CANÇÃO DO SABER
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Esta canção que laço,
Tem raízes fincadas na terra;
É do menino de pés descalço,
Nascente de água cristalina,
Que desce daquela serra,
Como uma graça divina.
Quando se está triste,
A alma cálida padece,
Parece que nada existe;
Dá vontade de chorar:
Oh, Senhor, meu pai Oxalá!
O vento zune lá fora,
Como canção de ninar,
Nem sei mais fazer a hora,
Desse doer se acabar,
Mas, como disse Vandré,
“É só saber querer,
Para poder chegar”.
Esta é a canção do saber,
A canção do sofrer, do amar,
De quem lutou e foi calado,
Pelo facínora do ditador,
Quando sua viola solou,
Que gente unida é pra ganhar.
Esta é a canção do saber,
Saber viver e saber morrer.
DIA DO LEITOR QUE ESTÁ ESCASSO
Não é preciso citar o grande historiador inglês Eric John Ernest Hobsbawm, Maquiavel, Schopenhauer, Freud, filósofos da antiga Grécia ou da França, para explicar a invasão dos Estados Unidos à Venezuela e a as tripolias do Trump, que encarnou Hitler ou Stalin.
Simplesmente, os absurdos da história são absurdos e estão sempre se repetindo. Não precisamos complicar a linguagem, porque atualmente só é acessível a poucos por falta de leitura. Como diz o “Chicó”, do “Auto da Compadecida”, “só sei que foi assim”. De exibições, bastam os horrores que estamos assistindo estarrecidos.
O que, na verdade, hoje me traz aqui é o Dia do Leitor, “comemorado” ontem (dia 07/01) que até já havia esquecido pela raridade de se encontrar leitores ou leitoras de livros de papel, principalmente no Brasil onde muitas livrarias tiveram que fechar suas portas justamente por falta deles e delas.
Deveria mudar para Dia do Leitor de Telas, de curtos textos nas redes sociais, com um monte de erros de português e sem conteúdo, sem falar que uma grande parte é fake news; contém mentiras; é infundada; truncada; e não se pode confiar nas informações, por falta de estudos e pesquisas.
Quando chegou a internet, no começo dos anos 2000, há 26 anos, afirmaram os mais “especialistas” no assunto que o e-book, ou seja, o livro on-line, iria substituir o de papel. Até agora nada disso aconteceu. Na minha modesta visão, avaliei comigo mesmo que se o indivíduo não tem o hábito da leitura dos grandes mestres da literatura impressa, também não iria ler o e-book.
Dia do Leitor poderia mesmo ser comemorado nos anos 50, 60 e até os 70 do século passado, particularmente no Brasil, quando os jovens daquela geração andavam com um livro debaixo do braço e discutiam em bares e encontros os grandes autores. Trocavam e emprestavam seus exemplares.
Hoje é celular na mão dentro dos ônibus, nas recepções das clínicas de espera como pacientes, nas praças, repartições e até dirigindo, cometendo infrações de trânsito. Quando vou a um consultório ou a uma agência bancária tratar de um problema, levo meu livro e ninguém nem nota. Se alguém ver, deve me achar de maluco, extraterreno ou um velo caduco.
Além da raridade de leitor, uma coisa está ligada a outra, temos também, infelizmente, a escassez de grandes autores em todos os gêneros da literatura, gente que se debruça em pesquisas por anos para contar histórias; escrever sobre ciências sociais; filosofia; cultura popular; tradições e civilizações dos povos; dentre assuntos, com bases sólidas, e não através de boatos e falatórios.
Quando falamos de leitor, temos também que tecer comentários sobre os novos escritores dos tempos “modernos”, mesmo porque uma coisa está relacionada a outra. Por incrível que pareça, e é até contraditório, observamos que está existindo mais publicações e menos leitores.
Acontece, porém, que a grande maioria dos lançamentos tem baixa qualidade e muitos se enveredam no mundo dos escritores por pura vaidade, achando que de uma hora para outra vai se tornar famoso ou famosa, como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego, Raquel de Queiroz, Clarice Lispector e muitos estrangeiros e estrangeiras.
