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AH, SE CULTURA FOSSE FUTEBOL!

– Meu time é minha vida, mato e morro por ele! Onde meu time for, eu sigo.

Muitos já ouviram sair esses termos da boca de torcedores fanáticos por futebol em defesa do seu clube predileto. Falam essas besteiras e ainda batem forte no peito, no escudo do time, como se fossem colocar o coração para fora.

– Em meu sangue correm essas cores!

Em que Brasil estamos onde pessoas, por certo alienadas, agressivas e que só têm titica de galinha na cabeça, colocam sua vida acima de um time de futebol, capazes até de matar um irmão, pai e amigo numa discussão?

Os jogadores ganham milhões por mês e sempre estão trocando de camisa. Nem sabem que eles existem. Os dirigentes e cartolas fazem suas trapaças, decidem quem compra e vende e fingem que o torcedor é muito importante nos resultados, como se fossem um camisa 12 em campo, e eles acreditam.

Poucas agremiações dão satisfação às torcidas organizadas, umas tão violentas que já foram chamadas de terroristas. Os clubes hoje estão cheios de gringos da América do Sul e muitos foram até vendidos, perdendo suas identidades originais.

Imagina se os brasileiros (todo mundo se acha um técnico e entende do assunto) discutissem pelo menos a metade sobre cultura quanto tanto se fala de futebol em rodas de conversas, bares, restaurantes e outros lugares!

A grande maioria sabe o nome dos jogadores na ponta da língua e acompanha diariamente os noticiários do seu time. Multidões enchem aeroportos e portões de estádios para receber seus times.

Duvido que algum deles saiba citar o nome de um escritor brasileiro, e nem estão aí para o que está ocorrendo na política nacional. Se chamar alguém para uma manifestação por uma boa causa coletiva, aparece uns gatos pingados. Será que não é o futebol que é o ópio do povo? Com a palavra Marx, se fosse vivo quando apontou a religião. Pode ser os dois.

Ah, se a nossa cultura fosse tratada e debatida como é no futebol! Nem precisava de brutos, estúpidos e vândalos jogando bombas, pedras e outros objetos em centros de treinamento, nem entrarem em lutas de matanças entre grupos adversários.

Se os torcedores comentassem e tivessem conhecimento de cultura como no futebol – nem precisava ser na mesma dimensão –  o nosso Brasil seria uma maravilha e o povo teria consciência política ao ponto de não escolher bandidos e corruptos para nos “representar”.

Com certeza não possuiríamos um Congresso desse quilate, de nível tão baixo, e nossos governantes, vereadores, prefeitos e deputados teriam vergonha na cara. Seria o país mais cultural e politizado do mundo.

– Fica aí viajando na maionese, ou no seu imaginário surreal – disse um amigo numa mesa de bar, entre um gole e outro. Cai na real, cara! Isso nunca vai acontecer. Estamos na terra do sem nunca.

– Não custa nada sonhar, né! Quem sabe um dia esse cenário melancólico não muda e teremos dias melhores, com mais humanismo e consciência coletiva.

– É, do jeito que o futebol brasileiro anda caindo das pernas, quem sabe, um dia o torcedor cansa e para de ser otário – respondeu o companheiro, só para me consolar.

– Sou tricolor da Laranjeiras, mas estou fora desse esquema. Minha vida representa outras coisas, bem mais vitais para ainda respirar esse ar poluído. Evito discutir com torcedor fanático, para não levar porrada, ou, quem sabe, ser morto.

 

 

 

 

ESTADOS UNIDOS ESTÃO ENTRANDO NUMA ROTA PERIGOSA DA DITADURA

Com suas informações e dados falsos, com seus decretos malucos arbitrários, utilizando como esteio a democracia construída há séculos, o Donald Trump, de espírito extremista, vai aos poucos dopando o povo norte-americano para emplacar uma ditadura nos Estados Unidos, a primeira em toda sua história. Poderia me arriscar a dizer que ele já está sendo um Recep Tayyip Erdogan, da Turquia.

