TORMENTOS DA ALMA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
O ser, do ser Criador,
Servo do tempo infinito,
Matéria e espírito de dor,
Tormentos da alma:
Luta entre o existir do viver,
Mesmo sem sentido no crer.
Neste embate entre vida e morte,
Transitam a angústia e a felicidade,
Nas frestas do vencer do mais forte,
Mistérios da Suprema divindade:
Com linhas tortas universais,
Conflitos humanos animais.
Para os tormentos viscerais:
Religiões, amuletos das muletas,
Versões morais e imorais,
Somos almas atormentadas,
Até mesmo santos canibais,
Com suas cores multifacetadas.
CADA VEZ MAIS FICA DIFÍCIL IR AO CENTRO DE CONQUISTA DE CARRO
A ganancia arrecadatória de impostos, multas e taxas da prefeita Sheila Lemos não tem limites, chegando a passar por cima das leis, com medidas inconstitucionais. Como se não bastasse o IPTU, com a escorcha de aumentos superiores a 50%, agora volta suas baterias para a chamada Zona Azul que está mais para Vermelha.
Se já ir ao centro de Vitória da Conquista de carro já era um tormento, agora ainda pior com o reajuste nos preços de 50% nas vagas por hora, sem falar na complicada mudança de pagamento por aplicativo no carregamento de créditos. É visível a incompetência da empresa responsável pelo sistema, com poucos funcionários para atender a demanda dos funcionários. A insatisfação é geral.
Existe uma mania compulsiva nos tempos atuais dos avanços tecnológicos via internet de se mudar o simples, que está dando certo, para o complicado, para infernizar ainda mais a vida das pessoas que já têm uma rotina de correria.
Outra coisa é delegar a uma empresa o poder de aplicar multas de trânsito a quem estacionar de forma “irregular” e criar uma dívida ativa na prefeitura para casos de “infrações” das normas impostas. Como “irregular”, se o estacionamento do veículo naquele espaço é permitido?
Mais burocracia, mais aumento nos preços e mais dificuldade para estacionar um carro no centro da cidade. Essas mudanças malucas só favorecem aos donos de estacionamentos privados que já cobram um preço exorbitantes por hora e atuam sem nenhuma regulamentação do poder executivo.
Vai se chegar a um ponto onde ir de carro ao centro de Conquista se tornará inviável. Quando se vai ao centro resolver um problema ou problemas, principalmente a uma agência bancária, repartição pública ou a uma reunião, uma hora não é suficiente. Como fica quem ultrapassa esse tempo? Essa questão não ficou esclarecida.
A tal Zona Azul, ou Vermelha, de Vitória da Conquista, sempre foi um problema dos governantes a partir do crescimento vertiginoso populacional de Conquista, e nunca se encontrou uma solução que agradasse a todos. Houve tempo em que ela ficou parada sem nenhuma administração, sem contar que são poucas as vagas para deficientes e idosos.
A situação só tende a piorar por falta de uma infraestrutura adequada de mobilidade urbana. A melhor saída seria ir ao centro sem carro para se livrar dessa horrível dor de cabeça estressante, mas não existem alternativas de meio de transportes coletivos. Só existem ônibus e são insuficientes para atender a demanda.
Ao invés de projetos mais humanos, de melhoria de qualidade de vida para as pessoas, as cidades ficam cada vez mais desumanas, especialmente nos centros, com o entupimento de carros emitindo gases tóxicos poluidores no ar.
O centro administrativo e financeiro de Conquista já está por demais saturado. Aa grandes cidades, melhor urbanizadas e politicamente planejadas, desobstruíram esses espaços, deslocando órgãos públicos e privados para outros locais.
Conquista insiste em manter suas repartições, prefeituras e secretarias no centro, congestionando os espaços e tornando a vida dos usuários mais difícil. Por que não criar um centro administrativo em outro local, como, por exemplo, no antigo aeroporto?
