NOVO EMPRÉSTIMO É UM “SUICÍDIO”
Com base nos endividamentos posteriores de governos passados, a começar pelo do ex-prefeito Hérzem Gusmão, o advogado e contabilista Marcos Adriano declarou ontem (dia 26/11), durante sessão ordinária da Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista, que um novo empréstimo de 400 milhões de reais, pretendido pelo poder executivo, é um “suicídio”, comprometendo as finanças do município.
Segundo ele, a receita que era de 600 milhões de reais, passou para mais de um bilhão com o aumento de impostos da população, que também cresceu. “Ao longo dos últimos anos, o endividamento só tem aumentado e um novo empréstimo não é necessário. Um novo empréstimo só vai elevar a dívida mais ainda”.
Em sua fala na tribuna livre da Câmara, Adriano aproveitou a ocasião, para pedir prudência aos parlamentares na concessão de novos empréstimos solicitados pelo executivo. Alertou que este empréstimo para aplicação em obras de infraestrutura é um “suicídio”.
Antes da sua análise técnica sobre essa questão e da aprovação dos projetos do legislativo e do executivo, como a criação da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Civil e da Nova Lei Orgânica do Município, a Casa, tendo como presidente Ivan Cordeiro, concedeu diversas moções de aplausos.
Além do Esporte Clube de Vitória da Conquista e do ex-jogador Pena, pela formação de novas parcerias, a Câmara homenageou o Hospital Afrânio Peixoto pela instalação de um laboratório de tratamento de crianças que nascem com a doença de queimaduras no corpo e o Hospital de Base pela ampliação da sua unidade com novos equipamentos.
Também foi homenageada a médica Rosa Aurich pela realização, no início deste mês, no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, do evento Economia Solidária, privilegiando a participação de artesãs e expressões culturais. Coube ainda uma moção de aplausos aos pastores evangélicos da cidade, com destaque para a Marcha com Jesus.
Durante a sessão, todos vereadores presentes fizeram seus pronunciamentos da tribuna legislativa. Andreson saudou os agricultores familiares que estão satisfeitos com as chuvas e elogiou a obra estadual de pavimentação da estrada que liga Conquista a Bate-pé. Informou sobre a vinda do governador a Conquista, nesta sexta-feira, quando anunciará a construção e conclusão de diversas obras, inclusive em Iguá, onde será inaugurada a nova praça do distrito.
Bibia defendeu o empréstimo de 400 milhões solicitado pela prefeita Sheila Lemos, para construção de obras nos bairros de Conquista. Ele acha que o vereador contrário está cometendo um crime contra ele mesmo. O empréstimo é importante para o crescimento da cidade e a atração de novos investimentos – ressaltou.
A parlamentar Cris Rocha falou sobre seu trabalho na zona rural, como sistema de abastecimento de água na Taboa e região. Na ocasião, agradeceu o apoio da Cerb e da administração da Prefeitura Municipal. A vereadora parabenizou também as obras realizadas pelo Governo do Estado, como o asfaltamento da estrada para o distrito de Bate-pé.
Entre outros, falou o vereador Edivaldo Ferreira, ao defender o empréstimo de 400 milhões de reais, assinalando que o Governo do Estado está também querendo um empréstimo de mais de 600 milhões e não se tem feito alardes como está ocorrendo em Conquista. Disse que o limite de endividamento é pequena, não impedindo que se faça novos empréstimos.
AS MÁS LÍNGUAS VERBAIS E VIRTUAIS
Tem coisas e profissões que nunca deixam de existir, mesmo com o avanço das novas tecnologias da internet e agora com a inteligência artificial, uma arma poderosa de destruição quando a serviço do mal.
Dizem que a atividade mais antiga da humanidade é a prostituição, hoje modernizada pelos “programas sexuais”, aceitos com outros olhos pela falsa sociedade. Apesar do moderno, sempre vai existir um alfaiate, um sapateiro, um relojoeiro, um amolador de facas e tesouras num povoado ou numa cidade, pequena ou grande.
O mesmo acontece com as más línguas, aquelas que não param de fofocar e falar da vida alheia e esquecem da sua própria. Estão no cerne da natureza humana, desde os tempos primitivos e nas antigas civilizações. Tem gente que adora uma fofoca e ainda diz que sabe guardar segredo. “Pode falar amigo, ou amiga, que minha boca é um túmulo”.
Ainda prefiro as primeiras, as falas verbais, do que as virtuais, estas através de textos de português assassinado, hoje propagadas nas redes sociais que fazem aquele estrago danado nas vítimas em termos emocionais psicológicos e atingem um universo de milhares e até de milhões de navegadores. As virtuais são mais agressivas e mortais.
