A MEMÓRIA DO MUNDO NA IMPRESSÃO DE GUTENBERG E A EVOLUÇÃO VIRTUAL
Como escreveu a autora do livro “Em Busca da Bíblia Perdida de Gutenberg”, Margaret Leslie Davis, “a palavra impressa mecanicamente criou a memória do mundo, como alguns estudiosos explicaram, ajudando a acender o Renascimento, a Reforma Protestante e séculos de revolução na ciência, na política e na indústria”.
Ainda de acordo com ela, Gutenberg e sua Bíblia representam a personificação dos primeiros momentos em que tantas possibilidades humanas puderam ser exploradas, multiplicadas e desenvolvidas. Para o historiador John Man, a invenção de Gutenberg preparou o terreno de onde emergiu a história moderna, a ciência, a literatura popular, o início do Estado-nação, muito de tudo aquilo com que definimos a modernidade.
No final do século XV, mais de 130 outras edições da Bíblia foram impressas e distribuídas por todo mundo. Cerca de 240 cidades europeias instalaram gráficas, que se estima que tenham imprimido cerca de 28 mil diferentes edições de inúmeras obras, produzindo um total de 10 milhões de livros.
A cidade alemã de Mainz celebra o impressor como um revolucionário tecnológico ao organizar o evento “2000: o ano de Gutenberg, marcando o 600º aniversário de seu nascimento”, com exposições em museus, apresentações em multimídia, festivais e um catálogo de 227 páginas: Gutenberg Man of the Millennium: from a Secret Enterprise to the First Media Revolution (Gutenberg, o homem do milênio: De uma empresa secreta à primeira revolução na mídia).
A revista Life nomeou Johannes Gutenberg impressor independente que reformulou o avanço humano, como Homem do Milênio, em 2000, e colocando a impressão de suas Bíblias no topo de sua lista dos fatos mais importantes dos últimos mil anos. Gutenberg foi um misterioso gênio-herói oprimido.
Segundo a Life, ele idealizou o primeiro sistema de tipo móvel ocidental que funcionou e permaneceu inalterado nos 350 anos seguintes. Não recebeu nada de glória. Sua ideia o levou à falência no ano em que a Bíblia foi publicada, e um credor assumiu o negócio.
A verdade é que Gutenberg transformou a cultura humana. O alcance do que se seguiu é tão vasto que parece místico e precisa ter uma história de origem para servir de referência. A escritora Margaret destaca que a ambição de anunciar uma nova tecnologia de impressão com uma obra de 1.200 páginas é de tirar o fôlego, uma abertura para uma avalanche de mudanças.
A mais cobiçada de todas as Bíblias foi a de Número 45 que por séculos viajou pelo ocidente e foi parar no Japão, adquirido pelo conglomerado Maruzen num leilão que custou U$5,4 milhões, isso por volta de 1987, tornando-se o livro mais caro do mundo.
Um jornal importante japonês aplaudiu a aquisição da obra de tipos móveis mais antigo da história, mas sem mencionar a impressão na Ásia antes de Gutenberg. Em 770, a imperatriz do Japão, Shôtoku marcou o fim de uma guerra civil com a impressão e a distribuição de um milhão de pequenos pergaminhos com preces budistas.
O tipo móvel foi uma invenção chinesa do século XI, aprimorada na Coréia, em 1230, antes de encontrar as condições que permitiriam sua evolução na Europa, durante a época de Gutenberg, por volta de 1450/56.
Em 1996, a empresa Maruzen transferiu o livro 45 para a Universidade de Keio, uma das instituições privadas mais bem conceituada da Ásia, fundada pelo modernista Yukichi Fukuzawa, o primeiro japonês a ter visto uma Bíblia de Gutenberg, na Biblioteca Imperial, em São Petersburgo, em 1862.
O professor da Kio, Toshiyuki Takamiya, maior autoridade em manuscritos medievais, foi o primeiro a estimular a passagem da impressão de Gutenberg para o mundo virtual no século XXI. Ele liderou o projeto HUMI (humanities Media Interface) para digitalizar o acervo da Universidade Keio.
O projeto selecionou o Número 45, com seu tema inaugural, a primeira Bíblia de Gutenberg que navegou pela internet. O trabalho meticuloso produziu uma revolução digital. O número 45 foi ao ar pela internet em janeiro de 1998 e, pela primeira vez, os expectadores puderam ver as páginas de uma Bíblia de Gutenberg em suas telas. Esse projeto foi revolucionário no final dos anos 1990.
Depois de concluído seu intento, o professor Takamiya fez seu pronunciamento de que livros raros digitalizados, incluindo a Bíblia de Gutenberg, nunca se tornarão relíquias esquecidas da sabedoria ancestral. Eles ganharão vida toda vez que alguém tiver acesso a eles.