Conquista está se tornando numa cidade caótica para se circular, com mais carros e motocicletas, todos se dirigindo para o centro, ainda o único ponto das decisões. Melhor seria estacionar o carro fora da Zona Azul e ir andando, mas ninguém quer fazer isso. Por outro lado, até na periferia do centro não existem vagas para tantos veículos.
As medidas absurdas para resolver os problemas da Zona Azul são apenas paliativas. A questão é macro e exige planejamentos estruturais para desafogar por completo o centro da cidade, de poucos calçadões e mais ruas com o trânsito caótico.
CÂMARA VOTA PLANO PLURIANUAL
Em sessão realizada ontem (dia 03/12), a Câmara Municipal de Vereadores de Vitória da Conquista votou o projeto que institui o plano Plurianual de 2026 a 2029. Foi ainda aprovada a proposta que dá nome de Joãozinho da Carreta à ciclovia da Avenida Paraná e outra que homenageia o professor Raymundo Viana, com nome de rua no Bairro de Candeias.
Na ocasião, foi informado que se encontra em redação final o projeto que presta homenagem à historiadora Isnara Pereira Ivo, que dará nome a uma área verde do Inocoop. Foi votado também o projeto que cria a Semana do Cooperativismo no calendário municipal, bem como a Semana da Saúde Mental nas escolas municipais.
ZONA AZUL
Durante a sessão, vários parlamentares aproveitaram suas falas para criticar as mudanças propostas pelo poder executivo para a Zona Azul, como o vereador Diogo Azevedo, elogiando a presidência da Câmara que está preocupada com o problema. Segundo ele, a Zona Azul é uma desmoralização e um desrespeito à população. Azevedo também comentou sobre o crescente número de acidentes de trânsito que vem ocorrendo em Conquista e criticou a buraqueira em toda cidade.
O vereador Alexandre Xandó levantou a questão do programa Minha Casa, Minha Vida, dizendo que muitas famílias em Conquista não estão podendo se inscrever porque estão com o Cade-Único irregular, e a Secretaria de Desenvolvimento Social não tem regularizado o processo através de visitas que devem ser feitas junto aos usuários. Por falta de regularização, muitas pessoas estão, inclusive, perdendo os benefícios ao Bolsa Família a que têm direito – destacou. Recomendou que os prejudicados recorram à Defensoria Pública.
A vereadora Gabriela Garrido fez menção às ocorrências de crimes de violência contra as mulheres, citando vários casos bárbaros ocorridos recentemente na Bahia e no Brasil. Disse que esse tema deve ser levado à discussão nas escolas públicas, para que as crianças e os jovens estudantes tomem consciência sobre essa questão da agressão contra a mulher.
A MALANDRAGEM E A BUROCRACIA
– Calma, meu amigo, não adianta ficar nervoso, minha função aqui é carimbar, sou apenas um carimbeiro de papéis. Só recebo ordens lá de cima.
Quem não já se sentiu nesta situação numa repartição pública que exigia e ainda exige uma série de documentos pessoais para você obter uma escritura, uma licença qualquer, um alvará, um requerimento ou uma autorização de compra e venda de um móvel ou imóvel?
Às vezes, você fazia e faz tudo certo, na base do passo a passo, com uma pasta de papéis debaixo do braço, mas, quando chegava na sala do chefe da repartição, ele dizia e diz com seu ar de superioridade, que estava e está faltando o carimbo lá debaixo.
O nome disso, que ganhou popularidade, se chama de burocracia, isto é, um monte de papelada para sacramentar um documento e até se habilitar a um concurso público, ou a um edital.
– Participa, cara, vai lá! É tudo simples, não existe burocracia! Só em falar essa expressão me dá tremedeira. Deve ser trauma incurável. Não há psicólogo que resolva.
Tenho a impressão que a burocracia encontrou um terreno mais fértil e ganhou mais notoriedade no Brasil por causa da crescente malandragem das pessoas em querer se dar bem em tudo, da maneira mais fácil, usando todos os tipos de falsificações e tramoias.
