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A LEI PAULO GUSTAVO E O PROJETO SOBRE A MEMÓRIA DA FOTOGRAFIA

Estive na Secretaria de Cultura, Turismo, Esportes e Lazer-Sectel (deveria ter sido desmembrada para abrigar só a Cultura) para ver minhas notas a respeito do projeto sobre a “Memória da Fotografia em Vitória da Conquista”, no edital da Lei Paulo Gustavo.  Comprovei ter ficado de fora ou na suplência dos pareceristas por causa da questão de cotas destinadas a negros e a gênero, o que considero um absurdo dos absurdos.

Não entrei com nenhum recurso como muitos me recomendaram por considerar ainda mais irritante e estressante nesta minha idade. Além do mais, não iria haver nenhuma mudança e, para mim, basta a plena consciência de que minha proposição foi inédita, bem fundamentada e seria um bom projeto para a cidade. Repito, mais uma vez, que não sou eu quem vai perder.

Bem, vamos aos fatos concretos para demonstrar que fui “eliminado” por outros motivos fixados pela própria Lei Paulo Gustavo, os quais, na minha concepção, não justificam. Nas notas dadas pelos pareceristas no âmbito da Pontuação Qualidade foi dez; Relevância da Ação, dez; Aspectos de Integração, nove; Orçamento (quinze mil reais), oito; Coerência, Objetivos e Metas, dez; Ficha Técnica da Atividade, nove; Trajetória Artística Cultural (curriculum vitae), dez; e Contrapartida, dez, sem contar o cinco que é o peso por idade.

No entanto, nada de pontuação no campo gênero e no relacionado a negros e indígenas, embora eu seja pardo para todos efeitos, inclusive científicos. Como o projeto foi na área de literatura, no lugar da obra sobre a História da Fotografia em Conquista optaram em escolher a proposta de um livro de poesia, se não me engano, sobre a Mulher Cordial.

Não tenho nada contra a poesia, muito pelo contrário. É uma das vertentes artísticas que eu mais admiro ao lado da música. Até entendo que o mundo conturbado e desmano de hoje precisa de muita poesia. Não se trata de desqualificação. O que não consigo engolir e aceitar é que um projeto cultural para ser aprovado tenha como diferencial a cor da pele e o gênero. Até quando vamos continuar adotando esses métodos como critérios de qualificação para um projeto?

Para ser sincero, também não concordo com esse peso cinco por conta de ser idoso. O que tem que ser levado em consideração é a importância e o mérito do trabalho proposto, inclusive seu benefício para a memória e a cultura da cidade. Conforme soube, todos pareceristas foram de fora.

Não se trata de uma questão de contestar por ter sido “reprovado”, mesmo com boas notas. Sempre fui um crítico desses editais, primeira pela sua própria natureza burocrática que aqui denominei de “burrocrático” pelas suas intrincadas exigências, Como se não bastasse, agora colocam um percentual para as cotas.

DE UM TUDO

(Chico Ribeiro Neto)

Eu e meu irmão Cleomar, meninos no Porto da Barra, cavamos um túnel na areia da praia. Um cavando de cada lado até nossas mãos se encontrarem. “Como vai o senhor?”, nos cumprimentamos embaixo do túnel, sorrimos e mergulhamos.

XXX

De um punhado de farinha apareceu uma rainha que tem que contar sete histórias para sobreviver.

XXX

Descobri que a lágrima é salgada e que há sorrisos doces e sorrisos amargos.

XXX

Descobri que gosto das pontes pequenas, principalmente daquelas pontes japonesas.

XXX

– Do que foi que senhor mais gostou?

– De um, tudo.

XXX

Aquele cisco doía no olho ou na alma?

XXX

Tinha (ou ainda tem) uma bolacha chamada Paciência.

XXX

Aprendi que se apontar para uma estrela nasce uma verruga na mão, que o mistério está dentro do peixe e que o melhor silêncio está no fundo do mar.

XXX

“De tudo ficou um pouco.

Do meu medo.

Do teu asco.

Dos gritos gagos. Da rosa

ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz

captada no chapéu.

Nos olhos do rufião

de ternura ficou um pouco

(muito pouco).

Mas de tudo fica um pouco.

