MEU NORDESTE
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Meu Nordeste,
Do Sertão, Carrasco Agreste,
Da Mata e do Brejo Cerrado,
Do misticismo religioso,
Vindo das caravelas do Rio Tejo,
Abençoai-nos, oh todo Poderoso!
Meu Nordeste,
Dos engaços espinhentos,
Até na florada do mandacaru,
Meu Nordeste
Do Juazeiro e do fruto do Umbu!
Quero cravar minhas mãos nesta terra,
Molhada pelas chuvas do trovão;
Quero liberdade, justiça e pão;
Quero ler todos escritores,
Ao Graciliano Maior;
Ouvir Caetano, Gil, Zé e Vandré
Até chegar a Belchior.
Meu Nordeste,
Nação de guerreiros,
Com seus litorais poéticos,
Cheiro encourado dos bravos vaqueiros,
Do couro dos partos nos quartos,
Contraste que se faz harmonia,
Na louvação dos céticos,
Onde tudo exala poesia.
Do meu Nordeste,
Livrai-nos, Senhor dessa canga,
Que deixa nosso povo na tanga!
TUDO DE NOVO NA “RODA-VIVA” DA VIDA
– É, meu camarada, parece que foi ontem que festejamos o tradicional réveillon ou Ano-Novo e já estamos no final do ano. Lá se foram a muvuca louca do carnaval, o Dia das Mães, dos Namorados, Semana Santa, o São João não mais autêntico, todo misturado e melado, Dia dos Pais e os feriadões. Ah, e suas metas programadas estão sendo cumpridas?
– Pois é, meu amigo, e a gente aqui dando uma de bobeira levando a vida como ela é, nos roendo aos poucos com nossas quizilas e tomando umas para passar o tempo, jogando conversa fora. Esqueceu de falar do Campeonato Brasileiro e da Copa Brasil onde o torcedor fica doido e fanático ao ponto de matar o outro dentro e fora dos estádios. Quanto aos planos e mudanças, vou por aí fuçando o focinho pela terra.
– Estamos entrando novamente no “cio” do consumo desenfreado dos presentes, da mídia que fica nos instigando a comprar mais e mais, do Feliz Natal e Ano-Novo. E assim caminha a humanidade. Logo mais vamos ouvir aquela frase costumeira nos shoppings: “já comprou o seu? Respondeu o camarada, que até chamou os outros para um brinde antecipado. “ Do jeito que o bicho está pegando, a gente não sabe mesmo o que pode acontecer até lá. O negócio é comemorar logo”.
– Vocês estão aí nesse papo cavernoso fútil, enquanto o mundo pega fogo; massacre genocida na Palestina; Trump nazista jogando bombas na América Latina; nêgo misturando metanol em destilado; e o Congresso Nacional comendo nosso fígado – falou o outro companheiro ao lado, mais preocupado com essa situação de território arrasado.
– O negócio é não pensar muito, cara, senão você enlouquece. como disse, a vida é uma “Roda-Viva”. Não esquenta a cabeça. Faça do limão uma limonada, como se fala por aí. Viva sua vida de cada dia, sem filosofar seus mistérios. Daqui a pouco vai precisar de um psiquiatra maluco – tentou acalmar o camarada.
Como disse o cancioneiro compositor nordestino, Alceu Valença, são as emboladas do tempo que, segundo ele, não tem início e nem fim. O tempo não para, canta Cazuza. Aliás, o tempo nem está aí para os poetas, vai seguindo sua estrada, como um vulto ou uma sombra de nós mesmos.
O capitalismo não dá folga ao tempo e nem entra de férias. Nós somos suas presas prediletas em suas teias de aranha. Ele é insaciável e nunca se farta. A esta altura já tem lojista enfeitando seus estabelecimentos com adereços natalícios.
– Por falar em tempo e o escambau, os golpistas também estão em plantão direto. O crime está mais organizado que o Estado, que agora saiu com essa de aumentar as penas para os bandidos quadrilheiros mafiosos do PCC e outros grupos. A esta hora devem estar dando gargalhadas, tomando uísque em suas piscinas “cheia de ratos” – disse o camarada da “Roda-Viva”.
Sem deixar escapar a pegada do papo descontraído, o companheiro saiu com essa de que esse Natal e Final de Ano vão ser sem destilados nas mesas. As cervejarias e os vinicultores agradecem. Ah, cada família (só os endinheirados) vai contratar um provador de comida, para ver se não está envenenada ou contaminada. Vá acreditar em industrializados! Podem estar batizados.
– E quanto as cestas básicas aos pobres do “Natal sem Fome” que já está chegando, com aquelas campanhas nas televisões, acompanhadas do “hô, hô, hô” do Papai Noel, dando presentes às criancinhas? Aliás, existem dois tipos ou mais de “Papais Noéis”, os das lojas chiques e os das periferias. Até as risadas são diferentes, senão quebra o clima da desigualdade social.
– Você está é ficando velho demais. Até virou pensador com essa de “Roda Viva da Vida”, do tempo que corre mais rápido e outras tiradas filosóficas! Deve ter visto muita criança nascer que se tornou marmanjo ou marmanja de netos! Vamos no popular do humorista Chico Anísio! Ah que saudades dele! Lembra daquela: Pobre que se exploda?