Para simplificar mais a vida das pessoas e mudar essa mentalidade de se desconfiar de tudo, foi criado, no último governo da ditadura, do general João Figueiredo, o Ministério da Desburocratização, cujo chefe da pasta era Hélio Beltrão (entrevistei várias vezes) que ficava até sem graça ao falar do assunto, mas transmitia um ar de competência. Ele tentava nos convencer que todo brasileiro era honesto, mas não colava mesmo.
Acho que os generais inventaram esse ministério para fazer alguma média política ou porque o Beltrão ficou sobrando nas listas de indicações. Já imaginou um Ministério da Desburocratização, sem burocracia?
O mais engraçado é que, naquela época da ditadura, era burocrático e difícil entrevistar o ministro da Desburocratização. Ele se apresentava com vários papéis, neles escritos seus inúmeros projetos e medidas para desburocratizar o país. Ele se expressava com aquele jeitão de D, Quixote, prometendo acabar com os moinhos de ventos.
São coisas do passado, mas essa cruel burocracia persiste até hoje como maior entrave na vida dos brasileiros, mesmo com os avanços da tecnologia da internet. Siga o passo a passo e, quando se está quase no final, tudo trava.
E os editais culturais? São cheios de leis, itens, cláusulas, artigos, parágrafos, incisos e outras exigências que deixa qualquer artista doido, à beira de arrancar os cabelos. A única saída é contratar um profissional de projetos.
– É para deixar tudo bem amarrado e protegido para que não haja fraudes por parte dos mais “espertos” mal-intencionados. São exigências dos tribunais de contas – argumentam os técnicos projetistas dos governos.
Quanto mais burocracia, mais profissionalização das malandragens, caso dos golpistas da internet que sempre conseguem descobrir uma fórmula para quebrar segredos e proteções, naquela base da esperteza do jeitinho brasileiro.
Para quem não sabe, o termo burocracia nasceu na França, no século XVIII, numa junção das palavras “bureau” – escritório, mesa – com o grego “kratos”, de poder, autoridade e governo. No conceito do sociólogo Max Weber, a palavra tinha o sentido de eficiência organizacional do Estado moderno.
Na verdade, o termo foi cunhado pelo francês Jean-Claude Maria Vincent já com a crítica popular pejorativa de lentidão e excessos de procedimentos nas repartições públicas.
No Brasil, a burocracia ganhou sobrevida no Governo de Getúlio Vargas, principalmente a partir de 1936, com uma série de reformas na busca da profissionalização dos serviços públicos, visando privilegiar a meritocracia.
Não é hilário? Na minha concepção, burocracia é um atraso e uma maneira de emperrar ações, projetos e travar o desenvolvimento do país. Confesso que tenho horror e me dá urticária esta palavra de “bureau” com “kratos”, que quer dizer burocracia.
Prefiro enfrentar um touro na arena. Burocracia é como um engarrafamento num trânsito caótico num dia de cão, ou de um calor de 50 graus, sem ar condicionado no carro. Sou mais os tempos do fio do bigode, mas a malandragem está solta, meu camarada!
A BOLA ESTÁ QUADRADA
Resolvi escrever um pouco sobre futebol brasileiro porque é a modalidade que mais aprecio, ou apreciava, e por ter sido jogador na época de jovem. Por pouco não me profissionalizei. Ainda continuo tricolor das Laranjeiras, mais comedido, cabreiro e desconfiado.
Saudades daqueles tempos quando se via lances e dribles desconcertantes nos campos, que entortavam defesas adversárias, como Garrincha, Pelé, Didi, Tostão, Reinaldo, Jairzinho, Rivelino, Ronaldo, Dirceu, Ronaldinho Gaúcho, o bruxo, Romário e tantos outros que podiam ser chamados de craques.
Dava gosto de se ir a um estádio para assistir um verdadeiro espetáculo. Eram todos juntos com camisas de cores diferentes. Nos últimos anos, só pernas de paus, porradas, rasteiras e chutes onde a bola vai parar no meio das torcidas. Os gols são de cabeça naqueles ajuntamentos brutais de agarra-agarras e empurrões nos escanteios e faltas fora da pequena área.
