ÚLTIMA SESSÃO DA CÂMARA
Vários temas foram debatidos pelos vereadores de Vitória da Conquista na última sessão do ano que aconteceu nesta sexta-feira, dia 19 de dezembro de 2025. Em recesso, as atividades da Câmara Municipal retornarão em março de 2026.
Nesta última reunião, os vereadores discutiram a concessão de ticket-alimentação para eles mesmos, servidores estatutários do quadro efetivo, comissionados e contratados por tempo determinado, assunto nada popular para os conquistenses.
Entraram em pauta também a instituição das festas de caruru de São Cosme, São Damião e Doum; dos erês dos orixás Ibeji e nos Nkisis Nvunji, que são patrimônio cultural e imaterial do município.
Foram debatidos ainda a reestruturação de setores e funções que alteram o quadro geral de cargos comissionados e o sistema de apoio à atividade parlamentar, e modifica dispositivos da lei número 2.955, de 23 de dezembro de 2024, revoga seus anexos e dá outras providências, com objetivo de promover o aprimoramento da estrutura administrativa e funcional do poder legislativo.
Como sempre, falaram todos vereadores se reportando ao ano de trabalho, só que as ações continuam durante o recesso, como destacou o parlamentar Adinilson Pereira. Ele apontou, em sua fala, a falta de infraestrutura às margens do Bairro Lagoa das Flores ao lado da BR-116, de responsabilidade do Denit.
Ricardo Babão falou da última sessão de 2025, dizendo estar feliz pelo seu terceiro mandato com realizações importantes em parceria com a prefeita, com o Governo do Estado e com o deputado Jean Fabrício.
A vereadora Cris Rocha também se reportou à última sessão e destacou os principais avanços da Câmara e da Mesa Diretora. O legislativo aprovou pautas fundamentais nos setores da saúde, melhorias no atendimento e mais investimentos – ressaltou a parlamentar. Outra conquista, de acordo com ela, foi a construção da unidade de saúda de Lagoa das Flores onde também irá receber a revitalização da quadra poliesportiva. Rocha ainda ressaltou os avanços de obras na zona rural. Disse ter sido um ano de intenso trabalhos em benefício dos conquistenses.
Luis Carlos Dudé parabenizou o presidente da Casa, Ivan Cordeiro, quando enumerou diversos projetos aprovados em 2025. De acordo com ele, o ponto mais positivo foi a reforma da Lei Orgânica do Município de Vitória da Conquista. “Ela é uma espécie da nossa Constituição Municipal”. Na ocasião parabenizou a bancada feminina pela criação da comissão das mulheres.
É NESSE DIA
(Chico Ribeiro Neto)
Esse dia é o dia em que camelos voarão sobre o Saara e elefantes nadarão no Porto da Barra.
Nesse dia as flores vão acordar mais cedo para mandar embora o medo.
Caramujos vão invadir as sinaleiras levando novas cores: branco, azul e violeta.
Nesse dia todo mundo vai amanhecer cantando uma cantiga daquelas de quando era pequeno.
Gaivotas levarão seus boletos para uma ilha deserta.
Nesse dia não tem compromisso, nada com isso, e todos vão dançar com a banda BaianaSystem Não tem dentista nem problemas à vista, tudo é conquista.
Velhos, crianças e adultos vão correndo dar um mergulho no mar.
Nesse dia não tem não nem talvez, não tem senão nem porém.
Sabiá vai cantar na janela e vou ganhar um beijo dela.
Plantas vão romper o asfalto e vai cair uma chuva fininha.
Nesse dia beberemos o vinho tinto que escorre da montanha,
Mangas (rosa e espada), melancias, cajás, umbus e cajus vão rolar nas ladeiras de Salvador.
Fartura de acarajé, abará e peixe frito em cada esquina.
Ouviremos uma música lá longe.