Da ponte bombardeada,

de duas folhas de grama,

do maço

– vazio – de cigarros, ficou um pouco (…)”

(Trecho do poema “Resíduo”, de Carlos Drummond de Andrade).

 

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

O VELHO E O RIO

Oh quantos ensinamentos! Um com sua idade avançada de humano ancião que aprendeu muitas coisas da vida e ainda procura se renovar até a sua finitude. O outro tem milênios de anos e também se renova continuamente, nunca sendo sempre o mesmo. Ambos com suas finitudes. O velho e o rio estão unidos e se respeitam através do prazer de um servir ao outro. Banhar-se no rio e ser banhado por ele, apesar do ser humano não ter tanta consciência disso, ao ponto de estar sempre agredindo com sua ação destruidora e egoísta de só querer receber sem dar em troca o que o seu irmão rio necessita para continuar vigoroso e novo. No entanto, o velho, com sua sabedoria de anos, ao se banhar deve agradecer suas águas que limpam, refrescam seu corpo e confortam sua alma. Deve também pedir perdão pelos males praticados em vida, e os dois, o velho e o rio, seguem sua jornada, cada um procurando ensinar que homem e natureza precisam estar unidos para que não haja retrocessos. Por coincidência, a imagem é um flagrante do encontro do velho ou do idoso, como queiram, com o “Velho Chico”, o nosso conhecido São Francisco, amigo dos nordestinos.

ALEGRA-TE COMIGO!

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Alegra-te comigo:

Familiar ou amigo

Na vida e na morte,

Na perda e na sorte.

 

Alegra-te comigo,

Abra tua porta,

E deixa eu injetar,

O meu sangue

Entre tua aorta.

 

Alegra-te comigo,

Não importa a cor,

Gênero ou dor,

Que te atormenta,

Sem essa de inimigo,

Dessa ideologia nojenta.

 

Alegra-te comigo,

Ajuda-me a enxergar o amor,

Sentir o sentido do existir;

Admirar a beleza da flor;

Navegar em teu mar,

Juntar as mãos,

Caminhar, sonhar,

Como peregrinos irmãos.

SE BEBER NÃO DIRIJA E TAMBÉM…

Um amigo meu jornalista de longas datas (olá Chico Ribeiro!), desde quando atuamos juntos em Salvador na labuta das notícias, fez uma crônica sobre essa questão que está aí nas campanhas para advertir os motoristas que ainda insistem em beber e dirigir, mas o slogan serve também para outras coisas, conforme seus comentários espirituosos.

Nas propagandas de bebidas (deveriam ser proibidas como no caso dos cigarros) aparecem aquelas hipocrisias mercadológicas de que “beba com moderação, não exagere ou beba com sabedoria”. Tudo é esquema do capital para embromar, tapear e tentar “justificar” a propagação de seus produtos alcoólicos que matam mais que o cigarro, mas a mídia não faz essa correlação. Essa de beber com sabedoria é do caralho!

Todos sabem que são poucos ou raros os que bebem com moderação e sabedoria. Besteiras! Quando se senta com os amigos num bar ou se está numa festa qualquer, quase ninguém fica apenas nas primeiras. A maioria entorna e mete o pé na jaca, e aí é onde está o perigo de se cometer os desastres humanos da vida.

Além de, “se beber não dirija”, também não se dever fazer outras coisas, como ficar clicando no celular, mesmo os mais expertos na tecnologia. Melhor deixar o aparelho de lado porque você pode clicar errado e cometer uma merda, como trocar uma mensagem e cair num desconhecido ou desconhecida. Digo isso por experiência própria.

Se beber e já estiver chumbado, melhor não falar muito para não arrotar “cargas d´águas”, “dar bom dia a jegue” e “trocar as bolas”, só que tem uns bêbados que abrem a boca demais, sem refletir, e terminam se expondo ao máximo, isto é, dizem coisas que não deveria. Terminam se comprometendo. Trocam datas, citam poetas, autores e pensadores errados. É aquela confusão dos diabos.

