“AMÁLGAMA”, UMA EXPOSIÇÃO DE ROMEU FERREIRA E ALBERTO BRANDÃO
Vale a pena dar um pulo no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima e fazer uma reflexão sobre “AMÁLGAMA”, uma exposição de dois renomados artistas Romeu Ferreira e Alberto Brandão que, cada um com seus estilos diferentes, unem rostos e corpos de gentes negras e indígenas nordestinas, que juntas formaram essa mestiçagem mameluca originária também de portugueses, judeus e árabes.
Romeu, um artista inconfundível a partir de suas expressões fortes de linhas e riscados predominantemente preto e branco, como se sua arte penetrasse nas entranhas profundas do físico e do mental das pessoas, com seus alaridos externos e internos. Brandão entra no mesmo sentido filosófico-político e social dessas raças humanas, porém com suas imagens coloridas.
“AMÁLGAMA”, palavra que vem do árabe e significa mistura ou ajuntamento de pessoas ou coisas diferentes. É como misturar o mercúrio com outro metal. A princípio parece uma confusão de alquimistas que terminam encontrando uma fórmula única para dar significados diferentes a uma mesma coisa, a um mesmo sentido.
É uma viagem ao mundo artístico sobre seres humanos específicos, vistos pelas lentes ou pinceis de cada um dos artistas. Cada um, dentro da sua visão, vê a mesma coisa, mas com pinturas diferentes que agradam o expectador, principalmente o apreciador da arte e da cultura.
É uma linguagem onde cada um viaja no seu imaginário e faz a sua livre interpretação. A pintura nos leva a essa dimensão metafísica. Romeu Ferreira e Alberto Brandão nos transporta para esse mundo nordestino, retratando o negro, o indígena e o “branco” mameluco.
PLACAS DO AGRESTE
O Nordeste agreste não é somente cultura e histórias, muitas das quais de violência e miséria de um povo há séculos abandonado e explorado pelos coronéis, senhores de engenho e governantes. Do seu chão irrigado brotam frutas e outras lavouras de sequeiro de sustento do nordestino trabalhador e forte. Seu solo pode árido, mas é fértil. Tem o vento e o sol escaldante quase o ano inteiro que também produzem energia, como estas placas solares extraídas das nossas lentes, em Anagé, distante pouco mais de 50 quilômetros de Vitória da Conquista, na boca do sertão sertanejo do mandacaru. O Nordeste é hoje o maior produtor dessa energia limpa, a solar e a eólica, no Brasil. Só que a ganância do capitalismo selvagem ainda opta pelos combustíveis fósseis poluidores do meio ambiente. Toda essa riqueza está aqui bem perto de nós, só que necessita de mais investimentos. Infelizmente, as outras regiões, sobretudo a sulista, e a grande mídia ainda têm uma visão estereotipada do Nordeste onde só se mostram as barbaridades do cangaço e das volantes de antigamente, sem falar da pobreza. O Nordeste é muito mais que isso.
O CANGAÇO E A VOLANTE
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Revoltam Severino e Maria,
Um vai pro cangaço,
O outro entra na volante
Porque não existe outra via.
Pelo espinhaço do sertão
Entre espinhos e garranchos,
No lajedo agreste do Nordeste,
Pobres miseráveis em seus ranhos,
Cortam o cangaço e a volante,
Em seus picados matreiros
Nessa terra de gigante.
Lá vão Antônio Silvino,
Lampião, Sinhô Pereira,
Corisco e Jesuíno Brilhante,
Bandos de valentes guerreiros,
Na tora da bagaceira,
Nos rastros de seus coiteiros.
O Cangaço chama a volante
De “macaco” bandido,
A volante de salteador bandoleiro,
E o povo se lasca num “partido”.
Cabeças decepadas e degoladas,
Gargantas cortadas sangradas,
Corpos esquartejados ferrados,
Como gado magro em manadas,
Sangue a jorrar pelo chão,
De pedregulho, seco estorricado,
Fardas esfarrapadas,
Mulheres escravas estupradas,
O cangaço e a volante
Criados pelo sistema dos coronéis,
Doutores, senhores de engenho,
Com suas afiadas chibatas de anéis.
