POR ESSAS TRILHAS NORDESTINAS
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Sou cavaleiro encantado,
Como um D. Quixote
Por essas trilhas nordestinas:
Terras agrestes milenares,
Milhas de misteriosas ilhas,
De gentes diferentes espartares,
Parando o tempo,
Cortando a lâmina do vento,
Entre torres e placas solares.
Por essas trilhas nordestinas,
De culturas únicas no Brasil,
De expressões misturadas divinas,
Região resistente varonil:
Vejo as floras agrestinas,
A caatinga que esgarça na seca,
A chuva que brota na restinga,
Floresce todo aquele mundão,
E o preto velho faz sua mandinga.
Vejo o cangaço de aço,
Na ponta do rifle e do punhal,
As matas feras ribanceiras,
O céu que dá o seu sinal,
Rios com suas corredeiras,
Meu prateado luar,
As águas cortando curvas,
Rumo às portas do mar.
Por essas trilhas nordestinas,
Vejo os senhores de engenho,
Mirrados meninos e meninas,
Coronéis que perderam seus anéis,
Poetas, trovadores-repentistas,
Os grandes riscados cordelistas,
Dos lajedos, cavernas e grutas,
Nascer a cultura e a literatura,
Desse povo de muitas lutas;
De suas nascentes ainda jorrar,
A tradição rica e popular.
Por essas trilhas nordestinas,
Vejo feiras de trabalhadores,
Com suas enxadas e foices,
Machados, cabaças e facões,
Poderosos dando coices,
Asas parar no ar,
O voo dos carcarás e gaviões,
O choro calado em cada lar,
A exploração dos patrões,
O som rasgado de Zé Ramalho,
A fé que não faia do Gil,
O protesto de Vandré,
Na gaita melódica do vinil,
De Caetano o sol bater,
Nas bancas de jornais,
Cantando Alegria, Alegria,
Atrás dos trios dos carnavais.
Por essas trilhas nordestinas,
Cada humano cruzando estradas,
No jumento em suas picadas,
Gado ferrado em manadas,
Do cangaceiro Antônio Silvino,
As dores que perderam o nome,
Nos cantos dos casebres da fome.
Por essas trilhas nordestinas,
Vejo a Colônia perversa passar,
O império e a nobreza prometer,
E a oligarquia nos violentar;
Vejo o capitão Virgulino,
O Conselheiro e seus penitentes,
A emboscada do pistoleiro assassino,
O pau de arara comendo poeira,
Mutirões em suas frentes,
A mulher solitária rendeira,
Compositores e escritores,
Que nos deram régua e compasso,
O vaqueiro certeiro no laço,
E assim vou seguindo,
Meu destino no lento passo.
Por essas trilhas nordestinas,
De tantas caras e faces,
Umas duras enrugadas,
Outras de semblantes magoadas,
Vejo o alvorecer das madrugadas,
O pôr do sol ensanguentado,
Brilhar nas pinturas rupestres,
Os registros se eternizar,
Nas escrituras dos mestres.
Por essas trilhas nordestinas,
Vou voando como pássaro aguerrido,
Neste Nordeste querido,
Único neste universo,
No sangue do meu sentimento,
Como do escravo seu lamento,
Da mãe África a enxugar suas lágrimas,
Nos porões negreiros,
Para ser trono dos estrangeiros.
Por essas trilhas nordestinas,
Do Maranhão a Paraíba,
Do Pernambuco a Piauí,
Sergipe e a velha Bahia,
Das Alagoas e o potiguar,
Nas farturas das frutas e do pequi,
Cada estado em seu lugar,
No imposto de sangue,
Na vindita da canga,
Justiça de armas nas mãos,
Astutos canibais dos matutos,
Vejo muita luz e energia,
Nesses rostos sofridos,
De José e Maria.
FIBROMIALOGIA, CAFÉ E O SETOR IMOBILIÁRIO NA TRIBUNA LIVRE DA CÂMARA
Há meses, por motivos pessoais, não frequentava as sessões da Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista. A feira de conversas paralelas continua a mesma na plenária e também entre os parlamentares, atrapalhando o aproveitamento dos trabalhos.
Quem vai à Tribuna Livre pouco é ouvido diante do barulho. A leitura da ata poderia ser eliminada porque ninguém consegue escutar praticamente nada. O que se percebe é uma falta total de educação e disciplina. Será que as pessoas vão ali para fazer negócios ou trocar fofocas? Será uma tradição cultural nova que eu desconheça?
Ainda está se discutindo a transferência federal da área do aeroporto velho para o município. Certa vez comentei que naquele local deveria ser construído o Centro Administrativo Municipal para desafogar o centro da cidade. Bem, é só a opinião de um cidadão.
Antes de abrir as discussões da pauta do dia (27/08/2025), várias pessoas falaram na Tribuna Livre, com destaque para críticas à administração da prefeita Sheila Lemos. Como representante do Sindicato Municipal dos Professores, Allysson Mustafá falou da volta às escolas, dizendo que muitas funcionam precariamente.
No entanto, ele focou na questão salarial entre os professores públicos e os de colégios particulares, existindo uma grande defasagem para estes últimos. Citou, por exemplo, que um professor público ganha cerca de 28 reais por hora/aula, enquanto que o de ensino pago chega a 12 reais.
De acordo com Mustafá, o de ensino privado é contratado por horas/aulas. “É uma situação precarizada na educação e existe uma desvalorização explícita que precisa ser corrigida”.