O DUELO ENTRE O BEM E O MAL
Sempre se tem dito que o bem vence o mal. Será que na conjuntura atual da humanidade está sendo assim, ou o bem está sendo colocado no arrasta chinelo? Pelo menos nos noticiários do dia a dia estamos vendo o mal acelerar na dianteira da vida.
Creio ser um assunto polêmico, e muita gente prefere não fazer essa associação dialética ou filosófica entre o que seja o bem e o mal. As visões e as análises são diferentes, bem como os conceitos e impressões.
Quando procuro a face do bem, no sentido do que é ético, honesto, sincero, do não fazer maldades para os outros, não roubar, não trapacear, enganar, cometer corrupções e os pecados capitais, a vejo escassear nas multidões perdidas e desiludidas, sobretudo entre os jovens.
Eles (bem e mal) andam lado a lado desde os primórdios do ser humano. Será que a partir do princípio, o mal prosperou desde quando foi criada a pior espécie animal, que é a humana? Tem gente por aí até envergonhada de pertencer a esta raça.
Vivemos nesse dilema, ou nesse duelo existencial. Em minha concepção, o mal está nos engolindo, nos tragando e nos arrastando para o precipício, para não falarmos em abismo.
Em se tratando do bem, o que ouvimos hoje é que não se deve mais confiar em ninguém. Vivemos numa sociedade dos golpes, do vendedor e do prestador de serviços que tudo faz para lhe esconder o defeito do produto ou da sua obra.
Nos cursos sobre mercado e empreendedorismo sempre se houve do palestrante que nunca se deve enganar o cliente, mas, infelizmente, faz-se o contrário. Até há poucos tempos, e não estou me referindo há cem anos, as pessoas eram mais corretas, mesmo sem essa evolução da “aprendizagem moderna”.
No macro, no caso específico do nosso Brasil, o que temos atualmente é um Estado paralelo da criminalidade, do ponto de vista das organizações criminosas de um modo geral, bem mais forte e na frente da ordem policialesca dos governos.
Nos três poderes, ou nas três castas, impera a corrupção, que sempre fica impune, por mais que se investigue ou se tenha provas contundentes. Todas são diluídas pelas brechas das leis dos mais fortes. Esta corrupção não está apenas no alto da pirâmide, ou no planalto, ela se espalhou pela planície inteira.
É a partir desta minha leitura, talvez pessimista e derrotista, que enxergo que o mal está levando a melhor nesse duelo de forças. A situação se deteriorou tanto que hoje o errado se tornou certo, o anormal em normal, o amoral em legal, o incomum em comum e vamos levando a vida resignadamente, sem colocar nossa indignação em campo.
Se formos olhar para o mundo, no âmbito global dos países, dos mandatários poderosos e até nos de menor poder, o que observamos é o pêndulo da balança visivelmente a favor do mal.
Nessa questão, estou me referindo ao retrocesso das ideias, como se estivéssemos revisitando os tempos medievais. É a força do mal superando o bem? O consolo é que grandes escritores e intelectuais do passado nos ensinaram que vamos ter um mundo melhor.
No entanto, avançamos nas inovações tecnológicas e demos vários passos atrás no quesito humanismo, ou seja, temos hoje uma humanidade mais desumana. Prefiro não avançar mais nessas minhas lucubrações entre o bem e o mal, para não dar mais crédito ao último.
SARAU VAI À RUA PARA DEFENDER A REVITALIZAÇÃO DA NOSSA CULTURA
Sem discurso político partidário, o Sarau A Estrada vai à rua com sua pauta de reivindicações para defender uma política cultural para os artistas de Vitória da Conquista. Nossa manifestação é para o povo para que o poder executivo atenda as nossas demandas já que os documentos da classe têm sido engavetados sem resposta.
A nossa luta agora será na rua ao lado da comunidade. Essa posição foi tomada pelo sarau realizado no último sábado (dia 18/10) onde a assembleia reunida aprovou sua programação e a decisão de que o foco das discussões será direcionado para a questão específica da cultura visando beneficiar todas as linguagens artísticas.
Os trabalhos foram abertos por Dal Farias e Viviane Gama nos trazendo a formação das comissões e suas devidas atribuições. Vários estradeiros usaram da palavra para colocar suas posições de políticas culturais. Além da abertura dos equipamentos culturais, como Teatro Carlos Jheovah, Cine Madrigal e Casa Glauber Rocha, queremos a construção do Plano Municipal de Cultura com a participação de todos artistas e políticas públicas que também cheguem ao povo. Na rua vamos levar a nossa pauta de reivindicações.
Logo depois entrou o violeiro Vanberto que nos brindou com seu vasto repertório da música popular brasileira, sem contar a apresentação da parceria entre Manno Di Souza e Marta Moreno. Tivemos ainda uma linda canção autoral no estilo capela, cantada pelo poeta Aurelício.
As cantorias foram intercaladas com a declamação de poemas autorais de poetas e poetisas. No final houve os parabéns aos aniversariantes do mês de setembro num clima de confraternização como sempre ocorreu em nossas noites de saraus durante esses quinze anos.
