Os negros cativos de São Domingos (hoje Haiti – “Pérola das Antilhas”) conseguiram a abolição da escravatura em 29 de agosto de 1793, mas a luta só foi totalmente consolidada com a independência, decretada em 1º de janeiro de 1804. Era a segunda independência nas Américas, após a dos Estados Unidos, em 1783.

Quem conta toda essa história é o escritor Marcel Dorigny em seu livro “As Abolições da Escravatura no Brasil e no Mundo”, no capítulo “A Primeira Abolição da Escravatura (1789-1804). Em “o fracasso da abolição do tráfico” (1789-1790), ele narra que a ofensiva contra o comércio negreiro foi inaugurada pelos ingleses através de uma moção parlamentar entregue a William Wilberforce, em maio de 1788.

No entanto, um lobbie ligado às colônias e aos armadores se mobilizaram contra a proposta com 14 mil assinaturas recolhidas em Liverpool. O projeto foi rejeitado. Do outro lado, os fundadores da Sociedade dos Amigos do Negros, de Paris, acompanharam os debates e seguiram a escola inglesa numa força conjunta pela abolição do tráfico.

Os dirigentes da Sociedade, liderados por Condorcet, lançaram em todo país francês uma vasta campanha contra o tráfico, mas não diretamente contra a escravidão em si. Nessa linha, um parlamentar inglês abriu a discussão no sentido do governo reduzir as comissões pagas para estimular o tráfico negreiro.

No início de 1789 o foco das proposições era a abolição do tráfico, mas, por detrás disso, questionava-se a abolição da escravatura. Da Inglaterra, o avanço voltou-se para Paris a partir da Declaração dos Direitos do Homem, votada em 26 de outubro de 1789, cujo artigo primeiro dizia que “os homens nascem e são livres e iguais em direitos”.

Mesmo assim, segundo Marcel, a lei colocava de fora a escravidão e o tráfico. Nesse contexto, a Sociedade Amigos dos Negros confiou ao parlamentar Mirabeau a missão de preparar um discurso contra o tráfico negreiro com o fim de arrancar uma lei de abolição de todo comércio de seres humanos. O trabalho mobilizou toda uma equipe de políticos, como Étienne Dumont, Étienne Clavière, Salomon Reybaz e o inglês Thomas Clarkson.

Com objetivo de sensibilizar a opinião pública, Mirabeau recorreu a fortes ilustrações de mortes e castigos impostos aos negros, como as máquinas de abrir a boca dos cativos para alimentá-los à força. Na verdade, o discurso não chegou a ser proferido, mais uma vez por causa dos movimentos em favor das colônias e dos armadores de navios.

O famoso discurso só foi lançado em 22 de março de 1790 diante da Sociedade dos Amigos dos Negros, só que não houve repercussão devido ao boicote dos conservadores. O assunto deixou de existir nas assembleias revolucionárias até que o deputado Grégoire retomou a questão, em 27 de julho de 1793. Uma convenção resolveu, então, acabar com o subsídio da República concedido ao tráfico.

Os “livres de cor”, mestiços e negros das colônias passaram a reivindicar os direitos civis e cívicos do artigo primeiro da Declaração dos Direitos Humanos. Os colonos reagiram e chegaram a excluir essa categoria de libertos das assembleias, criadas pelo decreto de 28 de março de 1790.

Diante disso, os “livres de cor” de São Domingos resolveram, no final de 1790, pegar em armas, seguindo o exemplo dos parisienses que tomaram a Bastilha. Mal organizados, os revoltosos foram logo esmagados e seus principais líderes Vicent Ogé e Jean-Baptiste Chavannes condenados ao apedrejamento em praça pública, em 25 de fevereiro de 1791. Os outros foram enforcados e sentenciados às galés.

Apesar do fracasso, as ideias de liberdade não deixaram de existir e tiveram um fértil terreno na cisão dos adversários que estavam em guerra, como a Inglaterra, França, Holanda e Espanha, que aliviaram a repressão. Outra rebelião começou em 23 de agosto de 1791, perto de Cap-Français, a partir de uma cerimônia noturna mágico-religiosa, de inspiração vudu e mesclada a ritos cristãos, no “bosque Caiman”.

Desse ato, 54 escravos prometeram jurar por liberdade. Boukman, letrado, vindo da Jamaica, foi o mestre da cerimônia. Logo foi morto, mas continua como um mito no Haiti. A Assembleia da França enviou tropas para combater os rebeldes, mas depois, como manobra, decidiu criar um decreto para aproximar brancos e “livres de cor”, concedendo a estes direitos políticos.

Dominada pelos partidários de Brissot, a Assembleia enviou três comissários a São Domingos (Léger-Felicité Sonthonax, Étienne Polverel e Ailhaud), para fazerem valer o decreto. Eles chegaram em 1792 em meio a uma guerra entre espanhóis e ingleses. A comissão fracassou e tiveram como saída a abolição, em 29 de agosto de 1793.

Abolida a escravidão, três novos deputados representando o povo de São Domingos foram eleitos e enviados a Paris, sendo eles Louis-Pierre Dufay (branco), Jean-Baptiste Mills (mestiço) e Jean-Baptiste Belley (negro). Eles chegaram em Paris em 1794 e foram detidos, mas soltos depois quando relataram tudo o que estava ocorrendo na colônia.

A convenção votou pela abolição da escravatura em Haiti, estendida às outras colônias, mas na prática a escravidão continuou em Guadalupe e na Guiana, conquistada tempos depois, em dezembro de 1794. Pela lei de 1º de janeiro de 1798, as colônias foram transformadas em departamentos.

Após o golpe de Estado de Napoleão Bonaparte, uma nova Constituição ignorou a integração das colônias, abrindo caminho para o restabelecimento da escravidão, principalmente com o fim da guerra com a Inglaterra (Tratado de Londres – 1801 e de Amiens – 1802). Em Guadalupe houve uma forte repressão e a escravidão voltou em 7 de julho de 1802. Em São Domingos, o enviado de Napoleão, seu cunhado Emmanuel Leclerc, se deu mal.

O exército indígena, liderado pelos generais Toussaint Louverture,  Jean- Jacques Dessalines e Jérôme Péttion conseguiu vencer a reconquista militar da colônia. Apesar da captura de Louverture, morto depois em Paris, as tropas francesas, comandadas por Rochambeau, capitularam em 18 de novembro de 1803.

A escravidão não foi restabelecida e São Domingos se tornou República do Haiti, em 1º de janeiro de 1804. “Assim, a Revolução Francesa nas colônias foi marcada pela revolta vitoriosa dos escravos de São Domingos, que lhe impuseram uma abolição radical da escravidão, estendida às outras colônias…” – conforme assinalou o escritor e historiador Marcel Dorigny.