Ditam suas sentenças,
Impõem seus costumes,
Baseados em suas crenças.
O murmúrio se cala no além
Pelas armas do rifle, fuzil e do punhal
Nessa região de ninguém
Onde o choro fica entalado,
Em meio à desgraça e o cabedal.
E o cangaço e a volante
Fazem sua carnificina brutal.
O cangaço com sua canga,
No cipó de boi torturador,
Arranca olhos e retalha peles.
Tem até o ferro castrador,
Ferraduras, lapadas de reio cru,
Nesse inferno de fogo e aço,
Crucifica humanos no mandacaru.
A volante ainda é mais cruel
Com suas barbaridades medievais
Riscam como raios do céu.
OS 45 ANOS DA ACADEMIA DE LETRAS
Com a apresentação do núcleo da orquestra Neojibá de Vitória da Conquista, a Academia Conquistense de Letras-ACL comemorou seus 45 anos de existência, período em que discutiu e contribuiu para o engrandecimento da cultura da cidade.
Na ocasião, o confrade Benjamim Nunes, que nos deixou esta semana e partiu para outra dimensão, foi homenageado com um minuto de silêncio e pela presidenta Elvarlinda Rocha Jardim que em sua fala fez menção ao legado que Nunes nos deixou para a cultura conquistense, sempre recebendo as pessoas com seu largo sorriso.
Os trabalhos pela comemoração dos 45 anos do colegiado foram realizados ontem (dia 03/09/2025), por volta das 19 horas, na sede da Academia, no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, e contou com as presenças de vários acadêmicos e convidados. Muitos estradeiros do “Sarau A Estrada”, que está completando 15 anos, se uniram às homenagens de parabéns pelo seu aniversário.
Foi uma noite descontraída e fraternal no estilo de um sarau onde muitos se expressaram com declamações de poemas e cantorias de violas, como do acadêmico, cantor, poeta e compositor Dorinho Chaves em parceria com Manno Di Souza.
A presidente da ACL, em seu discurso, fez um breve histórico da entidade de letras, desde quando ela foi fundada em três de setembro de 1980 por um grupo de pessoas iluminadas e interessadas por propagar a arte e a cultura em Conquista.
Na oportunidade, ela citou os nomes de todos os fundadores, destacando Carlos Nápoles, Ricardo Benedictis, Evandro Gomes Brito, dentre tantos outros. Foi uma comemoração singela, mas significativa e profunda que tocou a alma de todos que compareceram ao ato.
DUAS FACES DA MESMA MOEDA
É bom que fique bem claro que não estou aqui me colocando em posição contrária ao julgamento dos réus que tramaram um Golpe de Estado contra a democracia no final do Governo do ex-capitão Jair Bolsonaro, o “Bozó”, culminando com o atentado aos três poderes em oito de janeiro de 2023.
No entanto, quando falo de duas faces da mesma moeda, isso me faz lembrar do julgamento parecido do Supremo Tribunal Federal –STF sobre a questão da anistia geral e irrestrita decretada em 1979 onde incluía os torturadores da ditadura civil-militar de 1964.
Os ministros do colegiado decidiram não punir os criminosos que torturaram, mataram e desaparecerem com centenas de corpos de presos político que se opunham ao regime. O tratamento deveria ser o mesmo, mas os mentores nem foram a júri.
Como há mais de 50 anos, as provas agora são bem claras e o plano só não deu certo porque não teve a adesão dos comandantes do Exército e da Aeronáutica, bem como de outros oficiais que rechaçaram a ideia maldita. Eles se recusaram a entrar nessa barca furada dos trapalhões.
Se houvesse a adesão total das forças armadas, quem iria governar o país com mão de ferro seria uma junta militar e não o Bolsonaro, como muitos seguidores, que foram às ruas pedir intervenção militar, imaginavam. Como diz o ditado popular, iam “cair do cavalo”. Eles apenas estavam sendo usados como bucha de canhão, ou como inocentes úteis.