Na realidade, muitos governos de índole autoritária estão se aproveitando da democracia para introduzir regimes ditatoriais, não mais com armamentos militares como no passado. Os congressos legislativos, os eleitores fanáticos e a própria Justiça estão sendo cúmplices dessa trama.

O caso mais explícito está acontecendo com os Estados Unidos, onde o Trump, seguindo um roteiro similar ao nazismo de Hitler, usa a democracia que o elegeu para realizar seu projeto de ditadura, com seus factoides divulgados diariamente pela mídia. Para isso, ele conta com a maioria do Congresso (Capitólio) e da Corte Suprema de Justiça.

São vários os exemplos dessa trama planejada desde a sua posse onde o mandatário de extrema-direita, xenófobo, racista e homofóbico vem sufocando em doses cavalares essas camadas, inclusive com apoio de boa parte da população contaminada por ideias de limpeza étnica de superioridade.

Nem é preciso citar aqui os seus decretos malditos e planejados de esvaziamento e opressão da liberdade das instituições, no caso mais visível as universidades, contingenciando suas autonomias mediante corte de recursos e limitando o ingresso de estudantes estrangeiros.

Com a mão da democracia, ele vai impondo sua ditadura, inclusive intervindo na soberania de outros países. Seu domínio interno agora está se estendendo às forças armas, às polícias e até o FBI, sob argumento de impor uma ordem numa desordem social que não existe.

Recentemente, com estatísticas mentirosas de aumento da violência na capital Washington, o desequilibrado determinou uma espécie de intervenção com a força das armas, dizendo que a polícia federal e o exército podem fazer o que bem entender contra os cidadãos. Isso é mais um gesto de ditadura e arbitrariedade.

Embora com invasões históricas terroristas de Estado em outros países, para derrubar governos democráticos, principalmente na década de 60 do século passado na América do Sul e Central, os Estados Unidos sempre passaram uma imagem de democracia sólida, o que nunca foi verdade. Sua “democracia” sempre protegeu ditadores por interesses exclusivamente econômicos e políticos.

Cada absurdo mentiroso de Trump, muitos deles bem arquitetados conscientemente, é superado por outro. O mais agressivo e falso foi sua crítica velada ao Brasil, Índia e até a algumas nações democráticas europeias, como a França, de que esses governantes suprimem a liberdade de expressão e desrespeitam os direitos humanos, quando é o próprio que assim está agindo.

O Trump, uma espécie de personagem diabólica, não se envergonha de expor ao seu país e ao mundo as suas falsidades extremas, ao ponto de deixar qualquer um possuidor de senso crítico esclarecido e racional estarrecido.

Nessa loucura desvairada e desmedida, citou a Coréia do Norte e a Arábia Saudita como exemplos de liberdade de expressão, países esses os mais opressores e assassinos de seus opositores. Não tenho dúvidas de que ele é um sádico maquiavélico, incarnado num Hitler, Stalin e outros tiranos tiranetes.

Como golpista da democracia e ainda com aquela ideia de potência dominadora imperialista, ele dá guarida a outros “lideres” defensores de uma intervenção militar, caso específico do Brasil onde se acha no direito de mandar o Supremo Tribunal Federal parar com os processos contra o mentor do golpe de Estado.

MISTUREBA

(Chico Ribeiro Neto)

Fiz o alinhavo de pequenos escritos que podem virar uma croniqueta catarina. Segue o alinhavado, tudo junto e misturado. Coquetel da vida.

DE REPÓRTER

“Nosso repórter gravou o momento exato em que um passageiro está desmaiando” (apresentador de TV sobre um acidente no metrô de São Paulo).

“Atiraram aqui uma latinha de cerveja que não atingiu devidamente o bandeirinha” (o chamado locutor de pista de uma emissora de rádio no Estádio da Fonte Nova, em Salvador).

MEDIDA DA DOR

Um palmo de dor

Dois palmos de poesia

Um palmo de dor

Mais dois de alegria

Um palmo de dor

Fecha a mão, senhor.

 

Um palmo de dor

Isso não se mede

Leva a régua, Leonor.

 

Um palmo de dor

Você mediu certo?