Em janeiro de 2001, o especialista em impressões de Gutenberg Paul Needham e Blaise Aguera, um jovem matemático computacional, anunciaram uma nova teoria descritiva sobre como Gutenberg criou seu tipo. Diziam que o impressor havia usado um processo de montagem refinada, evoluindo um sistema de “matriz de punção”.
Explicaram que letras individuais teriam sido esculpidas em pontas de hastes de aço e perfuradas em folhas de cobre para criar moldes resistentes (matriz) que poderiam ser preenchidos com uma liga de chumbo para criar um tipo de peça. Uma punção pode ter sido usada para criar vários moldes, dos quais poderiam sair uma quantidade infinita de letras idênticas.
Um artesão habilidoso levaria um dia para esculpir uma letra em aço, então o processo seria mais econômico se uma pequena coleção de punções fosse usada de forma repetida. Os estudiosos perceberam tantas diferenças que estimaram haver 204 punções diferentes.
O especialista Needham observou que esse tipo de sistema complexo, denominado de tipografia cuneiforme, era conhecido por ser usado por artesões europeus no início do século XV, incluindo os ourives. Os moldes de metal atribuídos por Gutenberg podem ter sido inventados por outra pessoa, talvez duas décadas depois de Gutenberg começar a imprimir as Bíblias.
Aguera y Arcas, que mais tarde chefiou o grupo pioneiro de inteligência artificial no Google, afirmou que as descobertas mostram que o desenvolvimento da impressão avançou em várias pequenas etapas ao invés de grandes saltos.
A ALMA DE UMA CIDADE
Praça era como se fosse a alma de uma cidade. As brincadeiras, os causos, os segredos, as conversas entre compadres e comadres, declamações de poesias, apresentações musicais (filarmônicas nos coretos) e até o primeiro namoro nos faz recordar daquela praça onde muitas coisas aconteceram no passado, principalmente nas cidades do interior. A praça era um local onde você até conversava consigo mesmo e desabafava com ela, como se fosse o divã de um psicanalista, ou até melhor que isso. Eram lugares seguros para um encontro de famílias e uma boa prosa entre amigos. Também nos faz lembrar das músicas de Ronnie Von, “A Praça”, a “Banda”, de Chico Buarque, e “A Praça é Nossa”, do programa humorístico do artista Nóbrega, mas quero falar das praças de Vitória da Conquista que se encontram abandonadas, com exceção da Tancredo Neves, ou das Borboletas. Até as praças que estão mais localizadas no centro e conhecidas do público, como a Sá Nunes, Gerson Sales, do Gil, Victor Brito, do Boneco e a dos Verdes, estas duas últimas no Bairro Brasil, não têm recebido o devido cuidado e estão quase sempre desertas, sobretudo à noite por falta de iluminação. Nas seis Urbis existem dezenas de praças de árvores frondosas, inclusive frutíferas, onde o mato tomou conta e nelas passeiam ratos e cobras. A maioria delas nem tem bancos, quanto mais equipamentos de ginástica ou parquinhos para as crianças brincarem. Nesta semana conheci uma praça, se não me engano, no Jardim Guanabara II, bem próxima da Avenida Juracy Magalhães, repleta de árvores, com dois restaurantes ao lado, mas tão maltratada que até parece não existir poder executivo na cidade. Nas pequenas cidades, a praça ainda é o cartão postal onde você identifica se o prefeito, ou a prefeita, vem fazendo uma boa ou má administração. Em Conquista, a terceira maior cidade da Bahia, com cerca de 400 mil habitantes, o estado das praças é lamentável e não oferece nenhuma condição de lazer e esportes. À noite, elas ficam às escuras, e é até um perigo transitar perto delas. Confesso que me sinto triste quando vejo uma praça que mais parece um pedaço de campo abandonado, quando deveria ser um local aprazível de encontros, até para se ler um livro, meditar, refletir sobre a vida e ouvir o canto dos pássaros.
MENTE, DESCARADAMENTE
MENTE, DESCARADAMENTE!
Do livro “NA ESPERA DA GRAÇA”, de textos poéticos, de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário. Poema revisado, com algumas mudanças, inclusive o título (MENTE BRASILEIRA).
Mente moura, ibérica, negra e índia,
Essa cor do melaço,
A mente brasileira, mente,
Mente, descaradamente!
Mente feio o eleitor,
Na urna ao votar,
Depois o eleito tira seu proveito,
Promete pão e escola,
Dá circo e esmola,
E mente, descaradamente!
Mente sem hora e horário,
Reino virado ao contrário,
De sangue mestiço Pau Brasil!
Mente, descaradamente!
Gente falsa,
Compra sapato em Nova York!
