QUANDO SE ENVELHECE
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Quando se chega à velhice,
Pulsa mais lento o coração,
A gente sente da janela aberta,
Na paisagem da viagem,
Que está próxima nossa estação,
E aí, o tempo começa a marcar,
Em seu relógio, o tic-tac,
Dá até vontade de chorar.
Cada dia é mais uma graça
Alcançada que nos enlaça,
No laço da fé e da esperança;
Uns dizem que viramos criança,
Outros que é só ranzinzice,
Coisa mesmo da velhice.
Tem os professores,
Poetas e escritores,
Artistas e cantores em ação,
Que ainda solam uma canção;
Gente simples de fresca cuca,
Com felicidade, amor e liberdade,
Que alargam seus horizontes,
Construindo outras pontes.
Tem a turma do dominó nas esquinas,
Na baba das moças meninas!
Os fofoqueiros e arengueiros,
Impulsivos, ativos e inativos,
Que se isolam aos desencantos,
Aos braços das mágoas e prantos,
E vivem de salivar suas lamúrias,
De suas antigas tertúlias,
Enxugando as lágrimas do passado,
No galope do cavalo alado.
Quando se chega à velhice,
O fantasma cavaleiro da foice,
Sempre fica em nosso encalço,
Com seu afiado aço,
Encurtando nosso espaço.
Existem os duros reacionários,
Os sábios liberais revolucionários,
Mas poucos seguem seus ideários,
E o velho, em seu canto amargurado,
Engole seu soluço engasgado.
Quando se chega à velhice,
Os sentimentos afloram,
Todo plano tem que ser no ano,
Na base do aqui e do agora,
Antes que se vá embora.
Quando se chega à velhice,
Toca o sino em nossa porta,
Das lembranças de outrora,
Algumas coisas jogam fora,
E a pessoa se consola,
Com sua fiel companheira,
Outra nossa passageira,
Desse trem da vida,
De tanta confusão, labuta e lida.
Quando se chega à velhice,
Os netos se tornam seus filhos,
Que se distanciam de você,
E só miram o bem querer,
Na ganância do seu ter.
Quando se chega à velhice,
Falam logo de asilo,
Que é para seu benefício,
Um bom lugar ao seu estilo,
Mas, na verdade, é seu castigo,
De viver na solidão do abrigo,
Onde chora pai, avó e avô,
Que rogam ao Nosso Senhor,
Para logo acabar com essa dor.
A ATRAÇÃO FATAL POR TRAGÉDIAS
A impressão que temos é que todo ser humano carrega dentro de si doses de sadismo, não por maldade, mas talvez por curiosidade e o ímpeto de fazer aquela fofoca; aumentar os fatos; criar e inventar boatos; dar o seu pitaco; e uma de “peru” que morre de véspera. Todos têm suas versões diferentes. Sempre digo que todo mundo é jornalista e adora uma novidade que quebre a monotonia.
Tem aquele ditado popular de que a curiosidade é quem mata o gato. Não sei sua origem. Já observou quando ocorre um acidente no trânsito ou um crime qualquer, seja grave ou de menor proporção? Em questão de segundos ou minutos a rua ou avenida fica apinhada de curiosos e, agora, com o celular, cada um saca o seu.
Um exemplo mais recente foi o do “sequestrador” que tomou várias pessoas como reféns no centro de Vitória da Conquista. Não tardou muito e apareceu aquela multidão no Terminal Lauro de Freitas e deu plantão até o final. Um colega amigo meu afirmou que tinha até mata mosquitos e caça fantasmas.
Basta uma confusão qualquer, todo mundo larga seus afazeres e até esquece da correria do dia a dia, do vaivém tumultuado. Quando existia aquela função na empresa de “boy”, ou “contínuo”, para levar malotes, encomendas, retirar e depositar dinheiro nos bancos (hoje é tudo pelo aplicativo), o rapaz (era sempre homem) parava no trânsito para ver qualquer confusão e atrasava todo trabalho. Quando chegava tomava aquele esporro do patrão.
E quando acontece um acidente na estrada! Ah, meu amigo, a grande maioria das pessoas é dominada pelo instinto de parar o veículo no acostamento e ir ver a tragédia, mesmo que o socorro já esteja sendo prestado às vítimas. Cada um quer dar uma de repórter, e tome mentira. O que mais rola nos papos é fake news.
Por falar nisso, quando estava na ativa como jornalista, logo que chegava ao local da ocorrência, era só fazer uma pergunta e aparecia um monte de gente para contar sua história ou estória, sempre “cabeluda” e exagerada. Às vezes não tinha morrido ninguém, mas aparecia um dizendo que foram três ou cinco mortos. Na conversa, aparecia até gente carbonizada.
