardado” empregado pediu que ele se retirasse do recinto.
– Moço, só quero um quarto parta ficar e tenho dinheiro para pagar. Vim conhecer a capital e ver o mar pela primeira vez.
– Passe por aquela porta giratória e fale com um dos nossos atendentes atrás da mesa.
Ele pensou que esse negócio de giratória não cai bem em sua terra e ficou cismado, mas, como já estava ali tinha que seguir em frente. Meio troncho e se batendo, saiu do outro lado e viu aquela gente atrás de umas máquinas, como se fossem robôs.
– Boa tarde, venho lá do meu sertão onde o sol brilha todo dia e o orvalho cai na madrugada. Com os primeiros raios sempre dizemos Deus seja louvado.
O recepcionista, que nunca tinha presenciado aquela cena inusitada, deu uma boa tarde imperceptível de gente fria e de pouca sensibilidade humana. Esse pessoal pouco rir e força uma falsa educação.
– Moço, quero um quarto para pernoitar e esticar as pernas depois de uma longa viagem calorenta. Quanto pago?
O preço lhe deixou meio zonzo, mas não dava mais para recuar. O recepcionista fez sua ficha, como nome, profissão, endereço e outros protocolos costumeiros. Depois, deu-lhe um cartão magnético com as instruções para pegar o elevador e abrir a porta do apartamento. Antes, porém, lhe perguntou a forma de pagamento, se no cartão, pix ou através de aplicativo.
Pelo andamento da carruagem, não vai tardar o desaparecimento do dinheiro em espécie, não mais caixas eletrônicos e nem essa coisa de banco onde as pessoas naquelas enormes filas vão resolver seus “pepinos”. Tudo vai ser via internet. Profissão de bancário vai se acabar com essa tal de inteligência artificial.
–É no dinheiro mesmo, e abriu um pacote que trazia em sua mala de couro cru. Nem sei que troços são esses que o senhor está falando.
Seu Carmerindo deu aquele pulo para trás e pediu uma chave, daquelas que você coloca na fechadura e abre rapidinho.
– Não usamos mais isso, meu cidadão. É uma questão de segurança. Tudo hoje é comandado pela tecnologia.
Coisa do diabo dessa tecnologia moderna que se vê nas propagandas – lembrou daquelas imagens. Como foi orientado, no elevador ele introduziu o cartão naquela fresta, mas nada do elevador obedecer a ordem de comando. Acende uma luz verde, mas nada.
O matuto sai de lá virado no mói de centro ou do cão e suado começa a esbravejar. Nesses hotéis de hoje não existem mais aqueles carregadores de mala que lhe levava até o andar, abria a porta, entrava e ainda ensinava como ligar a televisão e o ar condicionado. É a máquina substituindo a mão-de-obra.
Furioso, joga o maldito cartão na mesa e sai arretado pela mesma porta giratória. De tão puto da vida pegou o primeiro taxi na porta do hotel e naquele trânsito maluco se picou para a rodoviária, sem nem olhar para trás. No entanto, para não perder a viagem, pediu ao condutor para ver o mar, como era o seu desejo.
Pensou consigo mesmo que aquilo ali era coisa de doido e nunca mais iria pisar os pés numa capitá. Bom mesmo de viver feliz é na nossa terrinha onde se ouve o canto dos pássaros ao amanhecer, o berro da vaca e a chuva molhar o chão para a semente germinar.
–
NÃO É FÁCIL, NÃO!
(Chico Ribeiro Neto)
Não é fácil, não, cidadão, ter que saltar do caminhão, abrir o coração e aguentar a corrupção.
Não é mole, não, resistir ao desespero, a esse seu tempero e a tanto esmero.
Estender a mão, morar em pensão, conviver com a solidão e ver assombração.
É difícil, irmão, passar no vestibular, esse cara devagar e não chorar no luar.
Mudar de moradia, sofrer de azia e essa vida vazia.
Não é fácil, não, espinho no pé, cair o picolé e a cara de Seu Zé.
Filho doente, cerveja quente e a cara da gente.
Pular daquele rochedo, engolir calado e sentir que tem medo.
Ter que dizer Não, ver uma agressão e o resultado da eleição.
Não é mole, não, irmão, sentir saudade, ver tanta maldade e violência na cidade.
A viagem de volta, segurar a revolta e abrir a comporta.