O esquema era tão “doido e maluco” que visava matar o presidente eleito da República, seu vice e o ministro do STF, Alexandre de Moraes. No meio uns generais de pijama como maiores incitadores para derrubar a democracia e implantar um regime de opressão.
Em toda trama ditatorial existem fatos parecidos e objetivos similares, só que a ditadura de 1964 já vinha sendo urdida e esquematizada desde o suicídio de Getúlio Vargas, em 1954. As cabeças eram mais pensantes e houve várias tentativas pelo caminho, incluindo a renúncia de Jânio Quadros, em 1961, e a posse do vice João Goulart.
Naquela época da Guerra Fria entre Estados Unidos e Rússia, o maior inimigo era o comunismo que dividia parte dos países com o capitalismo. Havia até uma adesão do governo norte-americano que não queria ver outra Cuba na América Latina. A situação geopolítica era diferente.
Em 1964, no início do movimento, também não houve adesão de todos generais, mas o vacilo de Jango fez o jogo mudar, e a Igreja Católica, junto com a classe média conservadora, empurrou mais ainda nosso país para o abismo.
Dessa vez, os extremistas de direita e os evangélicos tentaram também colocar o comunismo como inimigo, mas não emplacou, sem contar a reação contrária das comunidades internacionais, inclusive do Governo dos Estados Unidos, não do atual.
Quanto ao este julgamento, pelas evidências de documentos, das ações e falas em reuniões e praças públicas, das declarações do delator Mauro Cid, dos acampamentos diante dos quartéis, dentre outras tramas, existem provas contundentes que poderão criminalizar e até punir os réus com cadeia, mas não por muito tempo.
O julgamento em si já é uma resposta e serve como exemplo para que outros não tentem mais na frente armar um Golpe de Estado contra a democracia. Pelo menos já é um fato inédito na história do Brasil ter no banco dos réus um ex-presidente que tentou dar um golpe num governo eleito pelo povo.
CONVERSA DO FIM DO MUNDO
Tem aquele cara que é polêmico por compulsão e em tudo tem que contestar, até dizer que pedra não é pedra, é pau ou outra coisa qualquer, como da escolinha do professor Chico Anísio. “Há controvérsias, professor”! Lembra?
O tipo polêmico pega um termo ou uma expressão mal colocada do companheiro e leva a conversa para o fim do mundo. Discute a semântica da palavra, a questão antropológica, o significado, a etimologia, o sentido filosófico, o sinônimo, antônimo, o politicamente correto e incorreto e os escambais.
– Mas, moço, não foi isso que quis dizer, talvez não tenha me expressado bem, ou houve um ruído na comunicação. Quis falar…
Antes de terminar, o polêmico já entra com outro argumento e somente ele acha que está com a razão, faz rodeios, tergiversa e já emenda outra versão do fato, muitas vezes uma coisa que não tem nada a ver com a outra.
Tenha paciência ou saco para aturar! Por mais que você procure ser claro em seu pensamento, o polêmico não desiste nunca. Não tente chegar a um denominador comum que é perda de tempo.
– Olha bicho, você está certo! Fim de papo e tchau, meu camarada! Fui… Aí, mata o cara, e ele fica espumando de raiva com o gosto de que queria esticar mais a conversa. Talvez eu tenha um pouco disso porque já me chamaram de polêmico inveterado. Deveria existir o Grupo dos Anônimos Polêmicos- o GAP.
E o chato, meu amigo! Este ainda é pior porque ninguém consegue suportar. Quer vê-lo de longe. Em quase todos lugares de trabalho e em grupos de amizades, sempre tem um, do tipo que quando você o ver numa calçada, rua, avenida ou praça, procurar desviar para outro lado e se esconder.
O chato é o chato, como diz o cantor e compositor Oswaldo Montenegro. Na redação do jornal “A Tarde”, em Salvador, tinha um colega que era insuportável. Quando ele apontava, um olhava para o outro e lá vinha aquela piada e apelido de “prosa ruim”.
