O HOMEM DA BICICLETA
Os mais antigos, principalmente do interior, quando nem se pensava que um dia iam inventar a internet e as redes sociais, lembram muito bem das brincadeiras de moleque, e como era tudo divertido. Quem não se recorda da chegada do circo e do palhaço perna de pau que a meninada acompanhava e depois recebia um carimbo no braço com direito a ir ao espetáculo à noite? Não dava para tomar banho senão tirava a marca.
Hoje, veio-me à mente o homem da bicicleta que rodava as cidades e ficava 24 horas pedalando na magricela (não era bem equipada como atualmente) em redor da praça principal. Esse resistente ciclista passou pela cidadezinha de Piritiba, na região de Mundo Novo e Miguel Calmon, onde cursei meu primário no Colégio Almirante Barroso.
Fiquei tão encantado com aquela proeza que no dia “matei” algumas aulas e a banca de estudos para ver o homem da bicicleta e terminei entrando pela madrugada. Não sei bem se eram mesmo 24 horas de show do moço que pedalava de forma cadenciada durante todo aquele tempo.
O que me chamava mais atenção era como ele conseguia fazer tudo aquilo sem se alimentar e ir ao sanitário, mas depois me disseram que o cara fazia uma paradinha de uns cinco minutos para se hidratar e retornar ao batente.
Isso foi no final dos anos 50 para o início dos 60 e tudo indicava que era uma apresentação patrocinada por alguma fábrica visando incentivar e uso da bicicleta. Pouca gente tinha uma. Tudo era feito no jumento. Diziam também que a Prefeitura Municipal entrava com alguma ajuda ou apoio. Muita gente ficava em torno da praça, especialmente a molecada, para apreciar o feito inédito do homem da bicicleta.
A vida naquele tempo no interior era só alegria e diversão. Não ouvia se falar em ladrão – aparecia algum de galinha, frutas e mantimentos nas roças – e a cadeia passava o maior parte do tempo vazia. Coisa rara um assassinato. A cidade tinha no máximo dois soldados e um delegado chamado calça-curta que tinham pouco trabalho, a não ser apaziguar algumas brigas de vizinhos que eram logo resolvidas. As pessoas podiam dormir de portas abertas.
Meus pais viviam na roça para cuidar das lavouras e eu morava na casa de um casal de amigos. Meu pai pagava as despesas para eu estudar na escola municipal através de um pouco de dinheiro e outra parte com farinha, feijão e milho. Para ter alguns trocados para comprar bolas de gude e revistas de gibis era agueiro, maleiro na estação de trem e vendia lenha nas casas (não havia fogão elétrico).
Fora o homem da bicicleta, nunca deixei de esquecer do circo e dos pequenos parques, com o sistema de autofalante, que passava aquelas músicas saudosas oferecidas aos namorados. A música mais pedida era “Diana” (não sei se esses era o título), bem romântica. João oferece essa música para Maria, com muito amor e carinho. Bons tempos aqueles que não voltam mais.
“A PODEROSA CAÇADORA DE LIVROS”
Entre os séculos XV ao XIX, os grandes caçadores de livros antigos e raros, a partir da Bíblia de Gutenberg, por volta de 1456, se concentraram entre os livreiros, leiloeiros e afortunados da Grã-Bretanha.
Somente no início do século XX, no pós I Grande Guerra, esse quadro mudou, e os norte-americanos assumiram essa posição de colecionadores, inclusive trazendo livros da Inglaterra, ao ponto do governo inglês impor restrições para que essas obras não saíssem do país, sob o argumento de que essas relíquias já eram do pertencimento do Estado.
Um dos primeiros a investir nesse ramo foi o casal Edward Doheny e a senhora Estelle, mais por iniciativa dela quando o marido, dono de empresas petrolíferas, já se encontrava em decadência e passado por momentos difíceis de idade e suspeito de subornos e corrupções, além de ter perdido seu único filho que foi assassinado.
No livro “Em Busca da Bíblia Perdida de Gutenberg”, da escritora Margaret Leslie Davis, ela descreve que “rastrear o paradeiro das Bíblias ao longo do tempo produz o mapa de valor de influencias em transformação, na medida em que os livros se movem dos confins da Igreja Católica para as bibliotecas dos aristocratas da Europa continental e, em seguida, fluem para os construtores do império da Grã-Bretanha, embelezando a reputação de cada um dos sucessivos proprietários”.