Por falar em bola, nos últimos dias a vejo quadrada como os negativistas da terra plana. Pode ser ilusão de ótica ou problema de vista. Para mim, não é mais redonda como antes que rolava serena nos gramados, sem ser maltratada. Ela até agradecia o trato carinhoso.
Perdi a conta do tempo sem mais aquele craque brasileiro que era ovacionado quando pegava na bola e até decidia partidas perdidas e virava o placar. A equipe confiava nele e jogava com amor à camisa que vestia. Demorava anos no clube do coração.
Hoje são todos medianos que usam mais a força física, simulam faltas e rolam nos campos, no cai-cai. Lembram do Neymar, o último moicano com seu futebol empolgante, mas preferiu as farras e agora está com as pernas podres.
No futebol de hoje, ganha mais campeonatos quem tem mais dinheiro. Forma o melhor elenco quem possui mais grana no caixa, e o técnico sempre sobressai como o melhor. Assim é fácil ser treinador. As únicas coisas que ainda continuam são as roubalheiras dos cartolas. Perdeu-se a graça, mas os torcedores vão às raias da loucura. Ficam hipnotizados! São suas válvulas de escape para descarregar suas raivas.
Muitos clubes foram vendidos para empresários e empresas do exterior. Acabou-se a brasilidade, o sentido de pertencimento. Quando um menino da base se destaca um pouco dos outros, é logo vendido para Europa e aqui ficamos com os “vira-latas”.
Nos últimos anos, todos os grandes times estão enxertados com gringos da América do Sul e até de outros países. A maioria, de jogadores de seleções estrangeiras. Os técnicos são de fora, inclusive o italiano da seleção brasileira.
Nas entrevistas de jogadores e treinadores, só se houve o espanhol e até o inglês, sem contar os portugueses de língua embolada. Lá se foi o nosso futebol alegria, mas o torcedor é bicho fanático. A maioria ainda abre a boca para dizer que seu time é sua vida.
Como bárbaros, matam uns aos outros em brigas fraticidas de garrafas e cacetes, como primitivos da Idade da Pedra. É o vazio humano, desumano, prova da alienação nacional. Estádios lotados de histéricos gritos e alaridos, mais de gente pobre, que troca um ingresso por uma dívida, ou um alimento para a família.
A mídia esportiva, principalmente a Rede Globo, que monopoliza todos os campeonatos, vende um quadro falso de um futebol original, mas decadente. Ela se gloria que nos últimos anos os campeões das Libertadores ficaram no Brasil.
O torcedor fica eufórico e cego. Essa mídia não explica que tudo isso começou quando os times passaram a comprar mais e mais jogadores caros de fora. Vale quem tem mais “dindim”, mais bufunfa para investir.
Para comprovar isso, basta observar a última final entre o Flamengo e o Palmeiras. Que jogo feio da peste! De cada lado, cheio de gringos que dá um time. Nenhum atleta notável brasileiro. Gol de cabeça de bola cruzada pelo alto. No mais, foi chute pra lá e chute pra cá, sem contar as pernadas e pancadas, sem mais respeito ao colega.
Cadê o meu futebol da bola redonda, cheio de poesia e plasticidade que atraia multidões? Cadê a nossa seleção de craques com aquele gingado brasileiro que encantava o mundo? O gato comeu, meu amigo! Os deuses do futebol nos abandonaram.
AS SECAS E AS AGITAÇÕES POLÍTICAS FAZEM PROSPERAR O CANGACEIRISMO
Por séculos o flagelo das secas exterminou milhares de nordestinos. Nas retiradas para outros centros urbanos, centenas de crianças, mulheres e homens morriam de fome nas estradas. As cenas eram de horror, como em campos de concentração. Os governantes pouco fizeram para minimizar a situação.