Foi mais uma noite de debates e opiniões em torno da cultura conquistense que é o nosso alvo, mesmo porque o Sarau, como o próprio nome já diz, é um espaço fazedor de arte onde todos têm a oportunidade de expressar seus talentos artísticos e discutir ideias, conhecimento e saber, e não um partido político, um sindicato ou uma instituição partidária, tanto que aqui é um lugar de convivência de diversas ideologias.
Desde a sua fundação, há 15 anos, temos esse princípio básico, essa linha de nos ater à política cultural que é o papel de qualquer sarau, desde suas origens, um ambiente para festejar a cultura através de debates sobre variados temas, cantorias, declamação de poemas, contação de causos e a troca de conhecimento. Fora disso o sarau perde seu sentido e sua essência de ser.
Como base nesse princípio, foi isso que aconteceu no sarau do dia 18/10, realizado no Espaço Cultural A Estrada, num ambiente de amizade, de festa, de cordialidade e de magia fraternal. Se mudarmos esse caminho, vamos sim, perder o rumo e o sarau termina se acabando. Vamos mudar para acabar, ou vamos preservar sua tradição para que ele continue a viver e a prosperar?
Ao longo desse período nos evoluímos sem perder o seu alicerce. Estamos abrindo as portas para os jovens estudantes, com visitas ao Espaço Cultural, para um bate-papo sobre cultura, arte, conhecimento e saber. Agora vamos levar o nosso sarau até a rua e nos juntar ao povo, tão carente de cultura.
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FATOS CURIOSOS DO NORDESTE
CANGA E CANGAÇO
Existem muitas controvérsias em relação às origens do termo cangaço (cangalha). Para alguns estudiosos do assunto, sua origem vem de “canga” e surgiu no século XIV. Arrumação de madeira sobre telhados de palha, peça para prender junta de bois a carro ou arado. Pode ser instrumento de suplício chinês, ganga, domínio, opressão. A origem poder ser ainda quicongo kanga de nhanga. Outros falam da origem tupi acanga. Há quem diga que o termo cangaço é de origem africana.
GATO
Quando já era membro do bando de Lampião, certa feita o cangaceiro Gato pediu permissão ao chefe para irt visitar seus parentes. Aproveitou a ocasião para massacrar toda família. Como não tinha mais pais vivos, matou a avó, duas tias, quatro irmãs e dois primos. Adolfo Meia-Noite, de Afogados do Ingazeira, Pernambuco, foi espancado pelo tio para não cortejar sua filha. O cangaceiro se vingou e assassinou o agressor.
CIVILIZAÇÃO DO COURO
Para o pesquisador João Capistrano de Abreu, ao falar sobre a civilização do couro, dizia que essa pele era muito usado nas portas das cabanas, no rude leito aplicado ao chão duro, e mais tarde serviu de cama para partos; de couro todas as cordas, a borracha para carregar água, o mocó ou alforge de levar comida, a maca para guardar roupa, a mochila para milhar cavalo, a peia para prendê-lo em viagem, ou para apurar sal; as broacas e surrões, a roupa de entrar no mato; os banguês para curtume.
A CAATINGA E SUAS DIVISÕES
A caatinga é o bioma predominantemente nordestino único no mundo, mas tem suas subdivisões. Dentro dela temos o Sertão (sete milhões de hectares), o Seridó, com 3,5 milhões, o Agreste (seis milhões de hectares, o Brejo e a Mata. Na caatinga, os solos podem ser rasos, de origem arqueana, como em Pernambuco. O Agreste do Piauí é todo em formação sedimentar, a topografia é bem plana e o solo carece de corretivo. Entre a Mata, parte chuvosa e a Caatinga interior, está o Agreste.
A ESTRADA DE FERRO
De acordo com o pesquisador Robert Levine, a estrada de ferro não só possibilitou novas ligações com a costa, como implementou mudanças no modo de vida do sertanejo. Numa região onde os únicos eram padres missionários, chegavam agora imigrantes para trabalhar como engenheiros das ferrovias. Mil trabalhadores vieram da Sardenha e da Itália, sendo a maioria de Turim, isto na segunda metade do século XIX. Os missionários evangélicos não eram bem vistos pelos católicos. Conta que o escocês David Law foi expulso de fábricas de Recife por distribuir e divulgar livros religiosos para os operários.
DE BELÉM PARA O NORDESTE
Quando o imperador D. Pedro II visitou lugares sagrados no território da Palestina, em 1887, conversou com autoridades locais que conseguiram recursos na França e enviaram grupos de Belém para o Nordeste. Essas pessoas, em sua maioria, foram morar no Ceará e no Piauí, mas não suportaram as duras condições climáticas e nem se adaptaram à cultura local. No entanto, em 1930, os árabes, sobretudo de origem palestina, controlavam o comércio atacadista de Recife.
ESTRANGEIRAS
As empresas estrangeiras, especialmente as ferroviárias, não eram bem vistas pelos cangaceiros porque serviam para transportar as forças volantes e transmitir informações. Lampião chegou a capturar representantes de vendas da Standart Oil e da Souza Cruz no sertão. Servidores que atuavam em empresas nacionais e estrangeiras levavam muitas notícias para aquelas áreas. Em Mossoró, no Rio Grande do Norte, entre 1872 e 1874, pelo menos dezoito firmas estrangeiras se registraram na cidade.