Como ocorre na música, de letras curtas, muitas com apenas uma estrofe, os livros atuais, em sua maioria, não passam de 200 páginas, especialmente se for de poesia, conto, crônica ou até romance. Acho que isso seja resultado da preguiça de se ler. Se for de mais de 400 páginas, o leitor (nem todos) nem olha, foge como o como o cão corre da cruz.
Outra coisa é que Dia do Leitor soa a machismo. Para acompanhar as mudanças e não ser visto como politicamente incorreto, teria que ser Dia do Leitor, da Leitora, do LGBTQIAPN+ e por aí vai. Mesmo assim, o quadro de leitores não se alteraria.
Portanto, não complique, descomplique para que, pelo menos, todos possam entender os bárbaros acontecimentos de invasões, matanças, genocídios, arbitrariedades, tiranias e a lei do mais forte neste planeta selvagem. Leia mais e não fique refém do mundo virtual para não se tornar num imbecil, como dizia o filósofo italiano Umberto Eco. Olha eu cometendo o mesmo erro de citações! Vamos ser mais claros, objetivos, diretos e grossos, no bom sentido!
COMENDO PELAS BEIRADAS
As reuniões da OEA (Organização dos Estados Americanos), da ONU (Organização das Nações Unidas), da União Europeia (27 países) e das 32 nações da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) são evasivas e simbólicas, com declarações repetitivas de repúdio à invasão da Venezuela pelos Estados Unidos, seguida de sequestro do presidente Maduro.
Tanto a Europa como estes outros organismos foram se enfraquecendo depois da Guerra Fria, e esses encontros não passam de blábláblás onde suas vozes não mais ecoam e até se tornaram enfadonhas. Enquanto isso, os Estados Unidos vão comendo pelas beiradas, e o Donald Trump vai preparando outras intervenções. O Brasil pode estar nesta lista. Dizem que eles almoçaram o Maduro e podem querer jantar uma moqueca de lula.
A bola da vez agora é a ilha da Groelândia, um território autônomo, mas anexado à Dinamarca, que faz parte da OTAN, como os Estados Unidos, e tem como principal princípio em seu tratado a reação da organização no caso de um dos seus membros ser atacado. Desde quando foi criada, depois da II Guerra, não houve nenhum caso onde um participante invadiu o outro.
O neonazista do Trump pretende abrir uma exceção, com o argumento de que a ilha é um caso de segurança nacional para os yanques norte-americanos. Agora, orientado pela sua trempe de malvados assessores do mal, ele já está falando em comprar, como se fosse um sítio ou um terreno qualquer.
Esse esquema nos faz lembrar dos grileiros coronelistas (ainda existentes no Brasil) que chegavam para o pequeno proprietário e lhe dava duas opções: Uma de venda e a outra de invasão na base da força. Na Conquista do Oeste, dentro do próprio Estados Unidos, também ocorria esse método colonialista: Ou vende ou morre.
Por falar em comer pelas beiradas, a Colômbia também pode ser a próxima e aí os organismos voltam a se reunir para emitir os mesmos pronunciamentos que deixaram de ter credibilidade mundial. Na América Latina, o único país a adotar uma posição contrária foi a Argentina, isto é, seu presidente Javier Milei foi comprado por um punhado de dólares.
O mais estranho é que o seu povo (os nossos hermanos), sempre aguerrido em termos de ir às ruas protestar, não se manifestou contra o Milei e sua decisão traidora. Será que a população, mais instruída e culta que a brasileira, está concordando com esse absurdo internacional de usurpação territorial?
No entanto, nos tempos atuais de tanta polarização ideológica entre direita e esquerda, o mundo ficou mais confuso e não conseguimos entender e explicar posições retrógradas vindas de pessoas de nível intelectual, sem falar no individualismo.
Quanto ao caso da Venezuela, o Governo Trump, para disfarçar e confundir a opinião pública de que não houve uma invasão, deixou que o regime continuasse o mesmo com a posse da vice-presidente, mas advertiu que ela não sai da linha, ou seja, tem que manter alinhamento a favor dos bárbaros invasores.