Só quer falar:
I love !very good, nok, nok;
Rouba meu cofre,
E se diz inocente.
O demente, mente,
Descaradamente,
Que a ditadura não existiu;
Mente na TV,
Que não pratica preconceito;
Faz de conta que lê,
E só vê redes sociais;
Avança sinais,
Se diz humano solidário;
Apoia fascistas,
E o corrupto salafrário.
Mente vil sorrateira,
Tão incoerentemente,
Mente, descaradamente!
A puta finge amor na cama,
E que gozou;
A Igreja prega:
Que a inquisição já passou;
O malandro se gaba,
De esperto inteligente,
Povo que mente,
Descaradamente!
Todo mundo quer:
Levar vantagem em tudo,
E mente, descaradamente!
Mente, descaradamente!
Cabra da peste,
Coisa rara no Nordeste,
Como Ariano Suassuna,
Com sua viagem armorial
Sobre cultura e vida desigual.
VOCÊ TEM CARA DE QUÊ?
(Chico Ribeiro Neto)
Cara de Madalena arrependida, cara de santa puta, cara de quem comeu e não gostou, cara de pau, cara limpa, cara suja, cara de tacho, cara de cavalo, cara de cu, cara de cachaça, cara de bandido mexicano, cara de mordomo de filme de terror.
Cara de otário, cara de maracujá, cara de criado com vó, cara de xibiu, cara lavada, cara de cachorro, cara de caçamba, cara de pinico, cara de tatu, cara de deboche, cara de motorista de caminhão, cara de aeromoça aposentada.
“O homem não deve poder ver a sua própria cara. Isso é o que há de mais terrível. A Natureza deu-lhe o dom de não a poder ver, assim como de não poder fitar os seus próprios olhos. Só na água dos rios e dos lagos ele podia fitar seu rosto. E a postura, mesmo, que tinha de tomar, era simbólica. Tinha de se curvar, de se baixar para cometer a ignomínia de se ver.”
O criador do espelho envenenou a alma humana.” (Fernando Pessoa).
Cara de quem tá retado, cara de zonzo, cara feia, cara de tartaruga, cara feia pra mim é fome, cara de paisagem, cara de fuinha, cara de mamãe sacode, cara de pateta, cara de zé leso, cara de azulejo, cara de jegue.
A máscara esconde a cara, libera as emoções e a pessoa mascarada faz coisa que o Cão duvida. Há sessões de psicodrama em que o terapeuta coloca máscaras nos pacientes para conversar com eles.
“Careta, você me conhece?” O pessoal mais antigo lembra os bailes de máscara de um clube em Amaralina, em Salvador, na década de 60. No baile, que rolava das 12 às 20 horas, o casal podia fazer tudo, inclusive aquilo, mas nunca, nem pensar, em tirar a máscara do outro. O salão pegava fogo. Um amigo estava nos agarramentos no canto do salão quando apareceu um policial. “Tô preso”, pensou ele. E o PM foi logo avisando: “Tem um quintal lá no fundo”.
Cara de madre superiora, cara de médico, cara de mafioso, cara de jornalista, cara de sacristão, cara de profeta, cara de xibata, cara de candidato, cara de cuscuz.
“Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida
a minha face?”
(Poema Retrato, de Cecília Meireles).
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba,com.br)
A NOSSA CULTURA PRECISA UNIR FORÇAS PARA SAIR DESSE MARASMO
Existem grandes talentos criativos e fazedores de cultura em Vitória da Conquista, mas o setor, tão essencial para o desenvolvimento humano, social, econômico e político da nossa cidade de cerca de 400 mil habitantes, está atravessado um quadro desolador na sua história, especialmente em termos da falta de espaços físicos e realização de grandes eventos.
Uma cidade sem um roteiro cultural de atividades programadas que sirvam de atrativos para seus próprios moradores e visitantes, fomentando o turismo, é, na verdade, uma cidade sem alma, por mais que ela tenha um capital crescente. Não adianta ter um comércio e uma indústria pujantes se a cultura estiver em estado terminal ou em coma.
Posso até estar sendo exagerado, mas é o que está acontecendo em Conquista, e isso vem se arrastando nos últimos anos, culminando com essa administração pública que sepultou a nossa cultura e não teve a decência de realizar o rito funerário. Como diz meu companheiro e professor Dirley Bonfim, “é melancólico e triste de se ver”.
Para quebrar esse núcleo duro do poder executivo, que abandonou a nossa cultura, ao ponto de o Conselho Municipal de Cultura não estar funcionando como deveria, (há meses não acontecem as reuniões mensais por falta de quórum), tem surgido movimentos pontuais se manifestando no sentido de reverter a situação.