– Todo dia acontece um acidente de batida de carros e motos nessa esquina da rua. Você já deve ter ouvido muito isso em entrevistas na televisão e outras mídias. É tudo exagero. As pessoas adoram aumentar os fatos desde os primórdios da humanidade. “Quem conta um conto, aumenta dois pontos”.
Se existe um incêndio ou cai uma casa ou prédio, você ouve coisa do “arco da velha”. Como jornalista, além de ter a obrigação de ouvir no mínimo duas versões e ser parcial, seja, antes de tudo, um cético. Não confie no que falam, senão você pode se estrepar, ser processado ou demitido por publicar notícia infundada.
– Moço, foi um estrondo que mais parecia uma bomba atômica, o fim do mundo. As labaredas subiram mais de 50 metros de altura. O carro vinha numa velocidade de 180 quilômetros por hora e o motorista estava embriagado. A tempestade levou tudo pela frente. Soube até que carregou uma ponte lá na Lagoa da Baixa da Égua.
Para ser sincero, até o próprio jornalista tem a tendência de exagerar e “pentear” a matéria com outros ingredientes para atrair mais o leitor. Conheci vários companheiros assim que estavam mais para romancistas do que repórter. Até já dei as minhas pinceladas de leve. Não nego que já fiz uma “trapaça” para não “matar” a pauta da redação, mas essa eu não vou contar aqui. Ficou curioso?
Pois é, ninguém resiste parar diante de uma tragédia ou acontecimento e seguir em frente focado em seu problema que tinha urgência para ser resolvido. É uma tentação dos diabos. Todos temos um DNA de fofoqueiros e fofoqueiras natos.
Quando existe um crime fora do comum e o indivíduo é preso, não tarda a surgir aquela multidão em frente da delegacia. Será que todo mundo ali é desempregado e não tem nada a fazer? Circulando, circulando – grita de lá o policial com cara de mau e de revólver na mão para esvaziar a aglomeração de desocupados.
UM FATO INÉDITO QUE DEIXOU MUITAS PONTAS SOLTAS SEM ESCLARECIMENTOS
Não será a primeira nem a última vez. Aqui em Vitória da Conquista tem ocorrido fatos de violência que não são devidamente elucidados. As autoridades abafam e a mídia tropeça em sua função de investigar na utilização dos porquês, como, onde entre outras interjeições. Muitas perguntas do público ficam no ar e depois tudo cai no esquecimento.
Dessa vez estou me referindo ao “sequestro” de reféns na semana passada, na Galeria Panvicon, no centro da cidade, por um bandido que deixou vítimas feridas à beira da morte. Pelo que eu saiba, na história de Conquista, nunca existiu um caso desse inusitado, tão violento com tais características.
O acontecimento abalou a cidade por cerca de quatro horas e mobilizou um batalhão de policiais (militar e civil), corpo de bombeiros, o Samu e outros agentes. Um colega meu jornalista em tom de sacarmo disse que tinha até mata mosquitos e caçadores de fantasmas.
Um quarteirão foi fechado e a multidão curiosa, como sempre, se aglomerou no Terminal Lauro de Freitas. As pessoas parecem que trazem dentro de si um espírito de sadismos. Para ver a tragédia alheia, em questão de minutos largam seus afazeres do dia a dia e se juntam para dar seus pitacos, mentir e inventar informações. A impressão é que têm gosto de sangue na boca. Cada um faz questão de dar sua versão diante das câmaras.
Vamos, então, recapitular o que mais nos interessa. Que me desculpem, mas a mídia pecou na cobertura jornalística, deixando muitos “buracos” e engolindo “mosca”. Não ficou esclarecido bem de onde partiu o sujeito, se estava sendo perseguido ou não por algum ato criminoso. Pelo seu comportamento, tudo indica que ele já tinha um alvo certo e tudo foi premeditado, não importando se estava ou não drogado.
Depois do desfecho, o comandante do policiamento, coronel Paulo Guimarães deu uma entrevista (boletim de ocorrência) afirmando que o elemento deu um surto sob efeito de muita cocaína. No outro dia o delegado da Polícia Civil disse que ele estava consciente do que fez.
Ora, então imaginei ter sido crime de mando, vingança ou coisa parecida. O “meliante” (linguajar policial) atirou logo no dono da loja e atingiu outras funcionárias. É aí que digo que as pontas da história ficaram soltas, com informações nebulosas e contraditórias.