Com Dyson, criador do molho inglês e das ilustradas porcelanas, a classe mercantil mostrou sua ascensão, e agora o centro do poder passa para os Estados Unidos, onde magnatas-colecionadores, como J.P. Morgan e Henry Huntington, começaram a atuar no Novo Mundo, proporcionando um mercado pronto para as bibliotecas que são vendidas para financiar fugas e a recuperação das agruras da guerra.
Os novos reis querem as Bíblias de Gutenberg. Eles obtêm por força de suas personalidades e de seus fundos. Os preços disparam, bem como a comissão paga pelo livro, agora alardeado pelos megafones norte-americanos. O colecionador Lessing J. Rosenwald anuncia que planeja comprar 84 títulos do catálogo do poderoso Dyson e indicou a Bíblia de Gutenberg entre eles.
Nesse esquema também entra a senhora Estelle Doheny, a herdeira, empresária e colecionadora da elite norte-americana que, na hora do leilão, estará no meio de uma caçada, cuja única conclusão possível será a posse do livro.
“Seu desejo por uma Bíblia de Gutenberg, com a busca de décadas que isso lhe custaria, surgiu, pela primeira vez, em 1911, logo após o surto de compras de livros antigos de Dyson, talvez sem saber ter atingido o alvo”. Na verdade, ela só veio a obter a Bíblia de Gutenberg, Número 45, em 1950, após a II Guerra Mundial. De origem católica, seu marido era um imigrante irlandês.
Doheny passou anos como garimpeiro, viajando com mochila e uma mula antes de encontrar o petróleo. Ela era uma telefonista com pouca educação e se tornou numa poderoso caçadora de livros, dentro de uma comunidade que aceita suas contribuições, como a Igreja Católica.
“PERFUMES DE LAVANDA FRESCA”
Do livro “Suspiros Poéticos – a beleza da lira cor”, da poetisa Regina Chaves dos Santos
Beijo,
Do beija-flor
Sedento de amor
Beija a flor
Mais formosa
Do jardim!
Beija,
Do beija-flor
Sedento de amor
Uma alquimia, uma quimera
– um cheiro de poesia!
Beija,
Do beija-flor
Colhendo o néctar das flores
Balança a fruta-cor
O viço natural,
– o viço de um amor!
Beija,
Beija o beijo
Do beija-flor
No olfatar das flores,
– das cores do amor!
…um beija-flor
Sedento de amor
Beija a flor.
Beija a flor do meu amor…
Vestido de cetim,
– perfumes de lavanda fresca!
Beijo,
Do beija-flor
Sinfonias de um amor,
Coração ardente,
– um beija-flor!
E VAI FICAR AINDA MAIS ASSUSTADOR
O Brasil está em chamas! Estampa a mídia em seus noticiários. Em muitas partes, a terra queimada e cheia de tocos mais parece com a face de um planeta desértico. Os parques ambientais estão sendo destruídos. Tudo dá a impressão de um filme de ficção. Será que meu texto é assustador? Muitos vão dizer que é pessimismo e derrotismo demais.
As labaredas lambem as copas altas das árvores. Por onde se anda, só carcaças de animais mortos. O fogo vai arrastando tudo pela frente. As fumaças intoxicam as grandes cidades, as pessoas e o ar. A seca esvazia os rios e seus leitos rachados estão repletos de peixes e crustáceos mortos.
O quadro é assustador – exclamou um cientista-ambientalista, mas toda essa tragédia já vem sendo anunciada há anos, mas, mesmo assim, a ficha ainda não caiu para a humanidade e muitos ainda falam no aquecimento global como se fosse coisa do futuro.
A catástrofe terráquea só está começando. Ainda vamos ver coisa muito mais assustadora. Quem viver, verá daqui a cinquenta ou cem anos. As chamadas mudanças climáticas nada mais são que o começo do aquecimento global. Segundo as previsões, os níveis dos oceanos devem subir em torno de 20 centímetros nos próximos cinquenta anos.
Ora, estamos pagando pelo que fizemos lá atrás e continuamos fazendo, sem olhar para o futuro mais assustador. Os poetas, escritores, cancioneiros e repentistas podem aproveitar esta macabra matéria-prima e descrever sobre essas cenas realistas, as quais não são mais futuristas.
Aliás, para o futuro, encham seus cantos de horror e escrevam seus livros apocalípticos de muito choro e ranger de dentes. Digam que somos irracionais autodestruidores, que só pensamos em cada vez mais competir e consumir, cada um ao seu modo individual de ser.