A cafeicultora e pintora Valéria Vidigal também usou da palavra para anunciar a Semana do Café em sua fazenda, no município de Barra do Choça, de 12 a 14 de setembro. Disse que esse encontro, realizado há 16 anos, é o maior do Norte e Nordeste. Dentro do evento será realizada a Feira Literária do Café e lembrou os 300 anos da lavoura no Brasil.
O café, segundo Valéria, é a segunda maior bebida consumida no mundo e, aproveitou a ocasião, para informar que o encontro contará com os melhores palestrantes do Brasil. Entre outras atividades, ocorrerá cursos de culinária. Enquanto falava, Valéria chegou a dar uma parada para pedir silêncio por parte da plateia.
Maria Aparecida usou a Tribuna Livre para tratar da questão da fibromialgia, uma doença que provoca muitas dores e outros incômodos nas pessoas. Ela cobrou da administração municipal que disponibilize médicos multidisciplinares, fisioterapeutas e vale transporte integral para os portadores dessa doença.
Aparecida fez críticas veladas ao abandono da saúde no município e disse que os médicos chegam a fazer deboches quando uma pessoa chega no consultório e fala que tem problemas de fibromialogia. “Não temos um espaço para realizarmos nossas reuniões e a Prefeitura não tem nos dado a devida atenção que merecemos. Em Conquista a saúde é um descaso”.
Quem também criticou a administração municipal foi o corretor Antônio, ao apontar que, devido à cobrança de impostos ilegais, fora da realidade do mercado, está ocorrendo uma queda na comercialização de imóveis em Conquista.
“A Prefeitura está fazendo avaliações arbitrárias. Dentro da Secretaria da Fazenda existem pessoas desclassificadas para o trabalho”. Como exemplo, Antônio citou que num imóvel no valor de 300 mil reais a prefeitura faz cobranças em cima de 600 mil. “Isto é anticonstitucional. A administração está agindo na ilegalidade no setor imobiliário e a categoria está indignada com o que está ocorrendo”.
Depois os pronunciamentos de representantes da sociedade, os trabalhos prosseguiram com as falas dos vereadores, como de Bibia que destacou as cinco tribunas livres. Manifestou-se em favor da CPI que irá investigar os descontos que as entidades, órgãos e sindicatos fizeram na folha dos aposentados, chamando-os de ladrões.
Edivaldo Ferreira se referiu à última sessão sobre a denúncia feita pela sua colega Viviane Sampaio sobre o uso de violência contra crianças e adolescentes em casas de acolhimento. Assinalou que a prefeitura vem investigando os fatos e todas ações seguem as diretrizes do estatuto das crianças.
O parlamentar Hermínio Oliveira falou sobre o encontro nacional do café organizado por Valéria Vidigal. Lembrou que o polo cafeeiro em Vitória da Conquista começou na década de 1970 e que a cultura impulsionou o desenvolvimento do município.
O CANGAÇO E O “CORONEL” SÓ MUDARAM DE VESTES
Quando você penetra nos estudos sobre o cangaço no Nordeste vem em sua mente uma visão do faroeste bandoleiro no oeste dos Estados Unidos, ou a guerra entre bandidos milicianos e traficantes nos morros do Rio de Janeiro e outras capitais. Numa análise mais aprofundada, o cangaço e o “coronel” só mudaram de vestes no Brasil dos tempos atuais, com armas mais sofisticadas.
Vejamos o que fala o estudioso no assunto, Luiz Bernardo Pericás em sua obra “Os Cangaceiros – ensaio de interpretação histórica”. “Em realidade, até mesmo a relação das volantes com os fazendeiros era, grande medida, parecida com a dos cangaceiros, guardadas, é claro, as proporções”.
Os poderosos de hoje, políticos, chefes do poder, grandes empresários, os corruptos dos cofres públicos e outras classes abastadas são os “coronéis” de ontem, com vestimentas diferentes. Eles saqueiam povoados, distritos e cidades. Quase sempre estão engravatados e exercem influências no eleitorado sem instrução e até no policiamento.
Pericás destaca que crimes com requintes de crueldade eram largamente praticados pelos “macacos”, como assim chamavam os cangaceiros. Até hoje a polícia mete medo nos cidadãos, tratando-os como bandidos nas abordagens contra negros e os mais pobres.
Muitos aceitam suborno e matam inocentes trabalhadores. Tem gente que tem mais pavor da polícia do que do bandido. No cangaço, o povo estava mais do lado dos cangaceiros, considerando-os como heróis justiceiros, se bem que de forma distorcida.
O autor diz mais ainda que, naquela época (meados dos séculos XIX até as primeiras décadas do XX), pequenos donos de terra eram expulsos de suas propriedades e tinham suas fazendas desapropriadas à força por “coronéis” poderosos, que se apoiavam nas armas oficiais da polícia que, muitas vezes, se tornavam amigos e compadres dos caudilhos rurais”.
Até hoje temos os grileiros de terras, principalmente no Norte e Nordeste, resultando em matanças de líderes que defendem os mais fracos. Nunca se fez uma reforma agrária na história do Brasil e a briga por terras é constante, com a impunidade dos criminosos, que recebem até a cobertura da Justiça que vende sentenças.
O escritor vai além, “de que a influência política dos “coronéis” ajudava na promoção de tenentes e capitães, dentro da corporação e no acobertamento de suas atividades ilícitas. Havia aí, de modo claro, uma relação de promiscuidade entre o poder público e o privado. Uma troca de favores”.