No final do dia, um pombo branco vai cagar na cabeça de Dom Pero Fernandes Sardinha, na estátua da Praça da Sé.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
TEM DE TUDO NA FEIRINHA
As feiras nasceram com as primeiras tribos humanitárias de agricultores, classificados como sedentários, diferente dos caçadores e coletores que eram nômades. São tão antigas quanto a humanidade e surgiram da necessidade da troca de seus produtos entre as pequenas comunidades. Elas existem em qualquer parte do planeta, incluindo as grandes metrópoles, e sobrevivem ao mundo moderno das tecnologias, desde a criação dos armazéns, das lojas comerciais, dos supermercados e até dos mercados virtuais. Não existem cidades, vilas e distritos que não tenham a sua. Nas grandes são várias, como é o caso de Vitória da Conquista, mas sempre tem uma que entra nas graças de seus moradores. Em Salvador é a Feira de São Joaquim. Em Conquista é a Feirinha do Bairro Brasil, a mais famosa e graciosa, considerada patrimônio cultural da cidade. Aliás, toda feira é um palco livre da nossa expressão cultural, como a nossa histórica Feirinha onde se encontra de tudo, desde boxes de carnes, peixes, frutas, verduras, bebidas (cachaças), um caldo de cana com pastel (para quem aprecia o pastel), temperos, cereais em geral, a utensílios usados de casa, roupas, sapatos, ferragens, artesanatos, mesas, cadeiras, objetos de uso pessoal e um monte de bugigangas, superando os supermercados, com o diferencial que na feira o cliente pode pechinchar os preços. É gostoso passear na feira e fazer suas compras ao ar livre, sem estar empurrando carrinhos e pegando filas naquelas máquinas registradoras. Nos encontros com os amigos e conhecidos, até o papo na feira é mais prazeroso que o de um supermercado. Na feira você não precisa ficar rodando entre prateleiras para encontrar um produto. As mercadorias ficam em bancas e até no chão. Além de ter de tudo, na feira existe muito mais calor humano e você pode até trocar um dedo de prosa com o vendedor, como se tornar freguês e selar uma amizade duradoura. Quando vou à feira, lembro dos meus tempos de moleque roceiro do interior onde fui até comerciante de farinha. A Feirinha do Bairro Brasil, por exemplo, tem algo de especial e é ali onde você se sente mais gente, mais humano e menos número e máquina. Trata-se de um ambiente mais social, bem mais popular, principalmente pela simplicidade da sua gente por onde circula. Nossas lentes flagraram esse colorido de imagens que não existe num supermercado.
CAVERNA VIRTUAL
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Você é produto do meio,
Ilusão e devaneio,
Nessa caverna virtual,
De morcegos vampirescos,
Dentes dantescos,
Que sugam seu sangue,
Até a medula cerebral.
Desculpe companheiro,
Se meu verso não lhe agrada,
Pela lasca da pedrada.
Livre-se desse cativeiro,
Do influenciador superficial,
Seja mais racional
Fique aí em sua rede,
Com sua bicharada,
Como caça do caçador,
Nem sente mais fome e sede,
Alienígena social,
Do vazio virtual.
Ao invés de curtir na tela,
Veja a vista da sua janela,
Sua caverna virtual,
Cria taquicardia,
Morte lenta, passional,
Drogaria, psiquiatria,
Clique no amor presencial,
O resto é idolatria.
PAPO RETO ENTRE AS VACINAS
Estou de saco cheio, enfastiado e enojado de falar desse Congresso Nacional! Por acaso, existe alguma vacina a ser aplicada no eleitor na hora de votar para eleger um colegiado sério e honesto de representantes do povo? Deixa pra lá, hoje estou mais interessado no papo reto entre as vacinas no Brasil.
Observou que vacina é do gênero feminino e a maioria das doenças também? Talvez esteja aí a explicação dos negativistas contra elas pelos misóginos preconceituosos! Em tempos mais recentes, a que sofreu mais rejeição foi a Covid-19, que ceifou a vida de mais de 700 mil brasileiros.