A ativista e traidora María Corina Machado, que defendeu a intervenção dos EUA e dedicou o seu Prêmio Nobel da Paz ao povo sofrido do seu país e ao presidente Trump, foi colocada de escanteio. Na história, os traidores sempre foram renegados pelos dois lados.
Outro fato que passou despercebido no Brasil foi que a invasão do país vizinho roubou a cena dos processos do Superior Tribunal Federal contra os golpistas que estão vibrando em suas cadeias. Não tivemos também a repercussão dos malfeitores do Congresso Nacional, que estão de férias curtindo suas mordomias. Bem que eles gostariam de terem sido convocados para uma sessão extraordinária!
EU ACUSO…
Depois da II Guerra Mundial, a partir de 1946, os Estados Unidos, uma nação prepotente e arrogante, cujos presidentes se acham enviados de Deus donos do mundo, já realizaram mais de 80 intervenções na base da força militar em países diferentes (só os mais fracos), com pretextos diferentes para se apropriar de suas riquezas e impor adesão aos seus sistemas e regimes.
Desde sua independência, em 1776, criaram 13 colônias. Somente no Vietnã, em 30 de abril de 1975, eles foram expulsos e o norte e o sul foram unificados. Sua população guerreira e brava saiu das ruínas e ergueu o país. Em 1954 dividiram a Coréia em duas e, em outras nações, causaram desagregação, fome e a miséria.
Em todos países invadidos, pelo que se saiba, nenhum deu certo e seu povo passou a viver em piores condições, como Iraque, Afeganistão, Líbia, Filipinas e em vários países da América Latina que eles consideram como se fosse seu quintal. Desde os anos 60, os yanques oprimem Cuba com boicotes econômico e social.
A lista de atrocidades e crimes internacionais é vasta e é por isso que acuso os Estados Unidos e seu povo de assassinatos, terrorismo, massacres indiscriminados, piratarias em mares e na terra, atentados contra os mais africanos, de agirem como bandidos, salteadores, predadores, sanguinários e responsáveis por depredar o meio ambiente provocando o aquecimento global.
Eu acuso os Estados, que hoje vive uma ditadura nazifascista do Donald Trump, ao banco dos réus, incluindo todas instituições (Congresso, Justiça, entidades empresariais, dentre outras) que o apoiam. É uma nação perversa, cruel, psicopata, de alta periculosidade que deveria ser isolada e confinada a um campo de concentração ou a uma prisão perpétua.
Em acuso os Estados Unidos como uma cultura nefasta, contagiosa, de gente avarenta, imperialista que se acha superior aos outros. Acuso como a terra do mal onde só causa dores e sofrimentos. Acuso os Estados Unidos pelo seu sadismo, sua ganância, por ter exterminado os povos originários, por canibalismo e se alimentar do sangue dos outros. Acuso os Estados Unidos por não serem humanos, pela sua selvageria que devem ser eliminados da terra.
Como latino, acuso os Estados Unidos por terem disseminado ditaduras, torturas e milhares de mortes nos anos 60 e 70 nas Américas Central e do Sul, roubando nossos ideais, nossos sonhos e por nos deixar ainda mais atrasados. Eu me considero uma de suas vítimas e jamais porei meus pés naquela terra amaldiçoada.
Acuso por ter se juntado ao genocida carniceiro do primeiro-ministro de Israel, para massacrar, com requintes de barbaridades, os palestinos através das bombas e da fome, destruindo toda faixa de Gaza. Acuso por serem bárbaros em pleno século XXI.
Eu acuso esses facínoras pela mais recente invasão à Venezuela e sequestro do seu presidente Maduro, por mais que não concorde com suas arbitrariedades e seus métodos de subjugação, sob pretexto de narcotraficante, com justificativas semelhantes e evasivas como agiram no Panamá há 35 anos.
Mesmo o mais idiota terráqueo sabe lá no fundo que não é correto um país invadir o outro e sequestrar o presidente, mas ele é movido pela cegueira e questão pessoal. Quem apoia uma intervenção militar estrangeira em seu país é um traidor. A lei é clara e não pairam dúvidas. Não existem motivos que justifiquem tal ação criminosa.