A falada verbalmente, ou a tradicional, tem a boa e a má, mais conhecida como fofoca, fica mais restrita a uma comunidade ou a um grupo mais fechado, a não ser quando alguém comete um crime grave que se alastra para outras redondezas.
Quem não comete o “pecado” de falar de alguém, seja elogio ou crítica negativa que levante a primeira pedra! Algumas línguas são ferinas e maledicentes, caluniosas e difamatórias, outras menos ofensivas e até hilárias.
No ambiente de trabalho, tanto uma como outra, as línguas são traiçoeiras e falsas por causa da competição. É um querendo passar a rasteira no outro por detrás. Pela frente são rasgos de elogios. Não faltam vítimas e vilões, se bem que ainda existem os éticos e sérios.
Numa rua, num bairro ou num vilarejo, lá está a língua a bradar. Coisa é quando um vizinho, morador próximo, ou um “amigo” compra um carro novo, um bem material caro e um objeto de valor!
Dizem logo que a pessoa está roubando, recebendo suborno, e aí bate aquele olho grande invejoso. Melhor procurar uma rezadeira (ainda existe) ou tomar um “banho de descarrego”, senão as coisas começam a dar para trás.
Por falar em más línguas, quem não se lembra ou conhece o famoso “Senadinho” (ainda funciona) que fica ali na Praça Barão do Rio Branco, em Vitória da Conquista? Dizem que toda cidade e até o meio rural tem seu “Senadinho” das fofocas.
Contam as más línguas que o grupo sabe da vida de todo mundo, quem deve, está falido, adquiriu veículo de luxo e não está pagando as prestações, quem traiu quem ou quem está prevaricando. Quando passo por ali, meu nome entra na lista. Pouco importo.
Quando as comadres e os compadres param numa calçada ou em algum banco de jardim, penso logo que estão falando de alguém. Falem mal, mas falem de mim – existe este bordão popular de quem aprecia ser lembrado de qualquer maneira. Pelo menos seu nome não fica esquecido.
As mais constrangedoras e aniquiladoras que detonam as almas dos seres humanos e arrasam reputações em termos moral, psicológico e social são as más línguas virtuais, escritas no mundo das redes sociais, ou as cibernéticas em forma de bullying (intimidação sistemática).
Estas línguas são como labaredas de altas queimaduras e seus donos geralmente usam máscaras ou perfis diferentes, mais difíceis de serem identificados. As verborreias caluniosas e difamatórias atingem um público de milhares e milhões de visualizações. A maioria dos internautas de plantão têm o prazer sádico de passar as injúrias para frente.
Oh, Senhor, livrai-nos das más línguas ferinas verbais e virtuais! Perdoai-vos porque não sabem o que falam. Nos proteja de todos os males que saem das bocas desses infelizes. Nos ilumine e iluminai as mentes rancorosas para que se voltem para o bem!
Não sou nenhum indicado para formular preces, daquelas de fechar o corpo contra facas e balas, mas faça sua oração, ao seu modo, todos os dias antes de se deitar. Quem sabe você não se livrará das más línguas afiadas como navalhas ou perfurantes como punhais que cortam dos dois lados! Amém, Senhor!
NOVA LEI ORGÂNICA DO MUNICÍPIO
Nesta quarta-feira (dia 26/11) está prevista a votação da redação final da Nova Lei Orgânica do Município, na sessão ordinária da Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista, que tem ainda como pauta projetos do legislativo, como o que declara o Festival Suíça Baiana como Patrimônio Cultural Imaterial do Município.
Nos debates, deverão ser ainda votados pelos parlamentares o Programa Municipal de Educação e a Violência contra a Mulher ´”Basta”, bem como o que altera a idade mínima para a gratuidade no sistema de transporte coletivo.
Ainda de iniciativa da Câmara, entrará em pauta a discussão do projeto que propõe atendimento prioritário aos corretores de imóveis devidamente inscritos e regulares no Conselho Regional de Corretores de Imóveis em todos os órgãos e repartições da Administração Pública Direta e Indireta. Na verdade, isso já vem acontecendo na prática.
Da parte do poder executivo, os vereadores vão discutir os projetos que alteram o Código Tributário e de Rendas e o que muda a regulamentação da Contribuição para Custeio dos Serviços de Iluminação Pública e Modernização Urbana.
Também será lida a mensagem ao Projeto de Lei Complementar de número 34/2025, que cria a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social, estabelecendo sua estrutura organizacional. Serão apreciados também os projetos que instituem o Fundo Municipal de Segurança Pública, o que cria o Conselho Municipal de Segurança Pública. A guarda municipal será submetida à estrutura da nova Secretaria a ser instalada, em Vitória da Conquista.