Se beber demais, o melhor é chegar em casa calado, pegar seu rango e cair na cama para tirar uma soneca. Nada de tentar transar. Isso serve tanto para o homem como para a mulher. Mais para o homem que pode brochar, encruar ou trocar os nomes da patroa pela da amante. Antes, dê uma curada na bebedeira. Melhor cair nos braços de Orfeu e dar uma boa roncada dionisíaca.

Se beber procure evitar discussões de ordem política, filosófica, de religião, de raça e gênero. Pode sair chamuscado e trocar Sócrates por Platão, confundir as cores e até cometer impropérios, bem como sair da linha do politicamente correto. Aí você sabe o que pode acontecer. “Nêgo” não lhe perdoa. Nem adianta mais pedir desculpas ou afirmar que não se lembrava de nada.

Se beber fale apenas de futebol, coisas amenas e futilidades que não lhe comprometa muito, mas não fofoque a vida alheia, nem tão pouco da sua ex-mulher, namorada ou ex-marido. Não exponha muito sua vida pessoal e não chore diante dos outros com lamúrias. Pode servir de chacotas e ser visto como um fraco coitado de pena.

Tem uns que entornam todas, e não estou me referindo somente daqueles bebuns de botequins, e fica rico de comprar tudo, falastrão e se torna num tremendo chato insuportável de galocha. Outros ficam valentões e querem quebrar tudo. Procure ficar longe desses indivíduos que até chegam em casa e batem na mulher e nos filhos.

Tem aquele, e este tipo eu o conheci e convivi por uns tempos curtos, que fica pegajoso, não para de pegar em sua mão, lhe tocar e abraçar, lhe elogiar exageradamente, até beijar (sai até do armário), com aquela clássica toada de que “você é meu amigo-irmão do coração”. Esse é o mais falso.

Portanto, meu amigo, se beber não dirija, e se sentir meio grogue, sai de fininho, tipo saideira à la francesa. Mais uma vez, só para reforçar, nada de ficar clicando no celular, ligando, fazendo áudios e rodando como peru nas redes sociais. É perigo e bronca na certa, além de arranhar sua reputação. Pode até levar um processo na justiça.

PARA ISRAEL, A MELHOR DEFESA É O ATAQUE

Carlos González – jornalista

A estrela de David caiu sobre a cabeça de Lula. Mais uma vez, o presidente se manifesta como um mandatário que analisa friamente o clima de medo e o caos humanitário no Oriente Médio. Dessa vez, Luiz Inácio mexeu com os brios do primeiro-ministro de Israel, o todo poderoso Benjamin Netaniahu, cujo sonho expansionista ninguém neste mundo consegue impedir.

Na contramão de outras entidades representativas da comunidade judaica no Brasil, o grupo “Vozes Judaicas por Libertação”, com sede em São Paulo, escreveu que “Lula externou o que há no imaginário de muitos de nós”.

Para bolsonaristas e evangélicos, a palavra do presidente a respeito do massacre de palestinos no Oriente Médio foi o combustível que estavam precisando para dar continuidade aos discursos de ódio. Com a assinatura de 91 deputados (71 do PL e 20 de partidos da base governista), foi entregue à Mesa da Câmara um pedido de impeachment do presidente Lula, “por ato de hostilidade a outra nação”. Dois deputados baianos do PL (Capitão Alden e Roberta Roma) assinaram o documento.

Fábio Wajngarten e Silas Malafaia, organizadores da manifestação marcada para o próximo domingo na Avenida Paulista, discutem o envio de convite ao embaixador de Israel no Brasil, Daniel Zonshine. A finalidade da reunião é dar ao negacionista Jair Bolsonaro uma tribuna para se defender das acusações de golpista. Alden e Roberta – sempre eles – vão “representar” a Bahia.

Na opinião de um diplomata brasileiro, Israel promoveu um show no Museu do Holocausto, em Jerusalém, para “passar uma reprimenda” no embaixador do Brasil, Frederico Meyer. O Itamaraty reputou como uma humilhação ao Brasil. Ao final do ato ultrajante, Lula foi sentenciado como “persona non grata ao Estado de Israel”.

