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E A QUESTÃO DO CONSUMISMO?

Se o meu vizinho ao lado está ganhando muito dinheiro vendendo carvão, eu também vou fazer o mesmo. Se alguém comete um ilícito ou malfeito para se enricar, eu também tenho o direito de realizar a mesma prática. É uma lógica absurda que não se justifica.

É assim que o mundo pretende reduzir a elevação das temperaturas e conter o aquecimento global? Nesta COP30, de Belém (mais uma semana de discussões), ainda não vi na agenda um debate sobre o consumismo exagerado que provoca impacto no meio ambiente.

Se um país está consumindo mais produtos, inclusive coisas supérfluas produzidas pelas indústrias, o outro também vai incentivar o consumo para crescer sua economia e ter um PIB (Produto Interno Bruto) maior.

Não se fala de desconstrução desse consumismo. Se meu amigo comprou uma camisa bonita, um sapato ou um tênis de marca, um aparelho de última geração para sua casa, guiado pela inteligência artificial, também vou fazer de tudo, mesmo ficando endividado, para também possuir o mesmo. É a questão da cobiça.

Ter consciência ecológica não é só plantar uma árvore, deixar de jogar lixo na rua, nas estradas, rios e mares. É muito mais que isso. Na hora de fazer compras compulsivas desnecessárias pela internet ou mesmo presencial nas lojas, ninguém pensa em consciência ecológica. Prefere o prazer ou a “felicidade” de comprar, comprar e comprar. Assim acontece em outras coisas e hábitos.

Como frear esse avanço do aquecimento global, se os países desenvolvidos tudo fazem para aumentar o consumo das pessoas? As grandes potências, como os Estados Unidos, comandados por Trump, investem cada vez mais na extração dos combustíveis fósseis, no caso o petróleo. Muitos são negacionistas da ciência.

Na China é o carvão, embora tenha projetos de produção de energia limpa, como a solar. No entanto, permanece o carvão soltando gases tóxicos no ar. É certo que o Brasil avançou bastante na transição energética, mas ainda representa pouco em relação à emissão do CO2 e do metano. Temos mais bois que gente no país, e o negócio é exportar mais carne.

Há mais de 50 anos que se fala em reduzir a exploração de petróleo. Ao invés disso, só cresceu. Alguém acha que os países árabes vão deixar de perfurar mais poços? Claro que não, mesmo porque se fizerem isso, vão viver de que? Eles não têm outras fontes econômicas que substituam o petróleo. Vendem o produto para comprar alimentos dos criadores e agricultores que também cometem suas agressões contra a natureza. É o ciclo da vida.

Há séculos que o planeta vem sendo destruído pelas fumaças saídas das chaminés das fábricas, pelo lançamento de substâncias venenosas nos solos e rios através da exploração de minérios, pelos desmatamentos e queimadas para plantar grãos e criar gado, dentre outras agressões pela corrida de mais riquezas.

Claro que existem ações de sustentabilidade, mas ainda são pontuais se compararmos com o rombo, as feridas e as crateras feitas na terra, que está em ebulição através das catástrofes e tragédias humanitárias.

Será que ainda dá tempo de fechar a conta? Os ricos estão dispostos a financiar os pobres a construírem essa transição energética?  Vão fazer suas partes nessa implementação das metas estabelecidas na COP30? Vão colocar mais grana nesse fundo financiador? Ou vão manter seu roteiro de mais gastanças, destruição e consumismo?

O CANGAÇO ENDÊMICO E O EPIDÊMICO

O historiador e escritor Frederico Pernambucano de Mello, autor de “Guerreiros do Sol”, classifica o cangaço em duas fases, o endêmico e o epidêmico. O primeiro se situa a partir da segunda metade do século XIX, um tipo mais romântico e bonachão, com suas regras, normas e éticas.  O segundo, nas primeiras décadas do século XX, tendo como auge 1926, mais violento e com maior número de grupos atuantes. Lampião foi o expoente dessa fase,

Sobre os dois ciclos nordestinos, o da cana e o do gado, ele cita Câmara Cascudo, quando enfatiza que o primeiro não poderia ter produzido o cangaceiro. Exagero a parte, o homem do cangaço disputa com o próprio vaqueiro a primazia, no representar do modo mais completo, o conjunto dos atributos que caracterizam o ciclo do gado.