– E aí, colega, o que fez ontem, tomou umas, comeu o quê, deu uma, saiu com a mulher e os meninos, como está a patroa? Ah, caramba, você não sabe o que aconteceu comigo e tome conversa chata cheia de detalhes, nos “mínimos detalhes” do programa humorístico da véia de “A Praça é Nossa”.
Aqui na Sucursal do jornal, convivi com um funcionário que soltava toda sua chatice quando bebia umas e outras. Era um porre de lascar e de deixar qualquer um fora do prumo ou do rumo. Haja saco e mais saco! O pior é que tinha a mania de falar pegando nos outros, no gruda-gruda, no agarra-agarra.
Por falar nisso, tem aquela pessoa que, mesmo sóbria, só sabe falar com você agarrando nos braços, nas pernas e outros lugares inconvenientes. Conversa com o rosto em cima de você, como se fosse beijar na boca. É um tormento!
Por educação ou gentileza, as pessoas não o chamam a atenção e ele continua sendo o chato de galocha, o mais chato dos chatos, o campeão da chatice.
– Porra, Catatau, você só sabe conversar pegando e com a cara em cima da gente! Se toca! Vi uma vez um amigo perder a paciência e dizer a verdade. O chato não gostou nada disso e revidou com xingamentos. Quis até partir para briga, mas vá brigar com um chato!
Tem o que fala baixo, o que conversa alto e não dá espaço para o outro – o meu caso por natureza, com aquela voz rouca de Paulo Diniz. Tem o educado e o gentil, com ar de aristocrata inglês de primeira classe.
Entre todas essas personagens ilustres e folclóricas que poderiam ser tombadas ou se tornarem patrimônio público material e imaterial da humanidade pelos municípios, estados, União ou até mesmo pela Unesco, a que tenho mais medo é a do gentil de fala mansa.
É, meu caro amigo, este último não é de muita confiança e fique atento de olhos abertos ou arregalados. É o tipo traiçoeiro, calculista, figadal e vingativo que pode lhe dar o bote na primeira oportunidade. Sou mais aquele ou aquela que é direto e lhe diz a verdade na tampa, mesmo que desagrade.
Também tem aquele dos chistes, do assim não pode, assim não deve, tá, tá, tá, viu, né, né, né, pois é e por aí vai repetindo essas expressões por mil vezes numa conversa do fim do mundo, e nem percebe.
Ia me esquecendo do fofoqueiro e da fofoqueira que têm um bom coração e não lhe fazem mal, mas não perdem uma para espalhar os boatos. Em comadre, tá sabendo da maior? Conta amiga que minha boca é um túmulo! Deus está vendo!
Não se preocupem porque cada um tem um pouco de cada, uns menos e outros mais, só não somos todos iguais perante as leis. A vida é assim e vamos levando numa boa. O que não dá é ser sacana, desonesto, escroto, corrupto e mal-intencionado.
CABEÇAS DECEPADAS E DOIS “PARTIDOS” NORDESTINOS NA ÉPOCA DO CANGAÇO
A maioria das pessoas considera uma barbaridade a decapitação das cabeças de cangaceiros mortos pelas forças das volantes e tem suas razões, mas existem explicações.
Do outro lado, o cangaço, entre final do século XIX até 1940, fazia o mesmo com os chamados “macacos” e até esquartejavam impiedosamente. O cangaceiro Antônio Silvino tinha o prazer de sangrá-los depois de tombados em combate.
Sobre o assunto, veja o que nos diz o pesquisador e escritor Luiz Bernardo Pericás em sua obra “Os Cangaceiros”. Depois das lutas, o fardamento dos soldados das volantes (vestimentas parecidas a partir de 1925) ficam em péssimas condições, muitas esfarrapadas.
Quando ganhavam os embates, de acordo com Pericás, decepavam as cabeças dos rivais por eles assassinados. O autor do livro aponta três motivos para a decapitação do inimigo.
Um deles para demonstrar desprezo e, consequentemente, humilhar o rival. Se o cristianismo defende a inviolabilidade do corpo, a decapitação seria uma forma de tirar esse “privilégio” dos bandidos. Com a cabeça separada do tronco, sua alma estaria perdida. Essa seria uma forma estranha de punição. Exemplo claro foi o de Corisco, enterrado inteiro e depois exumado e decapitado. Para alguns, o ato teve como objetivo estudar seu crânio.