O Brasil foi um dos primeiros países a condenar o ataque no dia 7 de outubro do grupo terrorista Hamas a civis israelenses, que causou a morte de 1.200 pessoas e o sequestro de 250. A FAB realizou seis voos a Tel Aviv, logo após o início da ofensiva do exército israelense contra o povo palestino, onde resgatou cerca de 1.200 judeus brasileiros. Devemos lembrar sempre que foi um brasileiro, o diplomata Osvaldo Aranha, que, em 1948, na condição de presidente da Assembleia Geral da ONU, conduziu o povo judeu ao recém-criado Estado de Israel.

A proposta aprovada pela ONU concedeu aos judeus 78% das terras que há séculos eram ocupadas pelos palestinos. Cerca de 800 mil deles foram expulsos de suas casas, passando a ocupar a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, o que corresponde a 22%. Com o passar dos anos, a ONU e as grandes nações fecharam os olhos para as ações expansionistas de um estado fortemente armado pelos Estados Unidos.

A diáspora palestina não tem similar na história da humanidade. Cansados de clamar por uma pátria, milhões de palestinos estão espalhados por todos os continentes – no Brasil são 59 mil. Os que ficaram são submetidos a um regime de apartheid, impossibilitados de ir e vir, sempre vigiados pelo exército de Israel. Há 2.873 palestinos, inclusive crianças, sem culpa formada, nas prisões israelenses.

Com o voto – pela terceira vez – contrário dos Estados Unidos e a abstenção do Reino Unido, o Conselho de Segurança da ONU não pôde apreciar nessa terça-feira (dia 20) o pedido redigido pela Argélia e aprovado por 13 nações, para um cessar-fogo em Gaza.

Em Haia, a Corte Internacional de Justiça, com base na Convenção para a Prevenção de Genocídios, aprecia pedido da África do Sul para que declare ilegal a ocupação do território palestino por forças de Israel. “O apartheid israelense é pior do que o vivido por meu país”, afirmou o embaixador africano Vuzumuzi Madonsela, acreditado na Holanda.

Sem dar importância às decisões de organismos internacionais e à condenação do mundo às suas ações belicistas, Netaniahu ordena ao seu “exército de defesa” a invasão do sul de Gaza, onde estão amontoados, em precárias condições de saúde e higiene, mais de dois milhões de palestinos. Não há mais para onde fugir das bombas israelenses. No norte, as mortes estão se dando por fome e doenças.

O jornal francês “Le Figaro” publica um relato do medico e professor francês Raphael Pitti, que retornou de Gaza, onde prestou assistência no Hospital Europeu, juntamente com mais 20 colegas. “Os civis não têm onde se abrigar. Com fome e com sede, vagueiam pelas ruas para tentar fugir das bombas. O cenário é pior do que aquele vivido pelos judeus nos guetos criados pelos nazistas”, declarou Pitti.

 

 

SARAU A ESTRADA DEBATEU OS 60 ANOS DA DITADURA CIVIL-MILITAR

Com a participação de intelectuais, estudantes, professores e artistas em geral, o “Sarau Colaborativo A Estrada”, que está entrando nos seus 14 anos de existência, colocou em pauta no último sábado (dia 17/02/24, no Espaço Cultural do mesmo nome, o tema dos 60 anos da ditadura civil-militar de 1964 que durou mais de 20 anos e, durante este período, além de amordaçar a liberdade de expressão, torturou milhares de brasileiros, matou e desapareceu com cerca de 500 presos políticos.

Lembrar este triste episódio que aconteceu em nosso país é fundamental para que este fato de terror não mais se repita em nossas vidas, conforme frisaram os presentes. O assunto é tão importante que os participantes do Sarau aprovaram continuar com a discussão no próximo evento, tendo como foco a ação do regime dos generais em Vitória da Conquista, no dia 6 de maio de 1964, quando o prefeito Pedral Sampaio, eleito pelo povo, foi cassado e cerca de 100 conquistenses foram presos.

O presidente da comissão do Sarau, professor Itamar Aguiar abriu os trabalhos culturais da noite e deu a palavra ao jornalista e escritor Jeremias Macário que fez um histórico geral de como se deu o golpe de 64, começando pelo suicídio do presidente Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954.