Essa promiscuidade continua a existir, sobretudo entre os políticos e chefetes, como o termo de “toma lá, dá cá”. Ainda existe o Quem Indica, comumente apelidado pela sigla QI.Quem quiser pode utilizar a palavra “pistolão”, que vem de pistola.
Naqueles tempos, quem não quisesse participar desse “arranjo” estaria fadado ao fracasso – assinala Luiz Pericás, que cita o caso do tenente-coronel Alberto Lopes, responsável pelas volantes baianas, em 1930. Dentre as imposições para assumir o cargo, exigiu que os chefes políticos locais não interferissem nas operações militares organizadas e lideradas por ele, de nenhum modo.
Essa exigência foi fatal para o tenente. Perdeu a vida numa encruzilhada pelas mãos de um chefe regional, justamente por não querer a ingerência dos “coronéis” em suas decisões. “Era comum, portanto, que um sargento, cabo ou oficial, comandando uma diligência de caça a cangaceiros (bandidos), desistisse da missão, por causa de inúmeros entraves antepostos pelos “coronéis” e chefes políticos regionais.
“Em períodos próximos das eleições, por exemplo, esses homens poderosos podiam espalhar boatos e fazer intrigas contra determinados oficiais das volantes que, porventura, estivessem criando “problemas”. Difamações eram frequentemente difundidas com intuito de retirar de suas áreas de influência, certos comandantes considerados inconvenientes. Quando o oficial era transferido, a relação entre “coronéis” e bandidos poderia continuar sem empecilhos”.
Boatos hoje montados por políticos poderosos levam o nome bonito inglês de “fake news”, ou falsas notícias para se ganhar um pleito e derrubar o adversário oposto. No mundo do crime e do tráfico, ainda perpetua a relação promíscua entre políticos inescrupulosos e bandidos, naquele tempo, cangaceiros do cangaço.
O soldo das tropas volantes daquela época era, em geral, mais baixo do que ganhava a média dos cangaceiros bandidos. Traficante hoje pode até ter vida curta, mas ganha bem mais que um soldado e até um oficial, quando ele é sério e honesto.
A corrupção e a desonestidade estavam presentes nas corporações. Uma das formas do soldado ou oficial completar seu salário era roubar os pertences dos cangaceiros após os combates. Não são todos, mas muitos policiais usam dessa prática em abordagens e apreensões ilícitas.
O “CANGAÇO E SUAS ORIGENS” ABRIU OS TRABALHOS DO SARAU A ESTRADA
Em nova casa e com a participação de cerca de 40 pessoas entre artistas, professores, jovens estudantes, novos convidados e interessados pela cultura, o tema “Cangaço e suas Origens” abriu os trabalhos do Sarau A Estrada. Foi mais uma noite memorável onde todos se sentiram à vontade para expressar seus pensamentos e ideias.
O evento foi realizado no Espaço Cultural do mesmo nome, na Avenida Sérgio Vieira de Melo, no último sábado (dia 23/08/2025), num clima de muita confraternização e troca de conhecimento que sempre norteou o sarau nesses 15 anos de existência.
Sob a organização da comissão formada por Cleu Flor, Alex Baducha, Dal Farias e Eduardo Moraes, o cantor, compositor, músico e poeta Dorinho Chaves abriu as cantorias com melodias relacionadas ao assunto, intercaladas com a declamação de poemas, em sua grande maioria autorais, e contação de causos.
Foi uma noite de violada também com Manno Di Souza, Baducha, Vamberto e outros artistas que soltaram suas vozes no ritmo da música popular brasileira, sobretudo nordestinas. Foi uma noite reservada para o nosso Nordeste, rico em tradições e mistérios.
Num ambiente de descontração e amizade, a cultura foi o ponto central das discussões na troca de ideias durante o sarau que varou madrugada a dentro, depois de um certo tempo parado devido a mudança do seu espaço.
Apesar de ainda adolescente, o sarau colaborativo, onde os participantes contribuem com petiscos e bebidas, sem contar com um fundo criado para sua manutenção, tem vida longa e percorreu obstáculos para sobreviver.
Durante esse período (começou como Vinho Vinil), o sarau já produziu uma série de trabalhos, como CDs, DVDs, vídeos de textos poéticos, apresentação em público no Teatro Carlos Jheovah e foi homenageado com o troféu Glauber Rocha, indicação do Conselho Municipal de Cultura, com entrega solene pela Câmara de Vereadores.
Em sua nova etapa, agora está sendo registrado oficialmente em cartório como entidade de direito, com condições de criar parcerias com outros órgãos públicos e privados visando ampliar seus horizontes.
Não se trata de uma festa cultural fechada, tanto que o sarau está com o propósito de abrir suas portas para estudantes de escolas para engajá-los no universo da cultura como atores de debates diversos. O mais longevo de Vitória da Conquista, ao longo desses anos, o Sarau a Estrada vem fazendo cultura e marcando sua presença na sociedade.
Como carro-chefe, sempre abrimos os trabalhos com o tema nas áreas da cultura, da educação, social e também da política, tanto que não seja de cunho partidário. Já discutimos sobre literatura, história da música brasileira, os movimentos de 1968, Graciliano Ramos, Castro Alves, Escravidão, cinema, império romano, a civilização dos sumérios, a península ibérica, forró, escritores nordestinos e tantos outros.