Pedir guarida, a viagem de ida e essa vida.
Café frio, olhar absorto e passarinho morto.
Lidar com o “cidadão de bem”, com o desdém e ter que dizer Amém.
É difícil, irmão engolir o óbvio, dispensar o necessário e entender o vário.
Televisão quebrada, entupiram a privada e o silêncio da madrugada.
Não é fácil, não, já dizia minha tia, engolir problema é soprar poesia.
Joelho inchado, o vizinho do lado, carro quebrado e IPVA vencido.
Não é mole, não, dor de barriga no meio da rua, aposta ganha não foi a sua e a verdade nua e crua.
Peido no Elevador Lacerda lotado, sanitário de barzinho e ver destruído um ninho.
Não é fácil, não, irmão: acreditar que Maria vai voltar, que aquela coisa vai mudar, que esse mundo tem jeito, que vai imperar o respeito, que vamos melhorar cantando Belchior e que iremos desta para melhor.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
MEU “VELHO CHICO”!
Dizem que ele tem 523 anos desde que um tal de Américo Vespúcio e sua turma de exploradores gananciosos depravados o viram em sua foz e lhe “batizaram” de São Francisco em homenagem ao santo. Isso não passa de uma grande mentira porque ele tem milênios de anos desde que nasceu lá nos Gerais, na Serra da Canastra, e era conhecido como Oporá (rio-mar) pelos índios. O Vespúcio não batizou coisa nenhuma. No entanto, não é disso que quero falar. É que sempre que visito o meu “Velho Chico”, sinto-me na obrigação de fazer um registro depois de lhe pedir a benção. Após aquele estrago todo há uns oito anos, aparentemente ele vai bem com suas águas banhando as margens e sustentando os ribeirinhos. As embarcações navegam pra lá e pra cá cheias de gente que apreciam suas belezas naturais. Os empresários das frutas só querem saber de irrigar suas plantações com suas águas. Acontece que, de lá para cá, depois da seca rigorosa que o castigou severamente, ninguém fala mais em revitalizá-lo. Continuam jogando esgotos em seu leito sujo, como ocorre em Juazeiro, que se transformou na capital das muriçocas. O homem é um animal perverso e irracional quando se trata de preservar o meio ambiente. O negócio é só retirar e nada de retribuir. É um tremendo ingrato e burro, sem contar que é um desmemoriado e destruidor de si mesmo. Mais uma vez, a benção, meu “Velho Chico”, e perdoe seus algozes, se for possível!
DEIXEI ESCAPAR UM “FURO” MUNDIAL
(Chico Ribeiro Neto)
Chefe de Reportagem ouve de tudo. Já ouvi muita loucura e mentira do público quando exerci esse cargo no jornal A Tarde por alguns anos, a partir de 1988.
Junto à baiana de acarajé costuma-se falar de tudo: do calor, da política e do sexo. Redação de jornal é também um grande tabuleiro.
Uma vez, não sei como ela passou pela portaria, mas uma mulher chegou até a minha mesa e disparou:
– Quero botar no jornal que eu transei com Jorge Amado.
– O quê?
– É isso mesmo. Quero que o senhor escreva aí que eu fiz amor com Jorge Amado.
– Mas eu não posso publicar isso.
– Não pode por que? Preciso botar isso no jornal (e começou a ficar agitada. Segundo ela, não foi assédio, foi relação consensual, mas ela queria divulgar. Vi que ela não girava bem e precisava achar um jeito de dispensá-la. “Para um maluco, só outro”, diziam os antigos).
– Senhora, tudo bem. Agora eu vou ter que ouvir Jorge Amado sobre isso.
– Não precisa, não.
– Precisa, sim. No jornalismo a gente tem sempre que ouvir os dois lados. Mas tem outra coisa.
– O que é?
– A senhora transou com o autor de “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, um homem conhecido no mundo todo. Isso não é pra qualquer mulher. Deve ter sido um momento muito íntimo, muito bom, e por que é que todo mundo precisa ficar sabendo disso? Há coisas tão especiais que merecem ficar reservadas lá no fundo do coração, só pra nós, coisa muito preciosa. Acho que isso devia ficar só pra senhora. (E a nervosa amante acabou se convencendo).
– Pois é, pensando bem, acho que o senhor tem razão. (E foi embora, para meu alívio).
