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SOFRIMENTO E RENOVAÇÃO

Assuntos não faltam para se escrever, uma arte de lidar com as palavras, mas hoje resolvi dar uma folga nos comentários mais pesados que nos afligem nos tempos atuais, principalmente em se tratando do Brasil, para falar um pouco do sofrer e da renovação do ser dentro de si.

Não sei se vou agradar a quem ainda ousa ler meus artigos, comentários e crônicas sobre coisas da vida. Sempre penso comigo mesmo que se houver apenas um leitor para meu texto que faço, já me sinto realizado, que seja a favor ou contra. A crítica é bem-vinda. Apenas escrevo, exponho minhas ideias. Ninguém é obrigado a concordar.

Isto me faz lembrar uma passagem entre o megaempresário do jornalismo Assis Chateaubriand e um aprendiz, tipo foca, que foi fazer um teste em um dos seus veículos de comunicação. Após sentar-se na mesa diante da máquina datilográfica e colocar a pauta no cilindro, Assis mandou que ele falasse sobre Jesus Cristo. O aspirante a repórter, sem pestanejar, indagou se a favor ou contra.

Olha eu novamente naquele vício jornalístico de fazer “nariz de cera” na abertura de uma matéria! O tema proposto é sofrimento e renovação, ou mudança na pessoa, se dessa forma o leitor preferir. Alguém já disse que é na fome que nasce a inspiração, embora não acredite muito nisso. Literalmente, como uma pessoa com fome pode ter inspiração para elaborar sua arte? Pode ser, se cada ser é um mistério indecifrável!

No entanto, estou a me referir ao sofrimento físico e espiritual que todo ser humano está sujeito enquanto vida, seja pobre ou rico. Muitos não suportam a dor do sofrimento e sucumbem, ou se entregam. Outros, talvez seja a maioria, enfrentam, ou encaram, aproveitado o sofrer para se renovar, mudar e seguir em frente, de maneira melhor do que era antes.

Muitos já devem ter conhecido alguém que era seco por dentro, duro consigo mesmo e com os outros, um indivíduo até certo ponto insuportável, mas voltou renovado depois de ter passado pela prova da morte. É aquela velha história do nascer novamente, com outra roupagem.

Existem também aqueles casos de pais indiferentes à violência urbana e que, após ver o filho estendido ao chão, todo ensanguentado, atingido por uma bala perdida, decidem tomar atitudes positivas perante a sociedade, no sentido de combater o descaso dos governantes.

Outros resolvem fazer campanhas de prevenção ao câncer depois de curado da doença, ou ver um ente querido ter sido vítima dela. Por que só após o sofrimento, nasce a renovação? É preciso que se passe por um momento difícil da vida para se chegar à mudança?

São reflexões que nos deixam intrigados e até não vemos essa renovação com bons olhos. Existem aqueles tipos que chamamos de guerreiros que, mesmo no sofrimento e nos piores desafios, não desistem de lutar e voltam das cinzas mais renovados e fortes, como uma fênix.

No âmbito existencial, todos passam por uma determinada espécie de sofrimento, que constitui prova de renovação, até de mudança de caráter. Este sofrer nos faz olhar e a refletir sobre o sofrimento dos outros, com mais compaixão, mas tem gente insensível

Uns passam a vida indagando e até negando sobre o sentido da vida. Por que uns sofrem mais que outros, nascem com doenças crônicas, com sérios problemas físicos e mentais, enquanto outros são saudáveis? Uns na extrema pobreza e outros em berço de ouro? Daí, surgir em muitos aquele eterno conflito sobre a existência de Deus.

Não importa. Quando alguém está passando por aquele aperreio danado, onde um problema surge atrás do outro, se diz que “faça do limão uma limonada”. Pelo menos serve de consolo. Tem aquela questão do pessimista e do otimista.

O primeiro não é bem visto, mas, engraçado que é nele que está a maior resistência de vencer as intempéries e as tempestades, porque é mais realista, de “pés no chão” e preparado para o sofrimento. O segundo vê tudo azul e não suporta a escuridão, nem todos.