Por que os norte-americanos não invadem a Rússia e prendem o Putin que invadiu a Ucrânia há quatro anos e é bem pior que o Maduro? É um tirano opressor de seus opositores (mata por envenenamento) e foi julgado pelo Tribunal Internacional de Águia por cometer crimes contra a humanidade. Se eles forem lá recebem bombas nucleares.
Atacaram a Nicarágua, El Salvador, São Domingos e agora ameaça a Colômbia e o Brasil, numa América do Sul polarizada onde canalhas aprovam a ação do Trump. Primeiro foram os espanhóis e portugueses, mas a colonização bárbara não acabou. As veias da América Latina continuam abertas a jorrar sangue humano.
Com acusações vazias e mentirosos de possuir armas químicas de destruição em massa, o Bush agiu da mesma forma no Iraque até matar o seu presidente. Eles fizeram o mesmo na Líbia com o Kaddaf, cujo país vive hoje dividido em guerra civil. Os Estados Unidos são os verdadeiros terroristas do mundo. Os grupos que revidam são de resistência contra séculos de opressão.
Antes foi a guerra fria quando Estados Unidos e Rússia ficaram com a maior fatia do bolo que lhes cabiam depois da II Guerra. Além dos bens materiais saqueados, o primeiro ficou com a América Latina e parte da Europa. O outro com o Leste Europeu.
Depois da queda do Muro de Berlim, entre 1989/90, os Estados Unidos ficaram ainda mais fortalecidos, com maior poder de fogo, mas tínhamos líderes mais fortes e temidos. Mudou a geopolítica e agora temos o quarteto dos Estados Unidos (Trump), Rússia (Putin), China (Xi Jinping) e Israel (Benjamin Netanyahu, o “Bibi”) que faz os conluios e acordos onde cada um fica com sua parte. A Rússia fica com a Ucrânia e a China com Taiwan (Ilha Formosa).
Temos hoje uma Europa enfraquecida, bem como os organismos internacionais que só sabem lamentar e condenar através de palavras diplomáticas. Se a FIFA fosse séria e firme, seria hora de cortar os Estados Unidos de ser uma das sedes da Copa Mundial de Futebol, mas um dia virá a sua queda, como ocorrem com o império romano e o britânico.
COMEÇOU O “NOVO ANO” E AGORA?
E aí, cara, começou a cumprir as metas que você traçou na comemoração da passagem do velho para o novo? “E agora José”?
– Deixa de ser chato! Lá vem você de novo. Nem fiz planos. Ainda estou aqui de ressaca e curtindo o feriadão. Aliás, esse negócio de “novo” é só para fazer festa e encher os bolsos de dinheiro do capitalismo. Serve para deixar a classe pobre-média mais arrombada, com dívidas se acumulando.
– Foi só para te sacanear, também concordo e digo mais: Que nada muda. Estou aqui me arrastando para escrever alguma coisa. Essa coisa de novo é só para enganar os bestas. A gente nem percebe que está ficando mais velho toda vez que esse velho faz a entrega do bastão.
Fora as superstições de vestir branco, vermelho, amarelo, verde, azul ou preto e comer lentilhas para ter abundância, observei que 2026 vai ser nota 10. É só somar dois mais dois e mais seis. Já é um bom sinal para ficar mais animado. Quem sabe não vem uma graça boa por aí!
É só cada um procurar fazer a sua parte e deixar o individualismo de lado. Por natureza, o ser humano é hipócrita quando em público prega uma coisa e depois faz outra.
Vejo gente que mora ao seu lado, defendendo e pregando proteção ao meio ambiente, mas joga lixo em terrenos vazios, em frente da sua porta. Dentro do carro, o motorista concede entrevista falando em prudência no trânsito, mas quando arranca, lá na frente, faz ultrapassagens indevidas.
O que mais existe é falta de respeito aos outros, como entrar de carro numa vaga de deficiente físico ou de idoso; furar fila; criticar os políticos ladrões e fazer o mesmo. A corrupção e a prática de subornos não estão somente no Planalto, no Congresso Nacional.
Sabemos que vivemos em tempos turbulentos, com guerras, polarizações ideológicas políticas e religiosas de ódio e intolerância; aquecimento global com tragédias climáticas; e uma grande parte da humanidade em decadência, com ideias retrógradas, mas a vida continua e temos que seguir nosso caminho. É preciso saber viver e saber morrer, sem julgar os outros.