Ninguém mais que ele (o vaqueiro) soube gozar e sofrer, a um só tempo, as peculiaridades do viver nômade. “Foi, a ferro e fogo, senhor de suas próprias ventas, atuando sem lei, nem rei”. Frederico destaca que sempre existiu uma tradição de simbiose e simpatia entre o cangaceiro e o coronel através de gestos de auxílio constante entre um e outro.

Existiam entre eles uma relação de alianças de apoios mútuos, numa forma espontânea onde uma parte não era patrão da outra para sua sobrevivência. Mediante os acordos, o bando colocava-se a serviço do fazendeiro ou chefe político. Tudo se convertia em contrapartida, “naquela figura tão decisivamente responsável pela conservação do caráter endêmico de que o cangaço sempre desfrutou no Nordeste, que foi o coiteiro.

O escritor alagoano Graciliano Ramos, em “Viventes das Alagoas” ressalta que a aliança se mostrava vantajosa às duas partes porque ganhavam os bandoleiros, que obtinham quartéis e asilos na caatinga, e os proprietários que se fortaleciam cada vez mais. O relacionamento não representava vínculo de subordinação entre os dois. Existia ausência de patrões.

De acordo com estudos publicados pelo Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (1974), houve cangaço dentro do cangaço, isto é, modalidades criminais distintas. Em cada modalidade tinha uma forma de viver, bem como de conduta e violência empregada.

Para Frederico Mello, existia o cangaço-meio de vida, o da vingança e aquele do refúgio, principalmente quando o sertanejo cometia algum crime e estava sendo perseguido pelas volantes. Na primeira forma, Mello aponta Lampião e Antônio Silvino como representantes máximos.

O de vingança foi o traço definidor mais forte, na opinião de Mello, o cangaço nobre, representado pelo Sinhô Pereira, Jesuíno Brilhante ou Luis Padre. Na terceira forma, o cangaço figura como última instância de salvação para o homem perseguido.

Quanto aos modos de guerrear dos indígenas e dos cangaceiros em território inóspito, difícil de penetração, o autor de “Guerreiros do Sol” escreve que os portugueses, que usavam doutrinas militares clássicas, tiveram muito que aprender. Essa situação ocorreu não somente entre os portugueses, mas também no caso holandês que sofreu movimentos de resistência.

Na guerra contra os holandeses, por exemplo, historiadores destacam a contribuição militar do rastejador. O frei Manuel Calado de Salvador cita o capitão Francisco Ramos, índio ou mameluco, como o um dos mais espertos homens em diligência no Brasil.

Quem descreve com detalhes o papel do rastejador durante a década de 30 é Ranulfo Prata. Em trecho da sua narração diz que ele “segue a tropa pressurosa, com o batedor à frente, “escanchado” no rastro. Sem perde-la, trazendo-a sempre debaixo dos olhos atentos, a marcha se estira por dias e semanas, até que as feras humanas, acuadas longe, ofereçam combate, negaceiem e escapem em fuga precipite”.

O rastejador percebe pequena folha machucada, cinza de cigarro ou barulho, um fósforo, toiças de capim acamado. “Segue os pequenos animais, o preá, de pata minúscula, o teiú, que mal acama a vegetação sob seu peso leve, o tatu-bola, todo delicadeza, a pisar o chão com sutiliza de quem traz veludo nos pés”.

No que tange ao banditismo no Nordeste, Frederico de Mello faz referência a salteadores ainda no século XVII. “Ao longo do período de colonização holandesa, vamos surpreender nosso banditismo caboclo enriquecido pela presença de estrangeiros, desertores das tropas de ocupação…”

Segundo ele, houve chefes de grupos que eram holandeses, como o caso do célebre Abraham Platman e Hans Nicolaes, que agia na Paraíba, à frente de 30 bandoleiros, por volta de 1641. Ele lembra ainda que foi na segunda metade do século XVII que o bandoleiro pernambucano, José Gomes, o Cabeleira, desenvolveu sua atividade.

No entanto, somente em fins do século XVII, o banditismo começa a se converter no cenário por excelência, até porque, no litoral, a colonização florescia em todos os sentidos. O ciclo do gado, com sua malha vegetal quase impenetrável e uma cultura receptiva à violência, fornecia um cenário propício ao banditismo. Graciliano Ramos afirma que o cangaço era um fenômeno próprio da zona de indústria pastoril, no Nordeste.