O NAMORO E O AMOR DAS ANTIGAS
Só os mais velhos lembram e sabem como era o namoro e o amor das antigas, isto até as primeiras décadas do século passado, principalmente nas pequenas cidades e nos cafundós do sertão.
As donzelas não saiam de casa porque os pais não deixavam e, numa oportunidade qualquer, ficavam das janelas olhando os rapazes passarem. Nas brenhas rurais, praticamente ficavam nas cozinhas com as mães. Eram bem mais oprimidas pelo pai, o chefe patriarcal que não queria ter uma filha difamada na boca dos outros.
Muitas não aguentavam a “prisão” e fugiam com o primeiro namorado. Por aquelas redondezas dos povoados e cidades, ainda menino, ouvia muito aquele falatório de que “João roubou Maria na calada da noite, na garupa de um cavalo e caíram no mundão do meu Deus”.
Ai de quem se atrevesse desonrar uma virgem! O cabra era obrigado a se casar com uma peixeira ou um trabuco nas costas. Tinha que dar o sim no altar. Uns pegavam “os panos de bunda” e fugiam para São Paulo. Era o maior desgosto dos pais ter uma filha desonrada. Quem tinha posse pagava um pistoleiro, ou o próprio ofendido mandava a alma do sujeito pros quintos dos infernos.
Havia coronel e roceiro tão brabos que os homens tinham medo de se aproximar da filha ou das filhas, que começavam a ficar para titia. No século XIX ainda era pior, quando o pai era quem escolhia o marido, e a noiva só o conhecia na hora do casamento, muitas vezes era um velho caquético caindo aos pedaços, porque tinha uma boa herança para deixar.
Eram os casórios arranjados e muitas diziam que não gostavam do indivíduo tabaréu, meio troncho e desajeitado. O lamento sempre era ouvido pela mãe, que consolava a filha chorosa pelos cantos porque se engraçou por outro mais simpático.
– Calma, minha filha, a vida é assim mesmo, você casa, vai se acostumando e, com o tempo, vem o amor. “Foi assim com seu pai. Hoje já tem mais de 30 anos que nos casamos”. Ah, casamento era para sempre, mesmo no sofrimento e na dor. O que Deus uniu não se separa.
Pois é, mas os tempos foram mudando e o namoro de pegar na mão e ficar mais perto um do outro foi chegando, só que com um acompanhante do lado, espiando tudo.
Era a mãe, uma tia, uma avó ou um irmão, que ia junto à praça comer pipoca, visitar um parente ou outro lugar. Nada de beijo, mas num vacilo – dava-se jeito para tudo -, os dois começavam a se esfregar. No atraca-atraca, o cara até ejaculava na calça ou na cueca. Não era mole, não!
Com a evolução, as moças ficaram assanhadas e esse negócio de donzela foi ficando para trás. Mesmo assim, ainda eram os homens que tomavam a iniciativa, insistiam e chegavam juntos. Os introvertidos e os tímidos eram os mais cobiçados com os olhares. Nem se falavam em assédio sexual, que virou crime.
O macho fazia de um tudo para ir às vias de fato, mas a virgindade ainda era um tabu para a maioria das moçoilas de família. A religião dizia que era pecado dos graves. No sentido intuitivo, o comportamento dos animais silvestres para pegar a fêmea é bem parecido com o do homem. Ambos ficam engabelados e abrem suas “asas” para impressionar o lado feminino.
– Não insista, sou dou a “periquita” depois de casar – endurecia a jovem, mesmo com o corpo pegando fogo na base do beijinho, beijinho e no agarra, agarra. Ufa, não era fácil aguentar a tentação! Algumas terminavam dando mesmo. Depois eram outros quinhentos!
Conheci um amigo de longas farras que se apaixonou por uma loiraça bonita, que garantia para ele que era virgem, apesar das “bocas pequenas” comentarem o contrário. Ele preferia confiar nela.
Casaram-se com juras de amor e programaram uma noite de núpcias, ou lua de mel, num hotel. Foi lá que o noivo descobriu tudo e fez aquele escândalo e, decepcionado, partiu para o maior porre de sua vida.
Nos dias atuais, não existe mais essa do homem tomar a iniciativa. As mulheres ficaram mais decididas e partem logo para o “vamos ver”, sem aquele namoro das antigas. Em muitos casos, o amor à primeira vista termina no motel. Com o crime de assédio sexual, os homens ficaram mais retraídos e alguns são até chamados de frouxos.
O intervalo entre o primeiro beijo e o casamento ficou bem mais curto. No altar, ou no civil, são aquelas juras de amor, de serei fiel na alegria e na tristeza, na pobreza e na riqueza, na saúde e na doença até que a morte nos separe.