Um grupo, por exemplo, está elaborando um documento onde mostra o atual quadro de descaso e cobra medidas concretas que devem ser urgentemente realizadas pelo poder público. A atitude é louvável, mas, qualquer manifestação para atingir os resultados necessários tem que unir todas as forças comprometidas com a cultura, não importando as vertentes ideológicas, se de direita, esquerda ou centro.
Sempre tenho comentado que em Conquista existem uma certa vaidade por parte de determinadas pessoas e grupos isolados que se acham donos da cultura. Esquecem que só a união de forças de todas entidades, associações, terreiros de candomblé e coletivos, como as duas academias de letras e outras representações artísticas, podem pressionar a prefeitura a levar a cultura a sério e não com desdém como está ocorrendo.
Além do documento, que deve ser assinado por todos representantes do setor, defendo aqui que seja realizada uma manifestação pública, com a participação dos artistas em geral, intelectuais, professores e os diversos segmentos da sociedade civil, reivindicando, principalmente, a criação de um Plano Municipal de Cultura, reforma e abertura dos equipamentos culturais, há anos fechados, preservação do patrimônio arquitetônico e histórico da cidade, dentre outras medidas.
ELEIÇÕES, DINHEIRO, A MENTIRA E O GOLPE DO ASFALTO BORRA DE CAFÉ
Com esse sistema eleitoral escandaloso, desigual e desleal, onde a justiça faz de conta que fiscaliza e depois de passado o pleito declara que tudo foi normal, o que temos hoje é uma trindade do mal que serve para enganar o povo de que ele está exercendo sua cidadania democrática.
Sem fazer rodeios, vamos direto ao assunto que nos interessa, falando especificamente do caso particular de Vitória da Conquista. Após as eleições de seis de outubro, o que mais se ouve nos comentários são relatos – e não são falsos – de que houve um derrame de dinheiro na cidade na compra de votos, especialmente por parte dos candidatos ao legislativo.
Os fatos são verdadeiros e não são fake news porque ouvi gente dizer que recebeu dinheiro e outros que bateram em sua porta com mandantes de candidatos com a mesma proposta. Não vou aqui revelar as fontes porque me reservo ao direito do segredo constitucional jornalístico.
Não me venham com essa de que são boatos. Todos estão cientes e carecas de saber disso. Eleições, dinheiro e a mentira caminham juntos de mãos dadas, como nos velhos tempos dos coronéis, do voto de cabresto, só que lá atrás o método era mais visível e acintoso. O que importa é que a forma do bolo permanece.
Além do dinheiro, os candidatos à reeleição para a Câmara usaram da estrutura de gabinete, o que é ilícito e, sobre isso, tenho até como provar porque vi nas ruas e me enviaram mensagens pedindo voto. Nem deram o cuidado de ver que também fui candidato.
Pelas irregularidades praticadas, por lei as candidaturas teriam que ser todas anuladas, mas isso é uma utopia. A pergunta que não quer se calar é: Que democracia é essa de que tanto defendemos no Brasil? Alguém deve responder: É a que temos, a mambembe tupiniquim.
O quadro está bem escancarado que, neste país, para se eleger, não adianta você ser ético, ter honra, caráter, idoneidade, estar preparado, ter capacidade e mérito. Se se não tiver o dinheiro na frente para comprar o voto, você não vai para lugar algum, a não ser ao fracasso. Não conte com essas pessoas que dão tapinhas em suas costas, dizem ser seus amigos e lhe fazem rasgos de elogios.
Essa cultura já está tão enraizada em nosso povo que o eleitor pede mesmo um “dindim” quando é abordado. Sou testemunha disso porque muitos me pediram na cara de pau, até para tomar uma cachaça ou uma cervejinha.
Além da grana, entrou também nessa eleição (não é novidade e coisa inédita) a transferência irregular de milhares de títulos de uma cidade aqui próxima para Conquista. Será que a justiça eleitoral daqui não desconfiou dessa anormalidade?
Eleição neste país virou uma bandalheira, malandragem e uma molecagem. Por essas e outras, a nossa Câmara de Vereadores de Conquista continua de baixo nível e formada de pessoas suspeitas, com raras exceções. E vai se manter assim porque os bons vão se afastando da disputa. Quem perde é o próprio povo que se vende.
Por acaso, o Congresso Nacional tem algum interesse de mudar essa safadeza e fazer uma reforma eleitoral completa, digna e limpa? É claro que não, porque o sistema vergonhoso existente beneficia a todos eles, tanto da direita, da esquerda como do centro. Nisso aí todos comungam do mesmo pensamento. Nessa hora, para o lixo as ideologias. Quem perde mais com isso é a esquerda. “Quem com porcos se junta, farelos come”.
