OS “FORASTEIROS” E A CONTRIBUIÇÃO PARA O CRESCIMENTO DE CONQUISTA
Não sei o porquê, talvez porque sempre gostei de assistir filmes do gênero, mas a palavra “forasteiro” me faz lembrar dos tempos do faroeste bang-bang norte-americano quando colonos começaram a desbravar o Oeste.
Quando chegava algum estranho num vilarejo sem lei, todos saiam nas portas e abriam as janelas para acompanhar seus passos até a entrada do salon, na delegacia ou no bar de meia porta dividida em duas bandas. Cada um fazia suas conjecturas sobre quem era e a sua origem. Muitas vezes era um pistoleiro ou justiceiro caça bandidos.
Foi só uma viagem ao túnel do tempo para falarmos sobre a grande contribuição que os chamados “forasteiros” deram para o desenvolvimento de Vitória da Conquista nos campos econômico, social e cultural. Não foram bandoleiros, mas gente do conhecimento e do saber.
Quando aqui cheguei, em 1991, para chefiar a Sucursal do Jornal A Tarde, com o passar dos anos, fui visto por muitos com certa indiferença, como um “forasteiro” que se metia e tudo e apontava críticas que “maculavam” a imagem da cidade. Como jornalista, só fazia o meu trabalho, com seriedade e ética.
Com todo respeito às grandes personalidades conquistenses que deixaram seus nomes marcados nesta terra pelos seus serviços prestados e até se tornaram conhecidos mundialmente, os “forasteiros”, ou aqueles que vieram de fora, merecem ser reconhecidos e também homenageados.
Primeiro gostaria de citar os filhos deste chão que construíram suas histórias e colaboraram para o desenvolvimento dessa sociedade, como Fernando Spínola, a professora Heleusa Câmara, Henriqueta Prates, Laudicéia Gusmão, o prefeito, deputado e governador Edvaldo Flores, o filólogo professor José de Sá Nunes, o grande poeta Laudionor Brasil, José Pedral Sampaio, Herzem Gusmão, o famoso cineasta Glauber Rocha e tantos outros que se foram.
No entanto, não podemos esquecer dos considerados “forasteiros”, no bom sentido, que também colocaram a mão na massa e com suas habilidades e inteligência se tornaram “imortais”, como o educador Abdias Menezes, vindo lá de Conde, na divisa entre Bahia e Sergipe, Olívia Flores (Aracatu ou Ituberá), Luiz Régis Pacheco Pereira (Salvador), vereador, prefeito (1942/45) e governador da Bahia, Camilo de Jesus Lima, escritor, jornalista e poeta, nascido em Caetité, professor Everardo Públio de Castro (Caetité), Euclides Abelardo de Souza Dantas (Salvador), primeiro jornalista em Conquista, padre Luiz Soares Palmeira (Rio de Janeiro, Alagoas e Caetité) que aqui montou o melhor colégio do estado, o poeta Heratóstenes Menezes, nascido no arraial Lage do Gavião, hoje Aracatu, o professor cientista Ubirajara Brito (Tremedal), o ex-deputado Elquison Soares (Anagé) e muitos outros que compõem uma extensa lista de notáveis.
Talvez tenha dado maior espaço aos “forasteiros”, mas nada intencional, mesmo porque todos sabem que existem muitos outros conquistenses natos que figuram na lista dos filhos ilustres que ajudaram Conquista ser o que é hoje, a terceira maior cidade da Bahia.
Lamentável que muitos, como sempre nos diz o professor Durval Menezes, foram apagados da nossa memória, principalmente pelas novas gerações. Eles deixaram de ser estudados e pesquisados e até riscados como nomes de ruas.
Além de empresários, intelectuais, escritores, educadores, temos uma enorme gama de artistas plásticos, músicos e construtores, como o mestre de obras, Luiz Alexandrino de Melo, que levantou diversos casarões que fazem parte do patrimônio arquitetônico conquistense. Temos ainda José Medeiros que, por encomenda de Edvaldo Flores, esculpiu a Venus grega, meninos e golfinhos que ficavam no Jardim das Borboletas (Praça Tancredo Neves).
Não poderia deixar de registrar aqui os Miguelenses que aqui formaram uma colônia e, com seus tinos para os negócios, ergueram o comércio de Vitória da Conquista. Portanto, devemos muito aos “forasteiros” que nesta terra montaram suas “tendas” e se tornaram filhos adotivos de Conquista.
MAIS UM CONSELHO SIMBÓLICO?
Nesta segunda-feira à noite (dia 06/10/2025), às 19 horas, na Casa Memorial Regis Pacheco, mais um Conselho Municipal de Cultura de Vitória da Conquista tomou posse para o biênio 2025/27, com a ausência do secretário de Cultura, Eugênio Avelino Lopes Sousa (Xangai). Esperamos que não seja apenas para cumprir mais um rito simbólico de fachada, como foram todos os outros até aqui.
É lamentável essa situação que acompanhamos ao longo dos anos, mas é uma dura realidade, porque este Conselho, principalmente, como tantos os outros, não tem sido ouvido pelo poder executivo em suas reinvindicações básicas.
A função do Conselho é deliberativa, apresentar proposições, votar requerimentos, sugerir, formular políticas culturais, representar os anseios da classe artística em geral em todas suas linguagens, cobrar e criticar a falta de ações para o setor.
O Conselho não tem o poder de executar projetos e programas, mas formular propostas de melhorias culturais para a comunidade como um todo e ser um elo entre o poder público e a categoria que faz e produz cultura.