Em muitos casos, em pouco tempo, lá vem a separação. Cadê aquelas juras sinceras de amor? Como na canção de Raul Seixas, tudo não passa de falsidade. Basta um ficar na pobreza ou ter um entrevero, que o outro dá no pé.
Esta de até que a morte nos separe me faz lembrar do poeta boêmio Vinícius de Morais, de que o amor é eterno enquanto dura. No amor das antigas, os casamentos eram mais duradouros, se bem que por diversos motivos de ordem religiosa do juramento, da mulher não ficar falada na sociedade, dentre outras razões, inclusive por amor, depois de longa vivencia.
Até hoje ainda não existe aquele casamento de faixada ou de aparência, onde os dois dormem em quartos diferentes, mais para não ter que dividir os dotes? De qualquer forma, viva o amor, mesmo que seja passageiro, moderno ou das antigas.
MEIO DE VIDA, VINGANÇA E REFÚGIO NO CANGAÇO NORDESTINO VIOLENTO
Além das fases endêmica e epidêmica entre os séculos XIX e o XX, o historiador Frederico Pernambucano de Melo, de “Guerreiros do Sol” aponta três características principais do cangaço nordestino, quais sejam o do meio de vida (o cangaço profissional), o da vingança e o do refúgio. Em cada um deles existem suas diferenças, como a indumentária, porte de armas, comportamento ético e duração.
Fora a oralidade, com seus boatos e falácias, muitos estudiosos se debruçaram sobre o assunto de ordem antropológica, acadêmica e psicológica. A literatura é vasta e o tema é empolgante porque chamou e ainda chama a atenção nacional e até internacional através de viajantes da época. A mídia impressa deu larga cobertura, muitas vezes de forma sensacionalista, tendenciosa e distorcida.
Para Mello, existiram dois grandes fatores de estímulo ao cangaço. Um de natureza sociológica e outro de feição mesológica, de forma imediata, mas com profundas repercussões sociológicas que foram as lutas de famílias e as secas. Estas últimas acarretaram a proliferação do cangaço profissional. A luta entre famílias armou o palco para o cangaço de vingança.
Vamos, então, ao que mais nos interessa nessa história, que deve ser cada vez mais estudada e pesquisada para que não fique na base superficial das contações de casos e causos. A lista de autores é enorme e as leituras são fascinantes. A questão precisa ser cada vez mais esmiuçada para entendermos melhor o fenômeno.
MEIO DE VIDA, VINGANÇA E REFÚGIO
O cangaço meio de vida foi um tipo de maior frequência, classificado como banditismo de profissão, tendo como principais representantes os cangaceiros Luis Mansidão, Silvino Ayres Cavalcanti de Albuquerque (século XIX), Antônio Silvino (1897-1914) e Lampião (1916-1938).
O cangaço de vingança ocorreu com menor frequência, embora suas características de banditismo, mais ético, emprestou uma imagem de destaque, principalmente literário. Sinhô Pereira, Luis Padre e Jesuíno Brilhante foram seus principais representantes.
O cangaço-refúgio foi um tipo de menor expressão. Caracterizou-se pela riqueza da estratégia defensiva. Seu maior representante foi Ângelo Roque, que manteve seu próprio grupo e depois se aliou ao bando de Lampião. Esses bandidos não chegaram a ser chefes e foi um cangaço de vigor mediano.
Os dois primeiros, o profissional e o de vingança, possuem características discrepantes entre si, com formas criminais distintas, mas com o mesmo rótulo de cangaço. O meio de vida obteve maior poder, notoriedade, fama e ganhos patrimoniais de ideal burguês.
Tanto Lampião, como Antônio Silvino, entraram no cangaço com o pretexto de vingança, mas depois foram deixando essa finalidade de lado e incorporaram o banditismo como negócio. Numa entrevista jornalística a um jornal do Nordeste, perguntado se ele deixaria o cangaço, Lampião devolveu a indagação como outra. Você deixaria um negócio que está dando certo e bons ganhos?
No entanto, Lampião viveu episodicamente períodos de vingança, como contra o cangaceiro Tibúrcio Santos, o Negro Tibúrcio, em 1924. Sinhô Pereira também praticou saques, em 1919. Nos tempos atuais, registra-se a extinção do cangaço meio de vida, bem como o do refúgio, quando o perseguido pela polícia se esconde num bando. Porém, ainda de forma esporádica, existe o de vingança.
O homem da vingança entregava-se por completo à missão moral de dar fim aos inimigos de sua família ou clã. Era um obcecado, consciente do papel destrutivo. “Se no primeiro destes, a adesão espontânea floresce num indivíduo integrado ao ofício a que se dedica, no segundo vamos encontrar um homem violentado em seus desejos de realização pessoal agindo sob coação moral irresistível, e que em seus gestos revela sua inadaptação à vida que leva” – assim analisa Frederico de Melo.