 

 

NÃO SE COMBATE O BANDITISMO COM PROJETOS DE LEI E DECRETOS

Esse Congresso Nacional extremista é mesmo o pior da história do Brasil. Com suas ideias estapafúrdias e de interesses próprios de blindagem de crimes praticados pelos seus membros, eles estão levando o país para o abismo e a uma convulsão social sem precedentes.

Segundo pesquisas, a maior preocupação do brasileiro é com a segurança pública, no caso a violência policial e dos bandidos, comandados pelos seus chefes de facções criminosas, superando a corrupção (também é violência), o desempenho da economia ou inflação alta.

O banditismo de hoje nos faz lembrar do cangaço nordestino (volantes e criminosos), principalmente dos séculos XIX até meados do século XX. Por séculos o Nordeste sofreu um processo de isolamento com a ausência da Justiça e das políticas públicas dos governantes da época. Atualmente temos o cangaço urbano (forças armadas e traficantes), e o povo se sente isolado entre a cruz e a espada.

Não é com projetos de lei e decretos que vai se resolver o problema. Não se convence bandido a deixar o crime dizendo que ele está sujeito às penalidades da lei, porque quando ele entra nesse mundo já sabe que só tem duas opções na vida, a morte prematura ou a prisão, mas o dinheiro supera tudo. Para ele, a criminalidade é um bom negócio porque a sociedade o rejeitou lá atrás.

Aliás, já existe a pena de morte no Brasil, só que ela não é oficializada. A maioria acha que bandido bom é bandido morto. As facções sabem muito bem disso, mas, mesmo assim, a violência só aumenta e, para não morrer, os bandidos, cada vez mais, portam armamentos pesados e potentes, muitas dessas armas desviadas dos próprios quartéis ou contrabandeadas. Para eles, a única saída é o enfrentamento, com táticas de guerrilhas urbanas.

Não importa para o bandido e suas organizações se as penas vão aumentar para 30 ou 40 anos, nem tampouco que correm o risco de perder seus bens. Uma ação firme e conjunta entre a União e os estados pode pôr fim às quadrilhas organizadas, como ocorreu com o cangaço nordestino, em 1940, no Governo de Getúlio Vargas.

No entanto, temos hoje um país polarizado e dividido, onde a extrema direita torce pelo fracasso do governo federal, como enfraquecer a atuação da polícia federal e outras instituições ligadas à segurança.

A operação isolada do governo do Rio de Janeiro, onde cerca de 120 pessoas, inclusive soldados, foram mortas, não passou de uma intervenção desastrosa. Para os comandantes da carnificina, com derramamento de sangue, foi um sucesso. Tudo foi abafado e não se sabe quanto inocentes perderam suas vidas.

A comunidade do Complexo da Penha aprovou porque há anos vive acossada pelos bandidos, mas esquece que a maior culpa está na ausência de políticas sociais do poder público, sem falar na própria violência policial. O povo tem a sensação errônea de que tais operações vão acabar com o banditismo.

Os deputados da oposição estão mais interessados em distorcer a imagem do Brasil no exterior do que aprovar medidas visando a segurança da população. Um exemplo disso é tipificar os traficantes e as facções como terroristas, com o argumento simplista de que eles provocam terror nas favelas. Por esta ótica vesga, qualquer bandido é terrorista.

Até a própria classificação de terrorismo pelos países capitalistas ocidentais, principalmente por parte do Estados Unidos, é distorcida. Eles não querem admitir e nem pronunciar a luta de resistência de um povo contra a opressão secular imperialista, com apoio do seu próprio povo.

E A QUESTÃO DO CONSUMISMO?

Se o meu vizinho ao lado está ganhando muito dinheiro vendendo carvão, eu também vou fazer o mesmo. Se alguém comete um ilícito ou malfeito para se enricar, eu também tenho o direito de realizar a mesma prática. É uma lógica absurda que não se justifica.

É assim que o mundo pretende reduzir a elevação das temperaturas e conter o aquecimento global? Nesta COP30, de Belém (mais uma semana de discussões), ainda não vi na agenda um debate sobre o consumismo exagerado que provoca impacto no meio ambiente.

