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SIMPLESMENTE EXUBERANTE E TRISTE!

Como é bom ver a caatinga, a mata e até a Chapada Diamantina verdes, cheias e floridas, com o cheiro da terra molhada e encharcada nas baixadas, tanques, lagos, rios e açudes! Foi assim que essas paisagens da força da natureza, com gosto de fartura, encheram minhas vistas ao cortar a Bahia, do sudoeste ou sudeste, de Vitória da Conquista ao norte de Juazeiro.

É simplesmente exuberante, como se fosse um milagre depois de uma prolongada estiagem, quando o sertanejo nordestino pede ao Senhor Deus para mandar as chuvas. Quando ver o chão rachado e o gado berrando na campina seca, faz novenas, orações e promessas ao divino e a todos os santos.

Dessa vez vi até procissão cortando a curva da estrada como cobra para agradecer as aguadas, se bem que em alguns pontos elas bateram minguadas, como nuns trechos entre Rui Barbosa, Macajuba e Baixa Grande. Vi bodes e bois pastando o capim e o mato renovados e viçosos. Vi aves voando e cantando o benfazejo. Vi o aguaceiro bater no gravatá das matas raras. Vi o mandacaru florar.

No entanto, nem tudo é alegria. É triste para os pobres das periferias das cidades desguarnecidas pelas negligências e irresponsabilidades desses prefeitos governantes que preferem oferecer circo e festas, ao invés de infraestrutura básica de serviços de esgotamento, calçamentos e canalizações para que as águas escoem rápido e não invadam as casas desses moradores que acabam perdendo seus pertencentes e ficando desabrigados no olho da rua, ou em escolas, numa forma de ajuntamento.

Se está muito sol e calor, o pobre pede chuvas a Deus para aplacar a sequidão. Quando elas vêm com temporais, ventos fortes, raios e trovões, ele lamenta e chora por causa dos alagamentos e ainda diz que foi a vontade de Deus. Por ignorância e falta de conhecimento, nem atenta que tudo isso é resultado da ação perversa do homem que destrói o meio ambiente. Para essas adversidades, os cientistas dão o nome de mudanças climáticas do aquecimento global ou ainda o chamado El Nino.

Como estão as nossas cidades, sem obras estruturantes e despreparadas, seria uma maravilha se as chuvas só caíssem no campo onde elas são a matéria-prima para o agricultor plantar suas roças e prosperar, sem falar nos animais em geral (gado, pássaros, insetos e outros bichos) que matam a sede e enchem suas barrigas de alimentos em abundância. Mas, não é assim que a coisa funciona. As correntes de ar e as nuvens não escolhem os lugares.

Esses prefeitos cometem tantos desatinos – falta seriedade nas câmaras de vereadores para decretarem o impeachment deles – e depois têm a cara de pau de culpar o tempo chuvoso. Vitória da Conquista e Juazeiro, lá no norte da Bahia, são exemplos concretos de cidades malgovernadas.

Aqui em Conquista, Lagoa das Flores, Campinhos e outros bairros ficaram debaixo d´água, sem falar de ruas que viraram escombros. Na cidade caíram mais de 30 árvores, inclusive as do Estádio Lomanto Júnior, que derrubaram o muro. Vários pontos tiveram que ser interditados.

É hilário, para não dizer deboche, mas somente agora a Secretaria do Meio Ambiente veio anunciar que vai podar as outras. Por que não fez isso há tempo? Confesso que nunca vi a Prefeitura Municipal fazendo podas em árvores. Só aqui em minha rua (uma em meio passeio) galhos foram ao chão com as tempestades. É simplesmente exuberante e triste.

O “QUIABO” E O CARNAVAL

Estava eu tomando uma gelada numa barraca na Praça 2 de Julho, em frente ao Estádio Adauto Moraes, em Juazeiro, na Bahia, e assuntando o pouco movimento de torcedores comprando ingressos para assistir ao jogo do Juazeirense contra o Jequié (2 x 0), no último dia 25/01.

Até aí nada demais para registrar como inusitado, mas apareceu um cabra meio franzino apelidado de “Quiabo”, com um celular na mão atravessando a rua pra lá e pra cá procurando uma mulher, por certo sua amiga ou parente, que era funcionária do estádio. Ele estava agitado e não parava de ligar indo de um canto ao outro.

Não demorou muito e logo apareceu uma mulher gritando pela sua alcunha. Foi a partir daí que soube que o rapaz se chamava de “Quiabo”. Como tantos outros malandros furadores e penetras, ele queria que a “amiga” o colocasse no campo sem pagar. Uma portinha estreita se abriu e uma senhora gritou “Quiabo”! Foi a senha providencial!

