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SEM EXAGEROS NAS INFORMAÇÕES!

O que leva uma pessoa a produzir um vídeo dizendo que Vitória da Conquista é a cidade mais fria do Nordeste e a denominá-la de “Suíça Baiana”? Como se fala no ditado popular, “vamos devagar que o santo é de barro”! Sem exageros, meu camarada, senão o que seria um gesto de enaltecimento e divulgação, termina caindo no ridículo e no deboche. Isso é um desserviço, sem contar que é uma mentira que tem sua origem num bairrismo barato. A cidade mais fria e mais alta do Nordeste, com 1.268 metros de altitude, é Piatã, localizada na Bahia, chegando até 1 grau no inverno rigoroso. Temos ainda na Bahia, a cidade de Morro do Chapéu, mais alta e mais fria que Conquista. Existem outras. Toda propaganda, principalmente a pública, leva pitadas de informações exageradas e fantasiosas, características próprias do propagandista ou do publicitário que a constrói e elabora, com vistas a atrair quem ler, assiste ou ouve. No entanto, não se deve enganar quando se trata de dados históricos e estatísticos que passaram pelo crivo da pesquisa. Pode-se até florear um texto usando uma linguagem poética, com metáforas, parábolas ou outras figuras artísticas literárias, mas não mentir e passar uma informação errada. Muitos incorrem nesse erro por falta de conhecimento ou faz de propósito, achando que sua afirmação incorreta não será desmascarada e terminará virando verdade. Quando alguém faz esse tipo de crítica construtiva, sempre é mal interpretado como persona não grata que menospreza a cidade, e ainda é alvo de ofensas e pedradas. Digo isso porque já fui vítima e ainda sou quando coloco o dedo nas feridas. Vou sempre afirmar que é uma imbecilidade chamar Conquista de “Suíça Baiana. Meu recado é que estudem mais sobre a história do seu município, coisa rara de se encontrar quem faça isso, porque, a cada dia que passa, a nossa cultura só se esvazia, especialmente pelo poder público. Qual orgulho em dizer que temos o maior Cristo crucificado do mundo, se aquela área, mesmo com as novas obras de um mirante, está abandonada (quiosques fechados) e é pouco visitada por falta de segurança e outros serviços de infraestrutura? Pela lógica, se é o maior, deveria ter uma tremenda estrutura de urbanização e ser ponto turístico de atração como cartão postal da cidade. Acho tudo isso uma vergonha! Não é assim que Conquista se transformará numa cidade turística.

 

 

O CANGACEIRO

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Meu punhal é a lei,

O bacamarte, a autoridade

No fuzil sou o rei,

Minha caatinga, a liberdade.

 

Vivo em louca correria,

Nas alpercatas, sou ligeiro,

Com minha companheira Maria,

Deste agreste sou cangaceiro.

 

No corpo fechado, as crendices,

Sigo sinais e as superstições,

Mato minha sede nas raízes,

Como guerreiro destes sertões.

 

Fui cruel e sanguinário,

Combati volantes valentes,

Versos do poeta imaginário,

Fruto social destas gentes.

 

No peito levo a cartucheira,

Chapéu símbolo de Salomão,

Na macambira e na quixabeira,

Sou Silvino e Lampião.

E ASSIM VAMOS LEVANDO A VIDA…

De acordo com pesquisas científicas, a humanidade está ficando mais burra, isto é, com menos QI nos neurônios, tanto que acabam de criar a inteligência artificial, ou superficial. Perceberam que a tecnologia está nos deixando mais imbecis e inúteis!

Dessa “inteligência” não entendo bulhufas em termos de manuseio tecnológico, mas avalio que veio para atanazar a vida dos outros, inventar mentiras, caluniar, difamar e nos impressionar com seus ilusionismos onde um gato ataca um leão e crianças têm suas imagens de nudez na internet pelos pedófilos. Claro que existem bons proveitos, mas a balança pende mais para que lado?