Se um país está consumindo mais produtos, inclusive coisas supérfluas produzidas pelas indústrias, o outro também vai incentivar o consumo para crescer sua economia e ter um PIB (Produto Interno Bruto) maior.

Não se fala de desconstrução desse consumismo. Se meu amigo comprou uma camisa bonita, um sapato ou um tênis de marca, um aparelho de última geração para sua casa, guiado pela inteligência artificial, também vou fazer de tudo, mesmo ficando endividado, para também possuir o mesmo. É a questão da cobiça.

Ter consciência ecológica não é só plantar uma árvore, deixar de jogar lixo na rua, nas estradas, rios e mares. É muito mais que isso. Na hora de fazer compras compulsivas desnecessárias pela internet ou mesmo presencial nas lojas, ninguém pensa em consciência ecológica. Prefere o prazer ou a “felicidade” de comprar, comprar e comprar. Assim acontece em outras coisas e hábitos.

Como frear esse avanço do aquecimento global, se os países desenvolvidos tudo fazem para aumentar o consumo das pessoas? As grandes potências, como os Estados Unidos, comandados por Trump, investem cada vez mais na extração dos combustíveis fósseis, no caso o petróleo. Muitos são negacionistas da ciência.

Na China é o carvão, embora tenha projetos de produção de energia limpa, como a solar. No entanto, permanece o carvão soltando gases tóxicos no ar. É certo que o Brasil avançou bastante na transição energética, mas ainda representa pouco em relação à emissão do CO2 e do metano. Temos mais bois que gente no país, e o negócio é exportar mais carne.

Há mais de 50 anos que se fala em reduzir a exploração de petróleo. Ao invés disso, só cresceu. Alguém acha que os países árabes vão deixar de perfurar mais poços? Claro que não, mesmo porque se fizerem isso, vão viver de que? Eles não têm outras fontes econômicas que substituam o petróleo. Vendem o produto para comprar alimentos dos criadores e agricultores que também cometem suas agressões contra a natureza. É o ciclo da vida.

Há séculos que o planeta vem sendo destruído pelas fumaças saídas das chaminés das fábricas, pelo lançamento de substâncias venenosas nos solos e rios através da exploração de minérios, pelos desmatamentos e queimadas para plantar grãos e criar gado, dentre outras agressões pela corrida de mais riquezas.

Claro que existem ações de sustentabilidade, mas ainda são pontuais se compararmos com o rombo, as feridas e as crateras feitas na terra, que está em ebulição através das catástrofes e tragédias humanitárias.

Será que ainda dá tempo de fechar a conta? Os ricos estão dispostos a financiar os pobres a construírem essa transição energética?  Vão fazer suas partes nessa implementação das metas estabelecidas na COP30? Vão colocar mais grana nesse fundo financiador? Ou vão manter seu roteiro de mais gastanças, destruição e consumismo?

O CANGAÇO ENDÊMICO E O EPIDÊMICO

O historiador e escritor Frederico Pernambucano de Mello, autor de “Guerreiros do Sol”, classifica o cangaço em duas fases, o endêmico e o epidêmico. O primeiro se situa a partir da segunda metade do século XIX, um tipo mais romântico e bonachão, com suas regras, normas e éticas.  O segundo, nas primeiras décadas do século XX, tendo como auge 1926, mais violento e com maior número de grupos atuantes. Lampião foi o expoente dessa fase,

Sobre os dois ciclos nordestinos, o da cana e o do gado, ele cita Câmara Cascudo, quando enfatiza que o primeiro não poderia ter produzido o cangaceiro. Exagero a parte, o homem do cangaço disputa com o próprio vaqueiro a primazia, no representar do modo mais completo, o conjunto dos atributos que caracterizam o ciclo do gado.

Ninguém mais que ele (o vaqueiro) soube gozar e sofrer, a um só tempo, as peculiaridades do viver nômade. “Foi, a ferro e fogo, senhor de suas próprias ventas, atuando sem lei, nem rei”. Frederico destaca que sempre existiu uma tradição de simbiose e simpatia entre o cangaceiro e o coronel através de gestos de auxílio constante entre um e outro.