Após se entregar, o maluco “terrorista” foi recolhido à prisão. Por que a mídia, pelo menos, não tentou entrevistar o marginal, solicitando permissão do delegado? As vítimas que estão fora de perigo já poderiam ter sido ouvidas para revelar com mais precisão a ação do atirador. O processo corre em segredo de Estado? A sociedade não pode saber? Alguma interferência extra para que tudo fique como está?
São minhas perguntas como jornalista e acredito ser de muitos outros. Tudo isso me faz lembrar de fatos violentos acontecidos aqui que tomaram os mesmos rumos, isto é, ficaram inconclusivos, insolúveis e engavetados, como a morte do marinheiro numa cadeia local, os assassinatos do prefeito de Manoel Vitorino e do “jornalista” Alberto que difamava muita gente, (também fui sua vítima), o massacre de policiais numa periferia de Conquista, o caso do menino Maikon do qual ninguém mais fala, a matança dos ciganos, o crime brutal do pastor e tantos outros.
Essa ação criminal pelo seu modus operandi foi inédita na história local, mas Vitória da Conquista sempre teve uma fama de cidade violenta lá fora até meados dos anos 60. O arraial da Vila Imperial do século XIX era cheio de bandoleiros e salteadores desocupados, como bem descreveu o príncipe alemão Maximiliano em sua vista à região. Para aqui foi enviado um destacamento para conter os malfeitores. Os tropeiros temiam vir para essas bandas.
Na época do coronelismo, no início do século XX, aqui era cheio de pistoleiros e jagunços das larvas diamantinas, contratados pelos poderosos. Em 1919 houve até uma guerra entre os “pesduros” e “meletes”, cada um defendendo seu quinhão na política de mando. O assunto foi manchete nos jornais da capital, Rio de Janeiro e até São Paulo, como também o caso da invasão de soldados armados ao Hospital São Vicente para arrancar lá de dentro um preso internado e condenado.
Este episódio de 1968 foi noticiado pelo jornal “Última Hora” (SP) que, em matéria, comentou que Conquista era uma cidade onde matar virou uma rotina e havia herdado o esquema do cangaceiro Lampião. O “Jornal de Conquista” rebateu a manchete. Muitos contestaram e ficaram revoltados com o periódico paulista.
De volta aos coronéis, tivemos também a luta armada entre os coronéis Olímpio Carvalho e Ascendino Melo (Dino Correia). Foi uma tragédia sangrenta que ocorreu no distrito de Verruga (Itambé), no município de Conquista, em março de 1925.
Todos sabem da “Tragédia de Tamanduá”, em 1895, no povoado de Campo Formoso (Belo Campo) entre o coronel Domingos Ferraz de Araújo e dona Lourença de Oliveira Freire (mesma família), quando 22 pessoas foram sangradas barbaramente.
Tivemos ainda a tragédia da tarde de Natal, em 1931, na casa do sr. D´Artagnan Menezes, na rua Nova, onde foram mortos o mecânico Vicente Cavalcante e o cabo Jerônimo Alves Sampaio. Outros soldados ficaram feridos. Embriagado e depois de ter desacatado a polícia, o mecânico entrou na casa de Menezes e os soldados invadiram o recinto para arrancar o cara de lá. Entraram em luta corporal e deu no que deu.
É certo que toda essa fama de uma Conquista violenta das guerras entre famílias mudou com os tempos atuais. Hoje temos uma cidade mais civilizada e desenvolvida, mas, vez ou outra, ocorrem tragédias chocantes que necessitam ser melhor apuradas, como a mais recente do “sequestro” com reféns numa galeria do centro.
UMA PESSOA QUE MERECE TODA NOSSA CONSIDERAÇÃO E RESPEITO
Não fui ao seu velório porque não estava me sentindo bem e também pelo motivo de estar evitando eventos fúnebres. Deve ser a idade, mas fiquei muito sentido pelo falecimento do ex-prefeito Murilo Mármore que deixou bons serviços prestados ao município de Vitória da Conquista.
Lembro que quando cheguei aqui em 1991 o prefeito era ele e tinha por obrigação ao chegar à cidade me apresentar como novo diretor da Sucursal do Jornal A Tarde e coloquei minhas credenciais profissionais como se fosse um embaixador na terra. Claro que me recebeu muito bem e me deixou boas impressões pela sua sinceridade e respeito à liberdade de expressão.
Depois dessa apresentação, quero me expressar aqui que o dr. Murilo, como era chamado por muitos, foi um grande democrata por saber receber as críticas, um homem íntegro e honesto, não apenas como prefeito, mas ao longo de toda sua vida. Posso até ter exagerado nas matérias durante seu mandato.