Estamos vivendo no mundo encantado do surreal e poucos sabem discernir o certo do errado porque se afastaram do conhecimento e do saber cognitivo. As religiões primeiras que mataram e praticaram sacrifícios humanos em nome de um deus carrasco (fizeram até guerras “santas”), se proliferaram, deixando as pessoas mais doentes, reprimidas e recalcadas, com medo de serem punidas e castigadas no fogo do inferno.

No Brasil, o carnaval de quase duas semanas, “o maior espetáculo da terra”, está agora entrando em sua terrível ressaca para os foliões pipoqueiros que torraram suas economias como súditos dos reis e rainhas. Você quase não vê o outro lado porque a mídia, em conluio com o capital, joga toda sujeira debaixo do tapete.

Sem falar na violência policial, brigas, furtos e roubos, logo mais começam a aparecer os estragos financeiros e as doenças de todo tipo de vírus, mas tudo faz parte da festa. Como se diz, não dá para se fazer uma omelete sem quebrar os ovos.

E assim vamos levando a vida e ela nos levando, como canta o pagodeiro, se bem que não concordo muito com isso porque expressa um sentido de falta de domínio sobre as coisas. Se somos donos dela (a vida), não podemos deixar que ela nos leve para qualquer lugar, ou que devemos aceitar e engolir tudo, sem contestar entre o que é bom e ruim, o normal do anormal.

Depois de quase tudo parado e fechado, aos poucos vamos retomando a vida de correria da labuta pela sobrevivência da vida. O rico faz o cálculo dos seus lucros dos festejos e comemora com estilo. Seu plano é como ganhar mais no próximo evento.

O pobre corre atrás para pagar as contas como freguês do sistema selvagem capitalista. Um enredo de escola de samba nos engana ao dizer que o pobre não se curva ao poder, e assim vamos levando a vida. Oh, quanta ilusão!

Nos dias de hoje aceitamos e repetimos afirmações que não condizem com a realidade. Nem paramos um pouco para pensar e refletir que o “buraco é mais embaixo”. Preferimos seguir em frente porque é mais cômodo. Para que esquentar a cabeça?

O Congresso Nacional bandido, as assembleias estaduais e as câmaras de vereadores, que por ano custam mais de 130 bilhões de reais aos nossos cofres públicos, com suas mordomias, penduricalhos e assessores aos montes, abrem suas sessões de costas para o povo. Os gastos superam a receita. A contas nunca fecham, e assim vamos levando a vida aos “troncos e barrancos”.

As religiões, criadas pelos próprios homens, com suas fórmulas imutáveis, nos ensinam que devemos ser resignados, cordatos e cumprir os mandamentos, para alcançarmos a salvação eterna.

Uns riem e outros choram, cada qual com seus problemas, suas angústias e alegrias na busca pela felicidade, que é passageira, e assim vamos levando a vida, de estação em estação, nos embarques e desembarques.

 

 

O PAVOR DE SE FALAR O QUE PENSA

Nos tempos atuais, mais do que nunca, de um modo geral as pessoas estão receosas de falar o que pensam. Temem ser excluídas, canceladas e execradas pela sociedade. Ultimamente tenho visto e acompanhado muitos comentários presenciais e virtuais sobre esta questão.

Com a expansão da Inteligência Artificial, isto tem ficado mais pavoroso. A impressão é que estamos sendo vigiados vinte e quatro horas por dia, como se estivéssemos numa ditadura do pensamento. Temos que seguir normas e regras padronizadas por conceitos sociais, como se fossem verdades.

Não se pode discordar de determinadas posições feministas; ideias preconcebidas de movimentos negros, muitas das quais historicamente distorcidas por falta de conhecimento; sobre políticas públicas; e outros assuntos de ordem religiosa ou cultural que logo a pessoa é interpretada como machista, racista ou retrógrada.