Existiam entre eles uma relação de alianças de apoios mútuos, numa forma espontânea onde uma parte não era patrão da outra para sua sobrevivência. Mediante os acordos, o bando colocava-se a serviço do fazendeiro ou chefe político. Tudo se convertia em contrapartida, “naquela figura tão decisivamente responsável pela conservação do caráter endêmico de que o cangaço sempre desfrutou no Nordeste, que foi o coiteiro.

O escritor alagoano Graciliano Ramos, em “Viventes das Alagoas” ressalta que a aliança se mostrava vantajosa às duas partes porque ganhavam os bandoleiros, que obtinham quartéis e asilos na caatinga, e os proprietários que se fortaleciam cada vez mais. O relacionamento não representava vínculo de subordinação entre os dois. Existia ausência de patrões.

De acordo com estudos publicados pelo Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (1974), houve cangaço dentro do cangaço, isto é, modalidades criminais distintas. Em cada modalidade tinha uma forma de viver, bem como de conduta e violência empregada.

Para Frederico Mello, existia o cangaço-meio de vida, o da vingança e aquele do refúgio, principalmente quando o sertanejo cometia algum crime e estava sendo perseguido pelas volantes. Na primeira forma, Mello aponta Lampião e Antônio Silvino como representantes máximos.

O de vingança foi o traço definidor mais forte, na opinião de Mello, o cangaço nobre, representado pelo Sinhô Pereira, Jesuíno Brilhante ou Luis Padre. Na terceira forma, o cangaço figura como última instância de salvação para o homem perseguido.

Quanto aos modos de guerrear dos indígenas e dos cangaceiros em território inóspito, difícil de penetração, o autor de “Guerreiros do Sol” escreve que os portugueses, que usavam doutrinas militares clássicas, tiveram muito que aprender. Essa situação ocorreu não somente entre os portugueses, mas também no caso holandês que sofreu movimentos de resistência.

Na guerra contra os holandeses, por exemplo, historiadores destacam a contribuição militar do rastejador. O frei Manuel Calado de Salvador cita o capitão Francisco Ramos, índio ou mameluco, como o um dos mais espertos homens em diligência no Brasil.

Quem descreve com detalhes o papel do rastejador durante a década de 30 é Ranulfo Prata. Em trecho da sua narração diz que ele “segue a tropa pressurosa, com o batedor à frente, “escanchado” no rastro. Sem perde-la, trazendo-a sempre debaixo dos olhos atentos, a marcha se estira por dias e semanas, até que as feras humanas, acuadas longe, ofereçam combate, negaceiem e escapem em fuga precipite”.

O rastejador percebe pequena folha machucada, cinza de cigarro ou barulho, um fósforo, toiças de capim acamado. “Segue os pequenos animais, o preá, de pata minúscula, o teiú, que mal acama a vegetação sob seu peso leve, o tatu-bola, todo delicadeza, a pisar o chão com sutiliza de quem traz veludo nos pés”.

No que tange ao banditismo no Nordeste, Frederico de Mello faz referência a salteadores ainda no século XVII. “Ao longo do período de colonização holandesa, vamos surpreender nosso banditismo caboclo enriquecido pela presença de estrangeiros, desertores das tropas de ocupação…”

Segundo ele, houve chefes de grupos que eram holandeses, como o caso do célebre Abraham Platman e Hans Nicolaes, que agia na Paraíba, à frente de 30 bandoleiros, por volta de 1641. Ele lembra ainda que foi na segunda metade do século XVII que o bandoleiro pernambucano, José Gomes, o Cabeleira, desenvolveu sua atividade.

No entanto, somente em fins do século XVII, o banditismo começa a se converter no cenário por excelência, até porque, no litoral, a colonização florescia em todos os sentidos. O ciclo do gado, com sua malha vegetal quase impenetrável e uma cultura receptiva à violência, fornecia um cenário propício ao banditismo. Graciliano Ramos afirma que o cangaço era um fenômeno próprio da zona de indústria pastoril, no Nordeste.