Do nada ele apareceu e, num pique com outros (não estava com minha máquina fotográfica para clicar nos alvos), ele caiu dentro, enquanto alguns compravam a entrada na bilheteria. Fiquei a imaginar que quiabo é uma verdura deliciosa, por sinal (adoro saborear), que escorrega na panela dentro de um feijão, num cozido ou noutro ingrediente e associei à pessoa ligeira que apronta das suas para se dar bem na vida.

Na minha cabeça fui mais além e coloquei a imaginação para viajar nesse Brasil dos quiabos “espertos e astutos” que procuram levar vantagem em tudo e não respeitam os outros, a começar pelos políticos, governantes, empresários, chefes de repartições, autoridades, executivos e até magistrados.

Com relação aos estádios de futebol no país, é assim que funciona: Centenas e milhares entram de “gaiatos” ou gatos sorrateiros. Tem aquela turma dos Quem Indica, o famoso QI e dos jeitinhos brasileiros. Quando se fala em 10 mil pagantes, por exemplo, quinhentos ou mais de mil foram de graça. Em pouco tempo, ali no estádio, presenciei muitos atravessando ligeiramente a portinha estreita, na base do pulo.

Mas, o que tem a ver o pobre do “Quiabo” com o carnaval? É que neste mesmo dia era a abertura da festa momesca na cidade e quiabos piores entraram em ação, uns para furtar no meio da folia e outros “donos da prefeitura”, da coisa pública, para fazer os contratos escusos com bandas, trios elétricos, camarotes e cantores.

Numa conversa informal com um funcionário comissionado, porém concursado, ele me contou horrores que acontecem lá dentro e foi demitido do cargo porque não aceitou concordar com as coisas erradas. Uma dessas maracutais foi o carnaval, segundo ele, superfaturado.

Conforme me confidenciou, o cantor Bel Marques “recebeu” 550 mil reais para tocar no circuito por uma noite, mas só que ele não leva essa bolada toda. “Tem uma parte por fora que fica com eles lá dentro. Estão passando a mão”- acusou o funcionário que trabalha ou trabalhava na Secretaria de Finanças. Cadê a investigação do Tribunal de Contas?

São os quiabos mais escorregadios e danosos que desviam recursos do contribuinte nessas festas, mas o povo cai dentro da fuzarca e nem quer saber disso. O que importa mesmo é o circo. Enquanto isso, com as chuvas, a periferia de Juazeiro sofria com as ruas esburacadas, alagadas e esgotos estourados, numa fedentina danada.

UM PAPO COM O “VELHO CHICO”

– Olá, meu “Velho Chico”!

Vim de longe daquelas terras de Vitória da Conquista que muitos, sem noção, as chamam de “Suíça Baiana”, para lhe pedir a benção. Uma pena que só lhe conheci depois de adulto. Quando era criança, nem ouvia falar sobre a existência do Senhor. Aliás, alguma coisa na escola, mas sem muito destaque.

– Sei, meu filho, e Deus lhe abençoe!

– Como está de saúde?

– Um pouco melhor que há uns oito ou dez anos quando estive na UTI, naquela braba sequidão.

– Ah, lembro da ocasião e fiquei muito triste, mas antes disso teve aquele frei da Barra que fez uma greve de fome em protesto contra sua transposição, ainda no segundo mandato do Governo Lula. Faz tempo e, como sempre, o brasileiro esquece desses episódios.

– Pois é, meu filho! Minhas águas minguaram nas margens, só arreião e apareceram ilhotas por todo canto. O mar tentou me engolir lá foz de Sergipe e, por pouco, não virei um riacho salgado. Fui até entubado e os homens de lá de cima prometeram me revitalizar.

– E de lá para cá não fizeram nada?

– Só promessas e sofri com o assoreamento e erosão dos terrenos. Desmataram minha vegetação ciliar. Fiquei muito tempo descoberto no árido sertão. Até minha nascente quase morre. Atingiram até meus afluentes com tanta irrigação para plantar grãos e frutas para os mais ricos capitalistas exportarem. Eles só pensam em cifrões.

– E depois disso tudo?

– São Pedro resolveu me socorrer. Sempre estou dependendo dele. Sai das últimas e renasci. Nem os movimentos sociais tocaram mais na questão.

– E se vier outra estiagem prolongada daquela?

– Ah, meu filho, nem sei o que será de mim. Pode até ser o fim, porque se for depender deles, já era.

Por falar nisso, qual era mesmo seu nome antes daquele português navegar em seu mundaréu de água?