Na verdade, esses objetivos não têm sido atingidos porque o colegiado tem sido utilizado como simples fachada ou como mais um objeto de decoração na mesa da Secretaria de Cultura e dos prefeitos eleitos.
Oxalá que este novo Conselho que acaba de tomar posse tenha voz, seja transparente e dialogue com os artistas e não seja utilizado apenas como mais um enfeite burocrático nas mãos dos executivos.
Ele é constituído de membros da sociedade civil e do poder público (Prefeitura e Câmara de Vereadores), mas, nos últimos anos tem ocorrido uma ausência gritante do legislativo na luta pela causa da cultura.
Por outro lado, muitos membros da sociedade civil não têm assumido seus mínimos compromissos de debater e participar das reuniões mensais. Muitas reuniões deixam de ser realizadas por falta de quórum. O Sistema Municipal de Cultura, elaborado em 2016, está defasado e o regimento interno do Conselho precisa ser revisto. Essas questões emperram quando chegam ao poder público.
Fui presidente do Conselho Municipal de Cultura, no biênio 2021/23, e encontrei muitos entraves quando se tratava de decisões de responsabilidade do poder executivo. Os requerimentos sempre foram engavetados e o Conselho terminava ficando engessado. Nossa maior luta foi a iniciativa de criar um Plano Municipal de Cultura para nortear e estabelecer diretrizes quanto as políticas públicas culturais.
Encontramos resistência dos representantes da Secretaria de Cultura para elaborar um projeto que, depois de sancionado pelo executivo, fosse aprovado pela Câmara de Vereadores, tornando-se leis com gastos inclusos no orçamento do município. Dentro desse Plano está prevista a criação de uma fundação ou empresa com a finalidade de gerir a cultura.
Propomos ainda criar o Museu Cajaíba, reformar e abrir os equipamentos culturais (Teatro Carlos Jheovah, Cine Madrigal e Casa Glauber Rocha), reativar o núcleo de preservação do patrimônio arquitetônico municipal e instalar a Casa dos Conselheiros com sedes próprias. Tivemos uma audiência com a prefeita e nossas solicitações foram arquivadas.
“Habemus” novo Conselho, com nova Mesa Diretora, que não seja mais um de fachada, simplesmente um jarro de decoração ou uma massa de manobra do executivo. Por sua vez, os artistas, intelectuais e os produtores de cultura têm o dever e a obrigação de cobrar ações.
DIRETORIA E OS CONSELHEIROS
A Mesa Diretora, depois da votação dos conselheiros, ficou composta por Washington George Rodrigues Cirne (presidente), Mariana Alves da Silva (vice-presidente), representando a sociedade civil e Maiza Fernandes Leite (secretaria) na condição de membro do executivo.
Pelo decreto de número 23.897, de 19 de setembro de 2025, fazem parte ainda do Conselho como membros do poder executivo Genevaldo Vieira Cordeiro (titular), Adriano Gama Borges (suplente), Marley Luciano Vital (suplentes), Gleice Keille Alves Pereira (titular) e Jeane Mary Soares Rocha (suplente).
Do legislativo foram indicados Cristiane Santos Rocha Cestari (titular), Ricardo Santos Costa (suplente), Williams Muniz dos Santos (titular) e Lara de Castro Araújo Fernandes (suplente).
Os conselheiros Abner Israel Marques Freitas (titular), Alan Kardec Cardoso Lessa (suplente), Esdras Rodrigues Santos (titular), Elison Nunes da Silva Lebrão (suplente) e Fabio Sena Santos (titular) representam a sociedade civil.
ENTRE O ARCAICO E O MODERNO
Uma das peculiaridades nordestina é o seu misticismo religioso, que ainda perdura até hoje. Os cangaceiros não fugiam disso, mas os tempos foram se modernizando e os sertanejos de um modo geral tiveram que conviver entre o arcaico e o moderno.
Dentro desse quadro, o folclorista Câmara Cascudo descreve que o sertão achava que a chuva vinha do céu e o trovão era castigo. O sol se escondia no mar até o outro dia. “Imperavam tabus de alimentação e os cardápios cheiravam ao Brasil colonial. Mandava-se fazer uma roupa de casimira para durar toda existência”.
Luiz Bernardo Pericás, em sua obra “Os cangaceiros” falava que o sebastianismo também estava arraigado na cultura oral, tanto de místicos como de cangaceiros. O povo do interior achava que algum dia o rei de Portugal, D. Sebastião, sairia das ondas do mar com todo seu exército e entraria no sertão para salvar os nordestinos das injustiças e da miséria.
No tempo arcaico, os livros mais lidos eram Lunário Perpetuo, a Missão Abreviada, o Dicionário da Fábula e o Manual Enciclopédico. Só homens iluminados liam o Lunário. A Missão também foi muito difundida no sertão nordestino na metade do século XIX. Era a principal obra dos beatos, “profetas” e religiosos leigos.
A religião, seja a institucionalizada ou popular, utiliza os instrumentos acessíveis do contexto em que está situada. De acordo com Pericás, assim, um conjunto de tradições solidificadas determinará o sentido do normal, do aceitável, do permitido e do proibido. Os códigos morais e as leis não escritas não precisam ser impostos pela força.
No caso do sertão, o que se constatou foi uma religião vinda de fora que se impôs lentamente por meio da penetração dos colonos portugueses e mamelucos e se modificando ao longo do tempo. Qualquer elemento de fora que pudesse pôr em risco ou aparentar ser uma heresia, era rechaçado. Um exemplo disso é que os sertanejos não aceitaram levar dromedários para o Nordeste. A população se assustou quando levaram esses animais de Argel para o Ceará porque vinham acompanhados de árabes a caráter, inclusive com turbantes. Para os cristãos, eles eram inimigos hereges.