No entanto, Câmara Cascudo assinala que o cangaço não existia somente no sertão, mas que era uma figura também presente em outros países. O historiador Hobsbawn, em seu livro “Bandidos”, lançado em 1969, reafirma a tese da universalidade.  Segundo ele, o banditismo social se encontra em todas as Américas, na Europa,  no mundo islâmico, na Ásia e até na Austrália.

NARIZ DE PALHAÇO

(Chico Ribeiro Neto)

As luzes se apagam. A orquestra ataca, acendem só as luzes do picadeiro e o coração bate mais ligeiro. Começa o desfile de todas as atrações do circo: palhaços, malabaristas, trapezistas e os dois caras do Globo da Morte. “Senta aí, meu irmão!”

O encantamento do circo faz até a pipoca ficar mais gostosa. Tudo é lindo, tudo emociona, e ninguém liga se tem um buraco na meia da trapezista.

Em Ipiaú (BA), onde nasci, quando o circo chegava dois palhaços de perna de pau percorriam a cidade, enquanto outros marcavam os pulsos das crianças com uma cruz de carvão, o que garantia o acesso gratuito ao espetáculo da noite. “Gosto muito de mentiroso, doido e palhaço”, dizia o escritor Ariano Suassuna.

Gostava de ir ver o circo de manhã, na hora da faxina. O mágico fazendo a barba e a trapezista, de short, dava banho de mangueira no elefante. Achava tudo diferente e bonito. Quem nunca teve vontade de fugir num circo?

Lembro mais dos circos Nerino e Tihany. Fundado pelo casal Nerino e Armandine Avanzi, em 1913, o Circo Nerino percorreu todo o Brasil até setembro de 1964, quando encerrou as atividades.

O fundador, Nerino Avanci, criou o palhaço Picolino, mais tarde sucedido pelo filho Roger. A Escola Picolino de Artes do Circo (hoje o Espaço Multicultural Circo Picolino), em Salvador, recebeu este nome em homenagem a Roger Avanzi, fundador da primeira escola de circo do Brasil. O admirável trabalho do Circo Picolino já completou 40 anos.

Veja um trecho da entrevista do palhaço Plim-Plim (José Carlos), postada no congressoemfoco.com.br, em 12 de dezembro de 2009:

“Em manifestações, por que o nariz de palhaço te incomoda?”

“Eu, sinceramente, quando vejo uma cena com alguém com um nariz de palhaço, sem estar no ofício, eu me sinto ofendido. Tenho isso como profissão e as pessoas colocam como uma coisa banal. Eu vivo daquilo. O cara vai lá fazer um protesto de saúde e usa um nariz de palhaço. Eles poderiam usar uma máscara da gripe, mas usam o nariz de palhaço como banalização”.

Nenhum palhaço gosta quando se usa o termo “palhaçada” para se referir a uma atitude ou manifestação considerada ridícula, uma brincadeira de mau gosto, presepada.

Nunca esqueço o que o ator Bemvindo Sequeira me contou uma vez. Ele, para se aprimorar como ator, resolveu passar uns dias num circo mambembe no subúrbio de Periperi. Teve uma noite em que o bebê do palhaço estava com febre alta. O palhaço fazia sua apresentação no picadeiro e no intervalo corria para trás da cortina, onde estava o berço, para tomar a temperatura do filho. Minutos depois, voltava pra fazer graça.

O circo é uma lição de vida. É bom fazer sempre uma graça, mesmo que tenha uma febre atrás da cortina.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

 