MINORIA DE ESCRAVOS
Na segunda metade do século XIX, os escravos existentes no sertão nordestino eram minoria e de interesse econômico menor do que os trabalhadores livres. No casso específico do cangaceiro romântico Jesuíno Brilhante, podia-se dizer que ele não fazia parte dos mais pobres. Era originário de uma família de posses.
RASO DA CATARINA
Os historiadores, de uma forma em geral, descrevem o Raso da Catarina (seis mil quilômetros quadrados), entre Paulo Afonso Glória) e Jeremoabo, na Bahia, como uma região inóspita e muito seca, de difícil acesso. Lampião e vários grupos de cangaceiros sempre utilizaram esse deserto dentro da caatinga como esconderijo, pois as volantes evitavam entrar ali, temerosas de enfrentarem as agressividades e a inclemência do clima.
SUBORNO DE POLICIAIS
Desde o início do cangaço, na segunda metade do século XIX, a maioria dos policiais era subornada pelos cangaceiros que requisitava dinheiro dos vilarejos para pagar os chamados “macacos”. Uma pequena parte dos roubos era distribuída entre os pobres, como fazia Antônio Silvino. Foi assim que ele chegou a conseguir apoio popular. As extorsões não tinham como principal objetivo redistribuir renda, mas assegurar quantias necessárias para si e para seus homens. Uma pequena porção do coletado era para os pobres.
GUERRA DO PARAGUAI
O historiador Ulysses Lins de Albuquerque narra que o “coronel” Tomás de Aquino Cavalcante, em 1866, como diretor dos índios carnijós, convocou todos eles para uma reunião em frente da Cadeia Pública de Águas Belas. Mandou a rapaziada entrar no salão e então anunciou que o pessoal teria que ir lutar na Guerra do Paraguai. Os indígenas foram algemados e enviados para Recife e, em seguida, para o combate.
UM BRASIL FALSIFICADO
Como se diz no jargão jornalístico, vou pegar aqui um “gancho”, ou no popular mesmo, uma “ponga” do meu colega Chico Ribeiro Neto, com suas exímias crônicas, com quem tive o privilégio de trabalhar na redação do jornal A Tarde, lá em Salvador, por muitos anos, para falar um pouco desse nosso Brasil falsificado e misturado.
Para começar, a gente costumava tomar umas pingas nuns botecos cavernosos depois das matérias, mesmo sabendo que se tratava de cachaça “batizada”. Muita doideira depois de um dia de estresse correndo atrás do fato! No outro dia era aquela ressaca danada e batia aquela enxaqueca.
– Fala sério, meu caro e cara, dá para confiar nos produtos brasileiros, no que você come e bebe, principalmente nos dias quadrilheiros de hoje? Poderia fazer aqui uma lista de itens falsificados que atravessaria o Oceano Atlântico até a Europa, inclusive remédios. Nem vamos falar da gasolina!
Quando se adquire um objeto imprestável que dura poucos dias, sempre quem leva a fama é o nosso país vizinho, aqui bem do nosso lado. “Isso aqui é paraguaio, meu irmão”! Quem mistura e falsifica mais? Pode dar empate – respondeu de lá, o meu camarada.
Quando era repórter da Editoria de Economia, lá pelos anos 70 e 80, uma vez dei um “furo” de reportagem sobre exportadores baianos de sisal que colocavam bagaços e até pedras nos fardos para pesar mais. Isso causou um escândalo no exterior e muitos países deixaram de importar o nosso sisal. O mesmo se fazia com o algodão.
Essa coisa de falsificação e misturada vem desde 1500 quando Cabral aqui chegou e trouxe de Portugal presentes falsificados, de quinta categoria, para conquistar a curiosidade e a “confiança” dos índios. Com a chegada da Família Real, em 1808, a coisa piorou mais ainda.
Com a abertura dos portos para os ingleses, boa parte das compras era feita em ouro que foi logo se desvalorizando. Depois veio a prata que também sofreu uma queda drástica. Partiram, então, para as moedas de cobre. Com elas surgiu a macuta ou xenxém, que era o cobre falsificado.
Quando esse metal começou a faltar, aí entrou uma enxurrada de cobre falso no mercado interno. Em 1832, mais de 40% das moedas em circulação no país eram falsas. Até os governos pagavam os salários dos seus empregados com dinheiro falsificado e a coisa rolava de mão em mão.
Nos dias atuais estamos acompanhando aí os estragos do metanol nos destilados, com várias mortes e sequelas graves de cegueira. Nem o “santo” está querendo mais aquela “pinguinha” que o bêbado joga ao lado do balcão antes de dar aquela golada do copo.
Dizem por aí a fora que até o “suicida” está hoje desconfiado do veneno para se matar. Pode ser uma substância qualquer sem o efeito desejado. Por um lado, isso é até bom porque o indivíduo pode ter a chance de repensar sobre o lado prazeroso de se viver, mesmo diante de tantas falsificações e golpes.