Gritem que somos monstros e, nisso, não há nenhum exagero. Não se trata mais de ser pessimista e catastrófico. A besta já está solta e se anuncia o fim. Basta olhar em torno da sua casa que ela vai desmoronar, mais cedo ou mais tarde, e não existe mais retorno.
Não se trata apenas dos incêndios no Brasil e em outros países. O ar está poluído por outros tipos de gases tóxicos, oriundos das fábricas, das bombas nas guerras e da queima dos combustíveis fósseis, como do petróleo e do carvão. As perspectivas são sombrias e não precisa ser nenhum profeta para sair por aí anunciando o fim assustador.
Não mais adiantam essas medidas paliativas, ou ser otimista de que a situação pode ser revertida, porque o rombo já foi feito em proporções alarmantemente maiores do que está se fazendo para tapar o buraco feito na camada de ozônio Estamos apenas estrepando as novas gerações para o precipício, ou para o abismo ainda mais assustador.
“O QUE PREVALECE EM CONQUISTA É A DESTRUIÇÃO DO PATRIMÔNIO PÚBLICO”
Desde os idos do século XIX para cá, os últimos intendentes e as administrações passadas só fizeram destruir o patrimônio arquitetônico de Vitória da Conquista, ao ponto de a cidade atual, de cerca de 400 mil habitantes, não mais possuir um Centro Histórico, como existe em muitas outras do seu mesmo porte pela Bahia e outros estados.
Sempre falo que me sinto envergonhado quando recebo um amigo turista e me pede para visitar o Centro Histórico e tenho que responder que não tem porque foi destruído ao longo dos anos, a começar pela chamada Rua Grande, cheia de casarões, onde hoje está a Praça Tancredo Neves até a Barão do Rio Branco.
Em conversa com uma amiga minha sobre este assunto, ela me disse que sempre tem dito que, em “Conquista o que prevalece é a destruição do patrimônio público”. Lembrou que destruíram uma escola antiga (Macaúbas) para construir o prédio do Fórum, que poderia ser erguido em outro lugar.
Ela também citou o caso do Museu Cajaíba que está sendo destruído pelo tempo lá na Serra do Periperi. “Em qualquer outro lugar, ele teria sido preservado e seria um ponto que iria atrair turistas. A cidade só ganharia com isso” – acrescentou, para completar que tinha mais coisas para enumerar sobre a destruição da cidade.
Foi criado um Núcleo de Preservação do Patrimônio Arquitetônico que há anos deixou de funcionar. Como a administração atual enterrou nossa cultura e não teve e decência de fazer o rito funerário, vez ou outra derrubam um casarão, como ocorreu recentemente em frente da Tancredo Neves.
Durante as décadas de 60 (construção da BR-116 (Rio-Bahia) até 90, durante 30 anos destruíram, impiedosamente, a própria Serra do Periperi, com a retirada de areia, pedras, madeiras e cascalhos, justamente para construírem prédios novos no lugar dos antigos. A serra hoje está mais para Serra Pelada e, quando chove, desce tudo lá de cima acabando com as ruas.
Sobre as artes do artista Cajaíba, esculturas de gente famosa e de presidentes do país, o Conselho Municipal de Cultura, na minha gestão, apresentou um requerimento à Secretaria de Cultura, Turismo, Esportes e Lazer, no sentido de ser criado um projeto do museu, mas nada foi feito.
POR QUE?
Esse tal de o porquê está em todos lugares, no jornalismo e em nossas vidas cotidianas. Tudo que se faz tem um porquê. Por que milhões seguem um influenciador (a) falando um monte de besteiras nas redes sociais e fazem o que ele ou ela manda, inclusive terminam sendo ludibriados e caem no conto do vigário? Tem gente que até se mutila, outros mudam de comportamento e desobedecem aos pais, sobretudo os nossos jovens de hoje.
Por que negros, gays, mulheres e pobres votam nos candidatos do capitão e ex-presidente Bozó, que é racista, negativista, homofóbico, xenófobo e misógino? Por que o Brasil é a oitava ou nona economia do mundo e tem os piores índices de desigualdade social? Essa pergunta é até mais fácil de se responder.
Cada um que faça suas reflexões porque as respostas são diferentes, mesmo contraditórias e paradoxais. Quanto, por exemplo, aos seguidores imbecis que se deixam ser levados mentalmente por esses influenciadores, só posso entender que está na própria decadência da humanidade.