O RAIMUNDO PINTOR

Com sua paciência, voz mansa e calma, Raimundo José dos Santos, o “Raimundo Pintor”, a longos anos nesse ofício, em Vitória da Conquista, vai aos poucos fazendo um encontro das cores nas paredes, que dão vida e charme aos lugares. Raimundo não é somente um pintor qualquer, como tantos outros por aí. É também uma espécie de grafiteiro e desenhista das palavras e figuras. Basta uma ideia, e do seu pincel vão brotando as imagens reais, como neste letreiro do Espaço Cultural A Estrada onde estão os traços de um “S” no formato de uma estrada, com gentes andantes numa peregrinação ao seu ponto final.  Um livro representa a fonte da vida onde, como diz o nosso estradeiro Dal Farias, o conhecimento liberta. Raimundo não é somente requisitado em Conquista, mas também em outras cidades da região para pintar mercadinhos, oficinas, casas comerciais e até letreiros em prédios. Sente-se que ele faz sua pintura com amor e dedicação. São obras que merecem ser admiradas pela sua perfeição. Nossas lentes flagraram suas pinceladas. “Raimundo Pintor” vai além das tintas combinadas em paredes de muros e cômodos. É também um propagandista dos slogans e marcas empresariais. Com ele, segue o dom de pintar, sem melar sua arte. Não é somente um simples pintor, é um artista das letras e das ideias desenhadas.

BERRA BERRANTE!

Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

O vaqueiro andante

A ferro, gibão e fogo,

No ciclo do gado,

Sem lei, nem rei,

Berra seu berrante,

Faz o seu ponteio,

Rasga do seu peito,

De ar puro e cheio,

Como no aboiar do aboiador,

Mata a saudade do seu amor,

Que bem distante lá ficou.

 

Berra o berrante!

Do Nordeste ao Centro-Oeste,

Do Brasil colonial,

Cortando o sertão agreste,

Pelas águas do Pantanal.

 

Feito do chifre do boi,

Berra o berrante,

Ao som do arrasto da boiada,

No tom que é hora da boia,

No sinal de perigo inimigo,

Que é chegado o entardecer

Da comitiva descansar

Da longa jornada,

Para causos, prosear,

A moça bonita, namorar.

 

Berra o berrante!

Em torno da fogueira,

E o violeiro começa a violar,

Aquela raiz da terra cancioneira,

Que faz até os animais relaxar.

 

O berrante está até na Bíblia,

Para os judeus é o xafar,

Do bode ou do carneiro,

Símbolo sagrado para orar,

Pro sertanejo é berro estradeiro,

Berrante valente a berrar!

 

 

 

VEREADORES FALAM DAS CHUVAS

De um modo geral, os vereadores de Vitória da Conquista aproveitaram a sessão de ontem (quarta-feira – dia 12/11) para falar sobre os transtornos que as chuvas do último domingo causaram à cidade, afetando centenas de moradores, principalmente dos bairros Jurema e Lagoa das Flores.

O parlamentar Adinilson Pereira, além de tratar das questões das chuvas, falou sobre as nominações de ruas que devem ser oficializadas em Lagoa das Flores e em Jaraguá visando acabar com o caos nas correspondências endereçadas aos moradores. Destacou também os transtornos provocados pelos alagamentos de ruas e avenidas.

Andreson também citou o problema das chuvas, acrescentando que longe de tirar proveito da situação, a administração pública precisa ter mais diálogo para enfrentar a questão. Disse que a Câmara não deve assinar um cheque em branco para a prefeita ao se referir ao empréstimo solicitado de 400 milhões de reais.

O vereador Bibia criticou quem se aproveitou da situação e tirou vídeos dos alagamentos para atacar a administração pública. Aproveitou a oportunidade para declarar que o Denit, depois da saída da Via Bahia, nada está fazendo em termos de melhorias na BR-116.

Cris Rocha também comentou sobre os transtornos das chuvas e afirmou que a cidade vive há anos sem resolver o antigo problema da falta de drenagem para escoamento das águas. Segundo ela, Conquista precisa urgentemente de obras de micro e macrodrenagem, para solucionar os problemas das chuvas.

A COP30 E A TORRE DE BABEL

Quando alguém quer se referir a confusão, gente falando ao mesmo tempo em línguas diferentes, impossibilidade de se chegar a um acordo ou a um denominador comum na conclusão de uma tarefa em conjunto, se diz que “aquilo está uma verdadeira Torre de Babel”.

Pois é, seguindo este ditado popular, diria que a COP30, como tantas outras conferências dessa natureza já realizadas, é uma Torre de Babel onde participantes de vários países falam línguas diferentes e, no final, ninguém se entende, tornando difícil se chegar a uma conclusão.