Não estou falando desses seus predicados positivos porque ele faleceu, por falsidade, como muita gente faz com seus rasgos de elogios quando uma pessoa parte daqui para o além. Conquista perdeu uma grande personalidade, afável e sempre preocupada com as questões sociais, embora a cidade seja um tanto ingrata por esquecer o passado de gente que deu tudo de si pelo bem da terra.
Digo isso porque o dr. Murilo merecia mais homenagens e mais reconhecimento quando em vida. Talvez a ingratidão não seja só de Conquista, mas próprio do ser humano. Quando alguém está no topo, aparece um monte de bajuladores, mas ao deixar um cargo importante, passa a ser esquecido e jogado de escanteio.
Após ter feito uma grande gestão, o ex-prefeito se candidatou a vereador e, se não me engano, teve cerca de 500 votos. Aquilo me deixou chocado e serviu de comprovação pelo que sempre tenho falado sobre falta de reconhecimento. Não somente o dr. Murilo, mas também ocorre o mesmo com José Pedral e tantos outros que aqui passaram e deixaram suas marcas. Não somente me refiro a prefeitos. Ao longo desse tempo venho observando esse tipo de comportamento, de certa forma, de ingratidão.
Bem, não quero me alongar em minha apreciação pessoal. Minha admiração ao dr. Murilo não leva em conta durante sua passagem pela prefeitura. Lembro que, quando aqui cheguei, minhas coberturas jornalísticas focaram muito no problema da depredação da Serra do Periperi, no lixão a céu aberto, na usina de asfalto e no abandono do Cristo, do artista Mário Cravo.
No jargão jornalístico, “batia” muito no prefeito com minhas críticas, exercendo meu papel profissional, e o Cristo era um grande alvo. Na época, o ex-prefeito mandou fazer uma reforma no monumento e fez questão de me convidar, pessoalmente, para a inauguração.
Tivemos outros embates, mas ele nunca guardou ressentimentos. Quando nos encontrávamos era aquele papo agradável e não podia deixar de falar sobre o tricolor das Laranjeiras, o Fluminense, time pelo qual éramos e somos torcedores. Muitas vezes estava em baixa e cheirando à zona de rebaixamento, como já esteve nesse lugar.
Para finalizar, dr. Murilo, você será eterno, não somente pelas obras que deixou para Conquista, mas também como pessoa humana que foi. Só para citar, além do trabalho da área social com as associações, tendo como secretário o professor Itamar Aguiar, foi ele o primeiro a abrir a Olívia Flores; construiu o Estádio do Murilão; reconstruiu as praças do Boneco e a antiga “Carvão”; cuidou bem das ruas e do transporte público e foi um bom administrador para seus servidores. E quem não se lembra das grandes micaretas!
O REI INVENTOR DO MONOTEÍSMO E O SACERDOTE MOISÉS GUIA DOS HEBREUS
Dizem os historiadores que os faraós do Egito reinaram por cerca de três mil anos. Nesse tempo, tivemos reis famosos, um negro, uma mulher, tiranos unificador como Menés, construtores de pirâmides, como Quépes, Quéfren e Miquerinos e tantos outros. Foi uma civilização que demorou ser reconhecida pelo mundo ocidental. Isso só começou a acontecer graças a Napoleão Bonaparte, os cientistas e arqueólogos a partir dos séculos XIX ao XX.
Um desses reis se destacou por ter sido chamado de rebelde ao se dedicar à poesia e à cultura e inventado o monoteísmo numa terra onde existiam milhares de templos com mais de três mil deuses. Trata-se de Akenaton, o intelectual devoto de Aton, o círculo solar, o Deus Único. Seus sucessores desfizeram suas obras e restauraram o politeísmo.
Este faraó mudou até as artes plásticas e os artistas tiveram a liberdade de mostrar suas feições ao lado da sua célebre esposa Nefertiti acariciando os filhos sob as bênçãos do sol. Ele viveu por volta do ano mil a.C. e compôs lindos hinos em louvor a Aton, como narra o jornalista e escritor David Coimbra em sua obra “Uma História do Mundo”.
Akenaton escreveu um encantador poema onde deixa claro o perfil do novo deus. Como seu sacerdote, Moisés absorveu sua ideia monoteísta e levou ao povo hebreu. A Bíblia situa o Êxodo no reinado de Ramsés II que nasceu cerca de sessenta anos depois do desaparecimento de Akenaton. Sobre essa passagem, o arqueólogo C.W Ceram fez uma comparação elucidativa em “Deuses, Túmulos e Sábios”.