Existe hoje um vazio humano onde as pessoas se agarram a impostores e a falsos pregadores que aparecem vendendo ilusões. Essa gente sem ética, formação moral e capacidade acha que vai ser famosa, poderosa e rica da maneira fácil. A maioria desses influenciadores, rotulados pela mídia, não passa de estelionatária da ideologia, e os seguidores são pressas vulneráveis, sem personalidade própria.
Quanto aos negros, mulheres e pobres que votam nesses extremistas, fica complicado responder. Como se diz no popular, só Freud explica. Talvez sejam masoquistas conservadores que adoram sofrer. Não estou aqui falando que sigam a esquerda, mas que, pelo menos, tenham amor próprio.
Como é que alguém me despreza, me chuta, me renega, me repudia, me xinga, me maltrata, me bate e, mesmo assim, ainda admiro o cara e o defendo? É um comportamento estranho, quando, na verdade, a vítima poderia reagir diferente e ter repulsa.
Se você surra um animal doméstico, como no caso específico de um cachorro, ele passa a ficar raivoso, agressivo e a ter ódio do dono, mesmo que venha a obedecer às ordens do agressor, tudo por causa do medo de apanhar.
Como explicar essa conduta de servidão e submissão ao seu algoz quando se trata de ser humano, considerado racional? Politicamente seria apenas uma forma individual de se colocar contrário ao outro opositor, sem olhar as consequências coletivas?
CASA DA CULTURA PROMOVE NOITE LITERÁRIA NA LIVRARIA NOBEL
Nossas lentes registraram uma noite de muita cultura com músicas e poesias no espaço da Livraria Nobel, da Avenida Otávio Santos, promovida pela Casa da Cultura, nessa última quinta-feira (dia 05/09). Com as presenças de artistas e intelectuais, os trabalhos foram abertos pela presidente da Casa da Cultura, Poliana Policarpo, que deu seu emocionante testemunho de vida na luta contra o câncer, elevando os espíritos dos presentes para terem força de vontade e nunca desistirem de seus problemas. Para abrilhantar a programação, o maestro João Omar, com seu violão, fez uma apresenta musical em forma de uma cantata, bastante aplaudido por todos. A atriz Edna Brito, com toda sua verve teatral, declamou um poema de Ezequias e Carlos Jheovah, que fala da saga histórica de Vitória da Conquista. Presente ao evento, o jornalista e escritor Jeremias Macário, candidato a vereador, declamou o poema “Serra dos Bem-Te-Vis”, de sua autoria. Na ocasião, falou da importância e grandeza cultural da noite literária e, em nome do Sarau a Estrada, saudou a Casa da Cultura. Quem também fez uma apresentação poética foi o fotógrafo José Carlos D´Almeida, dentre outras pessoas que homenagearam a presidente Poliana Policarpo.
ENCONTRO DE ESCRITORES
“Poesia e Romance no VI Encontro de Escritores” foi realizado nesta sexta-feira, (dia 06/09), no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, numa organização do Coletivo de Escritores Conquistenses. O evento promoveu o lançamento dos livros de Fernanda de Moraes, “Quintal de Casas: Memórias”, e de Pawlo Cidade, “A Invenção de Santa Cruz”. A apresentação dos autores foi mediada por Juliana Brito e cada escritor falou do seu trabalho, do saber e do criar literatura. Com sua obra de poesias, Fernando descreveu sobre seus momentos de inspiração para escrever seu primeiro livro, enquanto Pawlo escolheu o gênero romance para contar a história de Santa Cruz, numa viagem mágico-fantástico, conforme suas próprias palavras. Estiveram presentes o jornalista e escritor Jeremias Macário, Luis Altério, Paulo Henrique, Linauro Neto, artistas e muitos outros que prestigiaram os lançamentos das obras.
UM DOS MAIORES COLECIONADORES DE LIVROS E ANTIGUIDADES EGÍPCIAS
O livro “Em Busca da Bíblia Perdida de Gutenberg”, da autora Margaret Leslie Davis, faz menção ao grande colecionador de livros raros, dentre eles a Bíblia de Gutenberg, número 45, em poder do Lorde William Tyssen Amherst, que guardava esse precioso volume em sua mansão Didlington Hall, na zona rural de Norfolk, num cofre secreto.