– Ah, os meus irmãos indígenas me chamavam de Opará, o que significa rio-mar, por ser grande e caudaloso, meio de comunicação e de fuga, uma rede que interligada diversos povos da região.

– E quem lhe deu o nome de São Francisco?

– Foi um tal de Américo Vespúcio, em 1501, quatro de outubro, dia de São Francisco. Essa mania dos cristãos de denominar tudo com o nome de santo. Sou mesmo Opará.

– Tá certo, mas mudando de assunto, e seus ribeirinhos?

– Agora estão melhor, com mais peixes na rede e irrigando suas plantações, mas sempre tiram dos pobres e dão para os ricos. Não ando nada contente com isso.

– Estou sentindo um mal cheiro aqui nas margens. O que é isso?

– São os esgotos, meu filho, que jogam dentro de mim, sem falar no lixo e outras sujeiras. Eu padeço durante mais de 500 anos. Despois vêm as muriçocas, insetos, ratos e cobras. Reclamam e ainda me xingam.

– O que dizer que esqueceram do senhor?

– Eles lá de cima não passam de politiqueiros de baixo nível. Se apropriam de mim para arrumar votos dos eleitores incultos. Essa tal de transposição só atendeu os mesmos. Os pobres continuam mendigando as migalhas ou farelos que caem da mesa desses burgueses.

– Dizem que o senhor é esquerdista comunista. O que falar sobre isso?

– Sem comentários, meu filho. Não dá para dialogar com essa gente imbecil. Prefiro ficar calado, com meus caninos, cavernas, navegantes, carranqueiros e barraqueiros. Veja ali o Nego D´Água e Iansã.

– E sobre esse tal de aquecimento global?

– Já está acontecendo, meu filho! O futuro de tragédias e catástrofes já existe, mas ainda não caiu a ficha deles. Ficam aí transando com El Nino e mudanças climáticas. Se reúnem e depois tudo fica no mesmo.

– É meu “Velho”, o papo está bom, mas já estou indo pegar estrada para outras bandas.

– É, meu filho, vá em paz e que Deus ou São Francisco lhe acompanhe.

– A benção, mas prefiro Opará, como na língua indígena Tupi-Guarani.  Até a próxima, meu “Velho” mestre.

CONTINUE REMANDO!

(Chico Ribeiro Neto)

Naveguei nas águas da praia do Unhão, em Salvador, com uns 14 anos, na catraia construída junto com o amigo Zoinho, com uma placa de Madeirit roubada na construção da Avenida Contorno para servir de casco da embarcação, depois batizada por meu irmão Cleomar de “Minas Gerais”, o velho porta-aviões que o governo brasileiro comprou da Inglaterra em 1956.

Foi uma felicidade ter um barco, toda a meninada queria passear nele. Os remos dormiam em casa, para não roubarem, e a catraia (também chamada de “quadrada”) dormia ancorada nas serenas águas do Unhão.

Sempre gostei dos nomes dos barcos e de saveiros. Revelam muita poesia, a sintonia com as águas, o sol e a lua.

Em sua página no Facebook o grupo “Velas de Içar – Saveiros da Bahia” revela uma pesquisa feita com nomes de saveiros de Bom Jesus dos Pobres – um dos portos de saveiros mais dinâmicos da Baía de Todos os Santos – nas décadas de 50, 60 e 70, que catalogou 46 nomes de saveiros de vela de içar que levavam mercadorias do Recôncavo para Salvador.

Destaco alguns nomes de saveiro: “Admirado”, “Amigo Fiel”, “Aurora”, “Chamêgo”, “Considerado”, “Deus Que Me Deu”, “Educado do Norte”, “Dois Amigos”, “Luar de Bom Jesus”, “Piolho de Cobra”, “Respeitado”, “Riso do Amor”, “Sonho Feliz” e “Sombra da Lua”.

Lá vem o “Minas Gerais”, cortando água. Pega aquele caminho que o sol traça no mar às 5 e meia da tarde quando se prepara pra dormir.

No barquinho só cabem dois tripulantes: Chico e Zoinho. Outros meninos seguram na catraia, deixando o resto do corpo no mar: Atum, Biúca, Tristeza, Cobra D’Água, Cascavel, Pé de Valsa e Mondrongo.

Zoinho dá o comando:

– Vamos remar!

– Para onde?

– Não sei, continue remando!