Não estou aqui, de forma alguma, me referindo a discursos de ódio e intolerância contra gêneros, raça, religião (não sigo nenhuma) ou de aspecto comportamental de cada indivíduo porque estes são abomináveis e nem merecem crédito.

Parece existir uma ordem de proibição onde não se pode ultrapassar aquela linha e usar a sua massa crítica para apontar conceitos entre os quais você não concorda. Se você é de esquerda ou progressista tem que estar totalmente alinhado a tudo quanto o governo de esquerda vem praticando na política, e assim por diante.

Quando se emite uma opinião contrária, a pessoa já é vista de forma atravessada e até excluída do grupo uniforme de pensar. Essa é uma cultura do represamento que cheira a censura. A própria religião nos prende nessa redoma.

Este é apenas um exemplo que cito sobre o pavor de se falar o que se pensa, mas são inúmeros os patrulhamentos ideológicos que têm suas origens no sistema a que fomos moldados desde a nossa formação. Na maioria das vezes, temos medo de expressar o nosso ponto de vista e ficamos calados, consentindo e aprovando coisas erradas.

As pessoas mais idosas, como eu, se libertaram dessa opressão porque já se acostumaram tanto com as críticas que uma porrada a mais não faz diferença. Além do mais, ficaram imunizadas pela vacina da liberdade de falar o que pensa. Acho até que deveria ter uma lei onde ao idoso é facultado falar o que bem quiser porque ele já recebeu em vida todas as cargas de críticas.

Nesta semana estava falando com uma amiga sobre o problema do assédio sexual (mais um exemplo) do homem contra a mulher, mas acha-se engraçado quando ocorre o inverso. Sem nenhum consentimento, ela me contava que uma mulher num bar se levantou repentinamente e tascou um beijo no cara.

Isso não configura crime de assédio sexual? Quer dizer que a mulher pode, mas o homem, não. Se o cara for à delegacia dar uma queixa, o delegado vai debochar dele. Numa novela, uma atriz chamou o ator de frouxo porque ela a beijou e ele a rejeitou.

Existem muitos outros temas controversos, contraditórios e paradoxais onde as pessoas evitam colocar suas críticas e discordar. Uns preferem ficar calados e outros terminam concordando para não serem constrangidos. Nem tudo que se pensa deve ser dito, mas deveria, só que a sociedade é opressora.

Não vale, no entanto, inventar mentiras e falar asneiras e besteiras para confundir a opinião pública, como um vídeo (não sei quem produziu) sobre Vitória da Conquista onde o “influenciador” (virou sinônimo de picaretagem) diz que aqui é a cidade mais fria do Nordeste, daí ser conhecida como “Suíça Baiana”. Aí é demais, meu camarada! Não consigo engolir esse termo influenciador. De quê e de quem?

O CARNAVAL QUE PASSOU

Na suadeira do carnaval entro com minha fantasia de excluído de pano encardido, no peito escrito “Fora a Corrupção” e nas costas os dizeres “Por Justiça e Igualdade Social”. Na mão carrego um cartaz que fala do carnaval que passou.

Sou um velho solitário no meio da multidão. A grande maioria nem viu a minha passagem. Muitos acharam meu traje engraçado e só poucos entenderam minha mensagem. Fui até alvo de algumas fotos feitas por uns gringos que acham tudo exótico e pulam com aquele jeito desengonçado, com o sotaque de que o Brasil e a Bahia são maravilhosos. Aliás, tudo é maravilhoso!

No Pelourinho, no Terreiro de Jesus e na Praça da Sé ainda vejo algumas bandas tradicionais de samba e pagode. O Olodum faz aquele barulho ensurdecedor com seus tambores. No palco, algumas músicas que lembram o carnaval que passou. A partir da Rua Chile, o cenário vai mudando e a Praça do Poeta Castro Alves não é mais do povo como o céu é do condor.