Como disse Fernando Pessoa, “segue o teu destino, rega as tuas plantas, ama as tuas rosas, o resto é a sombra de árvores alheias. Pois é assim que deve ser. Cuide da sua vida, lide com as suas dificuldades, apare seus defeitos, aprimore sua qualidade e cure suas mágoas, ao invés de ciscar pela vida alheia, se incomodando com o que o outro faz ou deixa de fazer. Limpe seus olhos antes de falar sobre o cisco nos olhos do outro” (publicado por @paulocirilooficial – Fabíola Simões)
Pois é, meu amigo, todo dia é um dia novo e é você quem faz o seu sucesso, o fato acontecer. Vejo pelas ruas multidões passando, todos avexados, numa corrida desenfreada, no mesmo ritmo do ano velho que passou e logo vem o novo a bater em sua porta, com aquelas cobranças. Às vezes, você é pego de surpresa e nem o alcança. Portanto, siga o que nos disse o poeta Fernando Pessoa.
ÁRVORE FRONDOSA
Em 2026 continue sendo como uma árvore frondosa que, além de oferecer sombra contra o sol escaldante, produz frutos para alimentar as pessoas. Muitas vezes, nem todos são sadios por causa das pragas. É só saber separar os bons dos ruins, mas o que importa mesmo é dar frutos do bem. Sejamos, então como uma árvore frondosa, principalmente neste mundo tão conturbado e difícil de se viver. Vamos cuidar da nossa árvore. Nela, as aves fazem seus ninhos e se abrigam, inclusive de possíveis predadores. Que neste 2026 sejamos árvores frondosas, para acolher a todos estradeiros e rancheiros da vida.
A FOLINHA DE ARRANCAR O DIA
(Chico Ribeiro Neto)
Começo a pensar no calendário da infância, quando mamãe Cleonice, logo de manhã cedo, arrancava todo dia o dia anterior, na folhinha do Sagrado Coração de Jesus, vendida pela Editora Vozes. A folhinha, que existe desde 1940, traz o calendário anual que é encaixado na parte inferior da estampa.
Mais tarde, passei a gostar de ler aquelas pequenas folhas soltas onde, não sei como, cabia tanta coisa escrita na frente e atrás: um trecho do Evangelho, o santo do dia, fases da lua, frases célebres e como tirar mancha de caju da roupa.
Aquilo, sim, é que era calendário, pois o dia era arrancado um a um. Faz bem arrancar o dia de ontem e jogar fora. Hoje, a gente recebe calendários onde cabem até 3 meses numa só página, quando não é o ano todo, Nos últimos tempos, compro todo ano a folhinha do Coração de Jesus.
“Seu Chico, o senhor tem folhinha?”
Qual não era a satisfação de meu avô ao pegar na gaveta aquela folhinha da sua loja em Ipiaú, a Casa São Roque, e o freguês exclamar ohs! diante dos cachorrinhos, crianças e cascatas. As folhinhas são bonitas certamente para tornar os dias mais amenos.
A folhinha caiu de moda. Saiu até da sala pra cozinha. Eu me lembro que se brigava por folhinha: “Seu Manoel, olha lá, hein? Pode guardar a minha que venho buscar segunda-feira. Não posso ficar esse ano sem folhinha”.
Casa com cinco quartos tinha uma folhinha em cada um. A mais bonita ficava pra sala e as que sobravam iam pro corredor ou cozinha.
Já um pouco mais crescido, passei a notar que nas folhinhas do quarto da minha tia beata só tinha santo, enquanto as da barbearia só tinha mulher boa. Barbearia, casa de peças e borracharia são lugares danados pra ter calendário de mulher nua e fazendo propaganda de amortecedor ou de pneu. Já vi uma barbearia onde setembro era mulher boa e outubro era um girassol. Outubro chegou, já era dia 15, mas a folhinha continuava em setembro, pra não virar a página.
Os calendários – ou folhinhas, nome gostoso e cheio de lembranças – também servem para marcar os dias perigosos das mulheres, os dias férteis, a famosa tabela. Aquele pequeno círculo em volta dos dias já diz tudo.