Além das grandes secas, os nordestinos ainda eram acossados pelas agitações políticas e o cangaceirismo que, em bandos, aproveitavam para saquear feiras, povoados e pequenas cidades, principalmente nas primeiras décadas do século passado. O povo vivia abandonado à própria sorte diante da falta de estrutura e desorganização dos governantes para conter o banditismo.
As secas alimentavam o cangaço, que se juntava às disputas entre os chefes políticos e os coronéis, gerando uma onda de violência e mortes sem precedentes no Nordeste, que por séculos viveu isolado. A justiça era a lei do mais forte numa terra onde tudo se resolvia na base da bala, sobretudo entre os séculos XVIII, XIX e até meados do século XX.
O historiador e escritor Frederico Pernambucano de Mello, em sua obra, “Guerreiros do Sol” descreve esse panorama de miséria, fome, violência e sangue. Para quem não conhece sua história de lutas, sofrimento e abandono, simplesmente vê até hoje o nordestino como um povo atrasado.
O banditismo viveu seu apogeu nos períodos de desorganização social, especialmente em razão dos fenômenos das secas, com destaques para as de 1692, 1723/27, 1774/76, 1792, 1844/45, 1877/79 (a maior de todas), 1915, 1919/20, dentre muitas outras.
As secas, ao lado das agitações políticas e o cangaço, golpeavam as incipientes estruturas, reduzindo as famílias, que prosperavam em tempos de chuvas, em estado de miséria. As lavouras eram perdidas, o gado morria à mingua e os retirantes faziam suas procissões profanas. Era o salve-se quem puder.
Descreve o autor que no coice dessas ocorrências, certamente o cangaço de ofício se manifestava com intensidade redobrada. Fazendo um balanço dos efeitos da seca de 1877/79 (na verdade começou bem antes), Irineu Joffily, em “Notas sobre a Paraíba”, lembra que era geral a falta de segurança. Muitos fazendeiros eram obrigados a levantar forças para defesa de suas propriedades.
O transporte de gêneros era difícil, Caravanas atravessavam 50 e 60 léguas de sertão, levando cada homem às costas, 40 e até 80 litros de farinha, além de armas para repelir as investidas dos famintos e os ataques dos cangaceiros.
Destaca o estudioso no assunto que, em 1692, os indígenas foragidos pelas serras reuniram-se em grupo e caíram sobre as fazendas das ribeiras devastando tudo. Em 1725 e nas outras secas desse século repetem-se as depredações e assassinatos. As disputas políticas incentivavam a proliferação da aventura cangaceira.
Paralelo à seca de 1844/45, surge no Cariri cearense o bando dos Sereno, espalhando por três estados até a Chapada do Araripe onde também aparece os Xio. No meado do século passam a atuar os Guabiraba que se fizeram bandidos nas escolas de Pajeú de Flores. Durante os séculos XVIII, XIX e XX, o Pajeú se tornou numa universidade da violência e do cangaço. Com exceção de Jesuíno Brilhante (Rio Grande do Norte), de lá saíram os mais famosos como Lampião, Sinhô Pereira, Antônio Silvino, Antônio Quelé e tantos outros.
Os membros de os Guabiraba eram irmãos naturais da vila de Afogados da Ingazeira, no sertão pernambucano. De longe, Pernambuco liderou a criação de bandos na década de 20. Segundo historiadores, praticamente todos os dias aparecia um bando novo nos sertões nordestinos, destacando os estados de Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba.
Em 1878, no auge da grande seca, salteadores infestaram todo interior, como dos Quirino, em Milagres, sob a proteção de João Calangro que, de acordo com o escritor Rodolfo Teófilo, fazia guerra de extermínio aos grupos que se formavam sem o seu consentimento. Nesta época, existiram os Mateus, formados por cem homens, os Simplício, os Meireles, os Barbosa e Viriato, todos da zona do Pajeú.
Frederico de Mello aponta que, com a seca de 1919, o cangaceirismo profissional entrou em fase de vertiginosa expansão. Quando os esforços repressores começaram nos anos seguintes, veio a Coluna Prestes, em 1926, proporcionando aos bandidos ampla recuperação devido a desorganização das forças volantes.
