UM VENDEDOR DE POESIAS
Uma alimenta o corpo e a outra a alma, o espírito. Estou falando das feiras de produtos agrícolas, de cereais, carnes, frutas, mantimentos em geral, bugigangas e tantos outras coisas nas pequenas e grandes cidades, com seus cheiros, sabores e cores, onde acontecem os encontros e encantos através das amizades do bom bate-papo, e das literárias com suas ideias, pensamentos, conhecimentos, saberes e livros de autores de diversificados gêneros. Ambas são culturais, uma mais popular, mas ricas.
Tanto numa como na outra existem aqueles bons vendedores propagandistas e comunicativos que, num bom argumento, sabem atrair o cliente para negociar o “seu peixe”, seja numa barraca, num cantinho qualquer, no chão, na mão ou num estande. Não importa se o local é confortável ou estratégico. O que mais conta como arma principal é a palavra, esta que vem do alto e sai da mente com aquela força que arrebenta corações.
Na I Fliconquista – Feira Literária de Vitória da Conquista. que foi encerrada neste domingo (19/11/23), tive o grande prazer de conhecer esse bom vendedor, mas de ideias e poesias, de conversa agradável e cativante, que segue como um peregrino ou mochileiro de longas caminhadas e histórias para contar. Onde chega ele vai logo pedindo passagem com seu axé.
Trata-se do nosso poeta José da Boa Morte que veio lá da capital, numa distância de pouco mais de 500 quilômetros num ônibus tipo comercial, mais conhecido como “pinga-pinga” que para em todos lugares. Com sua mochila de imaginações e sonhos, não teme a hora desde que cheguei em seu destino das letras. É isso ai, seu Zé da travessia.
Com seu jeito simples e matreiro, atento a tudo que ocorre em seu redor, ele pode ser chamado de o rei das feiras literárias porque está sempre presente nelas. Na Bahia ou em outros estados, lá está o José cortando estradas, encurtando distâncias entre as veredas e comendo poeiras.
Olho no olho, falante e contador de causos, usa até seus repentes para vender suas poesias, como Amor e Risos (Sem Fronteiras), livretos “ArtPoesia”, da poetisa goiana Cora Coralina (134 anos), Maria Firmina dos Reis, uma negra que canta a liberdade (Poesia, Prosa e Amor) e tantos outros escritores e poetas de renome. Em sua sacola, o perfume das flores.
Tive o privilégio de ficar ao seu lado num estante da Fliconquista e aprendi muitas coisas, como abordar o leitor e ser um bom vendedor de ideias. Fizemos uma parceria onde um vendia a obra do outro quando precisávamos dar uma saidinha e até participar de algumas atividades que rolavam na feira.
“Daqui do telão, ouvi sua palestra sobre Cenas de Resistências na História de Conquista e adorei, uma potência de informações” – disse-me o Zé. Não sou muito de ligar para elogios, mas quando é sincero, sinto que a missão foi cumprida e o recado foi dado. O fundamental é a mensagem que fica, mesmo que seja uma só pessoa.
Sempre se diz que o escritor, como o artista de outra linguagem qualquer sabe fazer sua arte, mas se enrola e tropeça quando parte para comercializar seu trabalho ou entrar nesses editais burocráticos, mas José aprendeu a se virar na hora de conquistar um novo leitor. Se o sistema é assim, quem está na chuva é para se molhar. Ele vai com ânimo e não desiste, mesmo quando recebe um não.
José da Boa Morte, em homenagem à Irmandade da Boa Morte, de Cachoeira – Bahia, contou que no seu primeiro dia da feira em Conquista, na quinta-feira (dia 16/11) não vendeu nada e quase retornava, mas repensou e enfrentou com coragem os outros dias. “Não posso ser vencido logo no primeiro dia”. “E agora José”? Tem uma pedra no caminho, mas é só retirá-la. Se perdeu a chave, existe outra forma de entrar.
Não se abateu e se deu bem. Ele me fez lembrar do bom barraqueiro das feiras livres que, com sua voz firme na garganta e simpatia, chama o cliente para si mostrando a qualidade do seu produto. Vai chegando meu povo que aqui tem coisa boa – grita o bom feirante! Nessa hora, não adianta ficar pensando em crises. Na literatura, acontece o mesmo.
O livro, a abóbora, a melancia, o pepino ou uma verdura têm suas peculiaridades e gostos diferentes, mas são iguais na mão de um bom vendedor. José escolheu o mais difícil e vai rompendo trilhas, conhecendo gente nesse mundão e acreditando em sua arte de escrever e vender.
É o José das ideias e das poesias. “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer” – já dizia o cancioneiro Geraldo Vandré, o Boby Dilan do sertão nordestino. “Para não dizer que não falei das flores”. Lá vamos nós cruzando a ponte e pedindo passagem nas travessias.