Em 1894, o missionário escocês Henry John e auxiliares chegaram a Garanhuns para pregar o evangélio. Eles foram recebidos com resistência pelo pároco local que convocou a população para perturbar e impedir a pregação. Num missa, o padre disse aos fiéis que havia chegado o satanás na cidade. Em torno de 200 cidadãos, carregando facões, foram atrás dos missionários, arrebentaram a porta de entrada do edifício onde se reuniam, destruíram o púlpito e os bancos da sala de culto.
Nas primeiras décadas republicanas, o império permaneceu entranhado nas mentes sertanejas. Em novembro de 1897, um cangaceiro emboscou uma patrulha policial, matou dois soldados e gritou vivas a Antônio Conselheiro e à monarquia. Era enorme o respeito dos cangaceiros pelos clérigos e aos santos católicos.
Conta Pericás que houve casos de padres que benzeram cacetes de jagunços antes dos combates. Padre Macário chegou a ser chefe de cangaceiros. Cangaceiros molhavam seus punhais em água benta e carregavam medalhas com imagens religiosas. O padre Mato Grosso, de Uauá-Bahia, chegou a dizer que Lampião era um enviado de Deus. Em dezembro de 1929, o “rei do cangaço” deu dia santo e feriado em Queimadas, além de ter batizado crianças e realizado casamentos.
Quase todos os cangaceiros importantes diziam ter o corpo fechado. O bandoleiro Cobra Verde garantia que Jesuíno Brilhante tinha o diabo no corpo. Apesar de toscos, os bandoleiros sabiam da existência das inovações tecnológicas e tinham noção do ambiente cosmopolita das grandes cidades. Lampião, por exemplo, se apropriava de tudo quanto era novidade, como lanterna elétrica, capa de borracha, binóculo e até garrafa térmica, para melhorar a vida do seu bando. Portanto, eles foram se adaptado ao moderno, bem como a população sertaneja.
Em sua bolsa, Lampião carregava algodão, iodo, ácido fênico, pinça, sonda, gaze e comprimidos. Por outro lado, dependendo do tratamento, preparava chás ou emplastros de pimenta malagueta com casca de angico torrada. O misticismo e o moderno passaram a conviver juntos.
Um episódio interessante foi o passeio de carro de Lampião, de Cumbe a Tucano. Ao saber que o padre César Berenguer era dono de um moderno Ford modelo T, ordenou ao clérigo que levasse ele e mais sete homens até Tucano. Os cangaceiros chegaram a transitar de automóvel, em novembro de 1929, de Capela a Nossa Senhora das Dores. Eles trocaram suas armas antigas pelas modernas.
A FELICIDADE NOS PÉS
(Chico Ribeiro Neto)
Par ou ímpar? Vai ser quatro na linha e um no gol. Deu ímpar, é você quem escolhe.
Vai começar o “baba” em cima dos paralelepípedos da Rua Gabriel Soares, no pé da Ladeira dos Aflitos, em Salvador. Uma trave era formada por um poste e uma pedra. Do outro lado do “campo” a outra trave tinha duas pedras. É início da década de 60. Tenho uns 12 anos.
A duração do “baba” era medida por tempo ou por gols. “Quem tomar o primeiro gol sai” era a lei quando havia outros times esperando. Muitas vezes não tinha duração, a gente jogava até cansar.
Sem juiz, o “baba” era apitado pelos próprios jogadores. “Não foi gol, não, a bola foi alta”. “Alta uma porra!” Não havia o travessão e bola alta ou gol era questão de interpretação. O VAR estava longe.
O “baba” era interrompido quando um idoso ou mulher com criança precisava atravessar a rua. “Para a bola”, “parou, parou”, gritava logo alguém. Parava também quando passava um carro, um Citroen preto ou um DKW Vemag.
O “baba” era interrompido também pela Polícia Militar, após telefonemas dos nossos vizinhos preocupados com seus jardins e vidraças. A gente corria com medo, mas os policiais só queriam a bola. Mas havia sempre outra de reserva.
Preparado pra bater a falta. Até que a bola saiu alta, quase é gol, mas a cabeça do dedão ficou lá no paralelepípedo. Joelho ralado era quase todo dia.
O jogador ruim era um “arranca-toco” que só sabia “dar nó (drible) de carroceiro”. Igualmente ruim era o dono da bola, geralmente escalado pra “pegar no gol”. Ninguém podia reclamar muito do seu desempenho, senão ele pegava a bola e ia embora.
Se der uma “dor de facão”, aquela “pontada aguda e lancinante na lateral do abdômen”, coloque umas três folhas verdes na cintura que passa logo. A zorra complicou na área e o zagueiro “deu um São João” (chutaço pra cima) pra aliviar a defesa.
Aquele cara tomou um “banho de cuia” (chapéu) da porra e o outro foi reclamar de falta. “Futebol é pra homem, porra!”
Quando havia muitas faltas dos dois lados era dado o grito de guerra: “O baba virou!” Era a senha pra se bater à vontade e as faltas estavam suspensas. Salve-se quem puder.
Aos domingos, a gente pulava o muro do Instituto Feminino, no Politeama, para jogar na quadra. Uma tranquilidade, pois não passava carro nem vinha a PM tomar a bola.
