:: abr/2024
“A MÁSCARA DA ÁFRICA” VIII
No livro “a Máscara da África”, o autor V.S. Naipaul, prêmio Nobel de Literatura, indaga ao seu amigo Rossatanga sobre o processo de iniciação. Ele responde que tinha ouvido muito acerca da iniciação quando jovem. “Todos no Gabão falam disso, ou ao menos parece. Ela requer um mestre, uma cerimônia com danças e tambores que dura a noite toda, e comer a raiz amarga de uma planta alucinógena, a iboga”.
Naipaul quis saber se nesse ritual de honra ao ancestral também está contida a ideia de virtude. Segundo Rossatanga, “não. Os ancestrais estão lá somente para oferecer resposta para nossos problemas e nos dar o que queremos. Você não tem voz na aldeia nem nos problemas dela se não tiver sido iniciado”.
Quanto ao fruto da banana, ele afirma que é um símbolo sexual da virilidade do menino, que se alimenta dela e o resto das frutas é esfregado em seu corpo. Com respeito às mulheres, ressaltou que elas têm o poder real. “Uma mulher pode não exercer o poder, mas o transmite ao seu filho”.
“Somos uma sociedade matrilinear, e as mulheres dão a vida. Esse país não foi feito para homens. O corpo das mulheres é mais forte e, por isso, são feiticeiras”. Informou ainda que “existem diversos sacrifícios rituais em que os olhos são removidos e a língua arrancada de vítimas vivas. Todo dia há um sacrifício ritual”.
Naipaul também conversou com o professor Gassiti, que também era farmacêutico por conta própria, e quis saber dele sobre a planta milagrosa do Gabão, o iboga. Respondeu que desde tempos imemoriais, a iboga tem sido usada em rituais de iniciação, e esses rituais são exclusivos do Gabão. “Podem ser chamados de patrimônio gabonês. A primeira tribo a conhecer a iboga foram os pigmeus”.
Foram os pigmeus que passaram todo esse conhecimento para outras tribos. “Eram os verdadeiros mestres e agora um americano tem uma patente e ganha milhões com ela”. De acordo com Naipaul, os pigmeus, o pequeno povo, foram os primeiros habitantes da floresta e se tornaram mestres para outras tribos. Conheciam outras incontáveis plantas, suas propriedades curativas ou venenosas. Foram os primeiros a desvendar a iboga alucinógena. Sobre este pequeno povo, vamos falar na próxima postagem.
UNIÃO APOSTA NA FOLIA
Carlos Albán González – jornalista
O diretório estadual do União Brasil acredita que manter o eleitor sacudindo os braços no meio de uma multidão, diante de um palco, ouvindo música de má qualidade, irá certamente favorecer seus candidatos a prefeitos e vereadores nas eleições municipais deste ano. Não importa se as necessidades básicas da comunidade, como saúde e educação – menciono apenas duas – sejam colocadas de lado.
Principal aliado do PL de Jair Bolsonaro, o União Brasil emplacou três ministros no governo Lula (Turismo – Celso Sabino; Comunicações – Juscelino Filho; e Integração e Desenvolvimento Regional – Waldez Góes). Enquanto o morador do Alvorada dorme, os bolsonaristas unidos trabalham dentro e fora do Congresso para minar o Executivo.
Afilhado de ACM Neto, Bruno Reis está praticamente eleito para mais quatro anos à frente da Prefeitura de Salvador. Com 40 pontos de vantagem sobre Geraldo Júnior (MDB), candidato lançado pelo governador Jerônimo Rodrigues (PT), somente uma “zebra” desmentirá as pesquisas.
“Salvador é a capital da folia”, frase dita objetivamente como condenatória pelos brasileiros do Sul e Sudeste do País, que, no entanto, sonham em vir conhecer o modo de ser do baiano carnavalesco. Bruno, com sagacidade, soube muito bem se aproveitar dessa “falta do que fazer” de uma grande parcela da população para criar um calendário de festivais musicais, para deleite dos empresários e artistas da folia.
Aluna bastante interessada em aprender os truques da política nesses três anos em que governou Vitória da Conquista, Sheila Lemos trocou os métodos inflexíveis do bolsonarista e evangélico Herzem Gusmão, pela argúcia de ACM Neto, cujo objetivo este ano é eleger os prefeitos dos municípios com mais de 200 mil habitantes, mas já idealizando governar o Estado a partir de 1º de janeiro de 2027.
Sheila é uma das peças no tabuleiro de xadrez do Neto. A ordem veio de Salvador: dê circo a esse povo, que nos finais de semana não tem lazer, nem cultura e nem esportes; não tem um sítio com piscina, e nem dinheiro para viajar até as praias de Ilhéus e Porto Seguro.