No entanto, Câmara Cascudo assinala que o cangaço não existia somente no sertão, mas que era uma figura também presente em outros países. O historiador Hobsbawn, em seu livro “Bandidos”, lançado em 1969, reafirma a tese da universalidade.  Segundo ele, o banditismo social se encontra em todas as Américas, na Europa,  no mundo islâmico, na Ásia e até na Austrália.

NARIZ DE PALHAÇO

(Chico Ribeiro Neto)

As luzes se apagam. A orquestra ataca, acendem só as luzes do picadeiro e o coração bate mais ligeiro. Começa o desfile de todas as atrações do circo: palhaços, malabaristas, trapezistas e os dois caras do Globo da Morte. “Senta aí, meu irmão!”

O encantamento do circo faz até a pipoca ficar mais gostosa. Tudo é lindo, tudo emociona, e ninguém liga se tem um buraco na meia da trapezista.

Em Ipiaú (BA), onde nasci, quando o circo chegava dois palhaços de perna de pau percorriam a cidade, enquanto outros marcavam os pulsos das crianças com uma cruz de carvão, o que garantia o acesso gratuito ao espetáculo da noite. “Gosto muito de mentiroso, doido e palhaço”, dizia o escritor Ariano Suassuna.

Gostava de ir ver o circo de manhã, na hora da faxina. O mágico fazendo a barba e a trapezista, de short, dava banho de mangueira no elefante. Achava tudo diferente e bonito. Quem nunca teve vontade de fugir num circo?

Lembro mais dos circos Nerino e Tihany. Fundado pelo casal Nerino e Armandine Avanzi, em 1913, o Circo Nerino percorreu todo o Brasil até setembro de 1964, quando encerrou as atividades.

O fundador, Nerino Avanci, criou o palhaço Picolino, mais tarde sucedido pelo filho Roger. A Escola Picolino de Artes do Circo (hoje o Espaço Multicultural Circo Picolino), em Salvador, recebeu este nome em homenagem a Roger Avanzi, fundador da primeira escola de circo do Brasil. O admirável trabalho do Circo Picolino já completou 40 anos.

Veja um trecho da entrevista do palhaço Plim-Plim (José Carlos), postada no congressoemfoco.com.br, em 12 de dezembro de 2009:

“Em manifestações, por que o nariz de palhaço te incomoda?”

“Eu, sinceramente, quando vejo uma cena com alguém com um nariz de palhaço, sem estar no ofício, eu me sinto ofendido. Tenho isso como profissão e as pessoas colocam como uma coisa banal. Eu vivo daquilo. O cara vai lá fazer um protesto de saúde e usa um nariz de palhaço. Eles poderiam usar uma máscara da gripe, mas usam o nariz de palhaço como banalização”.

Nenhum palhaço gosta quando se usa o termo “palhaçada” para se referir a uma atitude ou manifestação considerada ridícula, uma brincadeira de mau gosto, presepada.

Nunca esqueço o que o ator Bemvindo Sequeira me contou uma vez. Ele, para se aprimorar como ator, resolveu passar uns dias num circo mambembe no subúrbio de Periperi. Teve uma noite em que o bebê do palhaço estava com febre alta. O palhaço fazia sua apresentação no picadeiro e no intervalo corria para trás da cortina, onde estava o berço, para tomar a temperatura do filho. Minutos depois, voltava pra fazer graça.

O circo é uma lição de vida. É bom fazer sempre uma graça, mesmo que tenha uma febre atrás da cortina.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

 

O RAIMUNDO PINTOR

Com sua paciência, voz mansa e calma, Raimundo José dos Santos, o “Raimundo Pintor”, a longos anos nesse ofício, em Vitória da Conquista, vai aos poucos fazendo um encontro das cores nas paredes, que dão vida e charme aos lugares. Raimundo não é somente um pintor qualquer, como tantos outros por aí. É também uma espécie de grafiteiro e desenhista das palavras e figuras. Basta uma ideia, e do seu pincel vão brotando as imagens reais, como neste letreiro do Espaço Cultural A Estrada onde estão os traços de um “S” no formato de uma estrada, com gentes andantes numa peregrinação ao seu ponto final.  Um livro representa a fonte da vida onde, como diz o nosso estradeiro Dal Farias, o conhecimento liberta. Raimundo não é somente requisitado em Conquista, mas também em outras cidades da região para pintar mercadinhos, oficinas, casas comerciais e até letreiros em prédios. Sente-se que ele faz sua pintura com amor e dedicação. São obras que merecem ser admiradas pela sua perfeição. Nossas lentes flagraram suas pinceladas. “Raimundo Pintor” vai além das tintas combinadas em paredes de muros e cômodos. É também um propagandista dos slogans e marcas empresariais. Com ele, segue o dom de pintar, sem melar sua arte. Não é somente um simples pintor, é um artista das letras e das ideias desenhadas.