“O CANGAÇO E SUAS ORIGENS”
Dessa vez, colocamos na mesa a discussão sobre “O Cangaço e suas Origens”, assunto este desenvolvido pelo jornalista e escritor Jeremias Macário. Existe uma vasta literatura sobre esse fenômeno que nasceu no Nordeste miserável a partir de meados do século XIX, como “Os Cangaceiros”, do acadêmico Luiz Bernardo Pericás, “O Cangaceiro, o Homem, o Mito”, de Sérgio Augusto de Souza Dantas, “Guerreiros do Sol”, de Frederico Pernambucano de Mello, “Lampião, Senhor do Sertão”, de Élise Grunspan-Jasmin, “O Mundo Estranho dos Cangaceiros”, de Estácio de Lima, dentre tantos outros.
Na introdução, Macário deu uma visão geral sobre o Nordeste do meado do século XIX, quando nasceu o movimento do cangaço, e primeiras décadas do século XX, destacando os aspectos sociais, econômicos e político da época.
Era uma região pobre e bem mais miserável onde era dominada pelos coronéis, senhores de engenhos, fazendeiros e políticos poderosos. Era uma terra de ninguém onde a justiça e a lei eram as armas. Quem tinha mais posses e dinheiro mandava.
Em resumo, o cangaço nasceu daquele sistema cruel onde o homem pobre era escravo do seu patrão, espoliado como se fosse uma mercadoria qualquer. Por vingança de assassinato de um familiar, revolta das condições de miséria, falta de justiça aos menos favorecidos, brigas por terras, a opção era o cangaço, que vem de canga de carros-de- bois, utensílios velhos e apetrechos.
Com o tempo, o cangaço tornou-se uma espécie de empreendimento para seus líderes, como Antônio Silvino (1897-1914), Sinhô Pereira, Antônio Brilhante, Lampião, Corisco, José Bahiano e tantos outros, que se aliavam aos coronéis amigos, políticos, comerciantes ricos e poderosos para praticar a vindita contra opositores e realizar seus saques em povoados e cidades do Nordeste.
Heróis, bandidos ou justiceiros? Estavam mais para bandidos marginais, mas não gostavam de assim serem chamados. Na falta da justiça, faziam justiça ao seu modo, protegendo uns e matando outros. No entanto, mesmo diante de tantas perversidades, o povo miserável e ignorante tinha fascínio pelos cangaceiros que percorriam vários estados nordestinos e eram perseguidos pelas milícias ou volantes, ainda mais violentos com a população.
Quando se fala em cangaço, as pessoas logo lembram de Lampião, o mais estudado e pesquisado pelos escritores – disse Jeremias, ao acrescentar que ele foi muito mistificado e divulgado pela imprensa, como se tivesse sido o único governador do sertão.
Existiram outros que marcaram época, como o próprio Antônio Silvino, antecessor de Lampião, talvez mais cruel que, ferido de morte pelas volantes, se entregou em 1914 e ficou preso por mais de 20 anos na Casa de Detenção de Recife. Morreu num casebre de Campina Grande em desgraça.
Antônio Silvino serviu de inspiração a Lampião que brincava de cangaceiro quando ainda era menino e se tornou o símbolo maior do cangaço, que teve seu auge na primeira década dos anos 1900 e terminou em 1940, após a morte de Virgulino Ferreira da Silva, em 1938, na Gruta do Angico, em Sergipe.
Os cangaceiros detestavam os soldados, chamados por eles de “macacos”, mas em seus grupos mantinham regimes parecidos. Descreve o estudioso Luiz Bernardo Pericás, em sua obra “Os Cangaceiros”, que o “homem” constituiu vários locais de “recrutamento”, entre os quais a fazenda Paus Pretos, do “coronel” Petrolino, para receber com segurança os foragidos e perseguidos da polícia. A fazenda Três Barras foi transformada em “escola de guerra” e campo de treinamento militar.
Era comum, segundo Pericás, o uso dos nomes de guerra por diferentes cangaceiros. Para confundir a polícia e homenagear os marginais tombados em combate havia dois cangaceiros com o nome Esperança; três Sabiás; quatro Beija-Flor; dois Pitombeiras; três Asa Branca; dois Cocadas; Três Pai Velho; dois Moita Braba; três Marceca; quatro Ponto Fino, e assim por diante.
No período lampiônico, os cangaceiros desenvolveram um sistema de alarme parecido com o utilizado por Lucas de Feira, o “demônio negro”, na primeira metade do século XIX, na Bahia. Na época, Lucas montava uma rede feita de cipó com um chocalho na ponta, próxima do seu esconderijo. Servia como aviso de aproximação de inimigos.
Lampião, que aperfeiçoou o cangaço, começou a dividir seu bando em “subgrupos”, em “pelotões” semiindependentes, que agiam por conta própria, mas que se uniam ao núcleo principal quando eram requisitados. Chegou a possuir de seis a dez falanges de criminosos.
Para esconder as marcas de pegadas, os cangaceiros sempre andavam em filas indianas, com Lampião sempre à frente. Em períodos de chuva, andavam sobre pedras, dentro de riachos ou pulavam de um lado para o outro nos caminhos de terra seca. Em alguns momentos, eles usavam alpercatas “reviradas”, com o calcanhar em posição contrária. Eram verdadeiros curupiras. Essa tática havia sido utilizada por João de Souza Calango, no final do século XIX.