Fomos jogar contra o time do Politeama, 5 na linha e 1 no gol. Botamos logo 1 x 0 no começo. Aí nosso zagueiro deu uma raspada em André Catimba (mais tarde ídolo do Vitória e do Grêmio), que se estatelou no chão. Aí o bicho pegou. André já tinha fama de brigão e eles tinham o time e a turma em volta nos ameaçando. Nós éramos cinco, apenas o time.
Aí, toda bola dividida com André, o zagueiro saía de baixo e Catimba fazia o gol. Tomamos 8 x 1, mas saímos sem tomar porrada.
Chego na janela e lembro dos gritos de “olha o baba!” Era a hora de arregimentar os amigos para aquela festa em torno da bola. Uma aventura mágica, feliz e eterna. “Foi gol, porra!”
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
O FLAGELO DAS SECAS E O SENSO ÉTICO
Entre a segunda metade do século XIX (1877) até meados do século XX (1932/35), principalmente, as secas no agreste nordestino, ao lado do cangaço bandido, ceifaram a vida de milhares de pessoas. Os governantes foram omissos e pouco fizeram para minimizar esse flagelo mortal. Mesmo assim, poucos sertanejos se renderam ao banditismo do cangaço. Em seu livro “Os Cangaceiros”, o pesquisador Luiz Bernardo Pericás narra cenários de horror, onde demonstra que a maioria preferia morrer que cair na criminalidade. Sobre essa questão, o autor descreve que ”é bom lembrar que a maioria da população sertaneja, apesar da miséria, exploração e falta de emprego, não ingressou no cangaço. Em alguns casos, quando havia épocas de secas intensas, de fome e de miséria, muitos retirantes pobres chegaram ao ponto de vender as próprias roupas do corpo e fazer o percurso do Sertão cearense à capital completamente nus, só para que pudessem ter dinheiro para comprar alimentos. Outros flagelados optavam pelo suicídio a cogitar se tornar bandoleiros. Havia também aqueles que chegavam a comer ratos, cães, gatos, insetos, couro de boi e até mesmo a matar e comer crianças”. Na intensa estiagem de 1932, cerca de 220 mil operários trabalharam como contratados do Ifocs (espécie de Dnocs daquela época) no Sertão, mas não existem indícios de que alguns daqueles homens tenham se incorporado aos bandos de cangaceiros. “A índole e o senso ético da maioria dos nordestinos não permitiam que decidissem entrar na marginalidade, mesmo em situações extremas”.
NÃO ESPEREM MAIS POR MIM
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
O velho elefante,
Cansado e ofegante,
Se escora numa frondosa árvore,
Sente ser chegado seu fim;
Manda seu rebanho seguir em frente,
E diz não esperem mais por mim.
Quando o zunir do vento
Chicotear minha alma,
Ferir e dilacerar meu passado,
E o passo ficar mais lento,
Trocar o não pelo sim,
Digo que sigam em frente,
E não esperem mais por mim.
Quando o futuro encurtar meus planos,
O amanhã anunciar menos anos,
As flores murcharem em meu jardim,
Sigam em frente, gente!
E não esperem mais por mim.
ESTUDANTES VISITAM ESPAÇO CULTURAL
Pela primeira vez em sua história, um grupo de 31 estudantes do primeiro Fundamental, do Instituto Euclides Dantas (Escola Normal), visita o Espaço Cultural a Estrada onde há 15 anos é realizado o Sarau A Estrada, para um bate-papo sobre cultura, literatura, ditadura e outros assuntos.
A iniciativa partiu da professora Maria José Elita que veio acompanhada do poeta, compositor e músico Manno Di Souza que, na ocasião, intercalou o momento de conversação com cantorias da música popular brasileira e falou da importância da revitalização da cultura em Vitória da Conquista, lembrando os antigos festivais de músicas autorais que projetaram muitos artistas na cena musical da cidade, da região e da Bahia.
A visita aconteceu na manhã do dia primeiro de outubro de 2025, das nove às 11 horas, e os jovens, na faixa dos 14 aos 17 anos, foram recebidos pelo jornalista e escritor Jeremias Macário e a também professora anfitriã Vandilza Silva Gonçalves.
Depois da fala da professora Maria José sobre a importância dos jovens vivenciarem na prática, fora das salas de aulas, o conhecimento e o saber num espaço cultural com livros e outros objetos de arte, o jornalista Macário deu as boas-vindas aos estudantes, contou sua trajetória de vida e seus trabalhos na área literária e da cultura.
Além de fazer um resumo sobre seus livros publicados, como Terra Rasgada, A Imprensa e o Coronelismo no Sudoeste, Uma Conquista Cassada, Andanças e sua obra de textos poéticos Na Espera da Graça, Jeremias discorreu sobre a situação da cultura em Conquista e a necessidade de se juntar forças para fortalecer a cultura.
Os jovens se mostraram interessados sobre os principais fatos históricos da ditadura no Brasil e seus impactos na cidade, culminando com a cassação do prefeito José Pedral Sampaio naquela época, exatamente no dia seis de maio de 1964. Outros temas foram abordados sobre literatura e como se faz para escrever e editar um livro.
Outra questão em debate durante um papo descontraído com os estudantes foi sobre a necessidade de cada um conhecer a história e suas origens onde vive, no caso específico de Vitória da Conquista. O assunto leitura constante de escritores, visando o desenvolvimento do conhecimento e do saber das pessoas, também esteve em pauta durante a visitação.