BERRA BERRANTE!

Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

O vaqueiro andante

A ferro, gibão e fogo,

No ciclo do gado,

Sem lei, nem rei,

Berra seu berrante,

Faz o seu ponteio,

Rasga do seu peito,

De ar puro e cheio,

Como no aboiar do aboiador,

Mata a saudade do seu amor,

Que bem distante lá ficou.

 

Berra o berrante!

Do Nordeste ao Centro-Oeste,

Do Brasil colonial,

Cortando o sertão agreste,

Pelas águas do Pantanal.

 

Feito do chifre do boi,

Berra o berrante,

Ao som do arrasto da boiada,

No tom que é hora da boia,

No sinal de perigo inimigo,

Que é chegado o entardecer

Da comitiva descansar

Da longa jornada,

Para causos, prosear,

A moça bonita, namorar.

 

Berra o berrante!

Em torno da fogueira,

E o violeiro começa a violar,

Aquela raiz da terra cancioneira,

Que faz até os animais relaxar.

 

O berrante está até na Bíblia,

Para os judeus é o xafar,

Do bode ou do carneiro,

Símbolo sagrado para orar,

Pro sertanejo é berro estradeiro,

Berrante valente a berrar!

 

 

 

VEREADORES FALAM DAS CHUVAS

De um modo geral, os vereadores de Vitória da Conquista aproveitaram a sessão de ontem (quarta-feira – dia 12/11) para falar sobre os transtornos que as chuvas do último domingo causaram à cidade, afetando centenas de moradores, principalmente dos bairros Jurema e Lagoa das Flores.

O parlamentar Adinilson Pereira, além de tratar das questões das chuvas, falou sobre as nominações de ruas que devem ser oficializadas em Lagoa das Flores e em Jaraguá visando acabar com o caos nas correspondências endereçadas aos moradores. Destacou também os transtornos provocados pelos alagamentos de ruas e avenidas.

Andreson também citou o problema das chuvas, acrescentando que longe de tirar proveito da situação, a administração pública precisa ter mais diálogo para enfrentar a questão. Disse que a Câmara não deve assinar um cheque em branco para a prefeita ao se referir ao empréstimo solicitado de 400 milhões de reais.

O vereador Bibia criticou quem se aproveitou da situação e tirou vídeos dos alagamentos para atacar a administração pública. Aproveitou a oportunidade para declarar que o Denit, depois da saída da Via Bahia, nada está fazendo em termos de melhorias na BR-116.

Cris Rocha também comentou sobre os transtornos das chuvas e afirmou que a cidade vive há anos sem resolver o antigo problema da falta de drenagem para escoamento das águas. Segundo ela, Conquista precisa urgentemente de obras de micro e macrodrenagem, para solucionar os problemas das chuvas.

A COP30 E A TORRE DE BABEL

Quando alguém quer se referir a confusão, gente falando ao mesmo tempo em línguas diferentes, impossibilidade de se chegar a um acordo ou a um denominador comum na conclusão de uma tarefa em conjunto, se diz que “aquilo está uma verdadeira Torre de Babel”.

Pois é, seguindo este ditado popular, diria que a COP30, como tantas outras conferências dessa natureza já realizadas, é uma Torre de Babel onde participantes de vários países falam línguas diferentes e, no final, ninguém se entende, tornando difícil se chegar a uma conclusão.

– Mas, numa conferência mundial como esta, literalmente as tribos falam línguas diferentes emboladas – disse um amigo meu ao rebater meu argumento.

– Verdade, meu camarada, mas estou falando em línguas diferentes no sentido figurado. Posso explicar melhor. Nessas conferências, um grupo elabora um termo de preservação da natureza, mas o outro não concorda. Como exemplo, cito que as grandes potências e as nações árabes do Oriente não abrem mão de parar de extrair petróleo, um combustível fóssil poluidor do meio ambiente.