O ano de 1926 se converteu no maior apogeu de toda história do cangaço, tendo Lampião como principal responsável, ainda como cabra dos Maltide e dos Porcino, bem como no bando de Sinhô Pereira. Depois ele formou o seu grupo sanguinário.
Entre as agitações políticas, Frederico de Mello cita a ‘guerra santa” de Juazeiro do Norte, em 1914, a passagem da Coluna Prestes, entre 1926/27, o clima social e político do Cariri, em 1901, com inúmeras lutas armadas. As duas primeiras décadas do século XX foram as piores.
Com base em fontes de jornais e pesquisadores, o autor da obra elenca todos os anos, como em 1907, quando o coronel Gustavo Lima depõe à bala o próprio irmão Honório Lima, assumindo o comando político do município de Lavras.
Em 1909, os chefes políticos de Milagres, Missão Velha, Barbalha e outros municípios próximos reúnem mil homens para atacar o coronel Luis Alves Pequeno, do Crato. Em 1823 é assassinado, em Fortaleza, o coronel e então deputado estadual Gustavo Lima. Em 1928, o chefe político de Missão Velha, Isaias Arruda, é assassinado no trem.
Para acabar com toda essa guerra, em outubro de 1911, aconteceu um curioso encontro com vista a se firmar um pacto de paz, em Juazeiro. O Padre Cícero procurava harmonizar os conflitos dos coronéis que dominavam o Cariri.
O documento ficou conhecido como “pacto dos coronéis”, com duas clausulas principais. A primeira dizia que nenhum chefe procurará depor outro. A outra era que cada chefe, por ordem moral política, terminaria a proteção a cangaceiros, ou seja, não seriam mais coiteiros.
Nem bem secara as tintas, o Padre Cícero, mentor do pacto, derruba o Governo do Ceará, em 1914. Os coronéis fizeram o contrário. O documento foi letra natimorta. Por mais trinta anos vigorou a lei do mais forte.
O PLANO DE CULTURA QUE QUEREMOS
Será que desta vez sairá mesmo o Plano Municipal de Cultura de Vitória da Conquista, tão almejado há anos pelos artistas? Ou será um mero ensaio, como na última conferência realizada no final de 2023, no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima? Cadê o relatório dessa conferência de dois dias?
Quando fui presidente do Conselho Municipal de Cultura, de 2021/23, foi uma das minhas bandeiras, mas foi travado por diversas vezes pela Secretaria de Cultura junto ao executivo. Houve até entendimentos com o Sabre no sentido da sua elaboração, só que nem ocorreu a primeira reunião marcada entre seus membros.
Bem, tudo isso do passado não nos importa mais. Agora a Secretaria vem procedendo chamamentos para escuta dos artistas e fazedores de cultura, com vista à elaboração desse Plano. Será apenas um factoide para que os artistas esqueçam do fechamento dos equipamentos culturais do Teatro Carlos Jheovah, Cine Madrigal e Casa Glauber Rocha?
Vamos colocar mais um voto de confiança, mas a pergunta que não quer calar é como será feito esse Plano? Qual Plano que queremos? Não posso responder por todos, mas antes de tudo, que seja democrático e abrangente a todas linguagens artísticas, não deixando de lado a nossa cultura popular, aquela das periferias e da zona rural.
Queremos um Plano que seja aprovado pela Câmara de Vereadores e se torne lei orçamentária, cujos projetos nele estabelecidos se tornem parte do nosso calendário cultural e sejam cumpridos pelos prefeitos, como por exemplo, realização de uma feira literária, salão de artes plásticas, festivais de música, dança e teatro, além do Natal e do São João autêntico, do tipo pé de serra.
Não queremos um Plano de faixada que fique apenas no papel onde o prefeito, ou a prefeita, não tenha obrigação de executá-lo. Queremos um plano com um olhar mais focado na juventude, principalmente das periferias, com a criação de núcleos culturais nessas comunidades. Queremos um Plano onde seja criada a Fundação Cultura que irá administrar e fixar as diretrizes da política pública cultural.