O número 45 coroou uma biblioteca cuidadosamente montada, que traça a história de livros impressos, incluindo ainda instrumentos de corda de Stradivárius, prata finas e porcelanas de Limoges, tapetes persas, capitéis de pedra de Alhambra, em Granada, e os sinos da velha Catedral de Worcester.
No ano em que o número 45 entra em Didlington, as portas da mansão estão ladeadas por sete altas estátuas de duas toneladas de Sekhmet, a deusa egípcia com cabeça de leão, as mesmas que estão hoje ao lado do Templo de Dendur, no Museu Metropolitano de Arte, em Nova Yorque.
Sempre com um livro na mão, ou enfiado no bolso do casaco, Amherst acredita que uma pessoa não pode ser bem-educada se não conhecer e amar os livros. Ele comprou o primeiro incunábulo (livros impressos antes de 1501) em Arles, através do livreiro Bernad Quaritch, durante sua grande turnê.
Com uma grande fortuna, ele e sua família se aventuram pelo Egito e Síria, em complexas caravanas, e retornam com frequência ao Oriente Médio, às vezes permanecendo por meses, adquirindo lembranças e antiguidades a cada visita.
Nas viagens, ele e seus colegas trazem para a mansão, na Grã- Bretanha, a Pedra de Roseta, os mármores de Lorde Elgin, objetos funerários, múmias e deusas dos antigos túmulos do Egito e alguns dos primeiros livros e manuscritos da Europa e do Ocidente, polindo seus troféus de erudição e inserindo-se no discurso.
Por dez mil libras chegou a obter uma coleção de raridades de primeira classe, apenas realizada pelas Bibliotecas do Conde Grawford, do Conde de Ashburnham e da Coleção Spencer.
Finalmente, durante suas investidas, Amherst compra seu Gutenberg, número 45 de Estelle, em 1884, mais de dez anos depois de ter deixado passar os dois primeiros volumes. Ele não compra em leilão, mas em uma transação particular e não divulgada, com o livreiro James Toovey, após o leilão de Gosford.
Durante séculos trabalhou para construir uma história vultosa de livros impressos que incorporam o conhecimento, as paixões e as hostilidades das pessoas que os criaram e usaram e, esse único volume, se encaixa nesse quadro, não apenas como a fonte da impressão moderna, mas também como ponto de origem para sua coleção de primeiras edições dos livros oriundos da Reforma.
Sobre a Bíblia, Amherst explica que as grandes folhas de papel eram umedecidas antes de serem impressas, para que pudessem absorver melhor a tinta, e, uma vez feito isso, cada uma era dobrada e perfurada em certos pontos próximos às extremidades com uma agulha ou um furador, fornecendo guias, para que a impressão ficasse exatamente no mesmo lugar na frente, e atrás de cada página.
As Bíblias tinham no geral 42 linhas, para distingui-las de outra Bíblia da época, que se pensa ter sido impressa por um contemporâneo de Gutenberg, que criou o livro com uma fonte semelhante com páginas de 36 linhas. No canto superior direito da capa interna estão escritas a lápis as palavras “Antes de 15 de agosto de 1456”.
BUROCRACIA E DESIGUALDADES
Tem aqueles que seguem as normas, são corretos e éticos, mas terminam sendo penalizados porque o errado se tornou normal neste país. Tem aqueles que burlam as leis, usam de artifícios ilegais e acabam sendo premiados porque, infelizmente, a maioria do nosso povo é inculta e não sabe julgar os inescrupulosos trapaceiros.
Estou falando das eleições, ou poderia estar me referindo a um outro assunto qualquer neste nosso Brasil, onde predominam a burocracia e as desigualdades, não somente no âmbito econômico-social. A Justiça Eleitoral exige um monte de burocracia para o candidato se registrar, inclusive na prestação de contas, como se isso fosse criar um pleito igual para todos.
No entanto, sabemos muito bem que não é isso que ocorre quando o juiz fala em igualdade na corrida eleitoral. Quem tem mais recursos sai na frente com seus santinhos, praguinhas e outros materiais de propaganda, e aí é onde reside a desigualdade, sem falar em vereadores que estão no páreo à reeleição e usam seu pessoal de gabinete por debaixo do pano na caça ao voto.
Quem fiscaliza o uso dessas armas ilegais pelos astutos, que não faz parte do jogo? Igualdade na disputa, senhor juiz, só existe na teoria ou no faz de conta. Quem possui mais condições financeiras já está nas ruas com suas equipes de trabalho desde o início da campanha, se não me engano no meado de agosto.