Não ficou um dedinho

De esperança descoberto?

 

Quantas polegadas tem a dor?

Me diga, meu senhor,

A IA vai medir a dor?

SEM CAMISINHA

Bar muito cheio sexta à noite. Sento numa mesa, a garçonete traz uma cerveja sem o isopor (também chamado de camisinha) e diz: “O bar tá lotado. Tô sem camisinha. O senhor vai assim mesmo?”

ONDE ESTARÃO?

Onde estará aquela vizinha que tocava piano?

Aquele colega do Ginásio São Bento que aos 14 anos tinha um plano mirabolante para assaltar o Banco da Bahia na Rua Chile? Eu seria o pipoqueiro, com a metralhadora debaixo das pipocas, para auxiliar na fuga.

Onde estará aquela menina de short branco?

Aquele velho desengano

E o pedaço de pano que cobria a dor por um ano?

Estão dentro de uma cisterna

Entre baldes de lágrimas e sorrisos.

POESIA PENDURADA

Uma vez, um conhecido me pediu: “Faça uma poesia curta assim, bem bonita, que eu possa botar num quadro e pendurar na minha sala”. Poesia não se encomenda. Ela nasce sozinha lá na serra em noite de chuva. E só pode ser pendurada no coração.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

A CATADORA DE LIXO E O BARRACO

As nossas lentes flagraram, num final de tarde em um terreno vazio, no loteamento Sobradinho (Zabelê), ao lado do “Sucatão” poluidor de fuligem nas casas vizinhas, uma senhora idosa catando lixo para sobreviver. Ela estava saindo de um barraco no canto do terreno onde as pessoas jogam todo tipo de entulhos. É a Vitória da Conquista vista do outro lado, chamada cinicamente por muitos de a “Suíça Baiana”. É também a cara de um Brasil com suas profundas desigualdades sociais, uma das maiores do mundo, mesmo com os programas dos governantes que não conseguem eliminar essa pobreza extrema. Essa senhora já deveria estar gozando o seu descanso merecido, mas ainda tem que lutar para colocar um pedaço de pão na mesa. É a realidade que muitos se recusam ver e preferem passar indiferentes com suas individualidades pessoais.

POESIA, É POESIA

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

A poesia encanta e desencanta,

É mágica e trágica,

Nos iludi, engana e confundi,

Nos deixa tonto no amor,

Dilacera nossa alma

Agitada e calma,

É alegria, tormento e dor.

 

Poesia é saudade eterna,

Que nunca se acaba,

É corte de navalha na carne,

Sai da fumaça da erva,

Luz, caos e treva,

Faz o mar secar,

O rio deixar de correr,

O mundo parar de girar.

 

Poesia é como tirar leite de pedra,

É zumbido do vento,

Choro, riso e lamento.

 

Poesia é sentir o sangue correr na veia,

É como nascer, viver e morrer,

É pura Sofia,

Vem do universo, o som,

Não se cria, é dom,

É a madrugada serena,

Pés no orvalho da manhã,

É a cor branca, negra e morena.

 

Poesia é como se estar no cio,

É canção de viola no frio,

Tirar espinho da flor,

Agradar ao diabo,

E orar ao Senhor.

 

Poesia, é poesia

Não é só verso,

É descobrir o visível no invisível,

Poesia, é poesia,

Noite engolindo o dia.

 

 

“O CORONEL” E SACERDOTE “PADIM CIÇO”

Com seu cangaço, sua terra árida catingueira, seus coronéis, suas culturas popular e acadêmica, escritores, repentistas, trovadores, poetas, cantores, músicos e compositores de reconhecimento nacional e mundial, suas lendas e mitos, o Nordeste tem também seus personagens controversos e polêmicos estudados e pesquisados por historiadores. A literatura é vasta sobre o assunto e as versões sobre essas pessoas são as mais diversas, muitas delas contraditórias e paradoxais.

Um deles é o “coronel” e sacerdote Cícero Romão Batista, o “Padim Ciço” (1844-1934), o todo poderoso e até hoje venerado como santo em sua terra de Juazeiro do Norte. Estive lá visitando sua estátua e quem se atrever falar mal dele entre seus fiéis e romeiros poderá ser linchado e até morto.