Por falar em metanol, muita gente se esqueceu e também a própria mídia, com relação às mortes ocorridas em Iguaí, ou Ibicuí, aqui na Bahia, se não me engano, no final dos anos 90 e início de 2000. Ainda atuava na Sucursal do A Tarde, em Vitória da Conquista.
No início era um mistério, mas depois se descobriu que muita gente estava tomando cachaça misturada com metanol vindo de tambores que foram utilizados no transporte do líquido perigoso. Ninguém se atentou para este caso de repercussão nacional.
A humanidade se deteriorou ao ponto, em termos de maldade, tudo com a intenção de se obter lucros ilícitos, que não dá mais para se confiar em ninguém. Qualquer “bobeira” e você leva aquele tombo! Eu mesmo fui vítima de um recentemente.
Você não sabe ao certo hoje se o amigo ao seu lado numa mesa de bar é verdadeiro ou falsificado. Tem aquele olhar, aquele aperto de mão e aquele abraço falso com aparência de ser leal. Imagina político em época de eleições!
A pessoa hoje tem que treinar e aprender a dormir com um olho fechado e o outro aberto, e não pode piscar. Alguém por aí pode até achar isso um exagero, mas não é, meu amigo, confie desconfiando. “É, mas temos que confiar nas pessoas” – diz o positivista.
QUE FIM LEVARAM NOSSOS SONHOS?
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Que fim levaram nossos sonhos,
Se perderam nas longas marchas,
Das avenidas e praças,
Dos cartazes nas mãos,
Nas letras das eternas canções,
Que ficaram em nossos corações?
Que fim levaram nossos sonhos,
Nascidos das revoluções?
Arrancaram as flores do nosso jardim,
Nele plantaram corrupções,
Na base do meio justifica o fim.
Que fim levaram nossos sonhos,
De igualdades humanas sociais,
Justiças para nossas oprimidas gentes?
Estão nos cofres dos capitais,
Mas ainda vivem em nossas mentes,
Nessa sociedade de canibais.
Que fim levaram nossos sonhos,
De resgatar nossa jovem geração;
Acabar de vez com a fome,
Amparar as desgarradas multidões,
Nas lutas armadas ou pela razão?
ROÍA BROCHA, CHUMBREGÂNCIAS, CONXAMBRANÇAS E A CAPADURA
COISAS DO NOSSO NORDESTE DO SÉCULO XIX, EXTRAÍDAS DO LIVRO “OS CANGACEIROS”, De Luiz Bernardo Pericás.
Um “cabra” tarado praticou atos libidinosos e foi levado a julgamento. O pronunciamento do promotor e a pena do juiz foram lastreadas com base nos Mandamentos do Antigo Testamento da Igreja Católica (Moisés) e até no Alcorão (Maomé) mulçumano. Imaginou essa prática nos tempos atuais? Com certeza, muita gente iria concordar nos tempos atuais.
Uma Sentença judicial do juiz municipal suplente em exercício, Manuel Fernandes dos Santos, para o juiz de Direito da Comarca de Porto da Folha (Sergipe), datada de 15 de outubro de 1833, é bastante curiosa pelos termos condenatórios a um indivíduo que praticou estupro contra uma mulher grávida.
Naqueles tempos, as palavras estupro e relações sexuais não eram usadas e tinham interpretações diferentes. Para os conceitos da época, o ato nem era caracterizado como estupro. O “meliante” não podia ver uma vizinha do outro lado que rufiava e pulava a cerca como touro bravo para cruzar na tora.
Na súmula, diz o juiz que comete pecado mortal o indivíduo que confessa em público suas patifarias e seus deboches e faz coças de suas vítimas desejando a mulher do próximo para com ela fazer suas chumbregâncias. Sua condenação final foi a de mandar CAPAR o “cabra”, capadura feita a MACETE. Nos dias de hoje pelo Código Civil, ou Penal, o ato é julgado como estupro, mesmo que não consumada a penetração carnal.
A representação do promotor foi contra o “cabra” Manuel Duda porque no dia 11 do mês de Nossa Senhora Sant´Ana, quando a mulher do Xico Bento ia para a fonte e o suspeito que estava perto de tocaia em uma moita de mato, saiu de supetão e fez a proposta à senhora por quem “roía brocha”, para coisa que não se pode fazer a lume. O “cabra” estava mesmo era doidão e ia esperar pelo escuro!
Como ela se recusou, o dito “cabra”, com ella, deitou-a no chão, deixando as encomendas della de fora e ao Deus dará e não conseguiu matrimônio porque ella gritou e veio em assucre della Nocreto Correia e Clemente Barbosa, que prenderam o sujeito em flagrante, na hora, naquele estado durão.
Pediu-se a condenação delle como incurso nas penas de tentativas de matrimônio proibido. Afirmou o promotor que a dita mulher estava peijada e, com o sucedido, deu à luz um menino macho que nasceu morto. Só no susto, matou o bebê no ventre da mulher.
As testemunhas bisparam a perversidade do “cabra”. Em suas considerações, o juiz descreveu que o “cabra” deitou a paciente no chão e quando ia começar suas conxambrancas, viu todas as encomendas della, que só o marido tinha o direito de ver, e mais ninguém. A paciente estava peijada e, em consequência do sucedido perdeu o filho. A morte do menino trouxe prejuízo na herança que poderia ter quando o pai delle ou a mãe falecesse. E pobre nordestino naqueles tempos tinha alguma herança? Só dívida com o “coronel”.