– Mas, numa conferência mundial como esta, literalmente as tribos falam línguas diferentes emboladas – disse um amigo meu ao rebater meu argumento.

– Verdade, meu camarada, mas estou falando em línguas diferentes no sentido figurado. Posso explicar melhor. Nessas conferências, um grupo elabora um termo de preservação da natureza, mas o outro não concorda. Como exemplo, cito que as grandes potências e as nações árabes do Oriente não abrem mão de parar de extrair petróleo, um combustível fóssil poluidor do meio ambiente.

Este é apenas um exemplo, mas existem muitos outros divergentes onde não se chega a um senso comum, como a criação de um fundo financiador de preservação das florestas ou de os países desenvolvidos liberarem recursos visando ajudar os mais pobres, vítimas das mudanças climáticas ou do aquecimento global.

Contam os estudiosos que a história da Torre de Babel foi inspirada nos zigurates reis, construtores de grandes templos em forma de pirâmides, na Mesopotâmia. O mais famoso zigurate, Etemenanki, da Babilônia (hoje Iraque), quis erguer uma torre cujo o topo se elevasse até o céu, para homenagear o deus Marduk.

Acontece que os construtores, usando tijolos cozidos e betume com argamassa, falavam várias línguas, criando-se um desentendimento entre eles e o projeto não foi concluído. Apontam ainda que essa torre, na cidade de Nurode, teria 90 metros de altura, outros que 212 e ainda que chegaria a 2.484 metros, um feito e tanto para aquela época, há cerca de dez mil anos no Crescente Fértil (Mesopotâmia) dos sumérios.

Essa versão da torre está no Antigo Testamento da Bíblia, no livro do Genesis. No pós-dilúvio quiseram construir uma torre visando evitar a dispersão da humanidade pela terra. Portanto, é uma inspiração tirada daquela antiga civilização.

Na verdade, trata-se de um mito, mas a narração é que Deus, para limitar a ambição humana, confundiu as línguas, resultando na dispersão das pessoas pelo mundo. Babel tem significado duplo. Um traduz ser “Portão de Deus”, mas em hebraico fala-se em confusão, desorganização ou mistura.

Não quero aqui menosprezar as boas intenções, mas o problema é que dentro desse conjunto, existem “línguas diferentes”, ou seja, interesses particulares e negacionistas do clima que dificultam fechar acordos que cumpram as metas estabelecidas para reduzir as altas temperaturas do planeta.

Quem está longe de Belém, só assistindo os noticiários do dia a dia, observa-se que a COP30 não passa de uma grande confusão de gente naqueles pavilhões verde, azul e até vermelho falando “línguas diferentes” como na Torre de Babel dos zigurates babilônicos.

Creio que Deus não mete seu bedelho nos construtores, como escreve a Bíblia, e fica lá de cima como um matuto só assuntando as coisas ruins e confusas dos homens. “Eles que se entendam se querem preservar suas moradias para as futuras gerações, ou tornar suas casas em verdadeiras ruínas e escombros. Afinal de contas foi Eu mesmo que criei o livre arbítrio” – assim falou Deus.

 

O MONOPÓLIO DAS COMUNICAÇÕES

Há uns vinte anos ou mais nos encontros jornalísticos e como dirigente sindical lembro das discussões sobre o monopólio das comunicações de massa por parte das grandes empresas familiares dos jornais (O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, Tarde, Jornal do Brasil) e das redes de televisão do país, como Globo, Bandeirantes, Record e SBT.

Este cenário, hoje pouco debatido, persiste e representa a ditadura da informação pelos grandes conglomerados, que subvertem e distorcem os fatos quando são de seus interesses. A nossa luta crítica sempre foi reverter este quadro em favor da democratização da comunicação visando abrir espaços para um jornalismo alternativo, mais independente e imparcial.

Mesmo com o avanço das tecnologias e o advento da internet onde as notícias chegam em tempo real e as pessoas conseguem se interagir, o monopólio das comunicações se mantem num sistema capitalista selvagem que manipula as notícias e, na maioria das vezes, a maior vítima é a verdade, sobretudo nas guerras.