Como não poderia deixar de ser, Manno e Macário falaram do Sarau A Estrada e seu formato de debates, cantorias de viola, declamação de poemas, contação de causos e a troca de ideias, com a participação de artistas, professores, intelectuais e outras pessoas interessadas pela cultura.
Na oportunidade, foi comunicada a ideia da realização de saraus nas ruas, praças e avenidas como forma de integração com a comunidade, levando cultura para o povo, bem como reivindicar do poder público maior atenção para o setor, incluindo aí a abertura dos equipamentos do Teatro Carlos Jheovah, do Cine Madrigal e Casa Glauber Rocha.
A visita desses jovens da Escola Normal foi um marco e o primeiro passo do Sarau A Estrada para que as portas também sejam abertas para outros estudantes e não fique restrito ao um público de artistas e professores.
A intenção dos estradeiros da cultura é que os nossos jovens se engajem nessa discussão, representando mais força aos nossos eventos, que são realizados de dois em dois meses. A partir de agora, o Espaço Cultural a Estrada está aberto a outras visitações dessa natureza.
AS PAQUERAS, COMO ELAS ERAM
– Hoje está fazendo muito calor, né! Esfriou, parece que vai chover e cair uma tempestade! Está gostando do quadro, ou da pintura? Esses ônibus só vivem atrasando! Está aqui há quanto tempo?
Essas falas são daquele paquerador mais tímido quando queria se aproximar de uma mulher e puxar uma conversa, seja num ponto de ônibus, num banco da praça ou até numa exposição de artes plásticas. Tem também aquele tímido que fica de longe só no olhar.
– Vai lá, cara, a mina está na tua – diz o companheiro mais extrovertido e passa as dicas. Pior era quando levava um fora! Ai o “paquerador” ficava traumatizado por um bom tempo ou pelo resto da vida. Em compensação, tem mulher que adora o tímido, calado. Outras preferem o falador, contador de estórias e vantagens.
– Posso estender a minha toalha aqui perto dessas beldades, ou princesas”? Essa é de paquerador de praia, aquele tipo marombado só de sunga. Às vezes dava certo e rolavam umas agarradas e até motel.
São papos antigos que não colam mais, e hoje podem ser considerados até como assédio ou politicamente incorreto. Tinha o paquerador amador e aquele que se achava profissional, de boa lábia que até ensinava ao amigo como “fisgar” uma namorada.
– Vai lá e diz isso que é batata! Ela vai arriar os quatros pneus! Eram os bordões antigos que hoje servem até de deboche, sem contar que os homens de hoje estão mais arredios e receosos do que as mulheres.
Sem ser machista, as mulheres atualmente são as que mais partem para a paquera porque dificilmente serão acusadas de assédio ou serem enquadradas no “crime” do politicamente incorreto. Esses “lances” aparecem muito nos filmes e nas novelas de televisão.
Ora, não dizem que nos tempos atuais, homens e mulheres são todos iguais! No entanto, quando uma mulher “parte” para o homem, ele não vai denunciar que está sendo assediado. Sente vergonha de ser chamado de outra coisa.
Na novela das sete, da Rede Globo, vi uma curiosa. A jovem tentou beijar o rapaz e quando ele se recusou, foi chamado de “frouxo”. Não criaram o slogan no carnaval, do “não, é não”? Isso não constitui também importunação quando o assédio é da mulher para o homem?
Bem, nos tempos antigos, os bordões de paquera eram expressões populares que, na época, serviam para iniciar uma conversa, ou criar um clima de romance, normalmente inspirados e influenciados nas novelas, agências de propaganda e filmes.
Existem muitos exemplos, como “meu amor, a vida é um eterno aprendizado”, na novela “O Clone”, ou “pode entrar, o meu braço é do tamanho da sua saudade, do seu Madruga, do seriado “Chaves”.
Lembra daquele famoso bordão de “não é assim uma Brastemp! ” As linguagens e a gírias populares também serviram de base para a criação de bordões e podem ser encontradas em vídeos antigos.
“Não quero ser precipitado, muito menos te assustar”, “mas é nesse teu sorriso que o meu beijo quer morar” (Gustavo Mioto), “Por que você não sai daí e vem aqui”? “Caiu na rede, é peixe”. São muitos entre outros os bordões populares.
“Você me deixa sem palavras”. Recordam dessa frase de paquera, uma das mais antigas, direta e romântica. Hoje é vista como “chulé” e fraca onde a mulher chama o cara de babaca. Essas frases tinham a intenção de criar um laço afetivo.
“A alegria de saber que você existe, supera de ter você, mas eu desejava as duas”. Essa é até mais filosófica, diferente de “você é um doce de coco”, “você é muita areia para meu caminhão”, “só queria tropeçar e cair na sua boca”, “afinal, eu não consegui sua atenção, pelo menos vou ter um bom treino de musculação”, “Você sabe que é perigoso ignorar”? “Você não é o sol, mas você ilumina os meus dias”.
Saudades daquelas paqueras, sem serem politicamente incorretas. Na maioria das vezes, o indivíduo não avançava quando era rejeitado. Saia de fininho, envergonhado. Eram um tanto ingênuas, muitos riam e até levavam na esportiva. Algumas deram até casamentos.
POUCO SE FALA DA DISCRIMINAÇÃO SOCIAL VIOLENTA CONTRA O POBRE
É fato que o negro brasileiro ainda sofre na pele o preconceito racial abominável de cor e exclusão social. Ele é visto pelo sistema de segurança policial como um todo, em qualquer lugar, como um potencial criminoso e assim é tratado como tal, mas pouco se tem falado da discriminação social também violenta contra o pobre, não importando a sua etnia, se branca, parda, mameluca ou cabocla.