Antes disso já havia sido criada a Escola Superior de Guerra (ESG), em 1950, que já tramava um regime ditatorial junto com o serviço de inteligência da CIA norte-americana, tendo como maior inimigo a ameaça de um comunismo num país da América Latina. Era o tempo da Guerra Fria num cenário geopolítico polarizado entre Estados Unidos e União Soviética. Era o medo das influências socialistas das revoluções na Rússia (1917), na China (1949) e em Cuba (1959).

De acordo com Macário, que escreveu o livro “Uma Conquista Cassada”, quando Getúlio se suicidou os militares golpistas entraram em ação logo que Café Filho assumiu o poder e sofreu um enfarto. O presidente da Câmara, Carlos Luz, que ficou na presidência, chegou a aderir ao grupo de militares a favor de um golpe, mas foi impedido pelo general Henrique Teixeira Lott e Nereu Ramos governou sob o regime de Estado de Sítio até as eleições de 1955 vencidas por Juscelino Kubistchek.

Juscelino tomou posse em 1956 e, mesmo assim, tentaram dar um golpe entre o meado e final do seu mandato. Nas eleições de 1960, Jânio Quadros foi o vencedor, empossado em 1961, só que renunciou em 25 de agosto do mesmo ano. No momento, seu vice João Goulart, o Jango, estava numa viagem de negociação em Pequim, na China.

A rejeição contra Jango, herdeiro do populismo getulista, era grande nos meios militares e a UNE (União Nacional dos Estudantes), a classe operária, a Igreja Católica (a Polop –Política Operária) e as ligas camponesas já clamavam por reformas de base no campo e nas cidades.

Os generais tentaram impedir a posse de Jango, mas o governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, enfrentou a tropa a favor de um golpe, com a criação da Campanha da Legalidade e da força do Grupo dos Onze. A reação dos militares foi forte contra o que eles chamavam de República Sindicalista.

Jango retornou ao país através do Uruguai (Montevidéu) e num acordo com o general Amaury Kruel e Tancredo Neves aceitou governar sob o regime parlamentarista que teve o seu fim com um plebiscito popular, em 1963. Goulart tinha o apoio do 18º Regimento de Infantaria do RGS, do III Exército, do governador de Goiás, Mauro Borges e de outros comandos militares e voou de Porto Alegre a Brasília no início de setembro de 1961 para tomar posse (Ranieri Mazzilli era o presidente interino).

Apesar de tudo acertado, um grupo de oficiais (Operação Mosquito) tentou derrubar o avião de Jango, mas a ação foi abortada por sargentos da aeronáutica. Do final de 1961 a março de 1964 Jango governou diante de um turbilhão de acontecimentos com as esquerdas – Leonel Brizola, Miguel Arraes, governador de Pernambuco, o deputado Francisco Julião e o Partido Comunista Brasileiro – pressionando o presidente para colocar em prática as reformas prometidas.

A Igreja Católica fazia seus movimentos sociais, mas se posicionava contra uma possível implantação do comunismo no país. A classe média, a própria Igreja e as elites burguesas reacionárias, principalmente fazendeiros latifundiários, se colocaram ao lado de um golpe militar, daí a ditadura ter sido civil-militar.

O comício do presidente na Central do Brasil, em 13 de março de 1964, o discurso dos sargentos e fuzileiros navais no mesmo mês, as pressões de Carlos Lacerda (RJ), Magalhães Pinto (MG) e Adhemar de Barros (SP), a fala de Jango no Automóvel Clube, em 30 de março de 64, foram os principais estopins para estourar o golpe com a marcha do general Olímpio Mourão Filho que desceu de Juiz de Fora até o Rio de Janeiro, no dia 31/03, mas o ato só se consolidou mesmo no dia 1º de abril do mesmo ano.

O palestrante citou ainda o golpe sobre o golpe que ocorreu em 1968 quando todos direitos humanos foram suspensos através do AI-5 e a ditadura se tornou mais tirânica no governo do general Médici. O professor José Carlos pontou sobre as torturas, as mortes cruéis e o desaparecimento de presos políticos. Também falaram sobre a questão os professores Itamar Aguiar e José Rubens, o “Binho” ambos da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb, dentre outros que fizeram suas intervenções.