O GOLPE DO ASFALTO BORRA DE CAFÉ
Por ordem, no que diz respeito ao cargo para o poder executivo, essa eleição também foi marcada pelo golpe do asfalto borra de café, para enganar a população. Em muitas ruas bastou pequenas pancadas de chuvas para começar a aparecer pequenos buracos no pavimento. Imagina se vier uma chuvarada pesada com fortes enxurradas! Vai transformar tudo em buraqueiras, do tipo “costela de vaca”, pior do que antes na terra solta.
Dias antes das eleições visitei vários bairros, como Jardim Guanabara II e Felícia. Os tratores estavam parados e apenas poucos homens faziam os serviços de meio-fio. Retornei ontem (dia 21/10) e constatei muita terra e poeira nos passeios das casas. A espessura do asfalto é fina, chegando a cerca de um centímetro.
Não é preciso ser um especialista para se chegar à conclusão de que as obras, iniciadas na véspera do pleito, e cujos recursos foram provenientes do empréstimo de 160 milhões com a Caixa Econômica, são eleitoreiras com intuito de enganar o povo. É o chamado uso da máquina, e isso já virou coisa comum na política brasileira.
É aquela história do “é assim mesmo” e todos se utilizam da mesma prática para galgar o poder ou nele permanecer. Infelizmente, neste nosso país, ganha eleição quem mais tem dinheiro em caixa e mais mente.
Dizer a verdade e jogar limpo são derrotas na certa, sem contar que o próprio eleitor aprendeu também com os tempos que usar da malandragem é uma virtude para se dar bem. A esperteza maquiavélica é premiada e merece ser votada. Depois não venham com choros e lamentações depois do leite derramado, ou da borra de café.
GOLPES FEREM O APOSENTADO
Albán González – jornalista
Após a leitura no texto intitulado “Aposentados estão sendo lesados”, editado pelo blog “A Estrada”, imediatamente abri o note book e acessei a página “gov.br”, onde procurei, nos serviços prestados pelo INSS, se havia alguma alteração nos últimos extratos de pagamento dos meus proventos. O responsável pelo artigo, o jornalista e escritor Jeremias Macário, denunciava um desconto mensal, sem o seu consentimento, de R$ 45,00, na quantia irrisória que recebe da Previdência Social.
O golpe, quase imperceptível para o prejudicado, não é novo. Pelo contrário, essas instituições, muitas delas com Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ), emitido pela Receita Federal, que se apresentam como representantes e defensoras dos aposentados e pensionistas, estão “na praça” há mais de 20 anos.
No passado, os golpistas usavam gestos e palavras afáveis – hoje, batem o telefone na cara de quem procura reaver seu dinheiro. Dispunham até de um assessor jurídico para tentar convencer o pobre cadastrado no INSS a assinar o termo de sócio. Na época, não se escondiam – conheci uma que funcionava no Largo da Mouraria, em Salvador – atrás de um telefone 0800, com atendente virtual que deixa o cidadão de 70 anos do outro lado da linha perguntando a si próprio como os seus dados deixaram os arquivos de um órgão do governo.
Mediante uma quantia mensal, a entidade se propõe ajuizar o INSS para que o aposentado/pensionista consiga um reajuste nos seus proventos, o que é mais difícil do que ganhar na mega sena. A União tem um time de advogados para evitar um aumento da dívida pública, embora feche os olhos para os salários, regalias e “penduricalhos” de magistrados e parlamentares.
Ultimamente, o consumidor desavisado tem sido vítima de um tipo de prática nociva. São os empréstimos consignados, direcionados principalmente para o aposentado preso numa cadeira de rodas, esperando a morte num dos apelidados “depósitos de velhos”. Com os dados do servidor inativo e o descaso do INSS e dos bancos, o golpista retira mensalmente dos contracheques das vítimas uma parcela do empréstimo consignado.
Essa ação abusiva acarreta em negócio jurídico nulo e eventual indenização pelos danos morais ocasionados. Para ser ressarcido do prejuízo financeiro, o aposentado vai ter que percorrer o “caminho da burocracia”, apoiado num advogado ou ter conhecimento do funcionamento das defensorias públicas, favorecidas pelos recessos, férias, feriados e dias “enforcados”.
“Garanta a revisão de sua aposentadoria sem complicações”. O convite é feito na internet por um dos muitos escritórios de advocacia especializados em Direito Previdenciário em todo o país. Uma das questões mais abordadas nos últimos anos refere-se à aprovação pelo Supremo Tribunal de Justiça (STF) da revisão da vida toda dos proventos recebidos do INSS. O órgão do governo tem colocado uma barreira, através de recursos, para não atender o aposentado, que começou a receber seus benefícios entre 29 de novembro de 1999 e 12 de novembro de 2019. O Instituto se recusa a pagar os atrasados dos últimos cinco anos, pelo alegado gasto que provocaria aos cofres públicos. O processo esteve em discussão pelos ministros do STF em 20 de setembro. Não há previsão de quando entrará em pauta, mais uma vez.