Sexta-feira (19) e sábado (20), na área externa do Shopping Boulevard, 18 mil foliões vão participar da Miconquista. Os ingressos foram trocados por dois quilos de alimentos. As atrações anunciadas: Ivete Sangalo, Bell Marques, Jau, Timbalada e outras; Safadão e Kannalha devem aparecer. O aedes aegypti mandou fazer a fantasia. A Prefeitura só não explicou quem vai pagar o cachê, as passagens aéreas, hospedagem e alimentação da comitiva carnavalesca, que deve reunir uns 80 integrantes.
Desperta, oposição! Exiga transparência. Imprensa, investigue! No momento, Conquista está na liderança dos municípios da Bahia com maior número de óbitos e de pessoas contaminadas pelo mosquito da dengue. As unidades de Saúde estão superlotadas, principalmente de moradores da zona rural e distritos. Muitos deles, depois de uma longa espera, são mandados para casa.
O Sudoeste Digital denunciou que a Secretaria Municipal de Saúde está maquiando os números da doença, “informando uma suposta redução dos casos, quando a situação é inversa”. O descaso com a saúde da população mais pobre ficou evidente na recente visita da ministra da Saúde Nísia Trindade a Conquista. A prefeita não foi ao seu encontro, mesmo sabendo que a ministra veio trazer recursos e ambulâncias para o município. A descortesia se prende ao fato de a alcaide ter ojeriza ao presidente Lula e aos seus assessores.
Os festejos juninos estão chegando. Prefeitos baianos, em clima de eleições, começaram a utilizar recursos da saúde e educação em contratações milionárias com cantores de axé, funk, sertanejo. Resumindo: lixo musical. O Tribunal de Contas dos Municípios deve ficar atento para os gastos.
UM CONHAQUE PRA FALAR DE AMOR
(Chico Ribeiro Neto)
“Já beijou na boca? Tem gosto de quê?”, perguntava o Caderno de Confidências aos adolescentes da década de 60.
É igual a ver o céu. A primeira namorada é uma sucessão de risos, emoções, sustos e sobressaltos. O coração bate forte, as pernas tremem, será que é verdade? Peguei na mão dela, subiu um arrepio no corpo todo.
Na hora do primeiro beijo a gente treme todo. Tinha um negócio de fechar o olho que eu nunca entendi bem.
Tinha uma zorra de uma técnica de onde botar a língua. Uma vez eu engasguei e comecei a tossir. Uma amiga me contou que treinava o movimento da língua num copo com gelo.
Aí estava consolidado. Beijou na boca já é namorado. E a rua inteira começava a falar: “Sabe da última?”.
Tinha um negócio de falar pra namorar: “Sabe, a gente já é amigo, mas eu sinto falta de algo mais próximo, entende?”. Aí você ouve um “talvez” que tem todo o sabor de um “Não”. Ou então ouve o terrível “vou pensar”, que de certo modo também tem cara de “não”, mas é melhor do que o “talvez”.
Tenho um primo que paquerava uma moça que ficava na janela. Ela correspondia aos olhares, mas cadê coragem pra falar? Um dia ele tomou um conhaque, foi lá e pediu para ela descer até a porta. Quando ela chegou na porta, começou a chover. Ele deu graças a Deus e foi embora. No dia seguinte dois conhaques resolveram o problema.
Lembro Carlos Drummond de Andrade:
“Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.” (Última estrofe de Poema de Sete Faces).
Nada mais humilhante do que sentir uma dor de barriga, daquelas brabas, na casa da namorada. É coisa pra terminar o namoro tal a vergonha que a gente passa.
No meu tempo de adolescente, década de 60, uma boa forma de começar um namoro era chamar a pretendida para ir ao cinema. Apagou a luz, acendem-se os beijos. A mão escorregava lentamente pelos ombros dela e, quando chegava perto do peito, era imediatamente afastada. Nem sempre…
Tava na hora de trocar as fotos com ela. Foto minha nenhuma prestava. Eu estava de calça curta em todas. Lembro que minha primeira calça comprida demorou pra lavar, pois eu não tirava pra nada. Só lavou depois de muita insistência de minha mãe Cleonice.
“O primeiro amor não fala… quase que não olha: suspira e treme; mas nessa linguagem muda diz muito… diz tudo” (Joaquim Manuel de Macedo).