Segundo ele, o envolvido na missão de vingança vivia angustiado por sua busca obsessiva. Não encontrava na vida do cangaço os prazeres e atrativos que tanto prendiam o cangaço meio de vida como amantes desse tipo de existência a seu modo epopeico.
O interesse guerreiro-vingador reflete em sua vestimenta, restringindo o equipamento ao necessário e funcional na guerrilha. Não há estrelas nos chapéus dos vingadores. Nada de testeiras e barbicachos ornamentados em moedas de ouro, nem bornais bordados em policromia, a ponto de fazer desaparecer o brim grosso de que eram feitos. Os registros fotográficos provam isso, com clareza – aponta Frederico Pernambucano.
Muitos anos após deixar o cangaço, Sinhô Pereira disse ao Jornal do Brasil, edição de 26 de fevereiro de 1969: “Eu pessoalmente nunca gostei de enfeites. De bons apetrechos, sim. Cartucheiras de duas camadas, cinturões de revólver com duas carreiras de balas, e nada de espelho e moedas adornando chapéus”.
No caso de Lampião, as fotografias se inserem no quadro do cangaço profissional como negócio. No início se dedicou ao cangaço de vingança nas disputas contra os Nogueiras e José Saturnino, em Pernambuco, e José Lucena (matou seu irmão caçula João Ferreira), em Alagoas. Depois se acomodou no profissionalismo aventureiro, “em processo de transtipicidade”.
O Lampião da década de 30 enfeitava-se dos pés à cabeça. As estrelas de ouro e pedras preciosas apareceram e aumentaram. Essas estrelas ficaram maiores em 1936 e enormes em 1938, ano da sua morte, na gruta Angicos (Sergipe). Sua conduta divergia do vingador. Procurava ser documentado com seus riquíssimos trajes de guerra. Deixou-se filmar em 35mm, no ano de 1936.
Sinhô Pereira e Luis Padre evitavam ser fotografados com armas. Pousavam apenas em trajes civis. O comportamento dos vingadores era contido, com os chefes reprimindo os crimes sexuais e só permitindo expropriações em casos de necessidade.
Sobre os vingadores, o escritor José Américo de Almeida falou ser o destino de Jesuíno Brilhante, assassino por vingança, distribuindo os víveres dos comboios que atacava aos famintos da seca de 1877 e matando um de seus mais valentes, o escravo José, porque tentara violentar uma mulher.
Os vingadores dependiam das finanças de suas famílias que perderam seus bens. Sinhô Pereira disse uma vez que tinha terra e gado. “Vendi tudo barato para cuidar da vingança”. Os cangaceiros dos negócios se mostravam prósperos e autossuficientes. Viviam na opulência. Existem vários exemplos e testemunhas de cangaceiros que comprovavam isso.
Pernambucano de Mello destaca o nível de coesão entre esses dois grupos. Mais forte entre os vingadores, fraco entre os rapinadores, em cujo seio as deserções frequentes impunham rotatividade elevada e permanente atenção de seus chefes para com a atividade de recrutamento.
Sobre esta questão, o ex-cangaceiro Miguel Feitosa descrevia sobre o enxovalhamento dos cabras novos. Nos embates com as volantes, seus chefes gritavam seus nomes para que ficassem conhecidos dos comandantes das tropas, para dificultar-lhes um possível regresso à vida pacífica.
Quanto às origens sociais, o cangaço profissional vinha de uma origem humilde da classe média baixa de famílias não tradicionais. Os da vingança originavam-se de famílias importantes. Sinhô Pereira e Luis Padre eram netos do barão do Pajeú e descendentes de um comendador da Ordem da Rosa, do Primeiro Império. O cangaceiro Cindário pertencia à família Carvalho, do Pajeú pernambucano. O potiguar Jesuíno Brilhante chamava-se Jesuíno Alves de Melo Calado, título senhorial.
O autor de “Guerreiros do Sol” ainda descreve os aspectos existentes entre os grupos. No ponto de vista de duração no cangaço, Lampião e Antônio Silvino atuaram, respectivamente, 22 e 19 anos. Os vingadores mal atingem o lastro. Sinhô Pereira, vingado, retira-se após seis anos. Seu Primo Luis Padre, cinco anos. Pouco tempo também tiveram Cindário e Jesuíno. Quem quer vingar parte para cima do inimigo e mata (Sinhô Pereira) ou morre (Jesuíno).