Além de sacerdote, provavelmente Moisés foi governador da província do Alto Egito onde viviam os hicsos e hebreus, semíticos invasores do Egito. Akenaton foi sucedido pelo seu genro Tutancâmon, imagem viva do deus maior chamado Amon. Foi ele quem mandou apagar as imagens do sogro. Os sacerdotes foram perseguidos e banidos, inclusive Moisés. Sem seus seguidores, não havia mais lugar para ele no Egito. Depois de assassinar um feitor do faraó, Moisés se refugiou em Madiã, na Arábia Saudita. Lá se casou com Séfora, filha de Jetro. Com a mulher teve dois filhos.
“Moisés fundiu a religião de Jetro com a de Akenaton e, dessa forma, fundou o judaísmo”. A nova religião foi encenada no Monte Sinai através dos Dez Mandamentos, um resumo das leis existentes no Egito e na Mesopotâmia dos sumérios. Outras passagens copiadas foram a lenda do Dilúvio e do nascimento do próprio Moisés, encontrado num cesto no rio Nilo.
Das leis, Moisés adaptou apenas para dez, e o primeiro foi “Amar a Deus sobre todas as coisas”. “Foi um grande lance de marketing”. O primeiro mandamento é garantidor dos demais. A grande façanha dos Dez Mandamentos foi o monoteísmo, derrotado no ocidente pelo próprio cristianismo, que é politeísta.
No cristianismo, as divindades cristãs são guiadas por um triunvirato, Pai, Filho e Espírito Santo. Abaixo desses foi recuperada a antiga deusa dos tempos do matriarcado, do nomadismo e das religiões orientais como o mitraísmo. A Virgem Maria assume milhares de formas a depender de cada lugar com nomes para todo gosto.
Depois das deusas poderosas, abaixo vem uma legião de santos, os semideuses responsáveis por cada dia e cada área da atividade humana. Existem mais de dez mil deles. “O cristianismo é a nova vitória dos tradicionais sacerdotes egípcios politeístas”.
Dentro do próprio cristianismo existem também a culpa herdada dos hebreus com o estabelecimento dos Dez Mandamentos. Os hebreus inventaram o pecado e daí nasceu a culpa. A não obediência dos mandamentos acarreta punição e o cumprimento oferece recompensa.
“A culpa é a argamassa da civilização. Se o homem não sente culpa, ele pode fazer o que bem quiser. Se fizer o que quiser, não poderá viver com os outros. Não haverá civilização. A civilização depende da coerção dos instintos” – diz o autor do livro, ao acrescentar que entre os hebreus, a culpa foi especialmente vitoriosa.
Para entender o sucesso da culpa entre os hebreus, basta imaginar quem eram eles quando saíram do Egito e quem era o homem que os levou deserto a fora. Os hebreus eram escravos e Moisés o sacerdote de um deus caído, de uma religião derrotada lá atrás quando Akenaton se foi.
SE LIGAR, PEGA
(Chico Ribeiro Neto)
Se ligar pra apelido, aí é que pega. Infância e adolescência lembram muitos apelidos.
Na turma dos Aflitos, em Salvador, havia 3 irmãos: “Banha”, “Manteiga” e “Linhaça”. E duas irmãs magrinhas batizadas de “Irmãs Tripa”.
“Cascavel” era o maior driblador do bairro. Era um magro abusado que depois de um drible gritava “viu, puta!” e tomava logo uma porrada. Outro dia encontrei “Cascavel” num mercadinho e o tempo foi curto para muitas recordações.
Junto à minha casa (Rua Gabriel Soares, 33, Ladeira dos Aflitos) moravam os 3 irmãos “criados com vó”, que eram brancos como a porra e viviam do colégio pra casa e de casa pro colégio. Nunca entraram em nosso “baba” nem viram as Irmãs Tripa dançar o cancan de noite no passeio.
“Tristeza” era o melhor goleiro da rua. Voava nos paralelepípedos, se ralava todo, mas pegava a bola. Esse apelido foi porque ele nunca sorria, só se era escondido.
Tinha ainda “Antisardina”, apelido dado porque ele tinha muitas espinhas no rosto e usava um creme que a galera cismou ser “Antisardina, o segredo da beleza feminina”, como dizia o comercial.
O irmão de “Antisardina”, magro e comprido, era “Rui Palito”. Uma vez um menino ganhou do pai um par de luvas de boxe, de profissional, e resolveu promover uma noitada de lutas. Uma luva para cada lutador, pois só havia um par. Um sorteio definiu quem ia brigar com quem num único round de 3 minutos. Eu fui contemplado com “Rui Palito”, braço mais comprido do que o meu. Eu tomava soco no meio do nariz toda hora e perguntava aflito ao juiz quanto tempo ainda falta pra acabar e ele gritava: “Ainda tem um minuto”. Foram os 3 piores minutos de minha vida.