Considero o “Cabra” que é um suplicante debochado que nunca soube respeitar as famílias de seus vizinhos, tanto que quis também fazer conxambranças com a Quitéria e a Clarinha, que são moças donzelas e não conseguiu porque ellas repugnaram e deram aviso à polícia. O cara já havia cometido outros delitos de estuprador em outros lugares. Tinha uma extensa ficha corrida, do Ceará à Bahia.
O Manuel é um elemento perigoso e se não tiver uma causa que atalhe a perigança dele, amanhã está metendo medo até nos homens por via de suas patifarias que eram grandes por demais. Considero que o “cabra” está em pecado mortal porque nos Mandamentos da Igreja é proibido desejar a mulher do próximo. O bicho queria até homem.
Considero que sua majestade imperial e mundo inteiro precisam ficar livres do “cabra” Manuel Duda, para secula, seculorum amem, por causa de seus deboches e servengonhesas. Elle é um sujeito sem vergonha que não nega suas conxambranças e ainda fez isnoga das encomendas de suas vítimas.
No final, o juiz condena o Duda pelo malefício que fez à mulher de Xico Bento a ser CAPADO, capadura que deverá ser feita a MACETE. A execução da pena deverá ser feita na cadeia desta villa. Nomeio o carrasco e carcereiro. Feita a capação depois de 30 dias, o mesmo carcereiro solte o cujo “cabra” para que se vá em paz, claro, sem seus tentáculos exagerados.
“O nosso pior aconselha – Homini debochado deboxatus mulheroru, inovacabus est sententias quibus capare est mace macetorium carrascus sinefacto notre negare pete. Apelo ex-ofício desta sentença para o Dr, Juiz de Direito desta Comarca”.
A PROFESSORA NINA QUE EU TIVE
A PROFESSORA NINA QUE EU TIVE
(EM HOMENAGEM A TODOS PROFESSORES)
Este texto foi publicado no livro “Andanças”, de autoria do jornalista, escritor e poeta Jeremias Macário. A obra pode ser encontrada na Banca Central, ou diretamente através do autor pelo e-mail macariojeremias@yahoo.com.br e pelo tel 77 98818-2902.
O homem sem instrução é um homem iludido. Em minha vida nunca imaginei que uma profissão tão linda e nobre fosse se transformar em medo, angústia e pesadelo. O orvalho da manhã está cada vez mais escasso, e a relva e a grama da minha casa estão secas. O prazer de ensinar e levar conhecimento aos rebentos virou uma obrigação. Sem o riso de antes, muitos estão partindo para outras atividades enfadonhas e chatas, seguindo a lei da sobrevivência a qualquer custo.
Aprendi as primeiras letras e a entoar a tabuada para fazer umas continhas de somar, diminuir e multiplicar com a real professora leiga dona Nina, não aquela personagem título de livros, de peças teatrais, crônicas e contos como símbolo da nossa imaginação para identificar a profissão. Como tudo que acontece pela primeira vez na vida, nunca me esqueci daquela frágil, terna e carente mulher. Mas, o que mais me marcou foi a sua extrema pobreza e como arranjava forças para ensinar.
Era meado dos anos 50 do século passado quando tive minha primeira professora Nina. A infância na roça da fazenda Queimadinha, isolada de tudo, não me dava nenhuma noção do porquê tinha que caminhar com minha irmã dois, três quilômetros dentro de um matagal todos os dias para encontrar com a professora, para ler soletrados os textos de uns livros e ouvir o clamor, choros e brigas de uma família de mais de dez pessoas por causa de um prato de comida nas horas do almoço.
A professora Nina morava como agregada de um vasto latifundiário que mais lembrava os condes e duques franceses da pré-revolução. A fazenda de quilômetros e mais quilômetros de capim e gado se situava num território pertencente ao município de Mundo-Novo e depois Piritiba e Tapiramutá. Como meeira, ela dividia com o patrão usurário e opressor os poucos pés de cafés que tinha no quintal da velha casa. O quadro não mudou. O capitalismo se alimenta de carne humana.
Todos definhavam de fome. Um rapaz anêmico vivia chorando pelos cantos da casa e o velho pai era um alcóolatra à beira da morte que pegava vísceras de bois em matadouros da vizinhança para cozinhá-las numa aguada panela de feijão. Meu pai, também pobre, pagava seus préstimos de professora com um pouco de dinheiro e farinha da terra donde colhia a mandioca do roçado. Eram tempos de muita dureza e o homem trabalhava como escravo, sem direitos a nada. Não mudou muito. A fome batia quase todos os dias na nossa porta e nos olhava com aquela careta de monstro.
O velho e o rapaz morreram e, como já viviam na miséria, nem foram notados. Eram lixos deteriorados ocupando o espaço. Como observou Shakespeare, “Quando morre um mendigo nenhum cometa é visto, mas os céus cospem fogo quando morre um príncipe”.