Por isso, quando se fala em vacina, lembramos logo dela. Foi aquela confusão e polêmica danada, ao ponto de se criar brigas e inimigos. Por ser chinesa dos olhos fechados, a discriminação foi ainda maior. Foi um tal de bota fora e até de se propagar que a pessoa que a tomasse iria virar jacaré ou pegar HIV, que nunca teve a sua vacina.
Um amigo meu bateu umas besteiras em meu cansado ouvido de escutar tantas asneiras. Afirmou que o brasileiro é um corpo ambulante de vacinas, daí os infartos em escala crescente. ”Cuidado, não tome vacina porque você pode sofrer uma parada cardíaca”!
Fiz de conta que não ouvi e mudei de conversa sobre a questão do aquecimento global. Aí, ele também respondeu que é uma falácia. Comentei sobre a terra. Respondeu que era plana. Assim fica difícil entabular uma prosa nos dias atuais. Melhor tapar a boca com esparadrapo.
Quanto as vacinas, dizem que existem 18 delas no Brasil para proteger famílias e seus filhos. Imaginou elas se cruzando na corrente sanguínea, na caça ao vírus malígno, que é macho, para eliminá-lo! Todas têm o DNA de estrangeiras, com exceção da mais caçula da dengue, nascida agora no Instituto Butantã, em São Paulo.
Por falar em vacinas, quando era menino na roça, nunca ouvi falar delas, mas tive aquelas doenças mais comuns em crianças, tratadas com simpatias e receitas caseiras. Recordo mais do sarampo, da catapora, das tais “tosse convusca” ou convulsa (coqueluche) e da “papeira” (caxumba).
Com relação a tosse, quando estava atacado, meus pais jogavam baldes d´água em mim. Parava no susto. Ah, enquanto se estava com sarampo e catapora, não se podia tomar banho, sem contar os resguardos das rezadeiras.
Quem tinha a papeira não podia passar debaixo de cerca, senão a “bicha” descia para baixo até o saco, que ficava grande. Quando passava alguém com aquele saco enorme balançando nas calças, cochichavam que foi porque teve papeira e passou por debaixo da cerca. Ah, seu moço, passei a ter um pavor de cerca”
Bem, voltando ao assunto, essas feministas juntas devem fazer um barulho da peste quando começam a papear. E aí, quem é você, como se chama? Pergunta a vacina do sarampo. Sou a poliomielite e venho da primeira campanha, em 1961. Minha missão é combater a paralisia infantil. Está bem, vá em frente e derruba o cabra.
A do sarampo, muito tagarela, também cruzou com a da rubéola, da caxumba, da febre amarela, com a tríplice viral, a BCG, a tetraviral varicela, a HPV, a do tétano, da raiva, das hepatites “A” e “B”, influenza trivalente (essa deve ser cangaceira), a H1N1 e a da DTPa. Existe até sopa de letras. São as empodeiradas!
Como todas falavam ao mesmo tempo, tem vez que é aquela zoeira perturbadora que até o coração precisa dar aquele basta e mandar que todas procurem circular. “Parem de tanta conversa barata! Até parecem um bando de desocupadas que ficam fofocando da vida alheia”!
– Olha lá, aquela velhinha que vem se arrastando! Apontou uma delas. A trivalente se encarregou logo de informar que se tratava da exterminadora da perigosa varíola, desenvolvida, em 1961/62, pelo Instituto Oswaldo Cruz.
Conta a história que a primeira a aparecer contra a doença varíola foi lá pelos anos de 1804. Cem anos depois, o cientista brasileiro Oswaldo Cruz foi responsável por implementar ela em larga escala no país e quase foi morto por uma tropa enfurecida de ignorantes negativistas – destrinchou a trivalente.
E quem era esse Oswaldo Cruz? Santa ignorância! Era diretor Geral da Saúde Pública e instituiu a vacinação obrigatório, em 1904. Ah, isso deu um fuzuê daqueles! Gerou até uma rebelião popular, chamada de “Revolta da Vacina”, no Rio de Janeiro.
-Ninguém queria chegar perto dela. Muita gente fugiu, mas centenas tiveram que tomar na tora. Ameaçaram o homem de morte, mas ele não recuou e ainda introduziu as vacinas contra a febre amarela e a peste bubônica. Foi o cara!