Não são todos, mas tenho ouvido muitos discursos de raiva e rancor de alguns movimentos negros e de pessoas isoladas, sempre citando a vergonhosa escravidão cruel e brutal de 350 anos, mas se esquece da discriminação e das injustiças sociais de 525 contra os pobres em geral.
Temos no Brasil o negro pobre e o negro rico, que é mais aceito e visto de outra maneira por essa nossa sociedade hipócrita e falsa. No entanto, o pobre, seja qual for sua raça, é sempre pobre e excluído por causa da sua posição econômica debilitada. Em nosso país, o pardo, o chamado “moreno”, ou o mameluco índio é considerado como classe branca no conceito popular.
É justamente neste aspecto que as estatísticas pecam quando incluem todos no mesmo rol e não levam em conta a forte mestiçagem do povo brasileiro. Em Salvador, por exemplo, mais de 90% são negros ou pardos e estes apareceram nos dados nos últimos anos. A etnia branca é composta de uma minoria.
A nação nordestina, e aqui falo do interior e não do litoral, a grande maioria é formada de mestiços pobres explorados e até escravizados, ao lado dos negros por séculos pelos senhores de engenhos, fazendeiros latifundiários, poderosos políticos, caudilhos e os “coronéis”. No entanto, os discursos de reparação e discriminação se referem apenas aos negros.
Em meu entendimento, é preciso que as falas sejam unificadas e não separadas, de que somente os negros são injustiçados. Entre os próprios brancos, a maioria vive em estado de pobreza. Os pobres de um modo geral foram e ainda são violentados em seus direitos constitucionais durante esses 525 anos de profunda desigualdade social e econômica.
Tanto os crimes de racismo pela cor da pele quanto os crimes de discriminação do pobre branco mestiço são repugnantes e ferem as almas humanas. O racismo contra o negro traumatiza e é revoltante. A pobreza em geral aniquila lentamente o indivíduo. Será que não existe “branco” pobre?
No IBGE me declarei como pardo porque é assim que me vejo, nem branco e nem negro. Sou um mestiço. Por ter nascido pobre na roça, filho de lavradores, sei muito bem o quanto sofri de discriminação social e na forma de bullying, considerado matuto lenhado.
Quando conclui meu primário em Piritiba durante final dos anos 50, construíram o primeiro ginásio na pequena cidade, com vagas limitadas. Me atrevi a fazer a admissão, mesmo sendo avisado de que eu não passaria nos testes porque as cadeiras já estavam reservadas para os filhos dos ricos e dos políticos.
Nem é preciso responder que fui sumariamente “eliminado” e ainda fui achincalhado. Meu pai, que não tinha a noção dessa brutal discriminação social, esbravejou duramente comigo. Um ano ou dois depois fui para o Seminário Nossa Senhora do Bom Conselho, em Amargosa, um ensino bem mais puxado, fiz a admissão e passei.
Esse é tão somente um exemplo da minha pessoa há quase 70 anos, mas episódios dessa natureza continuam a existir pelo Brasil aos montes e não é somente contra os negros. Claro que eles são mais atingidos. A pior violação, a mais criminosa e assassina, é a discriminação no campo social e essa nem é punida com multa, indenização e cadeia.
OS COMUNISTAS FLERTARAM COM O CANGAÇO QUE PREFERIU O BANDITISMO
O PCB “PAQUEROU O CANGAÇO, QUE RECEBEU CONVITE DO GOVERNO PARA COMBATER A COLUNA PRESTES, MAS PREFERIU CONTINUAR NO MUNDO DO CRIME.
A nação nordestina tem suas peculiaridades na religiosidade do seu povo, na cultura popular, nas inclementes secas, na profunda desigualdade regional, na sua mestiçagem diversa, no cangaço, no seu misticismo e na sua intelectualidade artística e cultural que precisam ser mais estudados, pesquisados e analisados.
Existem fatos inéditos e inusitados desconhecidos, como a primeira guerrilha armada do Brasil de enfrentamento às injustiças sociais contra os poderosos ter ocorrido no Nordeste. Na época da Coluna Prestes, os comunistas, que pouco conheciam a realidade da região, idealizaram conquistar e incorporar o cangaço às suas lutas, achando, ingenuamente, que os cangaceiros eram revolucionários.
Pela sua profunda religiosidade e crenças populares, o povo nordestino de um modo geral era bem mais anticomunista que simpatizante do sistema. A Igreja Católica que, naquela época exercia muita influência na população, via em Prestes o satanás, bem como a União Soviética.
SEM COMPONENTE IDEOLÓGICO
De acordo com o pesquisados Luiz Bernardo Pericás, os bandoleiros nunca tiveram um componente ideológico e nem uma consciência de classe, apesar de alguns militantes terem procurado a existência de embriões de guerrilhas sociais. Na verdade, o que os camponeses queriam mesmo era um pedaço de terra para trabalhar e produzir.
“As raízes da importância revolucionária das massas camponesas, há que buscá-las no arcaísmo do mundo rural, um mundo onde não apresenta os elementos que permitem o desenvolvimento do processo dialético”- comenta Pericás em sua obra “Os Cangaceiros”. Nunca houve uma “revolução camponesa”.
Os militantes socialistas estavam mal preparados intelectual e ideologicamente para elaborar um projeto de mudanças estruturais no campo. Havia escassez de livros marxistas no Brasil, ainda que a partir de 1930 textos de Marx, Lenin, Bukharin e Engels começassem a ser divulgados e vendidos no país.