A professora Nina e o restante dos seus filhos pegaram um pau-de-arara e tomaram o rumo de São Paulo. Meu pai vendeu a terrinha e fomos para outro local onde pelo menos tinha um tanque d´água. Passei anos longe das minhas primeiras letras e só depois fiz, com muito sacrifício, o primário em Piritiba. Mais algum tempo parado e somente em 1962 ingressei no Seminário Nossa Senhora do Bom Conselho, em Amargosa. Bons tempos de estudos e aprendizagem, com professores de qualidade. Ensino puxado!
Passaram-se quase 65 anos e a educação teve suas reviravoltas de altas e baixas, mais que baixas, para cair numa vala lamentável de decadência e menosprezo, numa cruzada de greves, paralizações, ocupações, protestos, desespero, revolta, lamentos e violência nas salas de aulas onde existem mais discórdias que harmonias.
Até o final dos anos 70 e início dos 80, a educação pública era uma referência de qualidade e conteúdo. O professor era o verdadeiro mestre respeitado na sala e os alunos o reverenciavam como um pai, somente abaixo do Eterno. De lá pra cá foi entrando em degradação de promiscuidade total, diferente da missão primordial de transmitir sabedoria e conhecimento.
Aquela imagem da professora Nina e sua família continua viva em mim através de cenas reportadas nos dias atuais de professores comendo bolachas num reservado escondido de uma sala para matar a fome e outros vendendo seus livros de literatura nas ruas para sobreviver, sem contar as agressões sofridas no exercício de suas atividades.
Uma professora chora quando lembra que um dia um aluno colocou um revólver em sua cabeça e lhe intimou que desse uma nota máxima em sua prova para passar de ano. Perdeu, professora! Para não morrer, teve de ceder, mas, traumatizada, nunca mais retornou à sala de aula. Para sobreviver foi ser doceira. Igual a ela, tantos outros se afastaram do ministério de ensinar. De amigo e conselheiro, o professor é visto hoje pelos seus estudantes como um inimigo que merece ser castigado porque escolheu ensinar e formar crianças e adolescentes rebeldes de um lar, cujos pais se ausentaram de suas obrigações, valorizando mais o capital que o humano.
Pelo nível a que chegamos, de baixos índices de aproveitamento escolar que envergonham a nação, com imagem tão negativa lá fora, a pátria como mãe biológica ou adotiva, carece parar com todas suas obras, pontes, estradas, viadutos e projetos de portos e aeroportos, para só cuidar da educação. Esta filha desamparada de mãe desnaturada caiu em desgraça na prostituição das ruas e das drogas.
A figura de um professor qualificado e motivado é o fator mais importante para o sucesso do aluno na escola e na vida, conforme estudos realizados em vários países. No Brasil, quem tira maiores notas nas escolas prefere fazer outros cursos universitários ao invés de pedagogia, isto porque a profissão oferece pouca atratividade, devido à baixa remuneração e más condições de trabalho. O próprio Ministério da Educação constatou que o curso de pedagogia tem sido o destino dos alunos com as piores notas nos exames do ensino médio.
Chegamos ao ponto crucial de que a educação não é mais apenas uma questão de prioridade, mas de salvação de vidas. Milhões são vitimados antes do tempo no Brasil por falta de educação. A professora Nina foi a primeira a me dar régua e compasso para escrever este texto. Outros mestres vieram depois fazendo o demorado processo de lapidação
AS FORÇAS ALINHADAS À UNIÃO DEVEM SUPERAR AS BARREIRAS
Peço licença aos companheiros e companheiras estradeiros para dar a minha modesta opinião a respeito da atual situação da cultura em Vitória da Conquista, que deveria estar à altura do porte da terceira maior cidade da Bahia, e que, historicamente, já viveu sua efervescência nesse quesito com grandes nomes até de projeção internacional.
Não vou aqui fazer arrodeios, arroubos e nem citações filosóficas, sociológicas ou de outro cunho ideológico socialista marxista. Parto do meu tema de que as forças alinhadas da união superam as barreiras do descaso.
Longe de mim ser “advogado” dessa administração que sepultou nossa cultura, mas poderia aqui também abrir uma crítica sobre a atuação do nosso Ministério da Cultura. Não vou entrar nessa polêmica. Vamos voltar o nosso olhar para nossa aldeia de terra arrasada onde vivemos.
MOBILIZAÇÃO PÚBLICA
Sinto que está existindo determinados ruídos de “vozes isoladas” sob o ponto de vista dos movimentos e coletivos que, ao invés de se unir num todo, não importando a coloração ideológica, estão partindo para a divisão de intrigas entre si e até com um certo tom de agressividade e ofensas. Sempre defendi que a saída é a mobilização pública nas ruas para mostrar nossa cara, porque os documentos são sempre engavetados.
Tenho ouvido comentários de que tal coletivo é um “balaio”, uma “panela”, tal grupo é de propriedade privada, de que existe censura, sem deixar de considerar pichações negativas que só fazem dividir e criar animosidade entre nós mesmos. Em meu entender, a radicalização com outra radicalização é como a soma de zero mais zero. Não adianta rompantes viscerais.