– Coitadinha dela! De tanto apanhar, anda meio rejeitada pelos cantos, cabeça baixa, sem muita prosa! Falou a catapora, que mais parece nome de cabra do cangaço nordestino. Com seu “punhal, afiado” saiu para cuidar da sua obrigação.
A caxumba e a rubéola foram saindo de fininho, à moda francesa, pois se aproximava a raiva para dar aquele esporro. “Vão trabalhar, cabroeira de preguiçosas! Não vê que a carcaça brasileira está cheia de doenças e precisa de uma ajuda de vocês feministas!
VEREADORES DEBATEM ORÇAMENTO
Em sessão ordinária na manhã desta quarta-feira (dia 17/12), os vereadores de Vitória da Conquista discutiram, em primeira votação, o orçamento anual do município para o exercício financeiro de 2026. A parlamentar da oposição, Marcia Viviane, criticou os cortes substanciais de recursos em quatro secretarias.
Antes das falas dos vereadores e das moções de aplausos, foi colocado em pauta a discussão de vários projetos de lei, como o Selo Motorista de APP Amigo do Autista e outras pessoas com deficiência, o Dia Municipal do Associativismo, Dia do Rosário da Virgem Maria, dentre outros assuntos.
Em sua fala, Adinilson Pereira lembrou da audiência pública sobre o Dia da Bíblia que logo mais, às 19 horas, foi realizado no auditório da Câmara de Vereadores, com a participação de diversos pastores da cidade.
Na ocasião, Pereira informou ao público em geral sobre os serviços de manutenção de ruas que estão sendo executados pela prefeitura nos bairros de Lagoa das Flores, no Periperi e Cabeceiras. Disse ter indicado ao Gabinete Civil do poder executivo a recomendação de obras de pavimentação nos distritos de José Gonçalves e São Sebastião, usando os recursos do empréstimo de 400 milhões de reais aprovados recentemente pela Casa.
O parlamentar Luis Carlos Dudé anunciou que das suas emendas impositivas estaria destinando quase 600 mil reais para serem investidos na cultura, em atividades festivas religiosas e para o setor da saúde. Ressaltou também que está trabalhando junto a deputados no sentido de que eles destinem verbas de suas emendas para a conclusão da reforma da Feirinha do Bairro Brasil.
A vereadora Marcia Viviane usou a tribuna para criticar os cortes no orçamento das secretarias de Saúde, Mobilidade Urbana, Serviços Públicos e Agricultura para o exercício de 2026, num valor superior a 180 milhões. Ela declarou que esses cortes da Prefeitura Municipal em pastas importantes são preocupantes.
NO PAÍS DAS DOAÇÕES
Não que seja contra a dar algo de material às pessoas mais carentes ou um prato de comida a quem está passando fome. Não é isso, mas essa “febre” de doações, onde o Brasil se tornou no país do dar, no sentido assistencialista, não significa inclusão social, ou ascensão de classe de quem vive na miséria.
Pode-se dar o nome de caridade ou solidariedade para com o próximo, atitude que, culturalmente, tem um toque de religiosidade. Existe aquele tipo de doação momentânea que ocorre em determinadas circunstâncias, como em casos de tragédias quando vítimas perdem seus bens e o de época, como final de ano, nas costumeiras campanhas de Natal.
Neste período se ouve muito o “faça uma pessoa feliz”, dando um brinquedo para uma criança, ou alguns itens alimentícios para a ceia da noite. Quem recebe sente aquela sensação de felicidade, só que passageira, porque depois o beneficiado vai continuar se sentindo um lixo excluído socialmente.
É como um sonho não realizado. O verdadeiro seria mesmo viver num país igualitário, com oportunidades para todos, onde não mais existissem essas filmagens de campanhas de doações. Não mais essa nossa gente sendo usada para muitos pousarem de bondosos e caridosos.