Folhinha velha não podia continuar na parede nem um dia a mais. Folhinha nova dava azar se colocada antes de primeiro de janeiro.
Dia após dia, todos iguais. A folhinha traz um pouco de poesia para o cotidiano. Nesse ano-novo, que você receba uma folhinha de cachorrinhos, crianças e cascatas.
(Crônica publicada no jornal A Tarde em 19/12/90)
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
TUDO TEM SUA VEZ
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Deixe a inspiração fluir,
Para nascer a poesia,
Espere a maré baixar,
Para fazer a travessia.
Tem a vez do nascer e crescer,
Do aprender e do saber,
Trabalhar e do curtir,
Do ganhar e do perder,
O tempo da velhice:
Foi o sábio que assim disse.
Tudo tem sua vez,
Do início e do fim,
Do não e do sim;
Tem a tristeza e a alegria,
A vida tem prazo de garantia.
Não fique aí com cara de tacho,
Esperando o acontecer,
Na base do eu acho,
Que tudo vai melhorar,
Sem a labuta enfrentar.
Tudo tem sua vez,
O primeiro beijo,
A primeira transa sexual,
E é você quem faz
Ser divina sensacional;
Tem a vez do amar,
E também a do odiar.
Tudo tem sua vez,
A do sofrer e a do prazer,
Depois do pôr-do-sol,
Vem o alvorecer.
Tem o choro e o sorriso,
Cada um com sua vez,
Como no sinal do aviso.
A flor perfuma o ar,
Tem sua hora de murchar,
O produto do consumir,
Se torna lixo do poluir.
Só os deuses são imortais,
Tudo tem sua vez,
A esperança da mudança,
O plantar e o colher;
As sementes que caem no chão
São espíritos dos ancestrais,
No sentimento e na razão.
É o ciclo da vida,
Se há entrada, existe saída,
Na corrida do ter e do ser,
Tudo tem sua vez,
Do primeiro cavalo selado,
Não pegue a estação errada,
Para não entrar numa furada.
Tudo tem sua vez,
O mar revolto e a calmaria,
O acidente na rodovia,
Um dia é da caça,
O outro é do caçador,
Não existe vencer sem dor.
PREVALECE A LEI DO MAIS FORTE
Na lei natural dos animais selvagens, sempre prevalece a do mais forte. Tem o predador dos predadores. O fraco leva a pior. No mundo dos humanos não é diferente. Estou me referindo ao maluco do Donald Trump que, sob o pretexto do tráfico de drogas, está invadindo a Venezuela (não estou defendendo o Maduro que já deveria ter caído de podre). O mesmo foi feito por Bush que mandou invadir o Iraque dizendo que possuía armas nucleares.
Quando falo sobre a lei do mais forte, isso me faz lembrar do soviético Nikita Khrushchov que, em 1962, resolveu instalar mísseis na ilha de Cuba. John Kennedy deu ultimato e ameaçou que se ele insistisse, os Estados Unidos e a Europa iam invadir a Alemanha Oriental e o Leste Europeu. Nikita levou suas armas para casa.
Na guerra de invasão do território da Ucrânia, que já dura quatro anos, o russo Vladimir Putin, que incorporou o espírito tirano de Stalin, coloca como condição para fazer a paz, o território de Donesk. É uma verdadeira usurpação internacional e o presidente Volodymyr Zelensky, o mais fraco, fica pressionado entre as duas potências.
No jogo geopolítico, o safado xenófobo e neonazista do Trump comanda um acordo onde faz afago ao Putin num esquema entre os mais fortes. Trump apoia o Putin de olho numa possível invasão à ilha da Groelândia onde a Rússia não deve se envolver. O mesmo está acontecendo com a China que quer a ilha de Taiwan.
A Venezuela, que fez acordos comerciais e tecnológicos com a China e a Rússia, acredita que seus líderes vão ao seu socorro. Sempre prevaleceu, desde os primórdios das civilizações, a lei dos mais fortes, a força do imperialismo colonizador que massacrou e ainda massacra tribos e nações mais fracas.