Luiz Pericás deixa claro que isso funcionava para os dois lados. Ao terminar o ataque a Betânia, os civis pediram a Lampião permissão para sepultar os soldados assassinados. O “governador do sertão” respondeu que “macaco” não se enterrava. Para ele, os policiais deveriam ficar por cima da terra para serem comidos pelos urubus. Depois de muita insistência, o cangaceiro deu permissão.
Antônio Silvino (1897-1914) havia feito o mesmo. Em 1904, após assassinar o sargento Manoel da Paz, proibiu que o povo de Mogeiro o enterrasse. Não poderiam colocá-lo num cemitério, já que seria uma profanação sepultar um “bandido” daquele tipo num lugar sagrado – disse Silvino.
O segundo motivo era de implicações mais práticas. Como era inviável o transporte de cadáveres e, considerando que era fundamental exibir as provas da eliminação de muitos cangaceiros procurados, o corte das cabeças se mostrava a melhor opção. A exposição em praça pública daria mais segurança para o povo de que aqueles indivíduos não seriam mais ameaças.
O último motivo é que as cabeças serviam como troféus macabros para os oficiais, que poderiam usá-las como símbolo de suas eficiências militares. Em última estancia, seriam estudadas por cientistas, antropólogos e criminalistas, e depois guardadas em museus.
Por outro lado, as cabeças terminaram virando moeda de troca com as autoridades. Qualquer bandido arrependido que entregasse a cabeça de um cangaceiro para a polícia teria seus crimes perdoados pelo governo e ainda ganharia prêmios e garantias de vida.
Com José Osório de Faria, o Zé Rufino, que alugou serviços às autoridades baianas, havia um acordo secreto com o governo. Cada cabeça era trocada por uma promoção. Após 16 combates e 22 decapitações ele se tornou coronel de polícia.
No começo do século XX, cidadãos comuns decapitavam cangaceiros para roubar seus pertences. O sujeito que não fosse sangrado e torturado poderia se considerar um privilegiado. Depois de capturar e interrogar “Lavandeira”, o tenente Alencar decidiu sangrar o bandido, mas atendendo a um pedido do soldado, deu um tiro na cabeça.
DOIS “PARTIDOS”
No final do século XIX e nas primeiras décadas do XX, o Nordeste, sem justiça, era uma terra de ninguém onde mandavam os coronéis, fazendeiros e senhores de engenho, se bem que os poderosos só mudaram de vestes e de lugar.
Os pobres e miseráveis ficavam numa linha de fogo cruzado e só tinham dois “partidos” para sobreviver, o do cangaço ou o da volante. Conforme relata Luiz Pericás, o governo contratava civis para as forças volantes.
“As tropas volantes, assim, se tornavam também uma forma de garantir um emprego e de ascensão social para muitos sertanejos. Outros se alistavam por terem recebido ameaças até mesmo de policiais e também para garantir sua segurança contra cangaceiros inimigos”.
A ideia de se perseguir desafetos que cometeram crimes contra suas famílias era um dos principais motivos de ingresso nas fileiras policiais. Pericás conta que um coiteiro de Lampião, Elias Marques, de Santa Brígida, depois de entrar em desavença com o “governador do sertão” ingressou na força policial.
Em alguns casos, quando o sertanejo não conseguia entrar nas volantes, caso do cangaceiro Tenente, decidia ingressar no grupo dos salteadores. “Fiapo”, depois de se desentender com Lampião, foi para a volante.
Quando “Volta Seca” foi capturado disse que nunca mais retornaria ao cangaço. Segundo ele, o jeito seria virar “macaco”. Também ocorria o inverso. Desertores da força pública se tornavam cangaceiros, como Ignácio Loyolla Medeiros, vulgo “Jurema”. Ficou na polícia até 1922 e depois se incorporou ao grupo de Lampião.