Não mais Dodô e Osmar na fóbica com Armandinho, Morais Moreira, Luiz Caldas, Caetano, Gil, o autêntico Trio Tapajós, os blocos sem corda (Os Internacionais, Jacu) e os amigos no Clube de Engenharia tocando violão, confabulando ideias e enchendo a cara e a cuca com lança perfume.

Procurei em vão a Colombina e o Pierrô. Não mais aquelas marchinhas de carnaval, “Ô Abre Alas, que Eu Quero Passar”… (a mais antiga de Chiquinha Gonzaga); “Mamãe eu Quero, Mamãe eu Quero, Mamãe eu Quero Mamar…”; “Aurora, Oôôô, Aurora”; “Você Pensa que Cachaça é Água”…; “Chegou a Turma do Funil”…; “Me dá um Dinheiro Aí, Ei, você aí, me dá um dinheiro aí…”

Cadê as famílias com seus idosos, mulheres e crianças sentadas em suas cadeiras nas calçadas da Avenida Sete de Setembro para ver os cordões e as marchinhas passarem? Das janelas não mais confetes de papel (eram os camarotes). Todos brincavam em clima fraternal, sem violência e empurrões. As bandas eram um sucesso juntamente com os blocos de índios e os afros.

Por falar nisso, o carnaval tem suas raízes históricas no período colonial, tornando-se uma festa altamente lucrativa a partir da segunda metade do século XX, nos anos 80 e 90. O entrudo era praticado pelos escravos que saiam pelas ruas com seus rostos pintados, jogando farinha e bolinhas de água de cheiro nas pessoas.

Foram-se as guerras de cascas de ovos, de milho e feijão. Haviam até vassouradas e colheradas de pau, mas tudo são coisas de outrora, no carnaval que passou, que era bem mais inclusivo. Tudo se tornou lucrativo, e a festa num comércio concentrador de renda onde o rico fica mais rico e o pobre mais pobre.

Do Campo Grande desci até a Barra, Barra Avenida e Ondina. Nesse circuito maluco, barulhento e infernal de trios elétricos, que não são mais trios, e sim bandas de cantores com músicas de letras lixo de uma só estrofe repetitiva, foi onde senti a saudade bater mais forte no coração daquele carnaval que passou.

Uma tremenda loucura, meu camarada! Coisa de doido! Fui trucidado pelo empurra-empurra dos “pipocas” e lá se foram minha pobre fantasia e meu cartaz. A camisa em formato de abadá foi rasgada. As frases perderam o sentido. Ninguém está ali para ouvir ou ler protestos! Basta o circo!

Para não ser esmagado, encostei num canto de um barraqueiro e o senhor e a mulher com seus filhos pequenos nem me viram. O suor caia de seus rostos de tanto andar de lá para cá para atender a turba. Sempre atentos para não serem passados para trás pela malandragem que leva a cerveja na “mão grande”.

Aquelas pessoas dormem praticamente sujos durante mais de uma semana no cimento daquelas barracas de bebidas e comidas para no final ganhar uns míseros trocados. De lá debaixo do asfalto espiei aqueles camarotes de luxo frequentados por ricos, celebridades e famosos. Muito conforto, curtições e bacanais. Os “trios” berram na frente deles na disputa para ver quem mais ganha. Todo conjunto compõe o palco das desigualdades sociais. É tudo misturado e separado.

Sem forças para prosseguir, aos poucos fui me desviando das brigas, dos furtos de celulares e dos soldados embrutecidos metendo o cassete nos “arrastas chinelos”. O “pau comeu”, enquanto os “puxadores” das muvucas gritavam em tom de ordem para todos tirarem o pé do chão. Os súditos obedeciam no rebolado dos passinhos com as mãos para o alto.

Fui cortando em meio à aquela parafernália para sair lá pelo Rio Vermelho. No roteiro vi a banda “Baiana Systen”, que prega o antirracismo, tocando no camarote Premium, o mais luxuoso que invadiu terrenos na praia com enormes tapumes.