Quando vale uma boa ideia? Difícil precisar. Veja essa outra ligação que recebi:
– É do jornal A Tarde?
– É, sim.
– Quanto vocês pagam por uma boa ideia?
– Depende. Você manda sua ideia, a gente analisa e, se o jornal gostar, compra.
– Aonde!!! Depois o jornal fica com a minha ideia e não me paga. (Desligou).
Nesse tempo, chefe de Reportagem tinha que trabalhar de manhã e voltar às 18 horas para identificar as fotos e ver outras providências. O jornal ainda não tinha o Editor de Fotografia. Um dia, o negócio pegou – em jornal só se sabe a hora em que você entra – e precisei ficar até 22 horas. Comecei a fechar as gavetas quando o telefone tocou e entrou uma voz em portunhol:
– Boa noite, é do jornal A Tarde?
– É, sim.
– Eu tenho um projeto que pode mudar os destinos do mundo. O senhor pode ouvir?
Morrendo de sono, doido pra ir pra casa e ainda ter que ouvir essa proposta de mudança mundial, respondi:
– Não, amigo, não temos interesse no assunto. O senhor pode ligar pra Tribuna da Bahia.
– Que absurdo! Que loucura! Minha ideia pode mudar o mundo e o senhor não quer escutá-la?!!!
– Não temos interesse, ligue pra Tribuna. (O cara bateu o telefone fixo na minha cara. Fui pra casa com a sensação de que deixei escapar um “furo” mundial).
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
NAQUELE DIA…
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Naquele dia…
Rasgou-me no peito a poesia,
Que não nasceu
De flores e amores;
Brotou das minhas dores,
Da existência do não existir,
Como se fosse um poente
Pálido sem cor,
De um escravo a sangrar,
Na chibata do seu senhor.
Naquele dia…
Esmo nas ruas,
Só a fome faminta
Me consumia
Entre vitrines e restaurantes,
Cambaleando
De barriga vazia,
Segui a passeata,
Como gado ferrado,
Dos cartazes que diziam:
Abaixo a dura ditadura!
Liberdade, liberdade!
Contra a tropa covarde.
Naquele dia…
Queria ser um Neandertal,
Pescar, caçar e colher,
Sem sentido e ideologia,
Só apenas o viver,
Sem amor romântico,
Sem culpa cristã,
Sem noção do tempo,
Para Eva dar a maçã,
Sem pensar no outro dia.
Naquele dia…
Meu coração estava ferido,
E eu só pedia,
Um pedaço de pão.
O CAÇADOR E A CAÇA
O título nos faz lembrar daquele ditado popular de que um dia é do caçador e o outro é da caça. Também nos remete ao homem de Neandertal que só fazia pescar, caçar e colher, sem a ambição de pensar no futuro, nem procurar o sentido da vida. Não arava a terra, não acumulava e, sobre a existência, nada de ansiedade. O negócio era só viver o presente.
Esse tempo do caçador-coletor do Neandertal feliz, sem culpa, do sexo sem amor romântico durou mais de dois milhões de anos até que uma mulher sapiens cruzou o musculoso da caverna e aí inventou-se o trabalho, porque não se tinha mais o que fazer. Foi a partir dali que começaram a aflorar os sentimentos, mas os papéis de caçador e de caça nunca deixaram de existir.
No entanto, estamos em pleno século XXI, vivendo na era da tecnologia avançada do mundo virtual, e agora da Inteligência Artificial. Mesmo assim, o homo sapiens, com idade de 10 a 12 mil anos e domesticado pelas mulheres, continua, mais do que nunca, um predador cruel da natureza e caçador do tempo à procura da sua caça para sobreviver.
Além de “caçar” e domesticar animais para se alimentar, esse sapiens se tornou num grande caçador do próprio homem, usando a sua sagacidade do mal para abocanhar a sua presa, sem piedade e compaixão. Essa evolução para o lado perverso foi tão grande nos últimos séculos que hoje o caçador está levando a melhor, com menos dia da caça.
Os caçadores atuais não usam lanças e machados de pedras para pegar a sua caça. Os meios são bem mais sofisticados, inclusive no uso da linguagem, para persuadir a caça, como no caso dos golpistas. Parodiando um pensador filósofo, de que existem influenciadores nas redes sociais porque existem idiotas, diria que o mesmo se aplica ao caçador e a caça.