Não chegou a ser canonizado, mas tem seus devotos de fé e, quando alguém se ver em “maus lençóis”, logo apela para sua proteção. A maioria faz suas promessas e confessa ter recebido dele suas graças. Uns dizem que ele foi injustiçado, visto como pai dos pobres e desvalidos do Nordeste. Outros que não passou de mais um oligarca aproveitador e oportunista.

Em 1894 o Vaticano afastou o padre de suas funções sacerdotais devido ao “milagre da hóstia” que teria sangrado na boca da beata Maria de Araújo, no ano de 1889. A Igreja Católica questionou o tal “milagre”, considerado como um “embuste” e fanatismo religioso. Em 1896 teve que deixar Juazeiro do Norte sob pena de ser excomungado.

Depois da suspensão, o sacerdote ingressou na política e tinha Virgulino Ferreira da Silva, o cangaceiro Lampião, como seu grande admirador. Era amigo dos grandes coronéis da região e tudo isso só fez irritar mais ainda a Igreja.

Um fato curioso é que o padre chegou a ir ao Vaticano para buscar uma absolvição diretamente com o papa Leão XIII. Segundo pesquisadores, ele foi reabilitado, mas permaneceu suspenso. Ficou até o fim da vida usando sua batina e assistindo as missas como um leigo. Contam que “Padim Ciço” permaneceu obediente aos preceitos da sua Igreja e até intercedia em orações a favor do papa.

Para o teólogo cearense José Luis Lira, o padre Cícero representa uma figura emblemática dessas idiossincrasias entre uma postura dogmática da Igreja e a devoção popular. Essa devoção a “Padim Ciço”, depois do seu afastamento, só fez crescer e se tornou lucrativa ao longo dos anos.

Décadas após, a própria Igreja que o afastou lhe concedeu oficialmente o perdão, em 2015, no pontificado do Papa Francisco, abrindo caminho para sua beatificação, cujo processo foi aberto em 2022. Ele chegou a receber o título de “Servo de Deus”. O levantamento, escritos, obras e suas virtudes foram concluídos neste ano de 2025 e enviados ao Vaticano. Por que essa reviravolta da Igreja?

Do outro lado, de acordo com historiadores, como Luiz Bernardo Pericás, autor do livro “Os Cangaceiros – ensaio de interpretação histórica”, o “Padim Ciço” era uma mistura de sacerdote, político e “coronel”. No final da sua vida possuía trinta sítios, dezesseis prédios, um quarteirão e uma avenida de casas, cinco fazendas com gado, assim como uma mina de cobre.

“Tinha ao seu redor um séquito de fiéis, o qual ajudava com esmolas, preces e palmatórias, fiéis esses que, por seu lado, também o apoiavam incondicionalmente. Era provavelmente um dos mais ricos senhores rurais do Cariri cearense de sua época”.

Ainda, segundo ele, tinha relações estreitas com comerciantes, coronéis e políticos poderosos da região. O próprio “Padim” chegou a dizer certa vez que, em Juazeiro do Norte, ele era prefeito, a Câmara, o juiz, o delegado, o comandante, a polícia e o carcereiro. Na verdade, ele tinha o poder político, social e econômico em sua mão, fazendo parte de uma oligarquia.

 

“AS FEIRAS DE TRABALHADORES”

Ao lado dos feirantes comuns que levavam suas produções, como farinha, feijão, milho, carnes e verduras para comercializar, pouca gente tem conhecimento do que eram “as feiras de trabalhadores” no Nordeste que aconteceram até meados do século XX.

Essas feiras representavam a exploração deplorável da miséria nordestina pelos senhores de engenhos, coronéis fazendeiros e até poderosos políticos, tudo em regime de escravidão explícita, não daquela africana do tronco e da chibata que perdurou por mais de 300 anos no Brasil.