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

 

 

“RISCADOS ÁRIDOS DA INFÂNCIA”

Com fotografias do meu amigo fotógrafo, Evandro Teixeira, reconhecido internacionalmente pelas suas imagens da ditadura militar no Brasil e na América do Sul, de Canudos, dentre outras cenas inéditas, do artista plástico Silvio Jessé, que retrata a vida do sertão e dos sertanejos, foi lançado no início deste mês de janeiro, no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, o livro “Riscados Áridos da Infância”, da professora Ester Maria Figueiredo, que tem como cenário a cidade de Canudos. Além do deputado federal Waldenor Pereira e do estadual José Raimundo Fontes, estiveram presentes escritores e intelectuais. O evento contou com uma apresentação musical do maestro João Omar. No final, Evandro Teixeira fez uma explanação de seus trabalhos, destacando as fotos emblemáticas da ditadura civil-militar de 1964 no Brasil, com destaque para a marcha dos 100 mil e dos principais personagens que participaram das manifestações contra o regime, cujo golpe está completando 60 anos e merece ser lembrado para que este episódio nunca mais se repita em nosso país. Na ocasião, Teixeira lançou seu livro de 100 estudantes e militantes que estiveram presentes nos protestos do “Abaixa a Ditadura. “Riscados Áridos da Infância” fala do cotidiano da nossa gente sertaneja, seus costumes e hábitos. É, na verdade, uma obra de memória, com a riqueza das pinturas de Silvio e fotos de Evandro.

TANTAS COISAS

Versos de autoria do escritor e jornalista Jeremias Macário

“Uma coisa é uma coisa,

Outra coisa é outra coisa”.

 

Tudo que se faz,

É inspirado noutra coisa,

Como esta “Tantas Coisas”.

 

Coisa pode ser

Masculino ou feminino,

Substantivo, verbo e advérbio,

Adjetivo e tanta coisa.

 

Tem o coisa ruim,

Que é o capeta belzebu;

A coisa boa divina azul,

Tanta coisa assim.

 

Vou lhe contar uma coisa:

Você não pode revelar.

Então, não me conte sua coisa.

 

Bate aí nessa viola,

Uma canção, samba ou forró,

E não me deixe aqui tão só.

 

Rapaz, me deu aqui

Uma coisa na espinhela.

Não seria na costela?

Ou outra coisa?

 

Tenho uma coisa por ela,

Que não sei explicar essa coisa.

 

Não me venha com mais coisa,

Que já estou cheio de tanta coisa.

 

Mostre sua coisa,

Que mostro minha coisa.

 

Me dê sua coisa de pitada,

Pra eu dar uma tragada,

E ficar doidão nessa coisa.

 

Vá pra lá com sua coisa,

Que fico com minha coisa,

E quem quiser e vier,

Que acrescente outra coisa.

O LEÃO RUGE, MAS NÃO ASSUSTA

Carlos González – jornalista

O leão da Receita Federal rugiu em Brasília, anunciando a cobrança do Imposto de Renda (IR) sobre os ganhos das lideranças religiosas. A única reação partiu da Bancada da Bíblia no Congresso Nacional. Bispos e pastores interromperam as férias ao lado das famílias no exterior ou em resorts de luxo para iniciar mais uma campanha, com veladas ameaças, contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad.  O grupo conservador não aceita o corte de um dos muitos privilégios que recebe.

A tabela do IR para 2024 estabelece que o assalariado, inclusive o aposentado pelo INSS, que recebe mensalmente R$ 2.112,00, sofrerá um desconto de 7,5%, ou seja, R$158,40, suficiente para comprar um botijão de gás de cozinha. No vértice da pirâmide econômica estão encastelados os parlamentares da bancada evangélica, que, na prática, deveriam ser enquadrados pela Receita como “grandes fortunas”.

Entre os privilégios de que gozam na área tributária, os ministros evangélicos estão livres da contribuição previdenciária (Lei 8.212/91). Trata-se da chamada prebenda pastoral, uma forma de retribuir financeiramente ao pastor por sua dedicação à Igreja. Está legalizada a lavagem de dinheiro, – quem viaja pelo interior do Brasil se surpreende com o número de templos evangélicos – operada nas fundações, que se dizem beneficentes, culturais ou educativas, por artistas e atletas famosos.

“É lamentável e incompreensível para um governo que se diz reconhecer a importância das religiões”, comentou o coordenador da bancada evangélica neopentecostal, deputado pelo Amazonas Silas Câmara, do Republicanos, partido que indicou um dos seus membros, o deputado Sílvio Costa Filho, para o Ministério de Lula.