Lá em casa meus irmãos tinham seus apelidos: Luiz era “Zarara” ou “Bico de Anum”, Zé Carlos era “Gaguinho” e Cleomar era “Leonam” (marca de máquina de costura; ele sabia “costurar” bem no “baba”) e eu cheguei a receber o apelido de “Francis, o burro que fala”, um desenho animado. Mas felizmente não pegou.
“Pé de Valsa”, um menino que teve paralisia infantil e ficou com uma perna atrofiada (pisava na ponta do pé esquerdo), jogava bem no “baba” e dava passes preciosos. Havia ainda “Baleia”, “Bandeira”, “Zoinho”, “Atum”, “Gaiola”, “Géo Beleza”, “Mondrongo”, “Biúca”, “Diabo Louro”, “Ratinho”, “Maciste”, “Cara de Caçamba”, “Bola Sete”, “Já Morreu”, “Calunga” e “Narigolé”.
E ainda tinha “Carroça”, “Zé Leso”, “Batatinha”, “Pinduca”, “Zebrinha”, “Já Morreu”, “Arranca Toco” e “Jair Pinico”.
Luiz, meu irmão mais velho, conheceu o valente “Zeca Diabo” e me contava: “Ele joga uma navalha como ninguém. A navalha fica amarrada no dedo dele com uma borrachinha. Numa briga, ele joga a navalha, ela vai aberta, corta o sujeito e volta fechada pra mão dele”.
Na praia da Ribeira, na década de 60, havia um time de futebol formado por pescadores e canoeiros que tinha dois zagueiros imbatíveis: “Pé de Grelha” e “Gabinete”. O Bahia tá precisando dos dois.
UM CAOS NO TRÂNSITO DO CENTRO
Se você vai ao centro de Vitória da Conquista, seja de carro ou de ônibus, antes tome um banho de descarrego, faça uns minutos de meditação ou se prepare psicologicamente, porque, na verdade, vai passar muita raiva e ficar estressado. O trânsito no centro da cidade se tornou um caos, principalmente na Praça Barão do Rio Branco e imediações, como Praça do Índio, Francisco Santos, Dois de Julho, Régis Pacheco e Siqueira Campos nas proximidades do Banco do Brasil. É uma loucura, meu amigo, sem falar na falta de vagas na Zona Azul e até nos estacionamentos que cobram cinco reais por uma hora. Nesses locais deveria ser proibido o trânsito de ônibus e veículos pesados que até fazem desembarque de cargas em lojas, complicando mais ainda a circulação de carros pequenos. A Praça Barão do Rio Branco, por exemplo, deveria ser um calçadão, bem como a travessa (esqueci o nome) onde estão localizados a lotérica e o sebo de livros. Os urbanistas modernos falam tanto em humanizar as cidades oferecendo mais espaços livres para as pessoas, mas o poder público faz o contrário. Cadê aquele projeto do shopping a céu aberto de Conquista? Fizeram alguns calçamentos e nada mais. A Barão do Rio Branco ficaria mais aprazível com o plantio de árvores, mais bancos e até quiosques do que aquele amontoado de carros. O Terminal da Lauro de Freitas é outro inferno com toda aquela poluição visual e sonora, sem falar dos gases tóxicos dos combustíveis, mas os lojistas, de mentalidade atrasada, adoram o ambiente contaminado de fuligens. O ar no centro está ficando irrespirável.
NA ESTRADA DA VIDA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Pela estrada da vida,
Aperto o cinto em cada saída,
Às vezes as vistas ficam turvas,
Temo o labirinto das curvas,
Reduzo a marcha,
Alivio o acelerador,
Olho quem vem na frente,
No retrovisor tem gente,
Assim avanço em meu destino,
Tentando cicatrizar minha dor,
Lembrando do meu amor,
Que partiu e me deixou.
Na estrada da vida,
Adoro as retas,
Sigo pelas setas,
Atento às encruzilhadas,
Sinto a sensação do vento,
Nas poeiras do tempo,
Aprecio a paisagem,
Cada qual em sua viagem,
E lá vai o homem com sua enxada,
Acolá o vaqueiro em seu gibão,
Toca uma rês desgarrada,
Cortando o agreste do sertão,
Como fazia meu velho pai,
Que cumpriu sua travessia,
Como o existir previa.