A mídia joga toda sujeira e a violência debaixo do tapete. Os políticos, lá do alto de seus camarotes, são ovacionados pelos músicos que dizem que tudo é de graça. Todos acreditam. Tudo se inverteu. Foi-se o carnaval que passou. Agora é só deles, dos poderosos.

OS SACRIFÍCIOS DA PEDRA BONITA

AS LENDAS, ATRAVÉS DA TRADIÇÃO ORAL, GERAM O MISTICISMO QUE SE ENTRELAÇA E GRUDA NO CONSCIENTE POPULAR EM FORMA DE CRENÇA, TRANSFORMANDO O IRREAL EM REAL.  O MÍSTICO FAZ A LAVAGEM CEREBRAL QUE INDUZ O INDVÍDUO AO SACRIFÍCIO DO ALTAR.

O naturalista escocês George Cardner, em suas viagens pelo interior do nosso país, nos anos de 1840, constatou que o sebastianismo no Brasil, especialmente no Nordeste, era mais forte que em Portugal. Os seguidores dessa seita acreditavam que com a volta do Rei D. Sebastião, o Brasil gozaria da mais perfeita felicidade.

Conta a história que no dia 4 de agosto de 1578, o soberano português D. Sebastião pereceu na batalha de Alcácer-Quibir, em Marrocos, contra os mouros comandados pelo sultão Abdal-Malik.

Mesmo a contragosto de seus oficiais, o soberano foi lutar na África por meio de uma Cruzada de guerra santa contra os infiéis, visando expandir o território português. Desde sua infância, diziam que ele foi predestinado à glória. Como católico fervoroso e ávido de conquistas, o povo aspirava por uma Idade do Ouro para Portugal.

O desaparecimento do rei-guerreiro foi misterioso, mas fez surgir as lendas e os movimentos místicos que passaram a invocar o seu ressurgimento. Essas lendas e o mito alcançaram terras desbravadas pelos portugueses.

De acordo com a professora e escritora Marilourdes Ferraz, em seu livro “O Canto do Acauã”, falam que o primeiro movimento sebastiânico no Brasil surgiu em Pernambuco, no ano de 1819, no município de Bonito.

No ano de 1836, em Vila Bela (Serra Talhada), no sertão de Pernambuco, apareceu um caboclo de nome João Antônio dos Santos com duas brilhantes pedrinhas na mão e com um folhetim. Em suas andanças, contava a lenda do rei desaparecido, visando conquistar adeptos para sua nova seita.

Com suas palavras de persuasão, arrastou seguidores, como nas redes sociais de hoje, e atingiu o ápice emocional, resultando numa carnificina que ficou na história e abalou o sertão, em maio de 1838.

Mais de 50 pessoas foram sacrificadas de forma bárbara no altar da Pedra Bonita, localizada na Serra Formosa. O João Antônio se tornou “rei” e fez um rebanho acreditar que os sacrifícios humanos purificariam a pedra e abririam espaço para o retorno de D. Sebastião. Aliás, dizia que era um pedido do próprio rei desaparecido.

As narrativas de João Antônio tornaram-se motivo de grande poder persuasivo por estarem integradas à cultura da região nordestina, isolada por séculos do resto do Brasil. O povo cultuava o hábito de contar histórias reais e imaginarias, encantando e impressionando as pessoas mais simples.

Pela sua habilidade do saber dosar as narrativas, com seus gestos e expressões corporais, extraindo emoções, João tinha a magia da arte de contador de histórias, ao ponto de fazer com que o sertanejo acreditasse nelas.

Ele lidava com as pedrinhas brilhantes e o folhetim, tornando o irreal em real. Com seus instrumentos de indução, passou a convidar a todos a acompanhá-lo ao local onde aconteceria o desencantamento de D. Sebastião, com todo o esplendor do seu reino.