Um mês antes de deixar o governo Jair Bolsonaro deu mais um presente aos evangélicos, ampliando o alcance das isenções tributárias aos pastores. A medida, que está sob investigação do Tribunal de Contas da União (TCU), tinha como finalidade reforçar o apoio à reeleição de um presidente antidemocrata. Aquele ato anticonstitucional estimulou os pastores a convencer uma plateia inculta e iletrada a votar nos candidatos da Igreja.

As “campanhas de solidariedade”, que em 2014 beneficiaram os petistas José Genoíno e José Dirceu, foram reforçadas em 2023 com o uso do Pix, para ajudar Bolsonaro a pagar as multas por desobediência civil (circular em público sem máscara durante a pandemia), que somavam R$ 936 mil. A campanha “pague por mim a minha punição”, incentivada pelos evangélicos que se alimentam da fé, arrecadou R$ 20 milhões.

Ameaçando votar contra, nas comissões e em plenário, as matérias de interesse do Executivo, os exploradores da fé – são mais de 140 nas duas casas do Congresso – foram dar seu recado ao ministro da Fazenda. Na saída do gabinete declararam que não voltarão a ser “mordidos” pelo leão da Receita, enquanto Haddad afirmava que a continuidade da isenção será estudada por um grupo de trabalho.

O recado dado por Haddad foi interpretado de outra maneira pelo mundo financeiro e político de Brasília: esperar que a imprensa esqueça – cadê as joias sauditas? – o assunto para que Lula volte a afagar a bancada evangélica, como fez em outras oportunidades com os membros do Centrão. O presidente já não conta com as bancadas da Bala e do Boi. Afinal, há necessidade do país equilibrar as contas públicas.

A ideia de se criar uma república fundamentalista no Brasil não morreu com a eleição de Lula. Seus idealizadores precisam de recursos para serem aplicados nas eleições municipais deste ano. Esses esforços incluíram as recentes eleições para os Conselhos Tutelares em todas as cidades do país. Os novos conselheiros – há exceções, claro – têm como meta doutrinar  a população infanto-juvenil.

 

 

 

 

 

 

 

O NORDESTE VAI VIRAR DESERTO

EM ALGUNS LUGARES, AS CHUVAS COM TEMPORAIS E VENTOS FORTES VÃO ARRASTANDO TUDO PELA FRENTE. LEVAM CASAS E EXTERMINAM SERES HUMANOS. EM OUTROS É A SECA QUE DESERTIFICA A TERRA. TUDO É RESULTADO DA AÇÃO DO HOMEM QUE PROVOCOU O AQUECIMENTO GLOBAL. A TENDÊNCIA É QUE OS ESTRAGOS VÃO SE AGRAVAR. SERÁ QUE TEMOS COMO REVETER ESSAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS?

Um dia o profeta disse que o sertão ia virar mar, mas acho que errou ou se referiu às grandes barragens e açudes que inundaram cidades e campos. Na verdade, de acordo com estudos de cientistas, o semiárido do nosso Nordeste, a quem eu denomino de meu sertão, vai é virar deserto, e o fenômeno só avança.

Tem lugares que a terra está se transformando em sal. Tenho até um poeminha com o título “O Sertão Vai virar Deserto” que fala desse tema. Há milhões de anos o sertão era mar, mas agora é outra coisa parecida com engaços e bagaços. Não está dando nem para criar animais e plantar. O sertanejo está perdendo a fé e a esperança. Está chegando o tempo que não adiantam mais rezas e procissões. É a autodestruição da humanidade.

Uns chamam isso de mudanças climáticas da própria natureza e até do El Nino, mas a questão mesmo é do aquecimento global provocado pelo ser humano há séculos. Muitos falam de um futuro de destruição do planeta diante das catástrofes e tragédias, cada vez mais frequentes e letais, mas já estamos dentro desse futuro. Acontece que a ficha ainda não caiu para essa gente estúpida.

Em algumas regiões, de dez a quinze mil quilômetros quadrados entre os estados da Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte desse sertão semiárido, as chuvas são cada vez mais raras e aí vai surgindo a desertificação que os cientistas afirmam puder reverter.

Não sou especialista no assunto, mas sou incrédulo. Não acredito nisso porque a poluição dos gases tóxicos no ar só cresce, principalmente com o uso dos combustíveis fósseis. Ninguém quer parar de produzir (Estados Unidos, países árabes, Rússia, Venezuela e até o Brasil) esse tipo de energia suja e vai tentando enganar o meio ambiente com essa de redução paulatina, com a venda de carbono, reciclagem ou da economia sustentável.