“Corisco” também foi militar, tendo servido no 28º Batalhão de Caçadores do Exército, em Aracaju-Sergipe. Após participar de uma rebelião, em 1924, desertou e mais tarde se tornou cangaceiro. O caso mais conhecido de um militar do exército brasileiro a se tornar um cangaceiro foi o de José Leite Santana, vulgo “Jararaca”, que chegou a lutar na revolta tenentista de São Paulo, em 1924, e também esteve no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro.
Um, dos filhos de Antônio Silvino se tornou oficial do exército. Certa vez Lampião disse que não havia nascido para a vida de cangaceiro. “Se não houvesse nêgo na polícia pra manobrar com a gente, eu ainda iria ser soldado”. Joca Bernardo, coiteiro de “Corisco” e delator do paradeiro de Lampião em Angico, recebeu a oferta de cinco contos de reais e uma patente de sargento. Foi enganado e caiu em desgraça.
A NOSSA CULTURA ESTÁ NA UTI E PEDE SOCORRO PARA SER REANIMADA
O grupo “Estradeiros da Cultura”, do Sarau A Estrada, abriu uma discussão muito pertinente sobre a situação lamentável em que vive hoje a cultura em Vitória da Conquista, talvez nunca vista em sua história.
Dentro desse debate, cada membro se expressou livremente e apresentou suas sugestões para contribuir com o “Movimenta Cultura Conquista”. É bom que fique claro que se trata de uma manifestação suprapartidária, porque a única política que nos norteia e une é a luta por uma política cultural no município.
O “Movimenta Cultura Conquista” soltou uma nota pública no último dia 25 de agosto, onde faz um apelo ao poder executivo para que a classe artística e a sociedade civil sejam respeitadas em suas principais reivindicações, quais sejam abertura dos equipamentos Teatro Carlos Jheovah, Cine Madrigal e Casa Glauber Rocha há anos fechados.
A princípio, o Sarau A Estrada está elaborando uma carta onde pontua diversas reivindicações, como criação de um Plano Municipal de Cultura, Aumento do Orçamento Municipal para a Cultura na LDO para 2026, Reforma do Teatro Carlos Jehovah, Construção de um Centro de Convenções, Investimentos em Todas as Formas de Expressão Artística, Novo Espaço para o Conservatório de Música, Ampliação de Vagas, Contratação de Instrutores e Novos Módulos nos Bairros, Política de Salvaguarda do Patrimônio Cultural e Retomada do Natal da Cidade com Foco na Produção Local,
A gestão atual se mentem em silêncio. “É sabido que há muita dificuldade de escuta aos coletivos organizados por parte do grupo que governa a cidade” – informa a nota confirmando que foi entregue um documento com quatro mil assinaturas no início do ano sobre várias questões que constituem entrave para a revitalização da nossa cultura.
Cita ainda que o Gabinete Civil recebeu o Movimenta, em 25 de março, acompanhado do secretário de Cultura, Eugênio Avelino (Xangai) e do coordenador Alexandre Magno “e nada de relevante foi apresentado”. Destaca que o grupo esperou por uma nova reunião marcada para o dia dois de maio, o que não aconteceu.
O documento assinala precarização dos trabalhadores da cultura, fechamento dos equipamentos, deterioração do patrimônio público e retorno de verbas da cultura para a União no valor de quase meio milhão de reais referentes aos editais das leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc. Aponta também a descaracterização do nosso São João mediante privatização da festa, com gastos em torno de quatro milhões de reais.
“O evento deixou de acontecer no Espaço Glauber Rocha (Bairro Brasil) para ser realizado num local privado do Parque de Exposições. Dessa forma, torna-se urgente ampliar a mobilização e a luta por parte do setor cultural e da sociedade”. Todos são cumplices por esse atraso cultural, especialmente os poderes executivo e legislativo – completa o documento.
O Movimenta fala da necessidade de efetivação de políticas públicas para a cultura, mas deixou de reivindicar a criação do Conselho Municipal de Cultura, de suma importância para, através de leis, estabelecer diretrizes para a cultura que está sendo tratada como sobra de orçamento.