Queremos um Plano que agilize a abertura dos equipamentos culturais, para que os artistas possam usufruir desses locais para realização de seus ensaios e espetáculos. Vamos criar o Plano e deixar esses equipamentos fechados?
Acima de qualquer coisa, queremos um Plano bem estruturado que venha revitalizar a nossa cultura e que esteja à altura da cidade, a terceira maior da Bahia com cerca de 400 mil habitantes. Portanto, temos que pensar alto porque a nossa cultura está abandonada.
Não adianta todo esse esforço para construir um Plano que depois venha ser engavetado nos gabinetes dos prefeitos, daí a importância dele vir a ser aprovado como projeto-de-lei pela Câmara Municipal de Vereadores. Sem esse aval, este Plano estará fadado a ficar apenas na escrita, como um documento qualquer.
FICA MAIS CLARO NO ESCURO
(Chico Ribeiro Neto)
Faltou luz hoje no meu prédio. Vai ser das 8 às 18 horas, para trocar a central de energia.
Aí lembrei que, ainda pequeno (6/7 anos) peguei o sistema da “luz do motor” em Ipiaú (BA), onde nasci. A luz desligava às 21 horas e só voltava na manhã do dia seguinte.
Tava na hora de acender os candeeiros, um na cozinha, um na sala e cada um num quarto. Havia também o famoso “Aladim”, que alumiava a casa toda, mas nem todo mundo tinha condição financeira de ter. O “Aladim” tinha uma tal de “camisa” que quando queimava a gente tinha que ir correndo comprar outra. O rádio continuava tocando, porque era ligado a uma bateria de carro, e a geladeira continuava funcionando, pois era movida a querosene.
As crianças adoravam quando faltava energia, principalmente quando tio Rubens contava histórias de assombração. Também era hora de fazer figuras com as mãos diante da vela que projetava as sombras na parede. O bicho mais fácil de fazer era o cachorro, mas tinha quem sabia fazer gato, coelho, caranguejo e até dinossauro.
Houve um tempo também em que, durante uma semana, só tinha luz à noite em metade da cidade, ficando a outra metade para a próxima semana, num rodízio do breu. Meu pai Waldemar tinha padaria e, na semana em que faltava luz na nossa metade, ele dava pra gente umas cédulas que passavam na padaria, daquelas “pedaço de um, pedaço do outro” (as melhorzinhas) e mandava a gente ir na sorveteria logo depois que a luz era desligada. A gente ia com uma panela, enchia de picolés, dava o dinheiro ao atendente que estava à luz de velas, e se picava.
Teve o caso de Zé, um homem casado, que morava numa outra cidade do interior da Bahia que também tinha “luz de motor”. Ele foi no brega e depois de várias “pingas” e uma bimbada, agarrou no sono.
As lâmpadas da casa piscavam três vezes, às 20:50, para avisar que dentro de 10 minutos a luz seria desligada. Mas Zé a essa altura não piscava mais nada. Quando acordou, às 23 horas, deu um grito de espanto: “Vixe, a luz já foi embora! Preciso ir pra casa”. Chegou em casa, a mulher roncava e ele, morto de sono, só fez tirar a calça e apagou na cama. Acordou cedo com os gritos da mulher: “Zé, que diabo é isso? Tu tá de calçola?” Na pressa de sair logo do brega, ainda grogue da cachaça e já agoniado, no escuro total que nem breu, Zé vestiu a calçola de algodão da prostituta. E admitiu logo que era coisa do Demo: “Vixe, mulher, só pode ser feitiço! Eu juro que deitei de cueca! Isso é arte de alguém que quer ver a gente separado. Vixe, não pega não, mulher! Faz mal! Temos que tocar fogo logo nisso!”