Este é apenas um exemplo, mas existem muitos outros divergentes onde não se chega a um senso comum, como a criação de um fundo financiador de preservação das florestas ou de os países desenvolvidos liberarem recursos visando ajudar os mais pobres, vítimas das mudanças climáticas ou do aquecimento global.

Contam os estudiosos que a história da Torre de Babel foi inspirada nos zigurates reis, construtores de grandes templos em forma de pirâmides, na Mesopotâmia. O mais famoso zigurate, Etemenanki, da Babilônia (hoje Iraque), quis erguer uma torre cujo o topo se elevasse até o céu, para homenagear o deus Marduk.

Acontece que os construtores, usando tijolos cozidos e betume com argamassa, falavam várias línguas, criando-se um desentendimento entre eles e o projeto não foi concluído. Apontam ainda que essa torre, na cidade de Nurode, teria 90 metros de altura, outros que 212 e ainda que chegaria a 2.484 metros, um feito e tanto para aquela época, há cerca de dez mil anos no Crescente Fértil (Mesopotâmia) dos sumérios.

Essa versão da torre está no Antigo Testamento da Bíblia, no livro do Genesis. No pós-dilúvio quiseram construir uma torre visando evitar a dispersão da humanidade pela terra. Portanto, é uma inspiração tirada daquela antiga civilização.

Na verdade, trata-se de um mito, mas a narração é que Deus, para limitar a ambição humana, confundiu as línguas, resultando na dispersão das pessoas pelo mundo. Babel tem significado duplo. Um traduz ser “Portão de Deus”, mas em hebraico fala-se em confusão, desorganização ou mistura.

Não quero aqui menosprezar as boas intenções, mas o problema é que dentro desse conjunto, existem “línguas diferentes”, ou seja, interesses particulares e negacionistas do clima que dificultam fechar acordos que cumpram as metas estabelecidas para reduzir as altas temperaturas do planeta.

Quem está longe de Belém, só assistindo os noticiários do dia a dia, observa-se que a COP30 não passa de uma grande confusão de gente naqueles pavilhões verde, azul e até vermelho falando “línguas diferentes” como na Torre de Babel dos zigurates babilônicos.

Creio que Deus não mete seu bedelho nos construtores, como escreve a Bíblia, e fica lá de cima como um matuto só assuntando as coisas ruins e confusas dos homens. “Eles que se entendam se querem preservar suas moradias para as futuras gerações, ou tornar suas casas em verdadeiras ruínas e escombros. Afinal de contas foi Eu mesmo que criei o livre arbítrio” – assim falou Deus.

 

O MONOPÓLIO DAS COMUNICAÇÕES

Há uns vinte anos ou mais nos encontros jornalísticos e como dirigente sindical lembro das discussões sobre o monopólio das comunicações de massa por parte das grandes empresas familiares dos jornais (O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, Tarde, Jornal do Brasil) e das redes de televisão do país, como Globo, Bandeirantes, Record e SBT.

Este cenário, hoje pouco debatido, persiste e representa a ditadura da informação pelos grandes conglomerados, que subvertem e distorcem os fatos quando são de seus interesses. A nossa luta crítica sempre foi reverter este quadro em favor da democratização da comunicação visando abrir espaços para um jornalismo alternativo, mais independente e imparcial.

Mesmo com o avanço das tecnologias e o advento da internet onde as notícias chegam em tempo real e as pessoas conseguem se interagir, o monopólio das comunicações se mantem num sistema capitalista selvagem que manipula as notícias e, na maioria das vezes, a maior vítima é a verdade, sobretudo nas guerras.

Quero aqui focar especificamente na questão da mídia televisiva, especialmente na Rede Globo que, com sua estrutura de capital, sua fama ao longo dos anos e liderança na audiência, monopoliza, por exemplo, as transmissões esportivas de futebol dos campeonatos brasileiros e sul-americanos mais importantes (Série “A”, Copa Brasil, Sul-Americana e Libertadores), apesar da Band divulgar que é o canal dos esportes. A Fórmula 1 agora vai retornar para ela.

Estou apenas me referindo ao futebol porque é o monopólio mais gritante onde o telespectador, ou o torcedor de menor poder aquisitivo, que só possui o canal “aberto” (poucos programas), não tem outra opção se quiser assistir o seu clube jogar, a não ser que compre uma transmissão ou faça uma assinatura no canal fechado.