Ouço isso há mais de 50 anos. O papo é o de sempre nas reuniões climáticas. Protestos e assinaturas de cartas de intenções e tudo permanece no mesmo, cada um olhando para o crescimento do seu bendito PIB (Produto Interno Bruto). Enquanto isso, a terra está se lascando. Nas camadas polares, no Alasca e na Groelândia, as geleiras só derretem.

No caso do nosso pobre Nordeste, trata-se de áreas há séculos castigadas que são as primeiras a sofrer, como na África e outros continentes onde predomina a pobreza extrema. É assim, os ricos são os que mais depredam a natureza e o aquecimento global incide com mais intensidade os habitantes mais vulneráveis financeiramente.

Na Bahia também, como no norte (Juazeiro e região) existem pontos onde o deserto é visível. A situação é cada vez mais crítica, sobretudo onde ocorrem as prolongadas estiagens de seca. A vegetação vai desaparecendo e nem o bode resiste. A terra fica ressecada e o sertanejo não tem outra saída senão se retirar ou morrer de fome com sua família.

Até a produção de energia eólica, mal programada e planejada, está acarretando impactos ambientais, como em Urandi, na Bahia, onde os ventos fortes provenientes das hélices estão aterrando nascentes do rio Cachoeiras. Camponeses estão sofrendo com a instalação de torres perto de suas casas. O nordestino sofre de todos os lados. É um saco de pancada.

OS 60 DO ENEM, OS 500 MIL REAIS DA CÂMARA E O NAUFRÁGIO ANUNCIADO

São tantos assuntos que nos instigam a comentar, a dar uma opinião nessa vastidão de absurdos na Bahia e no Brasil que somente poucos se arriscam a palpitar e colocar a cara a tapa. Dizem alguns que eu sou inquieto, um tanto polêmico e até que não devo me meter nisso porque não vou mudar as coisas ou consertar o que na minha visão está errado ou merece ser corrigido.

No meu comentário de hoje vamos começar pelos 60 estudantes, de um universo de 2,7 milhões de participantes, que tiraram mil na prova de redação do Enem do ano passado. As notas médias foram 516 em linguagens, 522 em ciências humanas, 497 em ciências da natureza e 534 em matemática. Na redação, a nota média foi de 641.

Alguém colocou nas redes sociais que não há muito o que comemorar. Também digo o mesmo, mas esses 60 foram anunciados com estardalhaços, e quem conseguiu mil foi considerado como gênio. E se a gente mandasse esses 60 para uma olimpíada internacional de língua? Será que teríamos um primeiro lugar?

Para maior vergonha do nosso ensino, desses, somente quatro foram alcançados por alunos da rede pública. Um internauta postou que isso só demonstra a profunda desigualdade na educação do país, aprofundada mais ainda com o “novo” ensino médio.

Do total de mil nas provas redacionais, vinte e cinco foram do Nordeste, 18 do Sudeste, sete do Sul, cinco da região do Centro Oeste e cinco do Norte. Até que o nosso Nordeste, tão discriminado pelos sulistas, se saiu bem, mesmo quando se faz uma comparação em termos proporcionais, sendo 26,91% de nordestinos, 41,78% (Sudeste) e 14,74% (Sul).

Outro tema para uma reflexão foi o anúncio de devolução de 500 mil reais de sobras do orçamento da Câmara de Vereadores para a Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista. “Estou sensibilizado. Vou chorar. Será que nossas excelências foram afagadas pela deusa da Honestidade? Mandem essa notícia para os famintos do “Centrão” – cutucou um comentarista virtual.

Para a ativista cultural Maris Stella, do Grupo a Estrada, do nosso sarau de mesmo nome, em seu entendimento, essa devolução não tem nada de heroica. Segundo ela, numa postagem do Grupo, existe uma Comissão de Cultura e Educação na Casa que poderia utilizar essa vultosa verba no sentido de viabilizar projetos para o Memorial onde prestaria um melhor serviço para a população. Também, ainda Stella, para publicação de livros, entre outras ações.

Na minha opinião, é uma prova que o orçamento da Câmara é polpudo, tanto que os vereadores deram aumento em suas verbas de gabinete e as cadeiras dos edis vão passar de 21 para 23. É tudo uma questão eleitoreira de campanha.

Esses 500 mil bem que poderiam ser direcionados para reformar os equipamentos culturais do Teatro Carlos Jheová, Cine Madrigal e Casa Glauber Rocha. Outra alternativa seria doar para o Fundo Municipal de Cultura, a ser gerido pelo Conselho. Por acaso eles querem saber de cultura? Já disseram por aí que o setor não dá voto.