A mulher de Zé, que morria de medo de feitiço do Diabo, levou a calçola na ponta de uma vassoura para o quintal. Se benzeu 3 vezes e tocou fogo na calçola do Capeta, Zé rezando do lado. Jogou a vassoura novinha no lixo e rezou três Pai Nosso.
Já adulto, na Redação do jornal A Tarde, faltou energia uma noite e um colega deu uns gritinhos finos e histéricos. O saudoso poeta Béu Machado arrematou: “É no escuro que as coisas ficam mais claras”.
(Leia crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
O ANTIGO E O MODERNO
No bico da pena, o grande artista das pegadas nordestinas, no sabor da vida simples dos sertões, Silvio Jessé nos apresenta uma exposição inédita que retrata o antigo e o moderno dos 185 anos de emancipação de Vitória da Conquista. Vale a pena visitar seus trabalhos que estão no “Memorial” da Câmara Municipal de Vereadores. A partir da visão do príncipe alemão Maximiliano, que visitou o arraial da Conquista, por volta de 1917, Jessé nos presenteia com belos quadros sobre a cidade antiga e a moderna, mostrando sua evolução nos tempos. Sua sensibilidade ultrapassou fronteiras entre o regional e o internacional, com pinturas encantadoras e realistas sobre o nosso sertão nordestino. Ele tem um olhar artístico que faz a pessoa penetrar em suas paisagens, de tão reais que são.
Como o pintor espanhol Pablo Picasso que retratou os horrores da guerra civil espanhola e as atrocidades do ditador Franco, o nosso artista conquistense Silvio Jessé pincela, em outras obras, os sofrimentos dos sertanejos diante da seca e da omissão dos políticos e governantes em resolver os problemas do homem do campo. Sílvio é o Picasso do sertão, embora com outras formas, linhas e estilos modernistas.
Lembro como jornalista de uma entrevista que fiz há muitos anos sobre o trabalho de Silvio onde ele recordava da sua infância numa fazenda do município de Vitória da Conquista. Dizia que foi ali que começou a aprender a pintar, usando a terra e olhando as pessoas, seus costumes e hábitos. Tudo isso é vida e pura poesia que transborda da alma.
Como escreveu a curadora Ester Figueiredo sobre sua última exposição no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, com o tema “Sertão Colorido Quanto Preto e Branco, obras inspiradas no grande fotógrafo Evandro Teixeira (saudades do amigo que se foi), Silvio Jessé é tudo isso, expressão maior do seu tempo de moleque travesso na roça.
QUEM VIVER, VERÁ…
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
É o início do fim,
Quem viver, verá
Subirem as águas do mar.
Cidades serão inundadas,
Quem viver, verá
Capitais sairão do radar.
Os escombros da terra,
Quem viver, verá
A poluição apagar o luar.
Toda geleira vai derreter,
Quem viver, verá
Os viventes tombarem sem ar.
As florestas vão deixar de existir,
Quem viver, verá
O solo deserto salgar.
Ventos, raios e furacões,
Quem viver, verá
Ranger de dentes e chorar.
A luxúria do consumismo,
Quem viver, verá
O planeta de lixo se lixar.
Enchentes, secas e fome,
Quem viver, verá
Não se ter mais nada pra comprar.
As quatro estações do ano,
Quem viver, verá
Não haverá mais tempo pra plantar.
Os poços do óleo petróleo,
Quem viver, verá
Não terão mais energia pra jorrar.
O rico vai ficar pobre,
Quem, viver, verá
Todos vão se igualar.
Os segredos vão ser revelados,
Quem viver, verá
E o amor vai perdoar.
Seus desuses não vão mais te olhar,
Quem viver, verá
Não adianta mais orar.
Sem mais abelhas pra florar,
Quem viver, verá
Não terão mais flor a polinizar.
A noite vai virar dia,
Quem viver, verá
É o aquecimento solar.
Quem sabe as trevas!
Quem viver, verá
Sem mais tempo pra clarear.
Não mais cientistas pra alertar,
Quem viver, verá
Porque não tem mais nada pra profetizar.





