Sem trabalho para sustentar suas famílias, principalmente em épocas de seca, trabalhadores com suas enxadas, foices, machados e outras ferramentas se dirigiam aos povoados, vilarejos e cidades. Um amontoado de esfarrapados operários, com fome e sede, ficava exposto ao sol ardente como mercadorias à espera de que aparecesse um senhor engravatado para contratar seus serviços.

Essas feiras funcionavam como mercados de compra e venda de mão-de-obra barata, só que menos violenta do que nos tempos da escravidão, mas não deixavam de ser cruéis para aqueles famintos que se sujeitavam a oferta de qualquer preço porque não tinham outra saída diante de tanta oferta e pouca procura.

Como nos barracões de escravos, os donos de engenhos e os coronéis transitavam soberanos entre aqueles homens, inclusive crianças e jovens, e escolhiam os mais robustos e fortes que aguentavam pegar no pesado por cerca de doze horas de trabalho duro e forçado.

Os mais fracos e aqueles com idade entre os 40 ou 50 anos eram rejeitados por aqueles patrões que pagavam uma mixaria aos outros e mal davam um prato de comida, na maioria restos de carne, buchos ou até vísceras de animais. Essas pessoas dormiam em locais precários e sujos, sem nenhuma dignidade humana.

Sem serviço, muitos caiam no cangaço e se tornavam bandoleiros, isto é, partiam para a criminalidade, ou viravam retirantes em paus-de-arara para o sul do país, sobretudo São Paulo onde também eram submetidos à escravidão nas grandes capitais. De um modo geral, o nordestino pobre e miserável tinha uma vida curta em torno dos 50 anos.

Portanto, não era somente a seca que provocava a retirada dos nordestinos em busca de trabalho em outros estados. Quem tinha uma pequena propriedade se tornava vítima de grilagem dos senhores poderosos ou era obrigado a vender seu pedaço de terra para aumentar o latifúndio do “coronel” e do senhor de engenho da zona da mata.

Não como antes, de forma bastante institucionalizada pela pobreza extrema, essas “feiras de trabalhadores” deixaram seus resquícios. Quando ainda moleque na roça do meu pai, muita gente ia às feiras tão somente para procurar um trabalho, não mais com a enxada e uma foice na mão.

As coisas melhoraram bastante com relação àquela época, mas o nordestino catingueiro continua a sofrer e sendo explorado por esses rincões a fora, tanto é que ainda existe o trabalho análogo à escravidão em pleno século XXI.

“As feiras dos trabalhadores” estão hoje camufladas por contratantes de mão-de-obra para lavoras, carvoarias e outras atividades. Eles prometem bons salários e outros benefícios, só que a realidade é bem diferente.

 

 

 

 

OS LADRÕES DE LIVROS

Estava na Feira Literária de Itapetinga e papo vem, papo vai, pintou a conversa sobre a questão da leitura que anda desmilinguida e definhada no Brasil. Falei sobre os antigos ladrões de livros que hoje são escassos nas livrarias e sebos. Um colega de lá sugeriu que eu escrevesse uma crônica sobre o tema, e aqui vou eu com essa incumbência delicada e difícil.

– Vambora cumpadi, que na pista tombou um caminhão! Tão dizendo que é de carne, frutas, feijão, milho, celulares ou de bebidas. Nesses casos, o saque é repentino e a polícia não tem condições de controlar a multidão, como ocorreu recentemente numa zona do Rio de Janeiro.

Em pouco tempo os moradores da redondeza ocuparam o local da serra, como abelhas em enxames. Não se sabe de onde apareceu tanta gente em questão de minutos. A notícia corre com rastilho de pólvora.

Para surpresa ou decepção, era um caminhão de livros que estava indo em direção à capital e perdeu o controle na descida de uma ladeira.

– É cumpadi, perdemo a viagem. Só tem livro espalhado pelo asfalto! Coisa pra doutor! Esses papéis não serve de nada pra noís. Queremo é comida, bebida e celular. Nem pra ser de cigarro ou outro produto de contrabando.

Alguns começaram a esbravejar e até ensaiaram xingamentos. Coisa foi ver a cara do malandro que jogou óleo na estrada para provocar o acidente! Quem ia imaginar que aquela carreta estava cheia de livros! Azar da peste! – Gritou alguém irritado.