Me desculpem, mas existe muita filosofia barata no que diz respeito a ser feliz nesses bordões característicos das campanhas de doações. Nem todos, mas muitos dão alguma coisa para ficar bem na fita, ou na imagem, e outros como se fosse uma remissão dos seus “pecados” durante o ano.
Nossa sociedade é muito hipócrita e podre, do tipo que morde e depois assopra. Com seu egoísmo, de cultura burguesa-capitalista, ela mesmo é criadora da pobreza e da miséria e, consequentemente, da violência gerada pelo banditismo. A maioria acha que “bandido bom é bandido morto” e nem tem consciência que foi o próprio sistema que o apoia quem criou o “monstro”. São benfeitores e algozes ao mesmo tempo.
Dar um objeto ou uma cesta básica por ano não custa muito e serve para se dizer que se sente “feliz” em fazer o bem a alguém necessitado, marginalizado e excluído da sociedade. No entanto, rejeita qualquer política pública de distribuição de renda. A maioria não quer ver o pobre crescer e entrar como cidadão no mesmo ambiente que ele frequenta.
Então, inconscientemente, neste país do se dar, expressa o desejo de que a pobreza jamais se acabe, senão não haverá mais aquele momento de “felicidade” no ato da doação e ganhar um lote no reino dos céus. Estou salvo por ter feito a minha parte – assim pensam muitos quando atendem ao apelo da doação.
Desde quando me entendo por gente, as “esmolas” só crescem e, junto com elas, aumenta cada vez mais a pobreza e a ignorância. Nossos governantes, nos últimos tempos, gastam muito mais com a política do dar, do que com a política da inclusão do ensinar pegar o peixe.
Instituições, organizações, entidades e corporações sempre estão nessa linha de frente das doações em datas festivas, principalmente em final de ano, para fazerem suas médias e até mesmo mascararem suas imagens de “caridosos”, quando, na verdade, são o tempo todo excludentes, discriminatórias e punitivas contra os próprios pobres. São ações e comportamentos paradoxais e contraditórios.
A ESQUERDA ESTÁ SENDO ENGOLIDA PELO VELHO DISCURSO DE SEMPRE
A manifestação em Vitória da Conquista, realizada no último domingo, na Feirinha do Bairro Brasil, contra a bandidagem dos deputados da Câmara foi uma total decepção, com pouco mais de 100 pessoas, sem contar os velhos discursos desafinados, xingamentos, intolerância e ódio. São aquelas mesmas pessoas o tempo todo falando de Bolsonaro com aqueles bordões batidos. “Falem mal de mim, mas falem”.
Esses protestos em Conquista estão ficando cada vez mais vazios, carecendo de uma maior organização e estrutura. Cadê as participações das militâncias dos principais partidos políticos de esquerda, a presença dos deputados estadual e federal, dos estudantes, dos movimentos sociais através de suas associações e sindicatos, dos professores e da massa em geral? Muitos preferem ficar fazendo suas elucubrações filosóficas e passando mensagens na internet.
O único pronunciamento equilibrado foi o do Dr, Ruy Medeiros que, indiretamente, mandou um recado para as esquerdas, muitos dos quais conluiados com as elites da extrema direita e fazendo acordos que só servem aos seus interesses particulares. São alianças com o diabo.
Ele focou na questão das mudanças de atitudes, no sentido de se colocar novamente o povo nas ruas, fazendo uma analogia aos tempos do samba, do pandeiro e do tamborim. Com isso, Medeiros quis chamar a atenção para a necessidade de se voltar a trabalhar as bases populares, e que não basta ficar passando mensagens e textos nas redes sociais.
Durante sua fala, Ruy Medeiros centrou fogo contra o Congresso Nacional onde seus membros prestam um desserviço nojento ao Brasil, com projetos que visam blindar a bandidagem em conluio com as organizações criminosas. Praticamente não se referiu ao Bolsonaro que está preso por liderar uma tentativa de golpe de Estado e disse desejar a volta do samba, do pandeiro e do tamborim.