Na estrada da vida,
Uns apressados exageram,
No asfalto da velocidade,
Tudo depende da idade,
Outros preferem o compasso,
Deixar na terra seu traço,
E com fé carregar sua cruz,
Ora ao farol do escuro,
Ou iluminado pela luz,
Viajando no passado,
No presente apegado,
Mirando suas metas no futuro.
O NATAL PAGÃO, AS REFORMAS E UM CONGRESSO TRAIDOR DO NOSSO PAÍS
Às vezes costumo misturar os assuntos para falar das mazelas do nosso país que não consegue ser sério e é tão contraditório e paradoxal. Não temos políticas públicas para reduzir as profundas desigualdades sociais, mas um assistencialismo “barato” e caro que faz de conta que as pessoas pobres e miseráveis estão mudando seu nível econômico e político de vida. Tudo não passa de uma farsa.
Fora de contexto, o Natal virou uma festa pagã como nos tempos dos celtas e romanos que se esbaldavam na passagem do solstício no hemisfério norte durante as colheitas de suas safras. O cristianismo, que não é nada monoteísta, cheia de lendas (o Antigo Testamento) copiadas de civilizações passadas, como dos sumérios e egípcios, agora vê seu Natal do nascimento de Cristo se tornar num ritual de paganismo. Será a maldição da lei do retorno?
O profano voltou como naqueles tempos remotos condenados pela Igreja Católica. Nesse período do ano, as pessoas hoje só pensam em se refestelar em seus banquetes com suas mesas recheadas de comidas e bebidas. Embriagam-se no luxo das imagens luminosas para idolatrar seu deus Papai Noel. No afã dos presentes, os pobres se endividam no consumismo que entope nosso planeta de lixo. As propagandas comerciais são as vitoriosas.
AS REFORMAS “SALVADORAS”
Deixemos de lado essa passagem natalina pagã e mergulhemos na outra das reformas onde cada uma é tida pelos nossos representantes parlamentares como a salvação do Brasil. É um filme repetido e arranhado. Enquanto isso, o Brasil nunca é passado a limpo.
Agora é a vez da tributária, toda complicada que tem até imposto do “pecado” – lembra até dos 10 Mandamentos e da religião que criou a culpa – mas, contraditoriamente, isentam as armas de taxação. Tudo muda para ficar no mesmo lugar, ou piorar, como a trabalhista escravagista e a previdenciária.
Ninguém – falo desse Congresso Nacional reacionário, traidor da pátria – quer fazer uma reforma eleitoral séria e completa (não as emendas tapa buracos) que evite, pelo menos, o crime do derramamento de dinheiro na compra de votos, como aconteceu em Vitória da Conquista, o maior de toda sua história.
Muita gente está sendo presa pelo Brasil a fora, mas não vejo nenhuma apuração aqui em Conquista para apurar e investigar os fraudadores diplomados recentemente, que se aproveitaram do eleitor fraco de espírito, cúmplice da mesma laia. Todos fazem de conta que o pleito foi democrático e gerador de mudanças sociais. Esse sistema arcaico e manipulador não passa de um “conto do vigário”.
Do outro lado, o governo federal decreta um pacote fiscal de cortes nos gastos do orçamento para ajustar suas contas, mas o Congresso traidor, um dos mais caros do mundo, fica intocável e nada de reduzir suas benesses, penduricalhos, mordomias, verbas de gabinete e indenizatórias.
Com raras exceções, não passam de um bando de imorais que se acham na moral de falar em moralidade fiscal. Uma dessas imoralidades são as emendas parlamentares, verdadeiras fontes de corrupção e arrombamento dos cofres públicos. Elas nem deveriam existir, mas se o governo falar nisso será imediatamente cassado.
Para as forças armadas, o poder executivo – na verdade não governa, mas obedece ao Congresso traidor e cancro da nação, cheio de extremistas nazifascistas – anuncia um arremedo de cortes nas despesas, tudo para agradar os generais desocupados que aqui e acolá estão conspirando um golpe de Estado, inclusive com ajuda da elite burguesa e do agronegócio que devasta o meio-ambiente e mente botar comida em nossa mesa.
No mais, seguimos nas campanhas de doações de caridade ou esmolas de quilos de alimentos, crentes cristãos de que estamos fazendo a nossa parte para melhorar o Brasil irremediável desde os tempos coloniais. Com essas ações assistencialistas de dar o peixe sem ensinar a pescar, procuramos nos redimir de nossos pecados para ganhar o reino dos céus, sempre à custa dos miseráveis.