Outros, com sua ética, seriedade e honradez, cumpridores das leis e preocupados em não deixar “rabo” na justiça fazem o que podem, dentro das suas possibilidades, para conquistar e mostrar para o eleitor que avalie com consciência um nome certo na hora de votar para ser seu representante na Câmara de Vereadores.
Lamentável, mas, em muitos casos, ainda vence o outro lado da moeda suja que frauda as leis burocráticas e não tem nenhuma ideologia e compromisso com o povo. Sempre dizemos que Vitória da Conquista merece um legislativo à altura da cidade, pelo seu tamanho e importância no cenário baiano.
Além da burocracia e das desigualdades, contamos ainda com as mentiras e engodos no horário eleitoral, como colocar a questão da segurança como se fosse coisa da alçada municipal, quando a proteção ao cidadão contra a violência é de responsabilidade dos governos estadual e federal, mas poucos eleitores sabem fazer essa distinção.
Essa é uma das maneiras de ludibriar a Justiça Eleitoral, sem ser punido, porque fica difícil detectar a safadeza do marqueteiro. Alguém já disse, não sei se o estadista inglês Churchill, ou até um filósofo, que numa guerra, a maior vítima é a verdade. O mesmo vale para um pleito eleitoral.
O FILHO DO PALHAÇO TÁ COM FEBRE
(Chico Ribeiro Neto)
Chegou o circo em Ipiaú, Bahia. De dia, a gente ia ver o movimento de armação da lona, o leão comendo, o elefante cagando e a bailarina se exercitando.
Mais tarde, um palhaço de perna de pau percorria a cidade jogando ingressos e bombons para a garotada.
Começa o espetáculo. As luzes são lindas, a pipoca é mais gostosa, a orquestra ataca e entram todos os artistas para a apresentação inicial.
“Todo mundo vai ao circo
Menos eu, menos eu
Como pagar ingresso
Se eu não tenho nada
Fico de fora escutando a gargalhada
A minha vida é um circo
Sou acrobata na raça
Só não posso é ser palhaço
Porque eu vivo sem graça”
(Música “O Circo”, de Batatinha).
O mágico faz um bocado de coisa sumir e aparecer. Todos aplaudem. “Rapaz, você viu?” “Como é que ele consegue fazer aquilo?”
E o Globo da Morte? “Rapaz, eram três motos. Teve uma hora que cheguei a fechar o olho com medo das motos bater”.
O furo na meia da trapezista, bem na batata da perna, não conseguia afetar a sua beleza. Na hora do salto mais perigoso a bateria tocava e nosso coração pulava. Aquele salto foi demais!
Vi um circo mambembe uma vez em Amoreiras, na ilha de Itaparica. Sem leão, sem elefante e sem trapezista, sua maior atração era a rumbeira: “Se preparem que agora vocês vão assistir a mais famosa rumbeira das Américas. Vinda diretamente de Cuba, vem aí a espetacular, a sensual, a eletrizante, aquela que faz o espectador pegar fogo. Com vocês, a sensacional A-ni-ta Do-min-guez”. Tan-tam-tam-tarantan-tam… Chovia muito, lona furada, goteira na cabeça e a rumbeira no palco. Podia pingar à vontade…
Menino, eu admirava os ciganos. Tinha uns 10 anos, fui com a turma ver um acampamento de ciganos que estava montado perto da Rua da Imperatriz, na Cidade Baixa, onde morei,. Lá, uma cigana me pediu para comprar um quilo de açúcar no armazém, fui e ganhei uma moeda na volta. Cheguei em casa e contei à minha mãe Cleonice, que logo esbravejou: “Pois é, quando eu peço pra ir no armazém você faz logo cara feia. Agora, foi só a cigana pedir que você foi bonitinho. Sendo assim, pode ir embora morar com a cigana.” Saí escabriado.
Voltando ao circo. O famoso ator Bemvindo Sequeira me contou que conviveu uns dias com os artistas de um circo mambembe no subúrbio de Salvador. Ele disse que numa noite, durante uma apresentação, um dos palhaços tinha um filho, ainda bebê, que estava com febre alta. Ele fazia as graças e piruetas e nos intervalos ia aferir a temperatura da criança, cujo berço estava atrás das cortinas. E voltava ao picadeiro para fazer novas graças. Bemvindo disse que nunca se esqueceria daquela cena.
Depois de uma tarde no circo, a gente volta mais feliz pro berço do mundo.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)