Sem contar a pouca participação dos conquistenses no protesto contra o parlamento federal, numa cidade de cerca de 400 mil habitantes, os discursos dos mesmos continuam arcaicos e até desencontrados que, ao invés de somar, desagrega. São falas que a população está cansada de ouvir, sem considerar que se colocam no mesmo nível do outro lado da extrema.
O que mais se ouviu foi sobre a prisão do ex-presidente capitão, de que ele está recolhido numa sala confortável, do tipo suíte, com direito a “mordomias”, quando deveria estar numa cadeia comum. Ora, essas pessoas, por propósito de querer enganar os outros, ou desinformação mesmo, esquecem que se trata de uma prisão distinta pela sua condição como “autoridade”, e isso está na lei. Lula quando foi detido também recebeu o mesmo tratamento.
Com esses velhos discursos de uma militância que precisa mudar sua linguagem e suas atitudes, saindo da teoria para a prática, de modo a atrair as bases, as esquerdas estão sendo engolidas pela extrema direita. Precisamos restaurar a Aliança Nacional Libertadora (ALN), instalada no Rio de Janeiro, em 1935.
Com intolerância e ódio vamos nos nivelar ao outro lado, sem citar aquela gente dos longos textos filosóficos e marxistas que não surtem mais efeitos, principalmente entre o povo que não acredita mais na política e considera todos como “farinha do mesmo saco”. Enquanto se falava dos ladrões do Congresso, ouvi de um transeunte de que “Lula também é ladrão”.
Ruy Medeiros fez duras críticas à Câmara Federal, ao Senado, às assembleias estaduais e às câmaras de vereadores, que se fecharam em si, com suas bancadas aliadas ao sistema capitalista do agronegócio, à turma da bala, do setor financeiro, do fanatismo evangélico e das quadrilhas organizadas das bandidagens.
As eleições estão se aproximando e essa esquerda precisa urgentemente mudar de postura, no discurso e nas atitudes. Temos que voltar às ruas através de suas mobilizações populares, com uma nova roupagem e linguagem, bem como, apresentar seus projetos, se é que existem, para que a população volte a acreditar num Brasil melhor, honesto, ético e unido.
Caso contrário, com esse discurso arcaico e mofo, distante do povo, as esquerdas serão engolidas por essa extrema direita conservadora de fanáticos, que nada têm de patriotas como alardeiam aos quatro ventos. Precisamos de lideranças que unam a nação e não de discursos que só desagregam.
Infelizmente, temos hoje um Brasil dividido, inclusive entre as instituições, caso do Supremo Tribunal Federal (STF). Para sermos realistas, existem políticos e personalidades da esquerda com desvios de condutas (o pau que se dá em Francisco, também se dá em Chico) onde a extrema se aproveita disso para ganhar mais espaço e ocupar o poder.
A REPRESSÃO DO ESTADO NOVO E A FILMAGEM DE BENJAMIM ABRAHÃO
A partir de 1930, quando Getúlio Vargas assume o poder através de um golpe, os cangaceiros passaram a não ter aquela vantagem a mais com as forças das volantes em termos de armamentos. Vieram as estradas com automóveis e ônibus, o sistema de transmissão de rádio e o Nordeste começou a se modernizar com a introdução de indústrias e meios de transporte de locomoção entre as cidades.
Essas mudanças não foram nada boas para o cangaço, mas, no início, o chefe Lampião e seus bandos conseguiram driblar esses novos tempos. No entanto, a forte repressão entre os estados, com qualificação das volantes, a introdução da submetralhadora e a ditadura imposta pelo Estado Novo, em 1937, enfraqueceram o banditismo. O Estado Novo foi um dos primeiros responsáveis pela “morte” de Lampião.
Três anos antes da sua morte, em 1938, Lampião não era mais o mesmo nos combates e vivia como se fosse um burguês cheio de ouro, da cabeça aos pés. Desde 1926/27, quando o Governo de Pernambuco mandou prender os coiteiros e ele fugiu, em 1928, para a Bahia, a revolução de 1930, os acordos interestados para reforçar as tropas, em 1926 e 1935, até a filmagem da sua vida no cangaço pelo sírio Benjamim Abrahão Calil Botto, em 1936, dizem os historiadores que Lampião sofreu várias mortes físicas.