Vamos agora tratar do naufrágio anunciado de um barco entre Salvador e Madre de Deus que resultou em seis vítimas fatais. Só para rememorar (afirmam que o brasileiro não tem memória) há poucos anos houve um acidente dessa mesma natureza em Itaparica com muito mais mortes.

Quando ocorrem essas tragédias anunciadas, logo aparecem as “autoridades” da Marinha, delegados, comandantes, entre outros, dando entrevistas montadas, informando que vão apurar os fatos e estabelecem 90 dias para conclusão das investigações. Ora, fica uma pergunta no ar que a nossa mídia não faz.

Por que nesses locais de atracações não existe um fiscal para impedir que embarcações irregulares ou superlotadas naveguem nessas condições precárias? Só depois é que falam que o veleiro particular não tinha permissão para realizar rotas com passageiros.

São coisas absurdas que só acontecem em nossa Bahia e em nosso Brasil atrasados, como se fossem terra de qualquer um, da impunidade e sem leis. Depois esses processos levam anos na justiça e os responsáveis nunca são exemplarmente punidos. Por outro lado, essas “autoridades” são as maiores culpadas porque a tragédia poderia muito bem ter sido evitada.

 

AS PRÁTICAS HOMOSSEXUAIS NA BERBÉRIA E AS CRUELDADES NOS BANHOS PÚBLICOS

SOBRE AS TAVERNAS NOS BANHOS PÚBLICOS, MISSIONÁRIOS MANIFESTAVAM SUA REPULSA PELO QUE VIAM, CHAMANDO DE LUGARES ABOMINÁVEIS ONDE HOMENS COMETIAM CRIMES TERRÍVEIS. A MAIORIA DOS CRIMES FOI APRENDIDO COM OS TURCOS. UMA TENEBROSA LIBERTINAGEM RESULTADO DA EMBRIAGUEZ.

AS NARRATIVAS DO ESCRAVO JOÃO MASCARENHAS FORAM PUBLICADAS EM 1627 NA FORMA DE PANFLETO, EXEMPLO DE LITERATURE COLPORTAGE, DIFUNDIDA NO INÍCIO DA IDADE MODERNA. FOI ADQUIRIDFO POR PORTUGAL POR LIVREIROS INTINERANTES QUE COMERCIALIZAVAM COM O NOME DE LITERATURA DE CORDEL, POIS OS VOLUMES ERAM AMARRADOS UNS AOS OUTROS COM BARBANTES PARA SEREM VENDIDOS EM VÁRIOS LUGARES.

Os senhores proprietários, turcos, mouros, paxás e reis da Costa da Berbéria (Argel, Túnis e Trípoli) se aproveitavam dos escravos novos cristãos para práticas sexuais, na maioria das vezes forçados a isso, sem falar do homossexualismo existente nos banhos públicos superlotados, considerados por pesquisadores e testemunhos da época (séculos XVI a XVIII) como campos de concentração, semelhantes aos nazistas e aos gulag soviéticos.

Alguns chegaram a contestar as crueldades e torturas dos senhores, como as que existiram contra os escravos africanos trazidos para as Américas (12 milhões) em mais de três séculos, mas foram comprovadas por cativos cristãos brancos.

Diferente do que ocorreu com os mercados de gente na Costa Africana, cujas memórias dos locais foram preservadas, esses banhos públicos foram destruídos entre os séculos XVIII e XIX, principalmente com a invasão francesa a Argel em 1830. Essa escravidão na Berbéria era uma represália religiosa. Os muçulmanos também foram cativos dos cristãos, sobretudo na Espanha, Portugal e Itália durante as guerras dos dois impérios (cristãos e muçulmanos).

O historiador e pesquisador Robert Davis, que escreveu a obra “Escravos Cristãos, Senhores Muçulmanos”, se debruçou sobre esse tema pouco explorado e conta também as brigas internas que existiam entre católicos e não católicos. No livro, ele cita por diversas vezes testemunhas do escravo d´Aranda sobre uma intriga entre russos ortodoxos e espanhóis italianos.

“Um deles foi até o pequeno cômodo (banho público ou prisão) onde se encontravam os russos moscovitas saudando-os da seguinte forma: cães, hereges, selvagens, inimigos de Deus, o banho agora está trancado (era fechado ao entardecer), e o zelador (o feitor) mandou dizer que, se tiverem coragem de lutar, vocês deveriam sair dessa sua toca, aí veremos quem leva a melhor”.

Robert Davis ressalta que qualquer divisão secular, como língua ou política, servia de justificativa para gerar discórdia entre os escravos, tanto quanto as crenças religiosas, e há indicativos de que esses subgrupos, provenientes de culturas mais próximas, eram os que mais estavam propensos a trocar farpas entre si.