Bem, foi com base nesse documento que membros do Sarau A Estrada fez suas devidas colocações no intuito de contribuir para a melhoria da nossa cultura. Como os canais foram fechados, a única saída seria uma mobilização pacífica de protesto em frente da prefeitura abrangendo representantes de todas linguagens artísticas – conforme sugestões apresentadas.
O Sarau, fazedor de cultura, se integra e apoia o Movimenta em suas reivindicações e endossa a nota pública visando revitalizar o setor. A criação do Plano Municipal é uma antiga demanda da categoria.
De acordo com manifestações de membros do Sarau, os espaços fechados vêm prejudicando os artistas que ficam sem locais para realizar seus ensaios e apresentações de seus espetáculos.
“Na maioria das vezes não se tem uma política voltada para a formação e a educação da juventude no que se refere a uma visão transformadora e científica crítica. O sistema não favorece a proliferação de uma massa consciente crítica” – ressaltou um membro do Sarau.
Em minha opinião, o Sarau deve e tem a obrigação de tomar uma posição sobre tudo isso que está ocorrendo com relação ao desprezo com a nossa cultura. Afinal de contas, somos também um movimento cultural. O músico e compositor Manno Di Souza chama a atenção de que não houve respostas às reivindicações feitas.
”A situação em Vitória da Conquista é realmente preocupante e reflete uma questão mais ampla sobre o papel da cultura na sociedade. Quando o diálogo é silenciado e os espaços culturais são abandonados, a própria cidade perde sua alma. A cultura em sua essência, é a voz de um povo, o espelho de sua identidade e o motor de sua evolução”. – Ubuntu, A…
Para o músico Manno, Conquista tem um grande número de habitantes oriundos do sudeste e centro-oeste que não têm conhecimento da cultura do município, sobretudo da cultura nordestina. A professora Maria José afirma não entender como a pasta da cultura está nas mãos de uma artista renomado e o setor municipal está travado.
Em minha visão, precisamos de mais apoio das mídias em geral e mobilização de todos aqueles que fazem cultura em nossa cidade, saindo do individualismo e partindo para o coletivo. A professora Dayse, antes das eleições, fez um movimento com abaixo-assinado, mas não se sabe no que resultou. Um grupo chegou a angariar assinaturas nas feiras. Todo trabalho terminou em silêncio.
A classe artística também tem sua parcela de culpa nesse caos. “Por mais que se tente unificar os movimentos culturais, esbarra-se no individualismo, vaidades e estrelismos de alguns colegas que dirige, ou dirigiu alguns desses movimentos. A unificação pontual mudaria tudo “ – enfatiza Manno.
Dal Farias e a atriz Edna dizem estar de acordo que haja uma manifestação de todos, inclusive do legislativo. O blog Avoador publicou uma matéria onde ressalta que o coletivo de artistas denuncia o descaso da prefeitura com o setor cultural. O grupo alega que não consegue diálogo.
Muitos apontam que a nossa cultura está sendo privatizada, como aconteceu no São João. O poeta, escritor e memorialista Carlos Maia também brada sobre esse descaso, principalmente quanto ao fechamento dos equipamentos culturais.
“Temos que fazer uma convocação geral para uma manifestação de protestos” – sugerem alguns artistas, acrescentando que está comprovado que documento não funciona porque termina sendo engavetado. O artista e cantor Dorinho Chaves concorda nestes pontos.
Para Eduardo Morais, tem que haver um levante nesta cidade, de forma organizada como instrumento de alertar a comunidade e a imprensa sobre o descaso dos poderes públicos em relação às práticas culturais. A maioria concorda com essa posição. Denunciar, mobilizar e reivindicar atenção à nossa causa que é também da população conquistense” – diz a professora Viviane Gama. A atriz Edna sugere se fazer o teatro do absurdo.
TOCOU, LEMBROU
(Chico Ribeiro Neto)
Com 12 anos eu queria namorar com uma menina lá da rua, mas ela queria um estudante de Medicina que não a queria, e passava perto de mim, em Salvador, cantando:
“Quem eu quero não me quer
Quem me quer é muito pequeno”.