Logo após os debates, o músico e compositor Manno di Souza nos abrilhantou com suas cantorias ao lado da cantora Marta Moreno e seu Armando Santos. Jhesus, mais uma vez, nos encantou com seus causos de autoria do poeta Jessier Querino. Houve também declamações de poemas autorais de Jeremias Macário, Edna Brito, da Casa da Cultura, Eliene Teles, Rubens, dentre outros, num clima de amizade, troca de ideias e muita cultura.

Maris Stella aproveitou a ocasião para lembrar o falecimento dos professores Caetano e Nivaldo, da Uesb, que deixaram um grande legado para nossa cidade de Conquista, para a Bahia e até a nível nacional. No mais, o papo rolou descontraído sobre diversos temas até a madrugada numa noite rica culturalmente e acompanhada de um bom vinho, umas geladas, petiscos e um bode cozido preparado pela anfitriã da casa, Vandilza Gonçalves.

Participaram ainda do Sarau Colaborativo o galego espanhol Fernando, Rogério Mascarenhas, José Rubens (novos componentes), Rose Emília, Dall Farias, Cleu  Flor, Cleide Teles, Manoel Domingues Neto, o português Luís Altério, Odete Alves, Karine Grisi, Giovana, João Victor, Maria Clara, o músico Baducha e sua esposa Céu.

 

A ESCRAVIDÃO DOS CRISTÃOS BRANCOS PELOS TURCOS, MOUROS E MUÇULMANOS

Quando se fala em escravidão nossas mentes lembram logo de imediato a negra africana para as Américas, a mais cruel e vergonhosa, que durou cerca de 350 anos, mas ela sempre existiu desde o início da humanidade nos tempos primitivos.

Nas guerras, como no Império Romano, um exemplo, os prisioneiros se tornavam cativos do Estado e dos senhores oficiais donos das terras. A revolta dos escravos, comandados por Spartacus, reunião mais de 100 mil homens que, por pouco, não invadiram Roma.  Foi até escrito o romance “Spartacus”. E na Grécia antiga dos filósofos?

Na época das Cruzadas, nos séculos XI e XII, os derrotados dos dois lados se tornavam escravos. A Igreja Católica até criou ordens religiosas, como os trinitários, na França, e os mercedários, na Espanha, para resgatar, por altos preços, os seus fiéis do cativeiro.

Sem muita visibilidade porque poucos escreveram sobre o tema, em paralelo à escravidão africana, entre os séculos XVI e final do XVIII, aconteceu a dos cristãos brancos na região da Berbéria (Túnis, Argel e Trípoli) pelos corsários mouros, turcos e muçulmanos, sob o comando de Constantinopla, mais por motivos religiosos.

Alguns métodos e práticas de torturas foram até semelhantes. Quem explorou bem o assunto foi o historiador e pesquisador em Phd, Robert C. Davis, que publicou o livro “Escravos Cristãos, Senhores Muçulmanos”. Foi mais uma barbárie pouco divulgada onde os corsários em galés capturavam cristãos brancos da Inglaterra, França, Espanha, Portugal e Itália, principalmente.

Depois exigiam resgates caros ou eram levados para os chamados banhos públicos, um centro prisional no estilo dos campos de concentração nazistas. Como na escravidão negra, existia também um mercado de vendas desses cativos não resgatados pelo Estado e seus familiares, denominado de “Badistão”. Esses banhos públicos foram depois demolidos, sem deixar vestígios para preservar a memória.

Naquela época, as moedas mais utilizadas de compras eram os xelins ingleses, dinares argelinos, cequins venezuelanos, dólar espanhol, sultani de ouro turco, ducado veneziano, escudos romanos, patacas, grossi napolitano, piastras, onças sicilianas, dentre outras. Não se usava mercadorias como na Costa da África, no Congo, na Guiné e no Benin.

Os argelinos, com mais navios e piratas, foram os que mais investiram nas capturas de escravos cristãos brancos nobres, oficiais da marinha e pobres, na grande maioria camponeses e pescadores, entre início do século XVI ao XVIII. Eles visavam mais os italianos, muitos dos estados papais que tinham mais dinheiro para pagar.