A história está aí que não nos faz mentir e ela se repete, como nos tempos atuais entre os três maiores poderosos do mundo. A conversa entre eles deve ser nesse tom: Cada um fica com sua parte que lhe interessa e o resto a gente resolve comemorando. Trump deu um banquete para o príncipe saudita esquartejador de jornalista.
O Trump, por exemplo, está tentando impor a doutrina James Monroe, de 1823, quando proclamou “A América para os americanos” nos tempos do “Brasil dos Estados Unidos”. Com o pretexto de que potências europeias não deveriam mais colonizar ou intervir nas Américas, estabeleceu o hemisfério como área de influência dos EUA.
Essa doutrina foi usada para justificar intervenções norte-americanas em países da América Latina, como se fosse seu quintal. A Europa não podia invadir, mas eles sim, como ocorreu nos anos 50, 60 e 70 com os regimes ditatoriais apoiados pelas forças yanques.
Em contrapartida, de acordo com essa lei, os prepotentes e arrogantes dos norte-americanos que se consideram superiores enviados de Deus, não interfeririam nas guerras europeias ou nos assuntos internos de seus países, contanto que o resto das américas ficasse subjugado a eles.
A doutrina consolidou os EUA como o líder no continente americano, fazendo o que bem entendessem e assim invadiram vários países, como Panamá, El Salvador e outras nações da América Central. No início do século XX, o presidente Theodore Roosevelt expandiu a doutrina, dando aos yanques imperialistas o direito de intervir em países latino-americanos.
A frase “América para os americanos” serviu para justificar o imperialismo dos EUA na região e, como a história se repete, porque o panorama geopolítico pouco mudou, Trump está ressuscitando a estratégia da maligna doutrina, em resposta a influencias externas, como da Rússia e China.
Nós latino-americanos, infelizmente, continuamos sendo um quintal deles. Não consigo entender como o brasileiro de um modo geral idolatra os yanques, copia sua cultura de super-heróis, imita as festas e campanhas publicitárias comerciais, estrangeriza nossa língua, faz o papel de vira-lata e ainda se humilha para conseguir um passaporte de entrada naquele país de costumes e hábitos repugnantes.
Eles, que são analfabetos em geografia e conhecimentos gerais, nos tratam como índios e povos inferiores. Acham que aqui é terra de ninguém e até mijam em público quando chegam nos aeroportos. Eles só precisam de um simples visto para entrar no Brasil, enquanto os brasileiros são deportados algemados com correntes nos pés.
Em nome da democracia e da liberdade de expressão, os norte-americanos (no passado tomaram boa parte do México) invadem países, jogam bombas em territórios dos outros, massacram os mais fracos e apoiam terríveis ditaduras (Arábia Saudita) e facínoras genocidas que estão ao lado deles, como é o caso do primeiro ministro de Israel com relação às matanças de palestinos.
Os norte-americanos se acham deuses e o resto é eixo do mal, terroristas que precisam ser eliminados, quando, na verdade, são grupos de resistência. A mídia ocidental burguesa e também imperialista tem grande culpa nisso. Eles podem fazer terrorismo de Estado e assim não são classificados como tal.
QUANTO MENOS PENSAR, MELHOR!
Está difícil conviver hoje com as pessoas. Vivemos épocas cavernosas. A impressão que temos é que a humanidade aos poucos está voltando aos tempos das cavernas. Pode até ser pessimismo da minha parte. Muitos dizem que as coisas vão melhorar, mas não consigo acreditar nisso.
A velha geração das letras de conteúdo, de início, meio e fim, está se acabando, partindo para o além, e a nova faz questão do quanto menos pensar, melhor. Muitos colocam a culpa ao mundo da internet, das redes sociais de frase curtas e português errado, das abreviações das palavras e do besteirol, mas será que não está lá atrás quando começaram a definhar a educação? O conhecimento e o saber estão raquíticos!
Neste final de semana estava ouvindo uns vinis de Geraldo Vandré (Disparada, Pra que não dizer que falei das flores), Paulo Diniz (“E Agora, José” – Drummond), Zé Ramalho, com Avôha!, Caetano (Alegria, Alegria), Gilberto Gil (Domingo no Parque), Edu Lobo (Ponteio), Milton Nascimento (Travessia) e outros clássicos eternos dos saudosos festivais, de longas letras (muitas são aulas de história) que nos fazem refletir e têm sentido.