Mesmo assim, em fins de 1929, em marcha vertiginosa, penetra nas cidades de Sergipe, sob a proteção do coiteiro Eronildes Carvalho, despachando para Pernambuco, Alagoas e Bahia seus grupos. Os movimentos revolucionários de 1930 e 32, que acarretaram desorganização na campanha repressora, facilitaram a ação do cangaço a praticar seus atos de violência. Em 1932, por exemplo, muitas tropas se deslocaram para São Paulo, deixando o Nordeste desguarnecido.
A fama tomou conta da cabeça de Lampião, que ficou deslumbrado com o poder. Antes era proibido o uso do álcool em seu bando. Depois entrou a cachaça, a genebra Gato, a “zinebra” sertaneja. Para seu estado-maior, o Old Tom Gin e, para ele, o White Horse. Abrahão, ex-secretário do “Padim Ciço”, de Juazeiro, convenceu que ele deixasse ser filmado com seu bando. O cinegrafista recolheu, entre março e outubro de 1936, um longo documentário sobre o dia a dia da vida do cangaço e isso irritou o governo federal.
Este documentário provocou a ira do Estado Novo (As fimagens foram recolhidas), mas antes disso, Getúlio Vargas e o seu Departamento de Imprensa e Propaganda, o chamado DIP, comandado por Lourival Flores, já vinham agindo com sua força repressora contra o cangaço e os movimentos dos beatos no Nordeste.
Sobre estas questões políticas, sociais e históricas, o escritor e estudioso no assunto, Frederico Pernambucano de Mello, autor de o “Guerreiros do Sol”, descreve que o combate na gruta do Angico (Sergipe) encarta-se no ciclo de ferro e fogo da repressão do Estado Novo a movimentos populares considerados arcaicos, que têm início não com o 10 de novembro de 1937, mas logo após o levante comunista de 1935, quando o aparelho repressor começa agir com base no regime implantado pela vigência da nova Constituição de 1934, a Polaca.
Desde 1935, a questão do cangaço ocupava a pauta de homens de estado em sintonia com os propósitos da repressão, como é o caso de José Martiniano de Alencar, presidente da província do Ceará, que propôs ao seu colega de Pernambuco, Manuel Paes de Andrade, que as tropas ignorassem a fronteira comum quando em perseguição aos bandidos.
Quanto aos movimentos populares, Frederico cita, como exemplo, o massacre do reduto de beatos do sítio Caldeirão, em 1936, na Serra do Araripe, no Ceará, tendo à frente o místico José Lourenço. Nessa época já se mantinha a imprensa na focinheira. Em 1938, o extermínio foi contra os beatos agrupados em torno do “santo” Severino Tavares, no sítio Pau-de-Colher, município de Casa Nova, na Bahia. Quatrocentos ingênuos foram sacrificados. Foi a última Canudos.
Duas ações contribuíram para a extinção do clima social e político favorável ao cangaço. Uma foi a relativização do valor da fronteira interestadual e a outra foi a quebra da inviolabilidade do latifúndio com o desmantelamento dos “coronéis” e dos coiteiros.
Tanto Lampião, como seu assassino João Bezerra da Silva, conforme relata Pernambucano de Mello, são produtos acabados desse laboratório cultural sertanejo que viveu por séculos em completo isolamento.
“No quebrar da barra do dia 28 de julho de 1938, atacado em quatro frentes por forças do estado de Alagoas, no comando do tenente João Bezerra, cai Lampião, juntamente com Maria Déa e mais nove cabras”. No meio se achava o fiel lugar-tenente Luis Pedro. Os soldados exultavam por ter atingido o “tigre dos sertões”.
No imediatismo da ação militar, tudo começou com a denúncia do vaqueiro Joca Bernardes, da fazenda Novo Gosto, à prisão, tortura e decorrente delação do também coiteiro Pedro de Cândido. Para os onze bandidos mortos, inclusive o chefe, perdeu-se apenas um soldado. O combate durou cerca de 15 minutos quando, em tempos passados, durava horas e até um dia ou uma noite.