Suas indumentárias se assemelhavam aos dos vaqueiros, com trajes mais elaborados, que mantinham sua funcionalidade militar, mas se destacavam pela quantidade de ornamentos, como medalhas e moedas. O chapéu de couro já era usado em épocas anteriores. Duas cartucheiras se cruzavam no peito dos salteadores, levando cerca de 129 balas de fuzil. Carregavam um revólver ou pistola, punhais e dois a quatro bornais. O peso completo das roupas, do dinheiro roubado e dos equipamentos em geral chegavam a cerca de 30 quilos. As armas eram modernas, fabricadas nos Estados Unidos, na Alemanha e na Bélgica.
De acordo com Pericás, um dos motivos para a longevidade da “boa” recordação dos cangaceiros seria sua contraposição às volantes dos governos que praticavam roubos, espancamentos e assassinatos como os cangaceiros. Como transgrediam as leis, ficavam com uma aparência negativa perante às comunidades sertanejas. A população via nos cangaceiros o oposto das volantes, aqueles que lutavam pela ordem.
Dos amigos de infância de Virgulino, os meninos que brincavam de guerrilha, alguns o seguiram e outros se tornaram adversários. Uns viraram “bandidos” e outros “macacos”. O mais ferrenho inimigo de Lampião foi José Saturnino, companheiro de meninice, no Vale do Pajeú, membro da família Nogueira que, com outras famílias, como os Feraz, se incompatibilizaram com os Ferreiras. Diz um jornalista que se Virgulino fosse chefe de uma volante, os Ferraz, apelidado de Flor (Manuel Flor) formariam um bando de cangaceiros. O clã dos Flor foi um dos mais aguerridos “caçadores” de cangaceiros. José Flor, compadre de Lampião, fazia parte da Força Volante. No sertão haviam dois “partidos, o do cangaço e o da polícia.
Como foi dito acima, o tema é vasto e carece de mais estudos e pesquisas porque existem muitos mitos e lendas que precisam ser esclarecidos no campo da verdade. Alguns escrevem sob o manto dos boatos do povo, sem se aprofundar nas pesquisas investigativas.
É preciso que se entenda que o Nordeste não é somente fome, miséria e cangaço. A região é rica com suas diversidades culturais únicas no Brasil, inclusive com escritores, poetas e artistas de renome nacional e internacional, sem contar sua força na economia, na indústria e no comércio.
Tudo isso e muito mais foi o nosso sarau do último sábado, dia 23 de agosto de 2025, onde muitos ensinaram e também aprenderam na troca do saber. Debates, cantorias, declamação de poemas, acompanhados de comidas, umas geladas e vinho, nos levaram por uma viagem ao mundo mágico da cultura.
NAS DIVERSIDADES DAS ESTRADAS
A Bahia é um estado nordestino que cabe dentro da França e é maior do que muitos outros países, com suas diversidades culturais, de clima e solo, na maior parte semiárido, mas temos outros biomas como o cerrado, a Mata Atlântica, a ciliar, de cipó e dentro dela a bela Chapada Diamantina.
Sair de Vitória da Conquista, beirando Minas Gerais, cortando estradas até Juazeiro, pouco mais de 800 quilômetros, no norte da Bahia, divisa com Pernambuco, é conhecer essas diversidades e gente diferente.
Atravessar a Chapada, a partir de Ituaçu, com sua Gruta da Mangabeira, passando por Barra da Estiva, Mucugê, do Cemitério Bizantino, Andaraí e Rui Barbosa é entrar em terras estrangeiras e o mesmo que fazer uma desintoxicação mental.
Depois você passa por Baixa Grande, Mairí, Várzea da Roça, São José do Jacuípe, Capim Grosso, Senhor do Bonfim e em Juazeiro você toma a benção ao “Velho Chico, ou rio Opará, rio-mar em tupi-guarani. Nele se faz o descarrego de banho em suas águas, como diz o meu amigo professor Itamar Aguiar.
O mais cruel nessas estradas para quem vai de carro próprio é aturar as centenas de quebra-molas. Em alguns deles passei no pulo do gato. Cada povoado tem dois ou três lhe esperando e muitos sem a sinalização. É só construir uma casa às margens da estrada e lá vem o quebra-mola. Se fosse contar daria para mais de 300.
O nosso sertão está seco com aquela paisagem cinzenta onde só se ver os engaços e bagaços das árvores, com exceção do verde do mandacaru, o nosso símbolo de resistência que representa a coragem do homem nordestino.
Em alguns locais só choveu no último dezembro e a água está escassa. O mais encantador dessa paisagem árida de chão estorricado é que, quando batem as chuvas, de repente, em questão dias, tudo fica florido, dando vida à fauna e à flora, com sua exuberância e fartura que não se tem em outro lugar.
No retorno você vem cortando outras estradas e cidades, como Antônio Gonçalves, Pindobaçu, Saúde, Caem, Jacobina, Miguel Calmon, Piritiba e Mundo Nova, conversando e assuntando o comportamento das pessoas.
É uma viagem para reaver parentes e velhos amigos, mas também para contar e ouvir causos e estórias daquele povo simples, bem diferente da capital ou dos grandes centros urbanos, metidos a bestas e “civilizados”.
Onde se chega é bem recebido, se come e se dá boas gargalhadas que espantam os problemas do dia a dia. Vi um veículo tipo lata velha rebocando uma caminhonete nova, um motoqueiro puxando um cavalo pelo cabresto e um velho fazendo malabarismos.