As discussões e as questões do campo eram insuficientes. Mesmo assim, em 1928 foi criado o BOC – Bloco Operário e Camponês. Em 1932, membros do Comitê Central do PCB, por sugestão do dirigente José Caetano Machado, influenciado pela atuação dos cangaceiros, apoiaram a ideia de se constituir guerrilhas no campo.
Documentos avaliavam que grupos de cangaceiros de Lampião e outros arrastavam massas de jovens camponeses. Esta faixa que perdeu as esperanças de receber alguma coisa do Estado Feudal Burguês chegou a organizar grupos armados.
Para os teóricos, os cangaceiros tinham um potencial revolucionário que deveria ser aproveitado pelos comunistas. Na concepção deles, seria valido que se desse mais atenção ao interior de São Paulo e ao sertão nordestino.
O PCB insistiu nessa tese. Num informe para a III Conferência de Partidos Comunistas da América Latina e Caribe, realizado em Moscou, em 1934, preparado pelo chefe da delegação brasileira, Antônio Maciel Bonfim, houve uma posição oficial com relação à situação do campo e uma interpretação distorcida da realidade.
Imaginaram que os cangaceiros estavam unindo e chamando os camponeses à luta. Após a Conferência, os comunistas soviéticos, segundo assinala Pericás, iriam apoiar a intensificação dos contatos com os cangaceiros. Para a Secretaria Nacional do Partido, o cangaceiro era um revolucionário porque lutava contra o Estado.
Os comunistas achavam que se poderia dar um caráter revolucionário ao cangaço, ao ponto de idealizar que grupos de bandoleiros iriam adotar o programa da ALN-Aliança Nacional Libertadora, mas existiam várias pedras no caminho, como a religiosidade tradicional, o todo poderoso Padre Cícero Romão Batista, o “Padim Cicço” e os governos.
O projeto de guerrilhas no Nordeste se intensificou. O jornal A Classe Operária, na edição de 31 de julho de 1935, defendia que as lutas no campo deveriam estar ligadas com os cangaceiros. Entendiam que podiam ser conquistados e elevados ao nível político de suas lutas, só que não houve nada disso.
Desde os anos 20, a organização do PCB no Nordeste era frágil. Pelos meados da década de 30 seus componentes tinham que lutar contra os integralistas locais, contra o Governo Vargas e ainda atuar no campo onde os “coronéis” tinham muita força. As disputas políticas regionais, os caudilhos, os jagunços e os cangaceiros contavam com mais visibilidade que a luta armada comunista.
A avaliação dos comunistas sobre os bandoleiros estava equivocada. Os cangaceiros eram bandidos e não havia possibilidade de vínculo com os programas de mudanças sociais no meio social.
GRUPOS ARMADOS E OS “BANDIDOS VERMELHOS”
A experiência guerrilheira que mais tempo durou foi no Rio Grande do Norte, de julho de 1935/36, mas fracassou. Foram três grupos armados de doze homens cada, dois deles no município de Açu e um de Areia Branca. Contam que o cangaceiro Rouxinol, do bando de Lampião, preso e sentenciado a 30 anos de prisão, fugiu e se uniu a Gavião, membro do PCB, para formar um núcleo guerrilheiro.
Esses “bandoleiros vermelhos”, ou “bandidos vermelhos” eram compostos de gente do Partido. Muitos ingressaram nesse bando para encontrar refúgio, já que eram ladrões e assassinos sentenciados e condenados ao encarceramento.
Dos grupos citados, somente um, com 40 pessoas, entrou em ação. Os líderes reuniam seus homens no meio da caatinga, discutiam aumentos salariais e métodos para convocar camponeses para atacar fazendas de algodão e eliminar seus donos. Suas ações se limitavam a assaltos e assassinatos.
Com poucas armas e com gente participando à força, o bando foi perdendo seu potencial “revolucionário”. A maioria nem sabia o que era comunismo. Em setembro de 35, alguns guerrilheiros serraram os trilhos da ferrovia Areia Branca – Mossoró, na tentativa de descarrilhar o trem que levava uma comitiva de integralistas para o sertão. As autoridades descobriram a sabotagem e evitaram o ataque.
No Levante Comunista, os “bandidos vermelhos” não tiveram nenhuma ação de destaque. Embrenhados no Nordeste, os comunistas faziam de tudo para sobreviver. Contavam com o apoio de caudilhos, alguns deputados da Aliança Social e pequenos comerciantes que forneciam armas, alimentos e esconderijos.
Nos poucos combates, os guerrilheiros cantavam e gritavam. No lugar de “Mulher Rendeira” dos cangaceiros, se ouvia gritos de Viva a ANL, Viva Luis Carlos Prestes. A aventura terminou com a denúncia contra os combatentes feita Manoel Feliciano Pereira, que se entregou à polícia e indicou onde ficava o esconderijo. Todos “revolucionários” foram detidos.
Durante todo período do cangaço, apenas o bandoleiro comerciante pernambucano Manuel Vitor, que iniciou sua vida no cangaço, em 1926, se tornou comunista e foi assassinado pela polícia alagoana, em 1937. Outro cangaceiro que demonstrava sensibilidade política foi Antônio Silvino (1897-1914). Foi até admirador da Revolução Russa de 1917 quando estava preso na Casa de Detenção de Recife. Teve até contato com Gregório Bezerra.