Como há dois milhões de anos, a caça atual é o lado mais fraco, mais pobre e vulnerável, sem instrução. Ela está mais exposta às “flechadas” dos ricos e poderosos, sem contar os bandidos especializados e treinados para enganar a presa com vantagens ilusórias.
Na vida real, os caçadores, como verdadeiros crocodilos dentro das lagoas lamacentas, que ficam na espreita da chegada dos servos para beberem água, se camuflam de bons profetas e salvadores para atrair sua caça, como na política onde o eleitor é a caça.
Na religião, o pastor é o caçador, e o fiel é a caça, que é iludida com a promessa de um lugar no reino dos céus. No sistema financeiro brasileiro, por exemplo, o mais ganancioso, o banqueiro é o caçador, e o cliente trabalhador é a caça,
Essa história de caçador e da caça é tão antiga quanto a humanidade. Acontece que o caçador, como na teoria da evolução de Darwin, com o passar dos milênios, aprimorou cada vez mais seus métodos como opressor, enquanto a caça foi sendo encurralada e oprimida, como no caso do colonizador e do colonizado.
O MELHOR E O PIOR PAÍS PARA SE VIVER
Para os golpistas, malandros contumazes, bandidos, malfeitores, corruptos, inescrupulosos, os que querem sempre levar vantagem em tudo, os que não respeitam o espaço dos outros, aqueles que só visam seus interesses, quem procura vencer na base do QI (Quem Indica) e os políticos safados, o Brasil é o melhor país do mundo para se viver.
Para os éticos, os honrados, honestos, os trabalhadores que dão duro para viver do suor do seu rosto, os cidadãos de bem, os idôneos, os que têm mérito e capacidade, os que lutam pela coletividade e procuram cumprir com seus deveres, o Brasil é o pior país do mundo para se viver.
Aqui também é um paraíso para aqueles estrangeiros folgados que só querem saber de sombra e água fresca e até mijam em público nos aeroportos e calçadas. Muitos chegam aqui atraídos pelas propagandas das mulatas se rebolando e mostrando seus bumbuns. Outros porque as leis nessa terra são frágeis e fáceis de serem dribladas.
Aqui está virando ou já virou o reino dos golpistas, principalmente através da internet, porque vale a pena cometer o crime, tendo em vista que a Justiça de um modo geral é falha, e a vítima é obrigada a percorrer um longo caminho burocrático para reaver seus direitos.
Não existe nenhum exagero no que digo, e os milhares e milhões de exemplos estão aí que comprovam. Para os bons, os deveres a cumprir. Para os maus, a impunidade da lei, principalmente quando se é rico e poderoso, que nela encontram brechas com seus advogados para se tornarem livres e até inocentados.
A grande maioria dos cafajestes, como juízes e desembargadores que vendem sentenças, são até premiados porque continuam recebendo seus polpudos salários. Mas, não é somente esta classe que é beneficiada com o roubo e a corrupção. Os políticos ladrões têm seus processos anulados e arquivados. Depois de tudo ainda são recompensados com nomeações para cargos importantes nos governos. São votados e eleitos. A maioria dos espertos praticam caridades; recebem medalhas, troféus, estátuas e nomes de ruas, praças e avenidas,
No caso dos golpistas, eu mesmo estou sendo vítima de uma tal entidade paulista, que se diz protetora dos aposentados (são dezenas), chamada CINAAP, que se cadastrou no INSS, supostamente em conluio com funcionários, e vem descontando 45 reais mensais do meu benefício, sem minha autorização.
Isso vem me dando uma tremenda “dor de cabeça” para bloquear essa indevida subtração. Depois de uma fila dos diabos, estive no INSS regional e a atendente, simplesmente, me despachou sem resolver meu problema. Mandou que ligasse para o 135.
Após um terror de 30 minutos no telefone, passar meus dados e ouvir uma secretária virtual repetir várias vezes para tal caso tecle 1, 2, 3, 4, 5 e mais números, uma voz de lá do além de uma mulher me atendeu e apenas bloqueou a ladrona, mas avisou que o Instituto não reembolsa a vítima.