Outro problema são os horários dos jogos durante o meio de semana, sempre a partir das nove e meia da noite, um horário complicado para quem vai aos estádios nas capitais, tendo que sair depois das 23 horas, pegar ônibus e chegar em casa lá pela madrugada, se expondo à violência da bandidagem. Por que esses horários não poderiam ser mais cedo? A resposta está com a CBF.

No Campeonato Brasileiro, por exemplo, a maior parte das transmissões são reservadas ao Flamengo e ao Corinthians, os times que dão mais audiência por terem as maiores torcidas do Brasil. Não há dúvida que esta é uma exigência dos patrocinadores.

Bem, estes exemplos mostram com clareza o monopólio das comunicações, que detém o domínio nos noticiários, muitas vezes tendenciosos e parciais, levando o povo, a maior parte sem instrução e massa crítica, a acreditar em fatos distorcidos, sem contar que muitas notícias deixam de ser divulgadas quando são contrárias aos interesses dessas empresas, que são isentas de determinados impostos.

Na verdade, sempre existiu uma manipulação das informações desde os tempos dos coronéis que, com armas na mão e seus capangas, aterrorizavam os jornalistas e os donos dos jornais impressos que noticiassem seus malfeitos. Um exemplo bem próximo a nós é Vitória da Conquista. Muitos jornalistas foram agredidos, ameaçados e mortos.  O temor continua na passagem para a internet.

Nos tempos atuais, essas práticas são mais sutis e sofisticadas, mas permanece o poder e o capital (grandes patrocinadores) exercendo suas influências. A grande mídia se rende a eles, fazendo um papel contrário de formadores de opinião. Estão mais para deformadores.

A Rede Globo e a grande mídia em geral sempre tiveram um DNA elitista e oligárquico desde seu nascimento. Com rara exceção, a grande maioria apoiou a ditadura civil-militar de 1964 e teve o seu governo a favor ou contra. As eleições ainda são prova disso. Umas são mais escancaradas e outras mais subliminar.

Quem não se lembra do caso do governador Leonel Brizola, no Rio de Janeiro, onde A Globo tudo fez para derrubá-lo? E o episódio do debate do segundo turno das eleições presidências entre Collor de Melo e Lula, se não me engano em 1989?

Antes as novelas da Globo só tinham atores e atrizes galãs, brancos e bonitos. As novelas eram luxuosas e glamorosas. Os negros ficavam na cozinha tomando esporros. Foi uma mudança tardia depois de ter recebido muitas críticas dos movimentos negros. No entanto, andou por muito tempo na contramão da história.

Hoje houve uma reversão, até com certos exageros, mais por conta das exigências do mercado e com a intenção de angariar mais simpatia e audiência, depois de receber um monte de críticas. Ela está sendo até mais ecumênica, colocando pastores evangélicos nos elencos.

Quanto ao monopólio nas comunicações (a imprensa alternativa sempre foi sufocada pelos poderosos), o Congresso Nacional nunca ousou quebrar esse domínio com um projeto-de-lei, tendo como marco a democratização da imprensa. Não será este arcaico e atrasado que aí está que vai se atrever a acabar com este monopólio.

QUEREM ENGANAR A QUEM COM ESSE PAPO?

A fala do governo brasileiro no começa da COP30, em Belém, começa com uma ou mais contradições. Quer criar um grande fundo bilionário de proteção para preservar e reduzir as derrubadas das florestas, aumentar a produção de energia limpa renovável, mas, ao mesmo tempo, abrir mais poços de petróleo – combustível fóssil altamente poluidor do meio ambiente – inclusive na foz do rio Amazonas.

No discurso do presidente Lula não é mencionado esse fato da extração desse petróleo, como se ninguém estivesse sabendo. A maior enrolação desse papo furado foi o de sugerir que os lucros do petróleo sejam revertidos para investimentos em projetos de energia limpa.

Antes da COP, Lula bradou contra as exigências do Ibama com relação à perfuração de petróleo e justificou que a vizinha Guiana estava ganhando muito dinheiro com o combustível e que o Brasil também tem o direito de também fazer o mesmo. Dentro dessa ótica, ninguém quer parar de extrair petróleo, enquanto isso ficam no discurso leviano de reduzir o processo.