Outro aspecto se refere ao campo de atuação. Lampião e Silvino percorrem sete a quatro estados da região ao longo de suas carreiras, sempre em busca de novas praças a explorar. Sinhô não foi além de três estados. O mesmo vale para Luis Padre. Jesuíno fez-se cangaceiro no Rio Grande do Norte, vindo a tombar morto no Brejo de Cruz (Paraíba) pelo seu pior inimigo, Preto Limão. Cindário jamais “navegou” além do seu Pajeú.
O último aspecto analisado é a presença de mulheres, mais no sentido existencial. Só no cangaço meio de vida foi permitido a entrada de mulheres como auxiliares não-combatentes, mais como vida do homem amado e de valquírias, após a morte deste. As mulheres ficaram praticamente restritas ao bando de Lampião.
“Em meu tempo não havia mulheres no bando. Mulher só trazia consequências, dividindo homens, fazendo o grupo brigar por ciúmes. Ninguém andava com mulher” – afirmou Sinhô Pereira. No cangaço vingança e refúgio só haviam privações. Somente a rapadura, farinha e a carne, como essenciais. Queijo, bolacha e doce quando se adquiria nas bodegas.
De acordo com Frederico Mello, mesmo no cangaço meio, as mulheres foram fator de desagregação e conflitos internos. Dizem que Lampião, após se apaixonar por Maria Déa Oliveira, a Bonita, (Santinha para ele), não foi mais o mesmo, como confirmou o cangaceiro Balão. “Enquanto não apareceu mulher, Lampião brigava até enjoar. Depois, diante do perigo, pedia para correr”.
Depois de Lampião, os chefes dos subgrupos fizeram o mesmo e os bandos foram ficando cheios de mulheres. À exceção de Dadá, final de 39/40, quando Corisco ficou com o braço quase inutilizado por uma rajada de metralhadora, as mulheres não combatiam, prestando serviços domésticos e procriando. As mulheres assinalam o início do processo de decadência guerreira, com uma vida mais sedentária.
O cangaceiro Balão dizia que homem de batalha não pode andar com mulher. “Se ele tem uma relação, perde a oração, e seu corpo fica como uma melancia onde qualquer bala atravessa”.
Um fato interessante é que no auge do cangaço, entre as décadas de 20 e 30, os jovens faziam apologia ao banditismo, àquela vida de aventuras, inclusive entre os mais ricos, filhos de fazendeiros e chefes políticos. Muitos chegaram a ingressar no cangaço como meio de vida.
DESSASTRE HUMANO NA COP30
A MÃE NATUREZA TEM O MAPA DO CAMINHO
A Imagem do Brasil lá fora já é de um país que não é sério, do improviso em seus projetos, de corrupção epidêmica, de suborno e obras superfaturadas. Agora imagina um incêndio em um dos pavilhões da conferência do clima! Servimos de piadas e deboches.
Além do fogo, houve alagamentos com biqueiras, como se fossem velhos galpões sem serviços de manutenção. Antes, a ONU já havia advertido para a questão estrutural, sem contar as dificuldades de acomodações das delegações. O governo federal teve que contratar navios a preços de ouro para as hospedagens.
Quanto ao incêndio, será que algum árabe, ou mesmo um brasileiro, não estaria tentando perfurar algum poço no intuito de encontrar petróleo? Não seria algum grileiro fazendeiro que teve a intenção de desmatar a área para criar mais um gadinho dentro da floresta amazônica? Quem sabe não tenha sido um ato terrorista de Trump, para melar as conversações!
Brincadeiras à parte, como um incêndio se propaga num pavilhão construído recentemente? Contrataram alguma empresa amadora para fazer a instalação elétrica por um baixo preço e alguém embolsou parte da verba? Em se tratando de Brasil, tudo pode ocorrer, como a aquisição de materiais de quinta categoria, para sobrar uma grana para alguém.
Sei que tem gente, a esta altura, me chamando de maledicente e até de ser espírito de porco, com o propósito de manchar a imagem do Brasil no exterior. Esse cara não é nada patriota! Fica aí levantando impropérios e escrevendo besteiras! Acho até que a crítica é mais pesada que isso, com xingamentos e palavrões. Devem estar me carimbando de direitista de extrema.
Não me importo com isso. Não estamos num país democrático? Não estou ultrapassando os limites da liberdade de expressão, apenas retratando as trapalhadas que acontecem no Brasil. É a primeira vez na história que uma conferência do clima pega fogo literalmente. Que organização é essa? Pior que o assunto foi abafado, como as labaredas com extintores.
Por falar em fogo, a COP30, em Belém, vai ter sua partida prorrogada, ou a disputa será decidida nos pênaltis? Quem sabe, esse jogo poderá até ser anulado por falta de entendimentos entre os juízes e o VAR! Prefiro a Copa Mundial de Futebol que tem início, meio e fim, isto é, data para começar e data para finalizar, com um time campeão.