Recentemente, aposentados, pensionistas e militares da reserva foram despertados do estado de sonolência pela notícia amplamente divulgada pelas instituições assistenciais, a que me referi, e pelos escritórios de advocacia. Ressuscitaram uma lei de 1988, de número 7.713, que prevê isenção do Imposto de Renda para maiores de 65 anos, já afastados do serviço ativo, e com proventos e soldos inferiores a R$ 4 mil.
O segundo segmento da lei contempla com isenção do IR aos beneficiários do INSS, com remuneração acima de R$ 4 mil mensais, que provem com laudos ou documentos comprobatórios que são ou foram portadores de doenças graves, como tuberculose, alienação mental, câncer, artrose, esclerose múltipla, doença de Parkinson, AIDS, doenças que afetam o fígado e o coração, fibrose cística, contaminação por radiação, paralisia e moléstia profissional.
A lei, no caso da isenção para os portadores de doenças graves, deve ser reformulada, atendendo ao aumento no Brasil dos crimes praticados por estelionatários, que têm conhecimento das fontes onde jorram os falsos laudos médicos. Vamos assistir, certamente, a abertura de fundações e igrejas evangélicas, para onde correm os lucros dos mais ricos, além das muitas formas de se “lavar dinheiro”.
JORNALISMO IMPRESSO E A MÍDIA VIRTUAL
Mais uma vez tivemos uma noite do sarau colaborativo no último sábado, dia 19/10, no Espaço Cultural A Estrada, com a participação de mais de 30 pessoas quando discutimos o tema “Jornalismo Impresso e a Mídia Virtual: Correlações”. Na pauta tivemos também a escolha da nova comissão que vai organizar os próximos eventos.
Os trabalhos do sarau, que está completando 14 anos e já foi premiado com o troféu Glauber Rocha, foram abertos pelo nosso companheiro Luis Altério, e a nova comissão, aclamada por todos, ficou composta por Cléu Flor, Dall Farias, Edna Brito e Alex Baducha. Logo em seguida, o jornalista e escritor Jeremias Macário abriu o bate papo sobre o assunto da noite.
Em sua conversa, ele fez uma viagem ao tempo quando citou um ensaio manuscrito de 1900, de Mark Twain, sobre o alemão Gutenberg, o inventor da arte da impressão. As considerações do escrito nos levaram a uma reflexão sobre os tempos atuais da internet e das redes sociais.
O texto de Mark diz que a conquista de Gutenberg, por volta de 1455/56, criou uma terra nova e maravilhosa, mas, ao mesmo tempo, também um novo inferno. Macário pontuou que também estamos vivendo a mesma situação nos tempos atuais com a mídia virtual através da internet.
Ainda sobre o ensaísta, ele afirma que durante os últimos quinhentos anos, a invenção de Gutenberg forneceu à terra e ao inferno novas ocorrências, novas maravilhas e novas fases. “Esta encontrou a verdade livre sobre a terra e deu-lhe asas; mas a inverdade também se espalhou, e a ela foi fornecido um duplo par de asas”.
Com referência a 1900, diz que a questão do mundo daquele tempo ser bom e mau, se deve a Gutenberg, mas deve ser homenageado, “pois o que ele disse em sonhos ao anjo irado foi literalmente cumprido, pois o mal que sua colossal invenção trouxe é mil vezes ofuscado pelo bem que a humanidade recebeu”.
Após falar um pouco da sua trajetória jornalística na área do jornal impresso, Macário destacou que os jornais começaram a surgir por volta de 1650, na cidade alemã de Leipzig e depois em Petesburgo, na Rússia, em 1728, cujo jornal circula até hoje, sendo o mais antigo do mundo. O rádio apareceu em 1896, com o telégrafo inventado pelo italiano Marconi, mas só foi propagado no Brasil há 100 anos. A televisão data de 1927. Com atraso, chegou ao Brasil em 1950.
Todas essas mídias ainda existem com força, com exceção do jornal impresso que sofreu o baque da internet, ainda uma invenção adolescente de pouco mais de 20 anos, uma terra que ainda é de ninguém devido ao seu mau uso, mas que tende a se ajustar com seu amadurecimento.
Segundo Jeremias, os jornais sofreram porque não souberam se adaptar aos novos tempos, mas ainda é o meio de comunicação com maior credibilidade, que exige de seus profissionais mais responsabilidade quando escreve uma matéria, diferente do que acontece nas redes sociais onde qualquer um pode se esconder atrás do anonimato.