Quis saber desde quando essas parcelas vêm sendo retiradas pela golpista. Ela respondeu que o INSS, culpado pela ação criminosa, não tinha condições de me passar essa informação e que procurasse outros meios através de aplicativo ou um tal de Niss. A vítima é quem tem que se lascar. O golpista fica numa boa e ainda esnoba com a nossa cara.
O coitado do idoso (isto está acontecendo com centenas e milhares de aposentados no país), já cansado e estropiado da vida de tanto levar porrada, tem que enfrentar uma tremenda burocracia e, se quiser reaver seu dinheiro e reparação por danos morais, é obrigado a entrar com uma ação na justiça contra a contraventora. Se for contra o Instituto, não recebe nunca por ser uma instituição federal. Isso só ocorre no Brasil e ainda dizem que aqui é uma maravilha.
A DIREITA AVANÇOU E A ESQUERDA FOI PARAR NA ZONA DE REBAIXAMENTO
Como no Campeonato Brasileiro de Futebol, a esquerda, principalmente o PT, nestas eleições municipais pelo Brasil a fora, ficou na zona de rebaixamento e foi direto para a Série B, isto porque não atualizou seu time aos novos tempos, e seus “técnicos” enrustidos radicais ficaram falando a mesma linguagem dos anos 80 e 90. Os ouvintes e seguidores cansaram.
O PT, que ficou nas últimas colocações da tabela, quase na lanterna, em número de prefeito eleitos no Brasil, nunca quis fazer uma autocrítica dos seus erros quando passou da cachacinha para o uísque, especialmente a partir dos acontecimentos do mensalão e da Operação Lava-Jato que passaram a repercutir e a influenciar negativamente para que houvesse esse montão de rejeições.
Não foram somente esses fatos que levaram o PT e a esquerda como o todo ao rebaixamento, conforme ficou patente na resposta do povo. O discurso ficou caduco e a comissão técnica, juntamente com seus jogadores de idade avançada, esqueceram suas principais bases, ou seus torcedores que, cansados e revoltados, começaram a esvaziar os estádios. Deu no que deu.
Como no poema de Carlos Drummond de Andrade, e agora José? Ou tinha uma pedra no meio do caminho e não souberam removê-la? Será que agora essa turma da linguagem ultrapassada vai fazer um mea culpa, contratar novo técnico e um time novo bom de bola para atrair sua torcida? Como eles são teimosos e não querem dar o braço a torcer, não acredito muito nisso.
Se não cuidar disso, não fizer uma série análise e montar novas estratégias, a tendência é cair para a série C. Aí, meus amigos, vai ser difícil para subir para o pelotão de elite. Eles sabem muito bem quais são suas bases que foram abandonadas ao longo dos últimos 20 ou 30 anos. Elas entraram em descredito, se decepcionaram e se afastaram, especialmente por causa dos malfeitos.
Dito isso, os campeões desse campeonato maluco, cheio de mentiras, rapinagens, do faz de conta que a justiça está de olho, que eleição muda o Brasil e derrame de muito dinheiro por parte de seus personagens, ficaram com uma direita mais do centrão, misturada com várias vertentes de moderados, extremistas, terraplanistas e até gente sem uma ideologia política.
Foram eles, o PSD (antigo PFL), o PL, a União Brasil (também PFL), o MDB, que já foi composta por pessoas autênticas, sérias e opositoras ao regime da ditadura civil-militar-burguesa, o Republicanos que ficaram com as taças e já estão arrumando seus times para o próximo campeonato de 2026, certos de que vão ter uma grande torcida, sem contar com a ajuda dos juízes e o do VAR.
Como disse um amigo meu, os lobos nunca fazem pacto com as ovelhas, se bem que aqui no sentido figurado nem cai bem. Nessa competição de um sistema eleitoral coronelista onde todos mentem, quem são as ovelhas? Será que não são hienas que perderam o embate no campo porque ficaram velhas demais das ideias?
Só sei bem que os lobos chefões mais ferozes, sagazes e astutos estão acoitados hibernando de barriga cheia no Congresso Nacional, com suas garras bem afiadas. Por ora resolveram dar uma trégua disfarçada com o dono do seu rebanho desgarrado e zonzo depois da porrada que levou. A questão está em mudar a técnica, a tática e a estratégia do jogo e contratar novos atletas, com sangue novo para ganhar as partidas e retornar para a Série A.
