Os que podem seguem curtindo suas festas em suas casas, bares e restaurantes, com um celular na mão e um carro, exibindo seus prazeres dionisíacos da carne e adorando o deus Baco. O negócio é ter uma moeda para pagar a passagem ao barqueiro que irá lhe levar para o outro lado da margem do rio fumacento e turvo de almas penadas.
Aqui na terra brasis, assim vamos seguindo nossas vidas monótonas e marrentas como se não houvesse morte, tentando enganar a nós mesmos de que tudo é belo e maravilhoso. Não temos mais domínio de nós mesmo e vivemos na base do estouro da boiada em disparada, como na música do nosso compositor Geraldo Vandré.
As violências brutais, as corrupções e os crimes hediondos passam nos noticiários e outros voltam na mesma velocidade como se fossem roteiros normais que não mais nos incomodam. Apenas dizemos que é assim mesmo e que tudo isso faz parte da vida, como esse Congresso traidor a conduzir nossos destinos.
CASCOS E FERRADURAS
– Nem venha que hoje estou nos cascos!
Conforme rezam as lendas, isso nos faz lembrar do cavalo do guerreiro Átila, rei dos hunos, cujos cascos queimavam até a grama por onde passava, ou o do Gengis Khan, imperador dos mongóis. Terríveis também eram os cascos dos cavalos dos romanos durante as batalhas pela conquista de territórios, e nem precisava ser de inimigos.
Nunca esqueci de um “coronel” que passava a galope em seu cavalo em frente à nossa porta na estrada de cascalho, sempre à noite. Eu ainda era menino e ouvia de longe o bater cadenciado dos cascos do seu cavalo. Deveria ser um Manga-larga-Machador dos bons com suas ferraduras.
Estar nos cascos entende-se estado de irritado e nervoso com a pessoa mais próxima do seu convívio ou por causa dos seus problemas do dia a dia. Tem o sentido também de estar firme, forte e bem arrumado ou arrumada no vestimento e na aparência. São coisas do nosso português e até de expressões regionalistas.
Quando se fala em cascos vem logo em nossa cabeça a associação com ferraduras fabricadas pelos antigos ferreiros para serem colocadas nos cavalos, burros, mulas e até em jumentos. Outra vez nos vem à mente os tempos dos tropeiros e dos filmes dos caubóis do velho faroeste. Por onde eles cortavam sempre existia um ferreiro à beira da estrada, numa vila ou cidade.
Para nos ajustar com a realidade do nosso mundo atual, vou ficar mesmo nos cascos dos irritados e dos brutos, tipos cavalos. Percebeu, meu amigo, como quase todo mundo hoje anda nos cascos? Para essa gente só estão faltando as ferraduras. Acho até que está na hora de ressuscitarmos a profissão de ferreiro e estabelecer um em cada esquina de rua e avenida.
Basta alguém pisar no casco do outro, seja dentro de um ônibus ou em qualquer lugar, para sair faíscas de palavrões e estupidez. Tem caso até de morte. Quanto maior o tamanho da cidade, maior ainda a irritação e a violência. É o progresso que nos fazem assim.
– O pior, cara, é quando a pessoa já levanta nos cascos para enfrentar a “guerra” lá fora – disse um amigo meu numa prosa de bar, depois de umas tantas geladas.
Ele emendou o papo de que o lugar onde existe mais pessoas nos cascos é no trânsito. Basta um pequeno acidente, uma sinalização errada ou uma cortada de mal jeito, para o indivíduo sair lá de dentro do seu carro com uma pedra na mão, uma arma para atirar no outro ou nos cascos mesmo, com ferradura e tudo.
– Ah, cara, você esqueceu da política travada nos dias atuais, principalmente quando os cascos partem dos radicais fundamentalistas e extremistas de direita! Têm aqueles empedernidos de esquerda também! Haja cascos de intolerância!
– É bicho, não podemos deixar de fora também a religião, a questão de gênero e raça! Imaginou se houvesse uma lei onde cada casco irritado fosse obrigado a andar de ferradura? Pensou o bater de ferraduras nas calçadas, praças e nos escritórios? Os ferreiros iam “matar a pau” e ganhar muito dinheiro.
– Coisa seria nas salas dos patrões exploradores irritados, só com a cabeça no lucro! E tome cascos com ferraduras nos pobres dos funcionários!
– Vamos deixar esse papo de cascos e ferraduras de lado e tomarmos nossa cerveja sossegado, porque já estou vendo um sujeito ali na mesa que está nos casos com a companheira.
– Pode até ser coisa de ciúmes, ou porque ouviu a nossa conversa sobre cascos e ferraduras.