Disse aqui que esta conferência, como as outras, mais parece com a lendária Torre de Babel onde cada um fala uma língua diferente e não se chega a um denominador comum sobre sua construção. Está difícil encontrar esse Mapa do Caminho.
Alguém aí acha que os produtores de petróleo, especialmente os árabes, aceitam reduzir suas explorações? Podem até assinar documentos, mas vão continuar intensificando a produção de combustíveis fósseis. Os Estados Unidos já disseram que sim.
Por que esses conferencistas não consultam à mãe natureza? Ela tem o Mapa do Caminho, só que a grande maioria não quer seguir. Prefere outra via que vai nos levar ao aumento do aquecimento global. A mãe natureza já nos disse que basta! Os fatos e os fenômenos estão aí, só não enxerga quem não quiser.
PRAGA DE CAVALO MAGRO
(Chico Ribeiro Neto)
Gosto de anotar ditados populares, ouvidos na fila do supermercado, no ônibus ou no bar, além dos que encontro na Internet. Minha mãe Cleonice gostava muito desse: “Água e conselho só se dá a quem pede”. O ditado popular não merece explicação. Quando exige uma explicação, é porque não presta. Igual a uma piada que você tem que explicar o final.
Vamos a alguns ditados:
“Casamento é igual Internet. Você assina um contrato hoje, amanhã já aparece um plano melhor”.
“Quando o rato ri do gato, há um buraco perto”.
“Macaco sabe o pau onde sobe”.
“Não te desperdiço nem te jogo fora. Te guardo pra boa hora”.
“O boi sabe onde fura a cerca”.
Mais alguns:
“Praga de cavalo magro não pega em cavalo gordo”.
“Ou toca o sino ou acompanha a procissão”.
“Farinha pouca, meu pirão primeiro”.
“Dedo-duro morre apontando”.
“Tempero de comida é fome”.
“Casa onde não entra o sol, entra o médico”.
Mais outros:
“Dia de muito, véspera de pouco”.
“Pé de galinha não mata pinto”.
“Quem nasceu pra tatu morre cavando”.
“Amizade remendada, café requentado”.
“Não há domingo sem missa nem segunda sem preguiça”.
“A santo que não conheço, não rezo nem ofereço”.
“Se ferradura trouxesse sorte, burro não puxava carroça”.
“Velho não senta sem UI! Nem levanta sem AI!”
“Quando dois elefantes brigam, quem sofre é a grama”.
“O machado esquece, a árvore recorda”.
“O mesmo sol que derrete a cera, endurece o barro”.
E pra terminar:
“Meia verdade é sempre uma mentira inteira”.
“Há 3 coisas que jamais voltam: a flecha lançada, a palavra dita e a oportunidade perdida”.
“A língua não tem osso, mas esmaga ossos”.
“Antes dono de uma moeda que escravo de duas”.
“Miséria pouca é tiquim”.
“Urubu quando tá de azar, o de baixo caga no de cima”.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
EXÓTICA FLOR
Essa nossa caatinga exótica tem suas espécies únicas que só existem em nosso Nordeste místico carregado de símbolos e fé. Assim são suas raras flores, como a estrela marrom de um cacto, primo do mandacaru, que também produz a sua uma vez por ano. Por serem diferentes, são difíceis de serem captadas pelos olhos humanos, mas são espíritos encantados ou espelhos encantadores da alma. São elas rústicas as minhas preferidas que representam o reflexo do meu ser. Para mim, elas têm um grande significado e retratam o que eu penso. Podem ser amor, tempo, vida, existência, conflito ou sentido do viver. Criaturas que brotam do chão, mesmo em tempos de seca em meio a uma paisagem cinzenta, como esta que tem a sua cor distinta entre o verde. É um tipo exótico, mas é uma flor das flores.
MEDO DO VENTO
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Tenho medo do vento,
Como menino acuado,
Nascido no mato, assustado,
Mais que o relâmpago e o trovão,
Que faz arrastão,
De árvores e telhados,
No ar derruba até avião.
Tenho medo do vento,
Vento ventania,
Zunir assoviado de agonia,
Que arranca segredos,
Da minha alma do passado,
Nas correntes dos enredos.
Olá, Yansã, Oyá,
Senhora orixá do vento,
Acalmai este valente violento,
Guerreiro da transformação,
Dos espíritos, guardião,
Das florestas dos ancestrais,
Onde vivem os animais.
Olá, senhor Anemoi,
Vento viajante do tempo,
Do deus grego Éolo,
De espadas eólicas,
Natura, natureza,
Nas paisagens bucólicas,
Operário do pólen,
Equilíbrio e destruição,
Do ciclone, tornado ao furacão.