Muitos, os mais pobres, ficavam 10, 20 e até 30 anos como escravos na Costa da Berbéria. Outros morriam nos cativeiros ou não resistiam aos espancamentos, torturas, surras, trabalhos forçados nas galés e terminavam se convertendo ao islamismo.

Os senhores reis, paxás e ricos das regências aproveitavam as mulheres para serem suas concubinas ou fazerem parte de seus haréns. Os homens eram seduzidos para serem seus cativos sexuais. Nos banhos públicos, devido a própria superlotação, eram comuns as práticas homossexuais, embriaguez, brigas constantes e mortes

 

 

CARNAVAL TAMBÉM É CULTURA

Carlos González

Evidente que essa afirmativa não se cinge ao Carnaval de Salvador, rotulado pela turma da imprensa, que “maceta” e chora com Ivete Sangalo, de “maior do mundo”. Refiro-me aos enredos das escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo, e às apresentações de frevo, ciranda e maracatu nas ruas e praças do Recife e nas ladeiras de Olinda. Seria injustiça deixar de fazer menção aos blocos afros da capital baiana, em especial ao Ilê Ayê, que há 50 anos vem preservando a cultura dos povos africanos.

O anúncio do bicampeonato da escola Mocidade Alegre no Carnaval de São Paulo, com o tema “Brasileia Desvairada – a busca de Mário de Andrade por um país”, significa um incentivo à cultura nacional, especialmente à literatura. Fundada em 1967, originária do bairro do Bom Retiro, a escola já ganhou 12 troféus como participante do Grupo Especial paulistano.

Certamente, muitos curiosos devem ter procurado saber quem foi Mário de Andrade (1893-1945). O autor de “Macunaíma” e um dos fundadores do modernismo no país, dedicou-se na juventude aos estudos no Conservatório de Música de São Paulo. Com a publicação em 1922 de “Pauliceia Desvairada”, uma coletânea de poemas, ele passou a ser considerado como a força motriz que revolucionou a literatura e artes visuais no país, a partir da Semana de Arte Moderna de 22.

Além de poeta, contista, musicólogo, cronista, historiador de arte, a fotografia faz parte da biografia de Mário de Andrade. Sua maior produção fotográfica foi feita durante as viagens que fez ao Norte e Nordeste do país. Em vez de documentar um Brasil falsamente europeizado, ele rebuscou a história, a cultura, o povo e o folclore do interior. Seus ensaios publicados por jornais paulistas eram ilustrados com suas fotografias.

Procurei relevar a arte fotográfica na pessoa de um dos maiores expoentes da cultura brasileira para dar suporte à minha crítica e assombro com a indicação dos beneficiados pela Lei Paulo Gustavo em Vitória da Conquista. Entre os 101 trabalhos selecionados por 12 “analistas técnicos”, cujos nomes não foram divulgados, não constatei em nenhum deles a história desta cidade contada através da fotografia.

Sem a tecnologia dos equipamentos de hoje – os mais velhos devem ter posado para os lambe-lambe -, excelentes profissionais, amadores e profissionais, documentaram nos últimos 100 anos o crescimento do antigo Arraial da Conquista, fundado em 1783. Os gestores municipais dizem que a lei determina que 20% da verba se destina aos negros e pardos. Segundo o Censo de 2022, a maioria da população de Conquista se declara parda – exatos 56,8% e 10,1% negros.

“Eu aprendi o português a língua do opressor/pra lhe provar que meu penar também é sua dor”. São versos do samba-enredo do Salgueiro, que levou para a Sapucaí, no Rio, a história do povo yanomami. Mitos e tradições de nações indígenas e africanas são temas de aulas de cultura transmitidas no Carnaval a milhares de pessoas que lotam as arquibancadas e camarotes dos Sambódromos do Rio e São Paulo. Carros alegóricos, fantasias, baterias e as tradicionais “baianas”, são utilizados para elucidar  esse alegre aprendizado.

Nas passarelas do samba desfilam também o turismo e o meio ambiente. Este ano, a Escola Acadêmicos de Tatuapé, originária da zona leste de São Paulo, presenteou os brasileiros, principalmente os baianos, com o enredo “Mata de São João – uma joia da Bahia”. Situado a 80 km de Salvador, o município vive economicamente em função do turismo, que pulsa no distrito de Praia do Forte, distante da pacata sede do governo local.