Naqueles tempos, muitos de hoje dirão se tratar de saudosismo, coisa de velho, as letras eram tão importantes, ou até mais, que as melodias musicais. Hoje, as músicas, se é que se pode chamar isso de músicas, são ritmos barulhentos, de letras de uma só estrofe, repetida várias vezes, com mulheres e homens rebolando no palco, e o artista é ovacionado por uma massa histérica que imita as coreografias e faz o papel de papagaio.
Existem letras de uma só frase e algumas com apenas duas palavras fazendo o maior sucesso em shows de multidões, e ainda chamam isso de festivais. A grande maioria não quer mais saber de letras longas, e até os artistas de conteúdo entraram nessa onda e rejeitam porque sabem que o público em geral não escuta mais o que se fala.
Tem gente hoje que sai do nada e de repente, de uma hora para outra, está nas paradas de sucesso, como um tal João Gomes e tantos outros. As duplas “sertanejas” são verdadeiras pragas daninhas, com letras curtas de sofrência e amor barato. Arrastam galeras jovens sem nenhum senso crítico.
As redes de televisão abraçam porque dá audiência e mais patrocínios, e na internet são milhões de visualizações. É um esquema bruto de jabás que se paga alto pelas divulgações. Com o baixo nível cultural, onde a juventude cai dentro e se afoga nas merdas, está bem mais fácil fazer sucesso e ganhar dinheiro.
Antigamente, aquela velha geração que me referi lá em cima, dava um duro danado, ralava e comia o pão que o diabo amassou, para ser reconhecido pelo público como grande artista. Passava um bom tempo de viola nos ombros virando a noite, de barzinho em barzinho, recebendo um cachê minguado.
Os nordestinos, hoje famosos, lá atrás, sem estrutura de mercado em suas capitais, iam para o Rio de Janeiro disputar na tora e na raça uma gravação nas grandes gravadoras, a maioria norte-americanas. Era tanta procura que tinha gente que pagava para gravar uma música. Lutavam bravamente por um espaço para divulgar suas obras.
A música, por ser mais atrativa, é apenas um exemplo de arte que sofreu essa decadência, mas as outras também padecem do mesmo “mal de siècle” do cada vez se pensar menos. Na literatura, são poucos os que se dedicam à leitura. A desculpa é que não têm tempo. Claro, o celular se tornou no deus mais idolatrado. A humanidade ficou mais imbecil.
Na maioria, os novos autores procuram fazer textos curtos, e os livros não passam de 150 páginas, no máximo, porque quase ninguém se debruça numa obra de 200 ou mais folhas. Até os livros didáticos são chochos. De poucas narrativas e muitos cortes.
Nas outras artes, a questão é semelhante, com poucos teatros, poucas danças, raras casas de espetáculos (em Vitória da Conquista estão fechadas) e não existem mais aquelas galerias e salões de artes plásticas, com algumas exceções em determinadas capitais. Os jovens preferem os shows de cantores, músicos e compositores que só parem lixo.
Diante de todo esse quadro de decadência cultural, de uma arte sem conteúdo que não é mais a mesma, como ter esperança de que as coisas vão melhorar? Muitos procuram pensar positivo, só porque ser negativo é pior e passa uma imagem de derrotismo.
É aquele negócio do faz de conta que tudo vai mudar para melhor. ”Que nada, cara, vamos pensar positivo”! Confesso que não consigo enganar a mim mesmo. Prefiro me comportar como um anormal, um estúpido ou bruto, fora desse eixo social maquiado, mesmo recebendo fortes críticas.
Estou nessa idade e não mais me incomodo com elas. Dentro das minhas condições, faço o possível para virar o jogo, mas já entramos no segundo tempo tomando de goleada. Necessitamos de muitos craques lá na frente para fazer gols, só que essa safra também está escassa. O técnico já fez de tudo e está rouco de tanto gritar! Só temos pernas de paus!