Certas atitudes são tudo o que o outro lado do poder quer para massacrar ainda mais a nossa cultura. Sobre esta questão, escutei muitas vozes dentro da própria Secretaria de Cultura de que tal movimento partia apenas de um punhado de gente isolada radical “sem importância”, que não representaria o todo.
Que a nossa cultura vai de mal a pior, isto é indiscutível, e agora colocaram um presidente do Conselho que é anticultura. Este quadro já vem se perdurando há pelo menos dez anos, e os nossos métodos usados para mudar este cenário não têm dado resultados satisfatórios e revitalizado a nossa cultura como desejamos.
No meu raciocínio lógico, alguma coisa tem que ser mudada para alcançarmos a mudança que queremos. Diante do exposto, a minha proposta, e não é de hoje, é que todos nós sentemos numa mesa, não importando as ideologias, se de direita ou de esquerda, sem as “fogueiras das vaidades”, para falarmos uma única linguagem de que a arte interessa a todos e que a divisão de ideias só nos separa e fortalece esse poder de destruição da nossa cultura. Alguns podem até rebater que isso é impossível, mas não é.
A linguagem da qual me refiro é de políticas culturais, mas, sinceramente, vejo gente jogando esta causa tão nobre para o viés político partidário, numa nação tão polarizada que só rende ódio e intolerância. Será que constrói ou desconstrói? Vamos ser progressistas no bom sentido para conservar nossas tradições.
Temos um nível intelectual bem mais alto que eles e não estamos aproveitando esta força que é a união de todos num objetivo comum, sem essa de “donos da cultura”. Temos aqui deputados estaduais e outros nomes de expressões que podem se juntar à nossa mesa para fazer ecoar as nossas vozes e estremecer aquelas paredes do atraso.
Qualquer um tem o direito democrático de discordar da minha proposição e até achar que esteja sendo ingênuo. Só peço, porém, que as manifestações não sejam de agressões e ofensas como já vi sair da boca de alguns. Se for nesta toada, prefiro me recolher à minha modesta insignificância.
O SARAU NAS RUAS E O GRUPO
Gostaria aqui de aproveitar o ensejo para falar um pouco sobre o nosso Sarau a Estrada que levantou a ideia de partir para a estrada, literalmente, ou seja, ir para as ruas e dar o seu recado de que precisamos colocar a cultura em seu lugar merecido, desde que os discursos sejam alinhados e unificados.
O que não aceitamos são os deboches “stradêros” de quem quer que seja. Acolhemos todos aqui com muito carinho, desejando sempre boas vindas, com abraços e amizades. Precisamos sim, de colaboração e críticas construtivas, não de indiretas a um sarau que foi construído com muitas lutas e dedicação. Rogo mais respeito, pelo menos aos antigos frequentares que ajudaram a erguer este evento.
Ouvi críticas, que, ao me ver, considero injustas, de que o Sarau A Estrada nos seus quinze anos de vida só é para reunir festeiros, fazer cantorias e declamar poemas. Quem viveu isso aqui durante este período sabe que não é verdade este anunciado.
Aqui introduzimos debates de grande importância para o conhecimento e o saber intelectual, inclusive sobre a cultura em Conquista. As nossas portas sempre estiveram abertas e para entrar nunca indagamos qual sua linha ideológica. Ai, sim, seria censura.
Por outro lado, minha gente, um sarau, como o próprio nome já diz, é um sarau desde suas origens históricas, e não um movimento político partidário, não é um partido político, uma associação de classe, um sindicato ou um grupo popular revolucionário. Claro que a política faz parte desse processo, mas não é necessário polarizar ou destilar xingamentos. O que menos precisamos agora é de teorias.
Mesmo assim, sempre tenho dito em público para todos estradeiros, que o sarau, pelas proporções em que tomou e pelo seu tempo de resistência, deve sim tomar posições políticas no âmbito cultural. O Sarau A Estrada é nosso e ninguém tem o direito de tascar com verborreias depreciativas.
É um ponto de encontro cultural que nunca recebeu nenhum apoio do poder público. Que me perdoem os contrários, mas esta é a minha leitura e é nela que lastreio meus argumentos. É a nossa obrigação sairmos em defesa da cultura, mas sem a mistura partidária, respeitando as diversidades ideológicas em que nele habitam desde a sua fundação.
Por fim, queria também expressar aqui a minha posição, que pode não ser unânime, sobre o grupo “Estradeiros da Cultura”. Desde sua criação, temos como princípio básico não discutirmos política partidária, repito, por causa da convivência com as diversidades ideológicas, e só isto já foi uma grande conquista.
Alguém disse que se trata de um grupo privado. Ora, todo grupo é privado e tem suas normas, como, por exemplo, a dos partidos políticos, seja de direita ou de esquerda. Quem destoa é advertido e até eliminado. Pode até haver divergências e correntes, mas os objetivos são comuns.
Por sua vez, sabendo desse princípio, a pessoa é totalmente livre para participar, ou não. Portanto, quem desrespeita este fundamento básico, sem falar de não ofender e agredir o outro, não pode alegar que esteja havendo censura, nem mordaça e nem atentado contra a liberdade de expressão. Sua liberdade termina quando você invade a do outro ou a dos outros.
