Destaca Luiz Pericás, que o PCB, nos anos 30, parecia interpretar a situação de forma equivocada, tanto quanto os jornais do Ceará na segunda metade do século XIX. Alguns periódicos, impressionados com a Comuna de Paris, viam perigo do comunismo nas fileiras do cangaço. Para os jornais, a ação dos salteadores seria suficiente para caracterizar a “proclamação do comunismo no sertão”.
A situação incomodava tanto os sertanejos que, supostamente, o “Padim Ciço” teria sonhado, em 1872, ter visto um urso feroz com grandes patas sobre todo o planeta, causando sofrimento e ruínas aos países.
Correu boatos que em 1925 quando estava na fazenda do Poço, no Ceará, Lampião teria demonstrado simpatia pelos revoltosos da Coluna Prestes. Sua admiração ao “Cavalheiro da Esperança” seria tanta que planejava formar um batalhão para se unir aos rebeldes tenentistas para travar uma guerra aos estados de Pernambuco e Paraíba. Nessa época, os revoltosos estavam tentando aliciar o “rei do cangaço”, conforme Flores da Cunha. Comentou-se até que uma farda do exército teria sido presenteada a Virgulino.
No entanto, não existem documentos oficiais de que Lampião tivesse manifestado entusiasmo em se unir aos rebeldes. Pelo contrário, o cangaceiro se aliou, por um breve tempo, ao governo para combater Prestes e seus soldados. O apoio da população a Prestes foi uma decepção e ele mesmo confessou isso. “Achávamos que éramos uns loucos, uns aventureiros…” disse o próprio Prestes, ao acrescentar que jovens, que queriam sair de casa, aderiram à causa.
Pericás diz que “de fato os “tenentes” tinham um projeto ideológico e intelectual insuficiente e horizontes políticos limitados. Seu conhecimento das particularidades do meio rural nordestino era grande”. O próprio Prestes afirmava que não existia essa noção de classe.
Quando A Coluna Prestes cruzava uma localidade era comum haver saques e roubos praticados por bandos de ladrões. Em seguida as forças regulares chegavam pilhando o que restava, praticando todo tipo de violência contra os habitantes.
APELO A LAMPIÃO E AOS CANGACEIROS
Pelas dificuldades em combates contra os “revoltosos” no Nordeste, o governo do presidente Artur Bernardes apelou para a ajuda de jagunços e cangaceiros. Quem fez essa intermediação foi o deputado Floro Bartolomeu e o Padre Cícero Romão Batista, o “Padim Ciço”.
No início o sacerdote não queria ter participação na luta contra os homens de Prestes. Chegou a enviar uma carta ao “Cavaleiro da Esperança”, exaltando sua bravura, mas sugeriu que suas tropas fizessem paz e que seriam acolhidas em Juazeiro, com todas garantias. Disse não se sentir bem ver esse espetáculo de brasileiros contra brasileiros numa luta fraticida e exterminadora. Na longa carta, insistiu em dar garantias legais e ser advogado de todos perante os poderes constitucionais da República. Em seu convite pela paz, falou em Deus e pátria.
Do outro lado, o Floro Bartolomeu, que foi nomeado para administrar o Ceará, encaminhou uma carta a Lampião por meio de emissários. A missiva, assinada pelo caudilho e o “Padim Ciço”, convocava o “rei do cangaço” a um encontro com o padre, em Juazeiro, onde estariam sediados mil homens recrutados com vistas a lutar. Na bagagem, Floro conseguiu, no Rio de Janeiro, mil contos de reais e um vasto material bélico para organizar um “Batalhão Patriótico”. Em 31 de dezembro de 1925 ele se deslocou de trem de Fortaleza até Juazeiro, para realizar tal objetivo. Antes, o Floro sediou as tropas em Campos Sales.
Lampião ficou desconfiado em ir ao encontro por acreditar ser uma armadilha e uma traição, com a intenção de prendê-lo. Só depois de mostrarem a assinatura do sacerdote foi que ele aceitou ir a Juazeiro com 49 cangaceiros, no dia quatro de março de 1926, ficando ali por três dias.
Virgulino foi recebido com muita festa por cerca de quatro mil pessoas que cercaram os bandidos para ver de perto aqueles homens. O chamado “governador do sertão” foi assediado por repórteres e fotógrafos. O padre foi o responsável por convencê-lo a entrar na luta contra a Coluna Prestes e pediu que Lampião largasse a vida de bandido.
“Padim Ciço” mandou buscar o inspetor agrícola do Ministério da Agricultura, Pedro de Albuquerque Uchoa, que ficou incumbido de, em nome do governo, entregar as patentes militares. Com as anotações do padre, Uchoa fez a suposta “promoção”. Nomeou Lampião ao posto de “capitão” e outros a primeiro e segundo tenentes. A carta foi data em 12 de abril de 1926, mas só que o “capitão” se encontrava em Juazeiro no começo de março. Era uma farsa. Além disso, o suposto documento concedia a Lampião e seus comparsas a liberdade de se locomoverem, podendo atravessar as fronteiras de qualquer estado nordestino.
Antes de receber a patente forjada de ‘capitão, Lampião teria contado que chegou a combater a Coluna entre São Miguel e Alto de Areias, mas teve que recuar depois de forte tiroteio. Contou ainda que chegou a ter o desejo de se incorporar às forças patrióticas de Juazeiro.
Depois de supostamente se tornar militar, Lampião não foi levado a sério. Em pouco tempo percebeu que continuaria sendo considerado um bandido pelas policias dos estados e que o documento não seria respeitado. Diante disso, resolveu permanecer na vida do crime.