Quero aqui focar especificamente na questão da mídia televisiva, especialmente na Rede Globo que, com sua estrutura de capital, sua fama ao longo dos anos e liderança na audiência, monopoliza, por exemplo, as transmissões esportivas de futebol dos campeonatos brasileiros e sul-americanos mais importantes (Série “A”, Copa Brasil, Sul-Americana e Libertadores), apesar da Band divulgar que é o canal dos esportes. A Fórmula 1 agora vai retornar para ela.

Estou apenas me referindo ao futebol porque é o monopólio mais gritante onde o telespectador, ou o torcedor de menor poder aquisitivo, que só possui o canal “aberto” (poucos programas), não tem outra opção se quiser assistir o seu clube jogar, a não ser que compre uma transmissão ou faça uma assinatura no canal fechado.

Outro problema são os horários dos jogos durante o meio de semana, sempre a partir das nove e meia da noite, um horário complicado para quem vai aos estádios nas capitais, tendo que sair depois das 23 horas, pegar ônibus e chegar em casa lá pela madrugada, se expondo à violência da bandidagem. Por que esses horários não poderiam ser mais cedo? A resposta está com a CBF.

No Campeonato Brasileiro, por exemplo, a maior parte das transmissões são reservadas ao Flamengo e ao Corinthians, os times que dão mais audiência por terem as maiores torcidas do Brasil. Não há dúvida que esta é uma exigência dos patrocinadores.

Bem, estes exemplos mostram com clareza o monopólio das comunicações, que detém o domínio nos noticiários, muitas vezes tendenciosos e parciais, levando o povo, a maior parte sem instrução e massa crítica, a acreditar em fatos distorcidos, sem contar que muitas notícias deixam de ser divulgadas quando são contrárias aos interesses dessas empresas, que são isentas de determinados impostos.

Na verdade, sempre existiu uma manipulação das informações desde os tempos dos coronéis que, com armas na mão e seus capangas, aterrorizavam os jornalistas e os donos dos jornais impressos que noticiassem seus malfeitos. Um exemplo bem próximo a nós é Vitória da Conquista. Muitos jornalistas foram agredidos, ameaçados e mortos.  O temor continua na passagem para a internet.

Nos tempos atuais, essas práticas são mais sutis e sofisticadas, mas permanece o poder e o capital (grandes patrocinadores) exercendo suas influências. A grande mídia se rende a eles, fazendo um papel contrário de formadores de opinião. Estão mais para deformadores.

A Rede Globo e a grande mídia em geral sempre tiveram um DNA elitista e oligárquico desde seu nascimento. Com rara exceção, a grande maioria apoiou a ditadura civil-militar de 1964 e teve o seu governo a favor ou contra. As eleições ainda são prova disso. Umas são mais escancaradas e outras mais subliminar.

Quem não se lembra do caso do governador Leonel Brizola, no Rio de Janeiro, onde A Globo tudo fez para derrubá-lo? E o episódio do debate do segundo turno das eleições presidências entre Collor de Melo e Lula, se não me engano em 1989?

Antes as novelas da Globo só tinham atores e atrizes galãs, brancos e bonitos. As novelas eram luxuosas e glamorosas. Os negros ficavam na cozinha tomando esporros. Foi uma mudança tardia depois de ter recebido muitas críticas dos movimentos negros. No entanto, andou por muito tempo na contramão da história.

Hoje houve uma reversão, até com certos exageros, mais por conta das exigências do mercado e com a intenção de angariar mais simpatia e audiência, depois de receber um monte de críticas. Ela está sendo até mais ecumênica, colocando pastores evangélicos nos elencos.

Quanto ao monopólio nas comunicações (a imprensa alternativa sempre foi sufocada pelos poderosos), o Congresso Nacional nunca ousou quebrar esse domínio com um projeto-de-lei, tendo como marco a democratização da imprensa. Não será este arcaico e atrasado que aí está que vai se atrever a acabar com este monopólio.





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