Era uma versão adaptada da música “Quem em quero não me quer”, de 1961, de Raul Sampaio e Ivo Santos.
Eu gostava muito de cantar no banheiro do casarão 33 da rua Gabriel Soares ( Ladeira dos Aflitos), que ficava no primeiro andar e tinha uma janela que se abria para o mar, e acho que minha voz chegava até “quem eu quero não me quer”, quase minha vizinha.
Nessa época cantei muito “Pensando em Ti”, de David Nasser e Herivelto Martins, grande sucesso na voz de Nelson Gonçalves, gravada em 1957:
“(…) Nos cigarros que eu fumo
Te vejo nas espirais
Nos livros que eu tento ler
Em cada frase tu estás (…)”
Aos 11 anos cantei muito, no banheiro que tinha janela, “Quero Beijar-te as Mãos”, de Lourival Faissal, gravada pelo baiano Anisio Silva em 1957.
Em 1960 Anisio Silva gravou “Alguém me Disse”, de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, e fez tanto sucesso que recebeu o primeiro Disco de Ouro do Brasil.
“Alguém me disse que tu andas novamente
De novo amor, nova paixão, toda contente (…)”.
Meu pai Waldemar tinha o disco “O Ébrio”, com Vicente Celestino, em 45 rotações. Aos 12 anos eu decorei todo o monólogo que antecede a música e fazia sucesso nas rodas da família. “Nasci artista,fui cantor”, assim começava o monólogo.
Teve a fase das matinês dançantes no Clube Comercial, na Avenida Sete de Setembro, e no Clube Sergipano, na Boca do Rio.
Aí eu já tinha uns 15/16 anos e colava o rosto nas garotas ao som do Trio Irakitan, com “Bejame Mucho”, “Perfídia” e “Solamente una Vez”. A gente dançava também ao som das orquestras de Ray Conniff e de Waldir Calmon.
E aí chega o Carnaval. Pulei nos bailes infantis do Clube Fantoches da Euterpe, na rua Democrata, perto do Largo 2 de Julho, do Clube Espanhol (na Vitória), e no Iate Clube, onde a turma entrava de “penetra” pelo mar, nadando nu com a roupa na cabeça.
“Quem sabe, sabe
Conhece bem
Como é gostoso
Gostar de alguém (…)”
“Ei, você aí,
Me dá um dinheiro aí
Me dá um dinheiro aí (…)”
“Vou beijar-te agora
Não me leve a mal
Hoje é Carnaval (…)”
Um dos maiores sucessos do Carnaval baiano foi “Chuva, Suor e Cerveja”, de Caetano Veloso:
“Não se perca de mim
Não se esqueça de mim
Não desapareça
A chuva tá caindo
E quando a chuva começa
Eu acabo de perder a cabeça (…)”
Toca Raul!
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
OS ATESTADOS DE ÓBITOS
Somente agora, depois de mais de 40 anos, o governo federal, através do Conselho Nacional de Justiça, vem liberando os atestados de óbitos de presos políticos pela ditadura civil-militar de 1964 com a verdadeira causa morte devido a torturas nas prisões do regime. Até, então, esses corpos eram dados como desaparecidos ou com laudos falsos da causa morte. Em minhas andanças, por coincidência, nossas lentes flagraram nas barrancas do rio São Francisco, o “Velho Chico”, ou Opará, no cais da orla de Petrolina (Pernambuco), inscrições em grafite indagando onde estão os mortos da ditadura. Os atestados verdadeiros, no entanto, não fecham as feridas abertas daquele tenebroso regime que torturou, matou e desapareceu com centenas de corpos. Pela anistia geral e irrestrita imposta à sociedade, em 1979, os torturadores no Brasil ficaram impunes, diferente de outros países da América do Sul (Argentina, Uruguai e Chile) que colocaram na cadeia os generais e oficiais que torturaram e mataram milhares de presos políticos que lutaram contra a opressão. Portanto, os novos atestados servem apenas como paliativos porque muitas famílias não tiveram o direito de enterrar seus parentes, conforme manda a tradição cristã.

