Em Piritiba, onde me deu régua e compasso, conheci um poeta de 99 anos e declamamos alguns versos que falam do sertão. O município elegeu a primeira prefeita da sua história, desde a sua emancipação.
Nas prefeituras, ainda persiste o velho assistencialismo. Numa delas, um bocado de gente na porta, cada um com seu pedido, um mais esquisito que outro, para o prefeito ou a prefeita.
Conversa vai e conversa vem, uma senhora estava com um bilhete em sua mão onde pedia uma cama porque a sua havia quebrado. O pessoal que estava na fila fez aquela gozação e ela também caiu na risada.
É isso aí, cortando estradas você observa muitas coisas interessantes e também fica mais próximo da pobreza, do eleitor que sempre está sendo enganado pelas promessas de dias melhores que nunca chegam.
UM PROJETO ARROJADO EM MAÇAROCA
Tudo começou há anos num velho barracão de bode assado com farofa e uma rede para atender caminhoneiros e outros viajantes. Depois veio outro local chamado de “Folha Seca”, em homenagem a canhoteiro, do Bahia, com maior estrutura e cara de uma boa churrascaria, não somente de bode.
Ao lado, um posto de gasolina e aquele pequeno empreendedor, de nome Rosenberg Macário, “Seu Rose”, que um dia sonhou em comprar o estabelecimento, transita entre os passantes trocando sempre um dedo de prosa e apertando cada mão. “Não é fácil tocar tudo isso, lidar com gente, mas devagar chegamos lá”.
Tudo isso no distrito de Maçaroca, de pessoas humildes, em pleno sertão catingueiro nordestino baiano, distante cerca de 60 quilômetros de Juazeiro. O movimento foi crescendo e o sonho se concretizando. Adquiriu o posto e seu negócio tomou outras dimensões, com lojas artesanais, bebidas, confecções e lanchonetes.
Foi mantida a churrascaria carro-chefe que lhe deu sorte, com um reforçado café da manhã de fazer inveja. A comida bem preparada do cuscuz, aipim, carne assada, ovos e outros ingredientes é forte e dá sustança, deixando o caminhoneiro abastecido durante todo dia no volante da estrada.
Nem tudo estava concluído para o arrojado empresário Rosenberg com sua visão futurística que muitos o chamavam de doido e achavam que era jogar dinheiro fora. Para muitos, ele ia cair na falência total, como o velho posto de gasolina que entrou em decadência várias vezes nas mãos de outros donos.
O segredo é não ter medo e investir com coragem e certeza que lá na frente tudo vai dar certo. Aos poucos, “Seu Rose”, com seu jeito simples de catingueiro de se vestir e se apresentar, começou a montar uma estrutura de pousadas, chalés, áreas de lazer, placas solares, parques infantis, pequenos jardins floridos, criação de aves, plantações de árvores, flores e outras obras.
Com tudo isso, surgiu o mais pesado que foi a construção de um centro de treinamento de futebol com gramado oficial sintético, hoje requisitado por vários times quando vão jogar em Juazeiro. Ao lado um campo soçaite, área para jogar vôlei e uma academia de treinamento com equipamentos de primeira linha.
Quem passa e conhece aquela estrutura ao lado do posto, em pleno sertão árido nordestino onde cruzam bodes na movimentada BR-324 fica encantado e não o chamam mais de “maluco”, mas um visionário que deu vida e força ao pequeno distrito e emprega hoje cerca de 70 pessoas.
Quando chego lá, o meu amigo-primo irmão Rosenberg faz questão de mostrar tudo em detalhes, com aquele prazer de ter feito uma obra em cada canto daquela área de mais de cinco hectares onde antes era só agreste e hoje já está sendo um ponto de turismo e lazer.
Recentemente adquiriu dois pôneis com charretes para proporcionar lazer aos seus hóspedes e demais pessoas que visitam seu projeto, único naquelas redondezas nos confins do norte da Bahia. “Ainda tenho muito coisa por fazer, como uma lagoa nessa área” e aponta para outro lugar onde será mais um de seus sonhos a ser realizado.
Ao lado da pista berram o bode e a cabra, a rapaziada bate seu baba no campo no final de tarde, o pátio está cheio de caminhões, gente de todas culturas se cruzam e proseiam e até cantores de bandas de Salvador, Recife e de outras capitais do Norte e Nordeste têm no Centro de Treinamento e nos chalés seus pontos de apoio para apresentar seus shows em Juazeiro, Petrolina e demais cidades da região.
JUAZEIRO-PETROLINA, DUAS CIDADES UNIDAS COM SEUS CONTRASTES SOCIAIS
Só a Ponte Getúlio Vargas e o milenar Rio Opará ou o São Francisco, o conhecido popular “Velho Chico” os separa uma cidade da outra com uma bela visão das águas em pleno sertão nordestino. Em qualquer uma de suas margens, o turista fica encantado com a paisagem
Uma é a baiana Juazeiro, cujo nome é uma árvore catingueira resistente às intempéries da seca. A outra é pernambucana com seu nome em homenagem ao imperador Pedro II ou à imperatriz Tereza Cristina a partir do latim petrus mais o sufixo “ina”. Luiz Gonzaga conta o seu Juazeiro, na espera do seu amor e outro músico diz que ama Juazeiro e Petrolina.