Bóreas norte é inverno,
Zéfiro oeste é primavera,
Flor da felicidade,
Nótos sul verão tempestade,
Euro do leste é outono,
Deuses da boreal aurora,
Veloz faz sua hora.
Tenho medo do vento,
Venha donde vier,
Começa manso e lento,
Forte abala até nossa fé.
UM BRASIL DESCONFIADO E CONSERVADOR
“Vá com Deus”, Deus que lhe acompanhe”, Deus está no comando”, “foi Deus quem assim quis”, “fui salvo, graças a Deus”, Deus é fiel” e “família é tudo na vida”. São expressões que se ouve cotidianamente, não importando os extremos, os opostos, se religioso, ou não, e é isso que nos une em meio a esta polarização política extremista e derrotista.
O interessante é que este Deus tem seu nome banalizado, usado em vão até num jogo de cartas, ou para cometer maldades e bandidagens. A família – no bom, sentido – é unida até quando não envolve dinheiro no meio. Numa herança, ela entra em “guerra” de mortes. Tudo isso não é um paradoxo?
Diante de tanta violência brutal, golpes, individualismo, falsidades e falta de respeito para com o outro, talvez o brasileiro seja o mais desconfiado no mundo de hoje. O brasileiro desconfia do próprio brasileiro, inclusive quando se está no exterior. Por falar nisso, o nordestino, que sofreu séculos de agruras e isolamento, é o mais desconfiado. Ele é um cismado por natureza.
Esta desconfiança está também na convicção de que nem todos são amigos, embora seja outra palavra mais pronunciada por onde se anda, até mesmo saída da boca de um desconhecido na rua. Tem aquele “amigo-irmão” de botequim, dos encontros nos bares e na cachaça, que depois se vai ao vento como pó.
“Confie, desconfiando”. São raros os amigos. Inconscientemente, houve uma vulgarização dessa coisa do amigo. Essa desconfiança empurrou o brasileiro para a indiferença com relação ao próximo. Todos são suspeitos, até que se prove o contrário. Difícil se parar um carro na estrada para atender um pedido de socorro. Nas ruas das médias e grandes cidades, essa desconfiança ainda é bem mais acentuada.
O desconfiar resulta em afastamento e medo, que criam o fatalismo da polarização e da divisão no campo político, só que no meio disso existe atualmente uma grande maioria silenciosa que não fica bradando e xingando nas redes sociais, nem quer entrar nessa discussão. Procura ficar de fora. É essa maioria que toma posições caladas e até decide eleições.
Por sua vez, o brasileiro acha que sabe de tudo, mas, no fundo, nada sabe. No acreditar que tudo sabe, ele procura impor suas ideias como se fossem padrão de verdade e é aí que são gerados os conflitos e inimigos. O que os une é que “Deus está no comando” e “família é tudo na vida”. Nisso, todos comungam, ou quase todos.
Outra coisa é que o brasileiro é conservador por natureza, mesmo os considerados progressistas de esquerda. Na questão do sexo, para ele, tudo é lícito entre quatro paredes, mas não aceita exposição em público. No íntimo, se choca com o que ver. Ele ainda conserva dentro de si a cultura ancestral patriarcal, por mais que se diga aberto e liberal.
O mesmo acontece quanto ao preconceito racial e até de gênero. Ele fala em público e até procura forçar sua convicção de que não é preconceituoso, mas, aqui e acolá, termina caiando em deslize e contradição, sem sentir que está sendo. Antigamente, esse preconceito era bem explícito, hoje ele é escondido e patrulhado por força das mudanças nas políticas públicas que incriminam a prática.
Conforme constatou uma pesquisa sobre estes valores arraigados nos brasileiros, a nova geração, chamada por alguns estudiosos do assunto, de zen, ou ponto com, é a mais liberta desses preconceitos, e isso nos dá a esperança de que podemos ter um futuro melhor, sem essa mancha e esse rancor. O preconceito religioso está mais enraizado entre os fanáticos fundamentalistas.
Outra coisa é que o brasileiro se tornou um punitivista, tanto que a grande maioria defende a pena de morte, a redução da maioridade penal e até que se faça justiça com as próprias mãos. Vimos isso nas últimas operações militares feitas nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro. A maioria votou pela aprovação, segundo pesquisa realizada por uma empresa do setor.
Temos um Brasil paradoxal, “vira-lata”, de Nelson Rodrigues, que cultua o estrangeiro, caso dos Estados Unidos, que, por sua vez, enxerga nosso país como inculto, atrasado e arcaico. “Que país é esse”, tão miscigenado, místico e cheio de contradições?



