DIFICULDADES DE COMUNICAÇÃO

As brigas constantes, segundo ele, entre espanhóis, franceses, portugueses ou italianos são inícios de que esses escravos se entendiam o suficiente para trocar insultos. Entretanto, as dificuldades de comunicação entre escravos e seus senhores era uma fonte inesgotável de conflitos na Berbéria, como aconteceu com os africanos de primeira geração nas Américas.

Para desenrolar esse entrave, havia uma língua franca (pidgin), modelo para todas as outras línguas francas ao redor do mundo. A predominância era dos espanhóis do Mediterrâneo, parte da Berbéria e do italiano no leste. Essa língua (uma versão do europeu românico) tinha suas raízes nos idiomas dos marinheiros e mercadores e preencheu suas lacunas com uma série de palavras locais (árabe, turco e grego). Servia para dar ordens aos escravos.

Nas galés, no entanto, os escravos eram proibidos de falar uns com os outros em qualquer outra língua que não fosse a franca, para que seus capatazes pudessem compreender o que discutiam ou tramavam. Não era um idioma muito fácil de ser entendido, principalmente em situações tensas.

Às vezes o senhor usava termos em espanhol e o italiano para humilhar o escravo com a palavra cão (perro cane ou cani perru). Alguns termos evoluíram, como do italiano mangiar no sentido de comer, ser consumido. Outras palavras eram derivadas do árabe ou do turco.

Quanto aos banhos públicos, o pesquisador da obra, diz ser difícil quantificar a população escrava, mesmo porque alguns zeladores alugavam suas dependências a proprietários individuais de cativos, as quais serviam para armazenar a mercadoria humana quando não queriam manter esses escravos dentro de casa. Eles eram obrigados depois a reembolsar seus senhores pelos custos desses alojamentos, com a venda de água ou até roubando.

Com o declínio das galés corsárias (final do século XVIII), a relação entre escravos públicos de banhos e os privados sofreu uma queda. Em 1696, padre Lorance, vigário de Argel, observou que o número de escravos particulares excedia em muito ao de públicos confinados nos banhos.

ABANDONADOS

Os banhos privados começaram a ser abandonados a partir de 1700, inclusive o maior deles do poderoso Ali Pegelin, que por volta de 1640 mantinha cerca de 800 homens dentro de seu estabelecimento. Durante o forte declínio da escravidão na Berbéria, entre 1690 e 170, a maioria dos escravos deve ter vivido com mais conforto, nas casas de seus senhores. Porém, no transcorrer do século XVIII, o número de escravos particulares caiu e o do Estado permaneceu estável.

TORTURAS E TORMENTOS

A respeito das crueldades e torturas, alguns eram céticos. No entanto, o padre Pierre Dan conta todas as penúrias impostas aos escravos cristãos, e ele fez um catálogo dos tormentos que lhes foram infligidos pelos muçulmanos. Os editores intercalaram prosa com um conjunto de ilustrações horrendas. Muitos foram esmagados vivos, outros empalados, queimados e crucificados.

O escravo John Foss, por exemplo, dedicou um capítulo inteiro ao assunto, denominando-o de “As punições mais comuns para cativos cristãos pelas mais diferentes ofensas”. Robert destaca que tais castigos cruéis, sem motivos aparentes, tinham razão de ser, pois costumavam garantir a disciplina entre os escravos.

As surras tinham o condão de encourager les autres, como alerta aos outros para que mantivessem bom comportamento. O Estado e o Ali Pegelin chegavam a matar alguns deles. Esses tipos de violências eram também difundidos entre proprietários e feitores de escravos nas Américas. Como declarou um fazendeiro no sul dos Estados Unidos: “O medo da punição é o princípio a que deveríamos e temos de recorrer, se quisermos manter os cativos atordoados e obedientes”.

O pesquisador Stephen Clissold concluiu que os escravos da Berbéria descreviam uma vida nos banhos como uma mistura entre um campo de concentração nazista, uma prisão inglesa e um campo de trabalhos forçados soviéticos, os gulag. Os cativos eram largados à própria sorte pelos paxás. Eram vítimas de surras aleatórias, alimentação e acomodações miseráveis, roupas degradantes, além do celibato forçado.

Os públicos eram condenados pelo resto de suas vidas, não por um processo judicial, mas em razão de seu status. Quem pertencia ao Estado não era ninguém. Não contava com um senhor privado para libertá-lo ou pagar seu resgate.  O escravo João Mascarenhas dizia que estes homens nunca vão embora, já que não serão libertados.

 

 





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