Os cientistas estabeleceram 1,5 graus como limite de aquecimento, para que não se perca o controle sobre os desastres que levariam fatalmente à destruição da humanidade através das catástrofes geradas pelas bruscas mudanças climáticas. Aí é que está o nó da questão quando sabemos que caminhamos para um aumento maior da temperatura, insuportável para o planeta.

É difícil acreditar nessa proposta de usar os lucros do petróleo para aplicar na energia limpa, principalmente no Brasil onde essa verba a mais reservada ao Tesouro (uma grande parte fica com os acionistas) é utilizada para cobrir os déficits fiscais ou desviada para outros setores, como cobrir rombos de empresas estatais. Quer enganar a quem com esse papo?

Por outro lado, a população só aumenta e, em consequência, o consumo e a demanda por mais energia, o que indica que vai virar um ciclo vicioso e nunca vai se parar de perfurar petróleo. Se um país vizinho está obtendo lucros com o petróleo, o outro também quer, visando crescer sua economia. É aí que os pactos e acordos assinados nessas conferências são para “inglês ver”. Não sou otimista quanto a um futuro de estabilização do clima.

Há mais de 60 anos que se vem falando em se acabar com a extração de combustíveis fósseis, caso do petróleo e do carvão, só que de lá para cá só aumentou nos países do Oriente Médio e, principalmente, por parte dos ianques imperialistas que atualmente atacam outras nações na cobiça do petróleo e outros minerais raros, como vem fazendo o estúpido negacionista Donald Trump.

Será que eles estão querendo enganar a natureza, como se estivesse dando um pirulito para uma criança? Esta não se deixa enganar, não perdoa as agressões e dá o troco na medida certa, como vem ocorrendo com as tragédias de grandes proporções em todas as partes do planeta.

A natureza está nos alertando há muito tempo que bastam de poluição, sujeiras, gazes tóxicos, incêndios, desmatamentos e que aqui não é lixeira dos consumistas de supérfluos. Está nos alertando que já começou o aquecimento global. Quem viver, verá mais catástrofes e mortes.

Somado a tudo isso ainda temos um bando de negacionistas poderosos, governos e multinacionais, que compram cientistas para alardear o falso de que aquecimento global não passa de uma falácia. O pior é que milhões ou bilhões desta velha terra maltratada e ultrajada, sem o menor senso crítico, acreditam neles porque são doutores e seus argumentos fazem parecer “convincentes”.

 

 

O CICLO DO GADO E OS VALENTÕES

Por muitos séculos os nordestinos, acossados pelas secas intermitentes e cruéis, nas lutas com os índios, pela falta de ordenamento dos governantes, sem lei e justiça, longe dos litorais e a conviver com o banditismo, viveram em total isolamento apegados ao misticismo religioso, suas crenças e suas culturas.

Sobre o flagelo das secas, vários narradores traçam cenas de terror. O padre Joaquim José Pereira, do Rio Grande do Norte, escreve que, além da seca, apareceu nos sertões do Apodi uma tal quantidade de morcegos, que mesmo à luz solar, atacavam as pessoas e os animais, já inanidos pela fome. Homens, mulheres e crianças eram encontrados mortos e moribundos pelas estradas. Entre os mortos, encontravam-se miseráveis ainda vivos prostrados no chão, cobertos pelos vampiros.

Frederico Pernambucano de Mello, em “Guerreiros do Sol”, um estudioso do Nordeste e do cangaço, nos narra que, “quando em fins do século XVII e ao longo do século XVIII a necessidade de expansão colonizadora empurrou o homem para além das léguas agricultáveis do massapê, projetando-se no universo cinzento da caatinga, fez surgir um novo tipo de cultura cujos traços mais salientes podem ser resumidos na predominância do individual sobre o coletivo”.

O homem passou a ser condicionado pelo cenário agressivo que é o sertão. Ele experimentou sobreviver através das plantações, mas foi vencido pelas secas. Então, partiu para a criação do gado, criando assim um novo ciclo que fez surgir os valentões nas figuras dos cabras, dos capangas, dos jagunços, dos pistoleiros e dos cangaceiros.

