QUANDO SE MORRE…
É raro, mas vez por outra acontecem xingamentos e vexames em velórios e enterros quando se morre. Predominam o silêncio e a voz baixa, do cochicho no “pé de orelha”. Cada um faz rasgos de elogios ao falecido, mesmo que ele não tenha sido gente boa em vida. Tem os que vão de óculos escuros, inclusive à noite, para passar a impressão de pesar e sentimento de que até chorou.
– Este peste cafajeste morreu tarde! Olha aí esse bando de amantes bandidas, vagabundas e putas chorando em seu caixão! Nunca prestou, só vivia nos botecos e não se importava para os filhos. Me deixou à mingua. Vale a vingança afiada até na morte.
Este é o brado de uma senhora dona de casa que “rodou a baiana” e descarregou sua mágoa no ato da despedida finita do marido irresponsável. São coisas que acontecem mais nas classes baixas. Entre os ricaços, tudo é hipocrisia e os podres não aparecem, são levados para debaixo do chão.
Existe também aquela hilária cena do bêbado que entra no velório e faz o maior escarcéu contra o defunto? Mas também tem os parceiros das cachaças que abraçam o caixão e revelam segredos do “arco da velha” que todo mundo fica passado de vergonha. Uma decepção para os parentes, “amigos” e familiares. Aí, meu camarada, as fofocas se espalham pelas redondezas.
Tem aquele agiota ou credor que aparece com uma bolsa do lado e vai logo na maior cara de pau cobrando a dívida do morto. Abre os papéis de recibos e promissórias (ainda existem?) e mostra para o cônjuge e filhos. Coisa de louco no mundo do capital onde o dinheiro é o deus supremo!
Quando o sujeito é tão miserável e perverso, como os “coronéis” da antiga, rejeitado por todos, os filhos ou a esposa contratavam e ainda contratam as carpinteiras para chorar a noite inteira pela alma do facínora que “bateu as botas”. Elas ficam secas por dentro de tanto derramar suas lágrimas, mas ganham uns trocados para comprar um pedaço de pão.
Pelas brenhas do sertão nordestino já teve caso de se deixar o caixão do defunto na estrada antes de se chegar ao cemitério porque o indivíduo não prestava e tinha muitos inimigos. Na estrada para o cemitério, os caras dão uma parada e sentam no caixão para tomar umas pingas pelo defunto.
-“Vamos deixar esse “cabra” aqui mesmo na encruzilhada, compadre. Ele não mercê nossa consideração. Quem quiser que leve até o final do seu caminho. Esse indivíduo avarento sempre foi uma mão de vaca e ranzinza.
No cangaço, os chefes cangaceiros costumavam matar soldados “macacos” e desafetos e ordenar que os corpos não fossem enterrados. Ai de quem ousasse fazer o contrário! Na ditadura esquartejavam e desapareciam com os corpos dos presos políticos.
Tem o velório e a morte do pobre, do rico, do bandido, do poderoso político, do chefe de Estado e das celebridades famosas no mundo das artes que são diferentes uns dos outros, uma prova de que as desigualdades sociais não existem somente durante a vida.
As desigualdades profundas estão escancaradas até nos nos cemitérios das covas rasas de uma só cruz enterrada na terra e dos túmulos cimentados. Lembra o poeta João Cabral de Melo Neto, com seu poema “Morte e Vida Severina”. Ele conta a história do retirante e possui um trecho sobre o funeral de um lavrador, onde descreve uma “Cova grande/ Para teu defunto parco”.
Cemitério de rico é cheio de obras de artes de pedras preciosas, de mármores, granitos e decorações. As chamadas “carneiras” são grandes e sofisticadas com gavetas para abrigar toda família. Tem locais que se transformam em visitação turística.
Quem tem interesse em conhecer um cemitério de desvalidos e excluídos da sociedade? Pobre quando morre é mais um número que se vai. Em alguns locais o mato toma conta e se tornam pastagens de animais.
Coisa é quando parte um famoso ou famosa. Lá vêm os depoimentos cheios de chavões, adjetivos e superlativos, de inconfundível na sua maneira de ser, de coração bondoso, generosíssimo, de só vivia de bem com a vida, só sorrisos e alegria, insubstituível e por aí vão os falatórios de sempre.
A pessoa de projeção parece perfeita e santa, sem defeitos e ruindades quando morre. Vai todo mundo para o céu e nem passa pelo purgatório. Nada de inferno. Uns vão festejar no além, contar causos e piadas, fazer cantorias e rodas de conversas. Outros intelectuais, escritores e poetas vão discursar, travar debates acadêmicos, escrever e poetar.
No Brasil existe o costume ou a cultura de somente se prestar homenagem à pessoa depois de morta. Enquanto viva, é um simples esquecido, mesmo que só pratique o bem e seja um lutador das boas causas. Quando se morre lá vem gente querendo levantar estátuas, fazer homenagens com moções de aplausos e títulos. Aparecem mais mentiras que verdades quando se morre…