A carga permaneceu intacta sem ninguém tocar. Um olhava para o outro com o semblante de frustração e ia saindo de mãos vazias para suas casas. O policiamento só observa de longe e o carregamento foi salvo, sem precisar acionar o serviço do seguro.

Essa conversa rolou em tom de gracejo num realismo-fantástico nos dias de hoje, mas lembramos das eras dos anos 50, 60 e até início dos 70 dos ladrões de livros. Não era coisa surreal.

Eles tinham até o apelido de ratos de livrarias, sebos e bibliotecas. Os donos e funcionários responsáveis ficavam de olhos atentos, mesmo porque nem existiam câmaras para vigiá-los, como atualmente.

– Hoje não existem mais ladrões de livros como antigamente quando se levava uma obra debaixo do braço para se ler e discutir com um amigo-parceiro num botequim, bar ou restaurante – disse para um companheiro escritor.

– Você que pensa assim, mas ainda tem alguns soltos por aí. O Raí, do sebo, me contou que fica bem atento porque vez ou outra, numa feira literária, alguém lhe furta um exemplar – retrucou o amigo.

Para não perder a viagem imaginária sobre a queda de leitores e a importância do livro na vida das pessoas, tive que sair pela tangente.

– Naqueles tempos, ainda menino moço, presenciei um assalto inusitado a mão armada na cidade grande. Enquanto um jovem concentrado lia num banco de jardim, aproximou-se um sujeito mascarado de revólver na mão:

– Perdeu, meu camarada, passe o livro de Fiódor Dostoiévsk. O ladrão foi quem perdeu porque se tratava de uma obra de um autor brasileiro, o nosso maior Machado de Assis.

Aí ninguém aguentou e caiu na risada, mesmo insistindo que foi fato verdadeiro e citei até o dia, a hora e o ano, inclusive retratei o local. Nem assim acreditaram.

– Isso não passa de uma lorota. Você deve ter avançado pelo túnel do tempo futurístico e se esborrachado no celular onde tem ladrão por toda parte e um monte de gente dando bobeira, batendo com a testa até em poste e tropeçando em calçadas.

Quanto ao livro, você pode ficar em pé ou sentado num banco da praça com ele aberto e lendo que ninguém encosta. Vão é te chamar de maluco desajuizado da cabeça que anda no mundo da lula. Você já viu alguém assim por aí?

– É, mas que existem ladrões de livros, existem, mesmo raros – falou o portuga entre uma discussão e outra, para passar o tempo durante a falta de leitores interessados em comprar uma obra.

 

 

 

 

O LIXÃO CRIMINOSO DE ITAMBÉ

Só poluição, fumaça e sujeiras

Ainda nos tempos atuais, a Prefeitura de Itambé, distante cerca de 50 quilômetros de Vitória da Conquista, mantém às margens da BA-263, um lixão criminoso numa clara e explícita agressão à natureza, sem falar no flagrante desrespeito e desobediência ao código ambiental.

Como se não bastasse, esse lixão a céu aberto, cheio de urubus, materiais orgânicos, plásticos e até restos de animais mortos, queima diariamente soltando uma fumaça que atrapalha a visão dos motoristas, podendo provocar acidentes graves.

É um absurdo que as autoridades, como o Ministério Público, os movimentos sociais, as entidades, os segmentos da sociedade, os defensores do meio ambiente e o próprio Governo do Estado através do Derba não tomem uma providência para acabar de vez com um lixão que já perdura há tempos logo depois da saída da cidade.

Uma imagem aterradora de escombros

Mesmo com todo mau cheiro que exala dos monturos da lixeira, ainda tem gente que aparece no local para catar alguns objetos. Sabemos que existe uma lei, prorrogada por várias vezes, (coisas do Brasil) onde estabelece que todos os municípios construam seus aterros sanitários.

O poder executivo de Itambé, e não é somente do atual mandato, segue na contramão e não se estrutura para pôr fim a uma situação tão lamentável e constrangedora, sem contar o mal que está provocando à natureza e à saúde das pessoas que reviram o lixão.