Bem, o que mais importa entre as duas são seus contrates sociais, econômicos e políticos explícitos e gritantes, conhecidos de todos e visíveis para qualquer um visitante. A pernambucana poderia ser uma Londres ou uma Paris e a baiana uma periferia pobre das duas.
Todos que a conhecem sabem que Petrolina é bem mais desenvolvida, organizada, limpa, com um bom saneamento e uma orla ordenada de bons bares e restaurantes de fazer inveja. Sua população tem hoje cerca de 400 mil habitantes, enquanto Juazeiro em torno de 260 mil.
Em comum, as duas são nordestinas de terras áridas com uma agricultura frutífera irrigada pelo “Velho Chico”, com suas plantações de uvas, melões, melancias, mangas, mamões e outras espécies exportadas para vários países.
O Opará indígena do tupi-guarani sustenta essas riquezas e pouco recebe de preservação. Embora cheio nessa época, está desgastado, depredado e quase morre numa longa estiagem. Suas margens secaram e ficou praticamente inavegável.
Quanto as diferenças econômicas e sociais entre as duas, muitos respondem na ponta da língua que se trata de questão política. Os prefeitos de Petrolina, junto com seus governadores e deputados representativos, tiveram mais garra, senso de planejamento, trabalho, disposição, seriedade para ultrapassar em muito a baiana largada, suja, mais pobre, esfarrapada e com esgotos a céu aberto em vários bairros.
Petrolina foi uma cidade planejada, com ruas largas onde quase não se vê um papel no chão. Tem uma educação e saúde de maior qualidade e até a catedral é maior e mais bonita. Sua economia é mais sólida e um comércio mais forte.
Antigamente se dizia que os petrolinos ou petrolenses saiam de lá depois da labuta para beber e curtir as festas em Juazeiro, que nem tem mais. O São João de lá é melhor. Tem mais gente trabalhando em Petrolina do que baiano na outra margem, cujos meios de transportes são a ponte, os ônibus ou a barca que atravessa o rio. Sou mais a barca.
Numa coisa Juazeiro supera que é ter um povo mais alegre, farrista e hospitaleiro, enquanto o pernambucano é mais fechado. Mesmo com as diferenças, o “Velho Chico” une e separa as duas com todo esse contraste de desenvolvimento.
Apesar de tudo, é com Juazeiro que me identifico desde os anos 70 em minhas andanças de boemias, mas sempre fazendo minhas críticas e com horror das muriçocas. Contam uma estória que o sujeito viajante encheu a cara e foi dormir bêbado numa pensão. De tanta muriçoca, no outro dia foram encontrar ele debaixo da cama.
Fui vítima delas em várias ocasiões. A mais recente foi que ao abrir a janela do carro para pedir uma informação, elas me atacaram como enxames de abelhas e sugaram todo meu sangue. Deixaram minha pele toda picada, só no osso. Na rodoviária as bichas são as primeiras a dar “boas vindas” aos visitantes que correm como desesperados.
Por que de tantas muriçocas em Juazeiro e que fazem aumentar em quantidade? Dizem que elas vêm do bagaço da cana da usina de açúcar próxima da cidade e se juntam aos insetos dos esgotos a céu aberto. Umas com cheiro do melaço da cana e outras fedorentas. Cada casa tem sua raquete, seu mosqueteiro, feixes de mosquitinhos e outros meios para combatê-las, mas se tornaram imunes.
No Centro de Juazeiro, as ruas são estreitas que mal passam um carro, mas em algumas a prefeitura teve uma boa ideia de transformá-las em calçadões para o comércio de camelôs e barracas. Em alguns bairros mais próximos, como do Lomanto Júnior e adjacências, os esgotos correm a céu aberto.
Passei num deles e confesso que sai com dor de cabeça diante do mau cheiro. Fiquei a imaginar como as pessoas suportam morar naqueles locais. Soube que todos sofrem de doenças respiratórias e outras crônicas. Passa prefeito e entra prefeito e o problema não é resolvido.
No entanto, Juazeiro agora está recebendo uma grande obra federal de grande porte tocada pelo Denit, ligando a entrada de quem vem de Salvador e de outras regiões à Ponte Getúlio Vargas com Petrolina. Os serviços já duram cerca de três anos de forma lenta. A previsão é que termine em agosto do próximo ano.
Os comerciantes e os moradores reclamam pelos transtornos, mas quando tiver concluída dará uma maior mobilidade urbana e quem sabe, os juazeirense vão poder bater no peito e tirar um pouquinho de sarro com a cara dos petrolenses pernambucanos, mas os contrates sociais, econômicos e políticos vão permanecer. Fica difícil superar sua coirmã em termos de desenvolvimento.
A REFORMA DA LEI ORGÂNICA
Os munícipes, de um modo geral, não têm noção sobre a importância do que representa uma Lei Orgânica para a vida de seus moradores, daí a pouca participação nas audiências públicas. As decisões não devem vir de cima para baixo, mas com a participação da população.
Depois de muito tempo, infelizmente, a Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista vem realizando audiências públicas para a reforma da sua Lei Orgânica que tem como principal objetivo estabelecer políticas de ordenamento urbano, principalmente no que diz respeito ao setor imobiliário da cidade.
A Câmara realizou audiências com vários segmentos da sociedade para ver as necessidades mais urgentes e corrigir leis que já estão defasadas quanto a questão do uso do solo e do meio ambiente, hoje degradado pela ação dos homens.