Na Serra Formosa existiam (ainda existem) duas grandes pedras quadrangulares que eram as “torres de uma igreja”, conforme relatava João Antônio. Na verdade, era só uma pedra bonita em virtude da incrustação de malacachetas que faziam pratear e serem vistas pelos moradores como coisa inusitada e misteriosa. Próxima à pedra, existia uma lagoa, também encantada. De lá, João retirou as pedrinhas que eram exibidas por onde passava.

O místico dizia ter sido guiado pela mão de El-Rei que lhe oferecera a visão do que seria o reino encantado. O vidente passou a dizer que tudo que era encantado só desencantaria com muito sangue para regar todo “campo santo” e romper o encanto que aprisionava D. Sebastião.

As promessas aos seguidores eram irresistíveis, como pretos que se tornariam brancos e seriam todos imortais, ricos e poderosos. Os velhos voltariam a ser jovens. O lugar passou a ser um “santuário”, a pedra dos sacrifícios e o torno de João Antônio, donde ele fazia suas pregações e dava ordens aos fiéis.

Na tarefa de doutrinação, Antônio era auxiliado por uma equipe de pessoas da sua família e parentes de confiança, como seu pai Gonçalo José dos Santos.

Contava ainda com a colaboração de muitos outros para efetuar a peregrinação e propagação da seita que atraiu muita gente de outros lugares, como das ribeiras do São Francisco, Cariri, Riacho do Navio e do Piancó (Paraíba). Todos queriam ver as coisas “bonitas” que iriam acontecer.

As pessoas concentradas na “Pedra Bonita” perdiam o direito de se retirar do local. Nas tarefas, criadas por João, os grupos de trabalho eram vigiados por guardas da seita. Fazendeiros entregaram todo seu gado e economias, acreditando que depois tudo seria devolvido em dobro.

Existia uma rígida disciplina, como a proibição de banhos e lavagem de roupas até que ocorresse o grande evento que seria o retorno de D. Sebastião. Durante todo tempo, todos entoavam cânticos religioso, benditos e rezas. A alimentação era à base de legumes colhidos nas fazendas das redondezas.

Tudo isso funcionou muito bem para o êxito de uma lavagem cerebral onde todos estavam dispostos aos sacrifícios humanos. As consciências ficaram ainda mais entorpecidas através da ingestão do “vinho encantado” preparado com a infusão da jurema e manacá, acompanhado pelo hábito de fumar cachimbos que continham ervas entorpecentes misturadas ao fumo.

Os fatos tenebrosos passaram do limite e forçaram o padre missionário Francisco Correia, que perdeu seus fiéis para a seita, investigar a situação. Organizou missões e chamou João Antônio para uma conversa, que entregou as duas pedrinhas e partiu para o Cariri. O padre, então, retornou para a comarca de Flores, crente de que a seita teria sido extinta.

Ledo engano, os sebastianistas retornaram, agora guiados por um novo “rei”, João Ferreira, que sentou no trono e ditou as novas regras, como a de que o homem poderia se casar até com três mulheres, contanto que todas elas passassem a primeira noite com ele que já era casado com Josefa, a irmã do primeiro “rei”.

A grande tragédia da Pedra Bonita, que depois passou a ser chamada de Pedra do Reino, aconteceu na manhã do dia 14 de maio de 1838 e se estendeu entre os dias 15 e 16. Os próprios integrantes da seita foram dizimados. Depois avisou que El-Rei estava desgostoso com o povo que não tinha fé e não podia desencantar. Os sebastianistas indagaram, então, o que poderia ser feito.

João Ferreira respondeu que era preciso regar todo “campo santo” e as pedras das “torres da catedral” para que o “reino” surgisse em sua glória. Todos ouviram uma “voz” no fundo da pedra e interpretaram como a se fosse a de D. Sebastião.