Há muito tempo que não que não viajo pelas aquelas bandas. Na semana passada fui à Itapetinga participar da Feira Literária e fiquei horrorizado com o cenário que não deveria mais existir. As imagens das nossas lentes falam mais que mil palavras.

Aquilo ali representa o total desleixo do poder público para com o meio ambiente, bem como a omissão dos órgãos que que também não tomam medidas urgentes para proibir de vez com aquele lixão nojento à beira de uma estrada tão movimentada.

É assim que estamos contribuindo para amenizar o aquecimento global? O lixão de Itambé é uma vergonha, não somente para os moradores do município, como também para quem passa pelo local, inclusive turistas que vêm de outros estados em direção ao litoral. Aquele lixão criminoso simplesmente mancha a imagem da cidade e da região.

A fumaça do lixão de Itambé pode provocar acidentes graves na pista e ainda tem gente que se arrisca como catador

 

TEM CABIDE NO MOTEL?

(Chico Ribeiro Neto)

Todo mundo tem uma história engraçada de motel que viveu ou ouviu contar.

Antes dos motéis surgirem em Salvador, frequentava-se muito os hotéis da Travessa Bom Gosto da Calçada (nome sugestivo) que antes recebiam os passageiros dos trens da Viação Férrea Federal Leste Brasileiro. Recebiam, agora, os passageiros do amor.

Fui a um desses hotéis um dia, à tarde. Antes de chegar no quarto, passamos por uma mulher batendo vitamina no liquidificador, menino fazendo dever e uma senhora passando roupa. O quarto era lá no fundo do corredor.

Conheço um casal que, quando foi a um motel pela primeira vez, ela levou uma sacola. “O que é isso?, perguntou o namorado quando entraram no quarto, e ela respondeu:

“Você acha que eu vou deitar em lençol de motel, que eu vou botar minha cabeça em travesseiro de motel e que eu vou me enxugar com toalha de motel?” Ela levou não só lençol, fronhas, toalhas e sabonete, mas também dois travesseiros.

Uma vez, a revista “Playboy” fez uma matéria com garçons de motel. Havia histórias hilárias, como essa: sexta-feira à noite era uma grande fila de espera de carros na parte interna do motel e os garçons atendiam nos veículos os casais que estavam á espera do amor. Mais de uma hora depois o garçom foi avisar ao primeiro da fila que o apartamento 9 estava disponível, e o motorista respondeu: “Agora não precisa mais. Obrigado.” Fez a volta e foi embora.

E tem a de Roberto Carlos. Um colega jornalista arranjou uma namorada e foram pro motel. Ainda estavam nas preliminares quando o som na cabeceira do quarto tocou “Detalhes”, com Roberto Carlos. Ela não aguentou: “Eu não posso, buá-buá, ouvir essa música, buá-buá, porque lembro logo, buá, do meu noivo. A gente acabou o noivado tem menos de um mês, buá-buá, não consigo mais fazer amor, buá, quero ir embora, buáááá. Dito e feito, nada pra ninguém.

Aconselhei ele que, sempre que fosse a um motel, perguntasse na portaria: “Aí toca Roberto Carlos? Se tocar, eu não entro”.

Havia um velho repórter em Salvador que perguntou a um fotógrafo boêmio se ele conhecia algum hotel de encontro no centro da cidade. Ele deu o endereço do hotelzinho de um amigo e recomendou: “Peça o quarto 7, que é o único que tem janela”.

Uma semana depois o fotógrafo encontra o dono do hotel na rua e pergunta:

“Mandei um amigo lá outro dia, você viu?”

“Porra, que velho chato da porra!”

“Por que? O que foi que aconteceu?”

“O velho vem transar e fez o maior escarcéu porque não tinha cabide no guarda-roupa. Ligou pra portaria e só sossegou quando levaram um cabide.”

Dias depois, encontro o velho repórter e pergunto pela história:

“Foi isso mesmo?”

“Foi, sim senhor. Eu ia pendurar minha calça aonde?”

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 





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