O escritor Graciliano Ramos escreveu em um dos seus livros que, “sendo a riqueza do sertanejo, principalmente constituída de animais, o maior crime que lá se conhece é o furto de gado. A vida humana exposta à seca, à fome, à cobra e à tropa volante, tinha valor reduzido – e pior que isso, o júri absolve regularmente o assassino. O ladrão de cavalo é que não acha perdão. Em regra, não o submete a julgamento, matam-no”.

Na verdade, o maior crime no sertão naquela época era roubar cavalos e bois. Para o ladrão, só restava a morte e de forma sangrenta. Aliados ao misticismo, ao culto da coragem e o apego ao direito de propriedade, os sertanejos estabeleciam um quadro de violência do ciclo do gado.

O viajante holandês Adriaen Verdonck constatou, em 1630, que na região próxima ao rio São Francisco, os moradores possuíam muito gado, que era principal riqueza e constituía na melhor mercadoria destas terras.

Além das intempéries do tempo e outros fatores adversos, os nordestinos tiveram que enfrentar uma guerra desesperada contra os índios, os verdadeiros donos daquelas terras, expulsos das zonas litorâneas.

Como exemplo, Frederico de Mello nos conta a luta que Teodósio de Oliveira Ledo teve que levar a cabo no início do século XVIII contra as nações tapuias, dos pegas e dos coremas, para se estabelecer com sua gente nos campos de Piancó (Paraíba). Essa guerra chegou a durar mais de 10 anos contra cerca de 10 mil indígenas.

O ciclo do gado também teve que enfrentar o felino. “A onça faz dura guerra a todos os gados do sertão”, escreve Fernando Denis, na primeira metade do século XIX. Esse animal, que atacava os rebanhos, foi exterminado pela bravura dos nordestinos.

Diante das guerrilhas indígenas, dos facínoras poderosos, o nordestino se tornou num homem desconfiado e exposto a emboscadas dos temidos “tiros de pé-de-pau, ou dos que dormiam na pontaria.

Frederico de Mello cita diversos autores, como Câmara Cascudo que chama a atenção para a carta régia de 1701 pela qual os criadores, em divergência com os plantadores de cana e mandioca, viram-se obrigados a procurar no sertão terras diferentes das exigidas por essas culturas

Este fator respondeu pelo incremento da internação sertaneja ao longo do século XVIII, tendo que enfrentar temperaturas infernais. A carta régia determinava que o criatório só poderia fundar-se para além de uma faixa de dez léguas da costa.

O autor de o “Guerreiros do sol” faz um paralelo sobre o ciclo do gado no Nordeste com a epopeia norte-americana da conquista do Oeste, quando relata que “quanto mais demorada tenha sido a fase cruenta de um processo de colonização, tanto mais duradoura se mostrará a permanência de hábitos violentos que não mais se justificam”.

O sertanejo sofreu uma estagnação em sua evolução por conta do isolamento em que esteve secularmente relegado. Sobre a questão dos valentões, Mello destaca a impressão que teve o viajante Henry Koster. Em sua visão, esses valentões eram homens de todos os níveis, cujo serviço consistia em procurar oportunidades para lutar. Onde chegavam, nas feiras ou nas festas, eles amedrontavam as pessoas.

Para o escritor paraibano José Américo de Almeida, o cangaceiro originou-se da instituição do guarda-costas, como uma necessidade de defesa das fazendas ameaçadas pelo gentio. Segundo ele, quando o cabra era despedido, sua reação era procurar um bando, mas historiadores contestam esta tese.

“O emprego do capanga, do cabra e do jagunço fez-se largamente no Nordeste ao longo de todo o ciclo do gado, nas questões de terra, nas lutas de famílias e, de modo particular, nas disputas políticas” – descreve Frederico de Mello.

Mais uma vez, Mello cita, o folclorista Câmara Cascudo, quando escreve que o sertão foi povoado dos fins do século XVII para o correr do século XVIII, por gente fisicamente forte e etnicamente superior.

Diz ele que esse nordestino enfrentava os índios, que não tinha medo de morrer nem remorso de matar. “As famílias seguiam o chefe que ia fazer seu curral nas terras povoadas de paiacus, janduís, panatis, pegas, caicós, nômades atrevidos, jarretando o gado e trucidando os brancos”.

Os sucurus, panatis e os coremas nutriam ódio contra os portugueses que tomaram seus lugares marítimos. Em contrapartida, eles se levantaram em todas as partes contra os sertanejos que não se sentiam seguros.





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