Nesse momento, a turba ficou ensandecida com cânticos e rezas. O pai de João Ferreira foi o primeiro a colocar seu pescoço na pedra para ser sacrificado. Outros fiéis imitaram o gesto. Um idoso de nome João Pilé, agarrou seus netos e com eles mergulhou para a morte do alto de um rochedo, mas na queda deu conta da loucura e conseguiu se salvar. Os netos não tiveram a mesma sorte. Uma mulher matou dois filhos menores, mas os maiores fugiram e um deles conseguiu abrigo na casa do fazendeiro Manoel Ledo de Lima. Josefa, que estava grávida, foi tão violentamente golpeada que provocou o nascimento do filho, mas este rolou pelas pedras para a morte. Outros pais deceparam as cabeças de seus filhos.

No final do terceiro dia, estavam lavadas de sangue as bases das pedras e o solo do “reino encantado”. Foram trucidados 12 homens, 30 crianças e 11 mulheres. Além dos humanos, 14 cães foram executados, destinados a serem os “dragões do reino”.

Quando o ar ficou empestado pelo mau cheiro da carnificina, os sobreviventes foram para outro campo. Construíram cabanas e ficaram esperando a chegada de D. Sebastião.

No dia 17, o Pedro Antônio, irmão de Josefa, sentou-se no trono e ordenou a execução do cunhado João Ferreira, com o argumento de que para completar o sacrifício, D. Sebastião havia lhe dito que só faltava o “rei”. Os fanáticos torturam João Ferreira, quebraram sua cabeça e arrancaram suas entranhas.

No mesmo dia, o vaqueiro José Gomes, que estava na Pedra Bonita, conseguiu escapar da chacina e correu até a fazenda Belém onde se encontrava o major Manoel Pereira da Silva, da Guarda Nacional, e denunciou os fatos. Outros também foram até a fazenda de Manoel Ledo narrando a mesma história.

O major reuniu uma força de 26 homens e pelo caminho a tropa foi aumentando. Quando os combatentes chegaram à Pedra Bonita, os homens, nus da cintura para cima, estavam armados de facões e cassetes. Enquanto isso, o Pedro Antônio agitava seus adeptos com gritos de guerra a defenderem o reino. Com cânticos, rezas e ladainhas todos avançaram contra os soldados, no corpo a corpo.

No combate ficaram 22 cadáveres, sendo o do “rei” com 16 de seus sectários e dois irmãos do comissário-major, além de muitos feridos entre outros soldados. Dois meses depois dos acontecimentos, o missionário Francisco Correia foi sepultar os mortos e contou 53 corpos. Todas as ossadas foram enterradas numa grande vala. Até hoje contam que o local em torno da Pedra Bonita (Pedra do Reino) ficou mal-assombrado.

TEM GOSTO DE QUÊ?

(Chico Ribeiro Neto)

Um cheiro no seu cangote tem gosto de água do pote.

Comer a casca da manga rosa lembra a infância.

Uma talhada de melancia gelada tem gosto de ressaca.

A hóstia tem gosto de céu.

Amendoim cozido tem o sabor do São João.

Pirão de maxixe tem gosto de Caculé.

Ingá tem sabor de Ipiaú.

Jaca lembra a turma de rua. (A gente roubava jaca nos quintais da Vitória).

Sorvete tem gosto de namorada.

Macarrão com galinha tem gosto de domingo.

Pipoca tem sabor de cinema.

Pepino tem gosto de água fresca.

Vinho tem sabor de belas lembranças.

Ki-Suco tem gosto de aniversário de boneca.

Peixe frito lembra a praia.

Abacate tem o sabor do quintal de vovô Chico em Ipiaú.

Suco de uva lembra doença. (Lá em casa, quando a gente era pequeno, só tomava suco de uva quando adoecia).

Charque lembra buteco.

Repolho tem sabor de um cozido.

Sardinha tem gosto de quarto de pensão.

Leitoa assada tem gosto de São João em Caculé.

Mingau de aveia Quaker lembra mamãe Cleonice.

Óleo de rícino tem gosto de sofrimento.

(Espremidos entre os tacos da sala, dois confetes me espreitam).