Além dos hotéis, pousadas e restaurantes para todos os bolsos, Praia do Forte, no começo da Linha Verde (acesso a Sergipe), tem como suas principais atrações, em qualquer época do ano, praias de águas tépidas e calmas, locais de preservação de tartarugas marinhas e baleias Jubarte; a Reserva de Sapiranga, apropriada para passeios ecológicos; e as ruínas do Forte de Garcia d’ Ávila, construído em estilo medieval entre 1551 e 1624.

Volto a Salvador e dou um pulo até o Circuito Dodô (Barra-Ondina), o preferido pelos ricos, famosos e celebridades, que não se arriscam a ir para o meio dos blocos, onde a plebe, oriunda dos bairros periféricos, e casais homoafetivos se espremem. A imprensa não divulga os fatos de natureza policial, como os dois estupros coletivos e mais de 600 denúncias de abusos sexuais, ocorridos no circuito vip.

Divulgadas incessantemente por uma parte da mídia, as “músicas” do Carnaval 2024 – um primor de talento e sensibilidade – receberam milhões de votos. “Macetando”, de Ivete Sangalo, virou o placar no último minuto, derrotando “Perna Bamba”, de Leo Santana. Os dois “compositores” já acertaram voltar à Barra em março. Prefeito Bruno Reis anunciou 10 horas com Bell Marques no aniversário de Salvador, nos mesmos 7 kms entre o Farol e a Praça Eliana Kertesz.

Na condição de ex-morador da Barra posso avaliar o sofrimento dos meus ex-vizinhos. O clima insuportável começa dois meses antes do Carnaval e não termina com o Arrastão de Carlinhos Brown e Ivete. Ao ouvir a palavra arrastão, a jornalista Mônica Waldvogel, da GloboNews, imaginou que grupos de menores assaltantes estavam invadindo as praias da cidade. Na realidade, a péssima iniciativa de Brown, acompanhada por outros artistas, não deixa de ser um crime, classificado de intolerância religiosa, uma grave ofensa aos católicos que celebram a Quaresma.

Em 2019, o então prefeito de Salvador ACM Neto vetou o projeto de lei de autoria do vereador Henrique Carbalall (PV), que acabava com o Arrastão, alegando que se baseou numa análise técnica e jurídica dos órgãos competentes. Confessou sua condição de católico e afirmou que o prolongamento do Carnaval na Quarta-Feira de Cinzas não afetava o funcionamento dos serviços públicos. A Igreja Católica nunca se manifestou a respeito.

 

 

 

 

 

 

 

DONO DE BAR DEVIA BEBER

(Chico Ribeiro Neto)

Todo dono de bar devia tomar uma pra ficar mais inteirado dos assuntos. Há os contrários a essa ideia achando que “macaco não pode vender banana.”

Desconfie de dono de bar que não bebe. Ele está sempre mal humorado, é um porre. Tem horror a bêbado e cospe de lado a cada cerveja que abre. E ainda tem aquele que vai logo perguntando: “Vão tomar quantas, porque eu já tô fechando?”

Se dono de bar bebesse poderia encontrar no final da noite, fechando o bar, uma bela morena de preto que só toma Campari.

Dono de bar que não bebe vai dormir triste e acorda aborrecido. Vai de mesa em mesa perguntar se você está gostando, senta na sua mesa sem ser convidado e ainda come do seu tira-gosto. Fica com o zoião vendo a banda passar.

Desconfie, amigo, do dono de bar que diz não beber, porque ele acaba bebendo escondido, “pra não dar ousadia.”

Dono de bar que não bebe não conhece a alegria de gritar: “Essa agora é da casa!” Dono de bar que toma uma entra em sintonia com o bêbado, viaja junto com ele, que diz belos poemas, passeia nas estrelas e dorme com sereias no fundo do mar.

Se todo dono de bar bebesse, alguns deles iriam esquecer de anotar o meu fiado.

Todo dono de bar devia tomar uns goró, molhar a palavra e “morder o rabo da cobra”, pra deixar de ser chato e de ficar lá do balcão olhando pra gente com cara de Madalena arrependida.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 





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