Muitos fatores ajudaram nesse extermínio. Mello aponta a exiguidade de espaço da gruta, concentrando dezesseis toldos armados, num procedimento desaconselhável. O pouso de Lampião foi em coito de uma só saída, segundo relatos de cangaceiros sobreviventes. Corisco teria dito que Angico era uma “cova de defunto”. Além do mais, a grota fica próxima à cidade de Piranhas, sede, na época, de grande número de volantes.
No final de sua vida, Lampião (foi morto com 40 anos) já sofria de reumatismo, dores renais, mau-humos, fadigas no corpo, displicência e problemas no olho esquerdo e direito. As doenças começaram a minar a sua carcaça onde se alojava meia dúzia de balas antigas. Andava com um tubo de estricnina e um frasco metálico de gasolina, para se matar e queimar sua fortuna caso ficasse cego. “Não vou deixar nada para os macacos”.
E quem era João Bezerra? Nascido na mesma região de Lampião, em Afogados da Ingazeira (Pernambuco), primo de Antônio Silvino, com quem aprendeu a atirar, sua vida foi pautada por fatalidades, como sujeito e objeto do jogo político e social nordestino.
Por causa de umas surras que tomou do pai, fugiu para Recife e depois para Jaboatão onde trabalhou em pedreiras. Em suas andanças, conheceu uma tia e terminou, por recomendação do próprio pai, indo para Maceió (Alagoas) onde se alistou como voluntário no serviço militar, em 9 de março de 1922.
COM QUE ROUPA?
(Chico Ribeiro Neto)
Minha primeira calça comprida, que ganhei aos 11 anos, usei durante um mês sem deixar mamãe Cleonice pegar pra lavar. Calça comprida era uma grande conquista.
A farda do Ginásio São Bento, cáqui, era muito sem graça. Depois, o azul e branco do Colégio Central da Bahia eram mais livres e animados, principalmente pela presença das meninas. A primeira mulher que apareceu no São Bento foi uma professora de Francês. Belos joelhos. Foi no Central que comecei, em 1968, a lutar contra a ditadura militar que esmagava o Brasil.
Menino de farda não entrava no cinema. Mas aí era só tirar o escudo (preso por um clips no bolso da camisa) que o porteiro deixava entrar. Uma fiscalização “faz de conta”. O porteiro sabia que era um estudante, mas o dinheiro falava mais alto.
Tem gente que não usa roupa dos outros por dinheiro nenhum, principalmente se a roupa for de alguém que já morreu. Acham que a roupa traz um pouco da alma do antigo dono.
Lá em casa a roupa ia passando. Luiz, o mais velho dos quatro filhos de Waldemar e Cleonice, comprou uma camisa Volta ao Mundo, aquela de nylon que não precisava passar ferro. Essa camisa percorreu uma grande rota, pois de Luiz passou pra Zé Carlos, depois foi Cleomar e foi terminar em mim, já amarela no sovaco, mas inteira.
Meu pai só tinha crediário na Renner, na Avenida Sete de Setembro, onde eram compradas minhas calças compridas. “Tá grande, meu pai!” “Você tá crescendo ligeiro e sua mãe vai fazendo a bainha. Vai levar essa mesmo”.
Tem um famoso cantor brasileiro que tem pavor a roupa marrom e já expulsou do camarim um repórter que foi entrevistá-lo usando uma camisa dessa cor.
Primeiro encontro com a namorada. “Vou com que roupa?”. Noel Rosa cantou: “Com que roupa que eu vou/ Pro samba que você me convidou?”
Tinha um amigo adolescente que, quando ia pro cinema com a namorada, rasgava o bolso da calça e lá no escurinho perguntava se ela queria drops. “Então pegue aqui”, mostrava o bolso, e ela acabava pegando em outro drops.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)






