A Lei Orgânica também vai retificar distorções existentes hoje sobre o que é bairro e loteamento, numeração e nomes corretos das ruas, avenidas e praças, hoje um emaranhado de áreas onde cada morador faz a sua definição por conta própria.
Vitória da Conquista é uma das cidades do Norte e Nordeste que mais cresceu nos últimos anos e já passou do tempo de se fazer a reforma da sua Lei Orgânica.
Dentro desse bojo, a reforma, quando for aprovada, deve apontar a necessidade de ser implantado o Plano Municipal de Cultura, uma reivindicação antiga da classe artística que a Prefeitura vem adiando.
Esse Plano servirá de base política para o poder público impulsionar a nossa cultura, com a realização de eventos obrigatórios anuais por lei, como o Festival de Música, a Feira Literária, o Salão de Artes Plásticas, dentre outras atividades que farão parte do calendário do município, não somente o São João e o Natal.
A Reforma tem também como fim estimular a criação de novas associações de bairros, bem como atualizar seus estatutos e normas, de acordo com as mudanças criadas nas esferas estadual e federal.
A BENÇÃO, MEU “VELHO CHICO”
Sempre que visito Juazeiro ou outra cidade qualquer banhada pelo rio Opará, (“rio-mar”) seu nome original indígena tupi-guarani, e é assim que deveria ser o São Francisco, o “Velho Chico”, costumo me benzer com suas águas e pedir sua benção.
Cumpri o meu rito e pedi perdão pelo que os homens fizeram de mal para esvaziar suas margens em tempos de seca e estiagem prolongada, como já ocorreu diversas vezes. E o desmatamento ciliar de suas matas, sem contar o assoreamento?
Diz a história que o rio foi descoberto pelo navegante Américo Vespúcio no dia de São Francisco de Assis. Isso não é verdade porque ele é milenar e já existia antes dos portugueses. Nos ensinam errado.
O que interessa é que de lá para cá, há mais de 500 anos, o Opará é fonte de alimento e suprimento dos povos ribeirinhos, sustentando, inclusive, a agricultura através dos canais de irrigações, e isto para empresários, deixando a classe pobre de fora.
Tenho amor incondicional a este rio que vem das cascatas de Minas Gerais e uniu vários estados nordestinos de culturas diferentes. Gerou e ainda gera inspiração para poetas e compositores musicais, sem falar na narração literária de grandes escritores.
Portanto, a minha benção ao “velho Chico”, beleza pura para Juazeiro e Petrolina, separadas apenas por uma ponte entre a Bahia e Pernambuco.
ISSO É COISA DE IGNORANTE!
– Esse negócio de tarifaço dos Estados Unidos, de que o Eduardo Bolsonaro pressionou os republicanos e o Trump para retaliar o Brasil é tudo mentira e falso, só ignorante acredita nisso.
Acabei agora mesmo de ouvir esse petardo ou pedrada sair da boca de um bolsonarista de Juazeiro, ou sei lá o que o cabra é! Acho ser nada.
Para completar sua raiva canina, disse que no Supremo Tribunal Federal, fora os maios novos, só tem bandidos e ladrões que vendem sentenças.
De tão estarrecido, fiquei calado e dei às costas porque achei que não valia a pena responder. Resolvi economizar minha saliva e meus neurônios para outra discussão mais sensata. Optei pelo silêncio e fiquei a pensar quem era mesmo o ignorante.
Ora, contra fatos e imagens, não existem argumentos. Elas falam por si. Decidi registrar o absurdo. Essa é a cara do nosso Brasil de hoje, de fanáticos e extremistas irracionais. É o Brasil da raiva e da intolerância, que confunde ser patriota com traição.
O próprio Eduardo Bolsonaro, que se licenciou da Câmara dos Deputados, para infernizar o Governo e o seu próprio país, deu uma entrevista na casa dos yanques dizendo que o tarifaço era uma das retaliações contra o Brasil para pressionar a Corte a parar com o processo contra seu pai, o mentor do golpe de Estado que previa até matar o presidente, seu vice e o ministro Alexandre de Morais.
Ele mesmo completou que vinha mais coisas por aí além das tarifas de 50%. Será que sua fala foi armada pela Inteligência Artificial? Não era ele?
Por outro lado, o Trump foi bem claro em seu recado quando “ordenou” que parassem com as investigações, como se fosse o dono do planeta terra. Todo mundo sabe, inclusive os direitistas mais moderados e conscientes, que o tarifaço não foi técnico. Foi uma medida exclusivamente política de invasão à soberania de outra nação.
Não estou aqui discutindo política partidária, mas relatando fatos incontestáveis que não se pode ignorar puramente por questões pessoais. O cara que falou aquela besteira lá em cima do texto, nem sabe diferenciar ignorância do real.
Naquela hora lembrei do Maluf quando estava sendo julgado por corrupção nas obras de São Paulo. Mostraram a fala dele armando a trama. Simplesmente respondeu que não era ele. Contestou até sua própria assinatura, isto depois de periciada.
Para que fique bem claro, sou de posições esquerdistas, mas não sou petista e nem lulista. Tenho minhas críticas ao Governo Lula e à própria esquerda, que não é mais a mesma de antes, quando era mais ativa, menos contaminada com gente corrupta e ainda bebia aquela cachacinha, ao invés do uísque.













