No mundo virtual, quem escreve mentiras (muitos nem têm formação jornalística acadêmica), se vale da punição jurídica, isto quando ocorre, ser mais demorada e cumprida contra quem comete o crime. O jornal impresso é mais completo, melhor qualidade, consistente e de maior conteúdo.
Por falar em qualidade, conteúdo e precisão, o jornalista abordou que, em sua opinião, esses pontos caíram muito e deixam a desejar, especialmente quando se trata do rádio, da televisão e do meio virtual.
Discutiu-se que, praticamente, não existe mais jornalismo investigativo, e os jornalistas fazem matérias vazias e capengas, com muitas falhas nas informações, deixando o público confuso e desinformado. Tudo isso abalou a confiança dos usuários das notícias, a maioria de baixa qualidade.
Na roda de conversa pelos participantes do sarau, houve diversas avaliações e correlações entre as mídias e um consenso de que a mídia virtual é uma criança pelo seu tempo de idade, que ainda não adquiriu sua confiabilidade, além da sua baixa qualidade jornalística e informativa. Aliás muitos que escrevem nela se acham jornalistas, sem formação acadêmica.
No mais, a noite foi de confraternização, troca de conhecimento e saber na discussão de ideias que varou a madrugada. Como sempre, tudo isso contou com o acompanhamento de bebidas e comidas, ao som da viola, da boa música, na declamação de poemas autorais e contação de causos e piadas.
Em favor da melhoria da estrutura do sarau ficaram como sugestões a criação de um fundo financeiro, planejamento de um documentário, mais participação do sarau na política cultural da cidade, registro do sarau em cartório como entidade de direito, dentre outras medidas de fortalecimento do evento.
OS LIVROS COMO ARTES DE VELOR
A invenção da impressão pelo alemão de Mainz, Johannes Gutenberg, em meados do século XV, com a publicação da Bíblia por volta de 1456, foi o prenuncio da evolução científica e da Revolução Industrial no final do século XVIII.
A partir daquele período vieram outras gráficas e um boom de publicações de raros manuscritos e obras valiosas, como dos mais notáveis filósofos gregos (Sócrates, Aristóteles e Platão), além de ícones da intelectualidade da Igreja Católica, com destaques para São Jerônimo e São Tomás de Aquino. Eram os chamados livros incunábulos, ou seja, aqueles editados até antes de 1501.
Atrás dessas raridades houve uma corrida dos afortunados ingleses que dominaram esse mercado de arte entre os séculos XVIII e XIX. Os petroleiros norte-americanos entraram com toda força no século XX até por volta de 1985/87 quando os asiáticos (japoneses) roubaram a cena através dos famosos leilões ocorridos em Nova Iorque, Los Angeles e Londres.
Nessa época, o livro mais famoso leiloado foi a Bíblia de Número 45 de Gutenberg, o mais procurado, que alcançou um valor superior a US$5 milhões, considerado o mais caro do mundo. Até outubro de 1987 essa obra pertencia ao Seminário São João, localizado ao Sul da Califórnia, a qual foi doada 25 anos atrás pela ricaça do petróleo Estelle Doheny junto com sua coleção de raridades.
A venda desse acervo precioso, de cerca de 30 milhões de dólares pela Igreja Católica, provocou uma onda de protestos e denúncias por parte da mídia dos Estados Unidos e de personalidades de intelectuais da sociedade, mas venceu o pensamento retrógrado do arcebispado da Califórnia. Esses livros de valores incalculáveis saíram das mãos dos norte-americanos para os asiáticos.
Além da Bíblia 45, outros itens impressionantes foram leiloados, como um largo fólio que pertenceu ao Papa Alexandre VI, no século XV, uma impressão única da Bula de Demarcação, que separou as terras do Novo Mundo entre Espanha e Portugal, A Queda dos Príncipes, de Giovanni Boccacio, de 1494 e uma cópia de obras de Aristóteles em grego, impressa por Aldus Manutius, A Rationale Divinorum Officiorum, de Guillaume Durand, de 1459, a Epistolare, de São Jerônimo, de 1470 e um exemplar do mesmo ano da Summa Theológica, de São Tomás de Aquino, bem como outras bíblias raras.
Entre a Bíblia de Estelle, a de Número 45, constava do leilão um ensaio manuscrito de Mark Twain sobre Gutenberg, escrito em 1900, para comemorar a inauguração do Museu do inventor da impressão, em Mainz.
Em uma parte do texto ele dizia que a conquista de Gutenberg criou uma terra nova e maravilhosa, mas, ao mesmo tempo, também um novo inferno. Durante os últimos 500 anos, a invenção de Gutenberg forneceu à terra e ao inferno novas ocorrências, novas maravilhas e novas fases – assinalou.