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

 

 

 

 

NÃO SE TRATA DE UM SÍTIO

A imagem bucólica parece ser de uma fazenda ou de um sítio, mas pode ser vista em plena Vitória da Conquista nos terrenos vazios em bairros da periferia, em meio ao lixo e ao matagal. Nossas lentes flagraram cavalo e cabras pastando numa área da Avenida Sérgio Vieira de Melo, no Zabelê.  Em meio ao lixo, pelo menos esses animais estão contribuindo para o capim não ficar mais alto e se transformar em esconderijo de bandidos. Além do mais, evita que alguém toque fogo e provoque aquele “fumacê” tão prejudicial à saúde humana. No corre-corre da vida, muita gente passa e não percebe estas cenas de interior da zona rural.  Com o progresso, o trânsito agitado e engarrafado de carros soltando gases tóxicos e multidões em correria, quase ninguém ouve o canto dos pássaros nas praças arborizadas, muito menos uma noite de lua cheia. Como ainda tenho minhas raízes fincadas no sertão da roça, costumo parar para matar a saudade dos tempos de menino quando vivia no campo. Mesmo com a destruição provocada pelo bicho homem predador, a natureza ainda sobrevive ao nosso lado nas grandes cidades e ela atua como bálsamo da alma. Pena que a grande maioria não para um pouco para apreciar sua beleza e seu encanto. Maior parte da minha vida foi em centros urbanos, mas até hoje ainda me sinto um ser campesino. Quando estiver estressado, aporreado ou banzo, escute o canto das aves e olhe um pouco para as árvores e plantas ainda vivas nas pequenas, médias e grandes cidades. Mesmo assim, vamos cobrar do poder executivo que fiscalize os terrenos abandonados e obrigue por lei que seus proprietários os cerquem ou murem.

 

O PORQUÊ

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Por que

Tem o cancioneiro

Que encanta o mundo

O escritor pensador,

Que nos leva ao profundo,

Outros que nada são,

Muitos vivendo em mansões,

A maioria em casebres,

Amargando suas aflições?

 

Todo esse mistério,

O poeta passa para a filosofia,

Que devolve para a teologia,

Questão de religião e fé,

Acredite quem quiser,

Porque só Oxalá sabe explicar.

 

Êta moço, que lasqueira!

Tem muita coisa pra se entender,

A vida é uma bagaceira,

Quem ama não é amado,

Um é rico e o outro é lascado,

Se existe o Deus Senhor,

Qual Supremo lhe criou?

 

ISENÇÃO PROPORCIONAL DO IPTU

Depois do recesso e abertura dos trabalhos na semana passada, os vereadores voltaram às suas atividades na sessão ordinária de ontem (quarta-feira, dia 11/02), discutindo importantes projetos que vão beneficiar a população conquistense.

Na pauta, foram apresentados vários projetos de lei, como, por exemplo, sobre a isenção proporcional do IPTU para imóveis localizados em ruas que apresentem buracos, falta de iluminação pública ou outras condições precárias de infraestrutura. A questão é identificar os critérios técnicos para conceder essa isenção.

Outro assunto muito debatido e que tomou boa parte da sessão foi quanto aos problemas da Zona Azul que recebeu muitas críticas por parte dos usuários a partir de determinadas mudanças feitas pelo poder executivo.

No entanto, a medida de isenção do pagamento da tarifa da Zona para idosos é inovadora. É outro ponto que deve ser bem fiscalizado para que não ocorram fraudes por parte de pessoas inescrupulosas.

Também foi debatido o projeto de implementação da “Sala Lilás” no SUS, com o objetivo de prestar atendimento exclusivo, especializado e humanizado às mulheres vítimas de violência.

Outro projeto foi o reconhecimento do Terno de Reis como Patrimônio Cultural Imaterial do Município de Vitória da Conquista, bem como, a instituição do Dia Municipal do Terno de Reis.





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