Há uns vinte anos ou mais nos encontros jornalísticos e como dirigente sindical lembro das discussões sobre o monopólio das comunicações de massa por parte das grandes empresas familiares dos jornais (O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, Tarde, Jornal do Brasil) e das redes de televisão do país, como Globo, Bandeirantes, Record e SBT.

Este cenário, hoje pouco debatido, persiste e representa a ditadura da informação pelos grandes conglomerados, que subvertem e distorcem os fatos quando são de seus interesses. A nossa luta crítica sempre foi reverter este quadro em favor da democratização da comunicação visando abrir espaços para um jornalismo alternativo, mais independente e imparcial.

Mesmo com o avanço das tecnologias e o advento da internet onde as notícias chegam em tempo real e as pessoas conseguem se interagir, o monopólio das comunicações se mantem num sistema capitalista selvagem que manipula as notícias e, na maioria das vezes, a maior vítima é a verdade, sobretudo nas guerras.

Quero aqui focar especificamente na questão da mídia televisiva, especialmente na Rede Globo que, com sua estrutura de capital, sua fama ao longo dos anos e liderança na audiência, monopoliza, por exemplo, as transmissões esportivas de futebol dos campeonatos brasileiros e sul-americanos mais importantes (Série “A”, Copa Brasil, Sul-Americana e Libertadores), apesar da Band divulgar que é o canal dos esportes. A Fórmula 1 agora vai retornar para ela.

Estou apenas me referindo ao futebol porque é o monopólio mais gritante onde o telespectador, ou o torcedor de menor poder aquisitivo, que só possui o canal “aberto” (poucos programas), não tem outra opção se quiser assistir o seu clube jogar, a não ser que compre uma transmissão ou faça uma assinatura no canal fechado.

Outro problema são os horários dos jogos durante o meio de semana, sempre a partir das nove e meia da noite, um horário complicado para quem vai aos estádios nas capitais, tendo que sair depois das 23 horas, pegar ônibus e chegar em casa lá pela madrugada, se expondo à violência da bandidagem. Por que esses horários não poderiam ser mais cedo? A resposta está com a CBF.

No Campeonato Brasileiro, por exemplo, a maior parte das transmissões são reservadas ao Flamengo e ao Corinthians, os times que dão mais audiência por terem as maiores torcidas do Brasil. Não há dúvida que esta é uma exigência dos patrocinadores.

Bem, estes exemplos mostram com clareza o monopólio das comunicações, que detém o domínio nos noticiários, muitas vezes tendenciosos e parciais, levando o povo, a maior parte sem instrução e massa crítica, a acreditar em fatos distorcidos, sem contar que muitas notícias deixam de ser divulgadas quando são contrárias aos interesses dessas empresas, que são isentas de determinados impostos.

Na verdade, sempre existiu uma manipulação das informações desde os tempos dos coronéis que, com armas na mão e seus capangas, aterrorizavam os jornalistas e os donos dos jornais impressos que noticiassem seus malfeitos. Um exemplo bem próximo a nós é Vitória da Conquista. Muitos jornalistas foram agredidos, ameaçados e mortos.  O temor continua na passagem para a internet.

Nos tempos atuais, essas práticas são mais sutis e sofisticadas, mas permanece o poder e o capital (grandes patrocinadores) exercendo suas influências. A grande mídia se rende a eles, fazendo um papel contrário de formadores de opinião. Estão mais para deformadores.

A Rede Globo e a grande mídia em geral sempre tiveram um DNA elitista e oligárquico desde seu nascimento. Com rara exceção, a grande maioria apoiou a ditadura civil-militar de 1964 e teve o seu governo a favor ou contra. As eleições ainda são prova disso. Umas são mais escancaradas e outras mais subliminar.

Quem não se lembra do caso do governador Leonel Brizola, no Rio de Janeiro, onde A Globo tudo fez para derrubá-lo? E o episódio do debate do segundo turno das eleições presidências entre Collor de Melo e Lula, se não me engano em 1989?

Antes as novelas da Globo só tinham atores e atrizes galãs, brancos e bonitos. As novelas eram luxuosas e glamorosas. Os negros ficavam na cozinha tomando esporros. Foi uma mudança tardia depois de ter recebido muitas críticas dos movimentos negros. No entanto, andou por muito tempo na contramão da história.

Hoje houve uma reversão, até com certos exageros, mais por conta das exigências do mercado e com a intenção de angariar mais simpatia e audiência, depois de receber um monte de críticas. Ela está sendo até mais ecumênica, colocando pastores evangélicos nos elencos.

Quanto ao monopólio nas comunicações (a imprensa alternativa sempre foi sufocada pelos poderosos), o Congresso Nacional nunca ousou quebrar esse domínio com um projeto-de-lei, tendo como marco a democratização da imprensa. Não será este arcaico e atrasado que aí está que vai se atrever a acabar com este monopólio.