Segundo Mark, a invenção criou verdade livre e deu-lhe asas, mas a inverdade também se espalhou, e a ela foi fornecido um duplo par de asas. O que o mundo é hoje, bom e mau, ele deve a Gutenberg. Destacou que o mal que sua colossal invenção trouxe é mil vezes ofuscado pelo bem que a humanidade recebeu.
CASOS E CAUSOS DE TROPEIROS
Bons tempos aqueles onde os tropeiros eram os caminhoneiros de hoje. Não existiam estradas asfaltadas, só de chão, e algumas eram veredas e trilhas pelos matagais e despenhadeiros íngremes. Não haviam postos cobertos de paradas e sim pontos estratégicos de árvores e à beira de riachos, para dar uma arriada nos burros e fazer um rango.
Mesmo assim, existiam os salteadores e roubos de cargas por bandidos nos pontos mais perigosos, como ocorrem nos tempos modernos, se bem que a violência era bem menor, na grande maioria das vezes sem essas crueldades com mortes, sequestros e torturas. Os tropeiros corriam muitos riscos, sem contar as intempéries do tempo.
A comunicação entre uma cidade e outra era difícil e chegava com dias e meses de atraso. Hoje com a internet é tudo instantâneo. Além da grande variedade de gêneros alimentícios, como açúcar mascavo, aguardente, vinagre, vinho, azeite, bacalhau, peixe seco, queijo, produtos importados da Europa e até gado, os tropeiros também transportavam notícias.
Entre as regiões, esses desbravadores ainda comercializavam mulas e cavalos, como faziam os ciganos. Muitas vezes eles se cruzavam nos caminhos e era aquela confusão porque a etnia cigana sempre foi vista, desde os tempos coloniais, com desconfiança e discriminação. Tinham a mancha de ladrões e malfeitores. Entre eles quase não rolavam negócios.
Os tropeiros eram nossos repórteres jornalísticos, e as informações, muitas vezes, chegavam truncadas, deturpadas e com mentiras que iam se espalhando. Eram casos e causos de forma presencial. Atualmente são virtuais que se propagam mais rápidas que rastilhos de pólvoras. As fake news de hoje são mais perigosas, intencionais e ofensivas.
Por falar em casos e causos, quando era menino molecote e morava na roça à beira de uma rodovia de cascalho lá no sertão de Piritiba, lembro muito bem desses grupos de tropeiros que passavam em minha porta. Ah, que saudades daqueles tempos quando ainda se sentia o calor humano!
Final de tarde eles chegavam e pediam o rancho para meu pai que os acolhia com muito prazer porque também adorava prosear e contar estórias e histórias de gentes do mundo dos vivos e dos mortos. Ariavam as bruacas de couro, alforjes e outros pertences dos burros e mulas; soltavam os animais cansados e suados na pastagem e aí cuidavam logo de acender um fogo para assar a carne seca, fazer o café e cozinhar alguma coisa.
Mesmo pobre e roceiro vivendo das adversidades das secas, quando tinha, meu pai entrava na roda com um aipim, a batata e farinha. Estava feito o banquete do fogo a lenha, uma trempe, para começar os casos e causos. Eu adorava ouvir essas conversas até tarde da noite, melhor ainda nas fases de lua cheia que prateava todo terreiro.
Ah, existiam alguns tropeiros que traziam consigo uma viola, uma sanfona ou outro instrumento para cantarolar aquelas músicas antigas de raiz que falavam dos costumes e hábitos do povo, maioria das vezes nordestino. Muitos vinham cortando a Chapada Diamantina e outros eram provenientes de Feira de Santana e até do Recôncavo.
O que eu achava bom mesmo é ouvir os casos e causos dos tropeiros com meu pai. Iam dos coronéis valentões e seus capangas que surravam seus trabalhadores; tomavam terras; e mandavam matar quem resistia suas ordens. Figuravam ainda nos papos, as histórias do cangaço de Lampião, da Coluna Prestes, moças virgens que se perdiam, retirantes das secas, de gente usurária mesquinha, até de visões de fantasmas (assombrações) que apareciam nas bocas das noites.
Não faltavam também as lendas folclóricas brasileiras da mula sem cabeça que tinha fogo no lugar da cabeça e vivia entre cavalos e vacas, o boitatá, curupira, o boto-cor-de-rosa, caboclo d´água, negrinho do pastoreio, o saci pererê, a cuca, a caipora e do lobisomem.
Este último personagem me deixava mais com medo e algum tropeiro contava que conhecia uma pessoa que virava lobisomem em noite de sexta-feira de lua cheia. Bom também era ouvir os fatos escabrosos que aconteciam em outras cidades, de traição de mulheres e famílias que se matavam por questões de terra.