Primeiro amor, primeiro beijo. Sabor de chiclete, calor do cinema, a gente pegando fogo, e a vida seria outra a partir daquele dia.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
OS TERRENOS E A DENGUE
Não acredito muito nessa de que a maior parte do mosquito da dengue esteja alojada nas casas de Vitória da Conquista, a terceira maior cidade da Bahia com maior índice da doença e de mortes. Não tenho dados científicos que comprovem, mas entendo que grande parte das pessoas é picada pelo mosquito nas ruas onde o bicho mais encontra moradia. A maior parte está nos terrenos abandonados, como este localizado na rua Veríssimo Ferraz de Melo (Rua “G”), no Bairro Felícia, com um matagal de capim de quase dois metros de altura. Só nesta rua, num espaço de 50 metros, existe mais outro na esquina da Avenida Felícia. Além dos terrenos abandonados que se tornaram lixeiras em toda cidade, existem ainda os esgotos abertos, o empoçamento de águas nas ruas de chão e locais de oficinas velhas que viraram sucatas de peças de veículos. É a partir desse quadro de sujeiras que afirmo que o maior culpado por essa epidemia em Conquista é o poder público que não fiscaliza e não faz cumprir a lei que exige que os proprietários de terrenos cuidem de seus imóveis, mantendo-os limpos, cercados ou murados. Essa imagem clicada pela nossa máquina é apenas um exemplo entre centenas e até milhares de terrenos nesse estado lamentável em nossa cidade, onde são criadouros de mosquitos de todas as espécies, insetos, ratos e cobras. Sem uma operação de limpeza geral desses terrenos, desentupimento e consertos dos esgotos em conjunto com a Embasa e pavimento das ruas esburacadas que viram lamaçais com as chuvas, não adianta carros fumacês. O poder público (município, estado e União) estão gastando milhões com a saúde, recursos que deveriam ser evitados se antes tivesse tomado essas providências. É uma vergonha Conquista ocupar o topo dessa epidemia na Bahia.
MESTRES DA FLORESTA
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Em nossa escolástica,
Lá no Gabão,
No ventre da mãe África,
Moram os espíritos ancestrais,
Dos curandeiros pigmeus,
Mestres da floresta,
Alma da flora e dos animais.
Eles são os mestres,
Dentro deles está a floresta,
Princípio da energia e magia,
Primitiva, alta e densa,
Com seus mitos e crença,
De diferentes sons e tons,
Sombras do dia,
Da noite, o breu,
Luz para o pigmeu.
Eles são os mestres,
Pigmeus da floresta,
Pais da raiz iboga,
No ritual da iniciação,
Da lenda odzaboga,
Na onírica viagem
Da filosófica alucinação.
Eles são os mestres,
Pigmeus da floresta,
Dos tambores musicais,
Artistas da pintura e da escultura,
Reis dos magos alados,
Das tribos fangs desprezados.
Eles são os mestres,
Pigmeus da floresta,
O pequeno povo coragem,
Que seus mortos, não enterra,
Para não poluir a terra,
Do banto fez a passagem,
Na fonte da cura espiritual,
Que arranca todo mal.
COMO ERAM AS PAQUERAS
Pelos idos dos anos 60 e 70, as paqueras rolavam mais descontraídas, se bem que tinham também seus limites para avançar. Não havia aquela preocupação de hoje em ser classificado no rol da importunação e do assédio sexual. Existia aquele negócio do psiu, oi beleza, bom dia, boa tarde e boa noite, coisa linda e até saia o “gostosa!”, com cantadas hoje considerados cafonas.
Me lembro bem dos anos 70, em Salvador, estudante sem dinheiro, lascado mesmo, que morava na Residência Universitária da Ufba. Era um tanto tímido, recém-saído do seminário e vindo do interior, sem traquejo e jeito para lidar com as “minas”. Havia até mulher que me dava bandeira e perdia com receio de chegar junto.
Nas tardes de domingo ia com um colega ao Campo Grande para paquerar as empregadas domésticas que, de forma politicamente incorreta e depreciativa, as chamavam de “graxeiras”. Coisa horrorosa! Outras vezes era na Barra ou Rio Vermelho. Para nós eram pontos estratégicos em finais de semana.
A gente fazia até umas “pegadinhas” com uns caras chatos, simulando uma ligação de que tinha uma garota lhe esperando em tal lugar, só que era uma armação. O sujeito virava o “bicho” e nos xingava. Sem grana no bolso, quase todo mundo vivia na “sequidão sexual”, como se falava no popular.
Até parece que elas nos esperavam, sozinhas ou acompanhadas nos bancos das praças. As intenções pareciam as mesmas: Dar uns agarros, umas namoradas e contar mentiras sobre o nome e onde morava. Elas eram bem arrumadinhas e simples, com aquelas colônias antigas e vestidos de bolinhas ou chitas. A grande maioria tinha origens interioranas.
– Você fica com aquela e eu fico com a outra. Tudo bem, sem brigas na divisão. Qualquer coisa servia. Bom dia ou boa tarde, o dia está lindo, qual seu nome e você é donde? Eram os primeiros papos para engatar uma conversa e, com muita demora, pegar na mão e ir escorregando para outras partes do corpo. – Não venha com sua mão boba – repelia a moça, mas depois deixava! Beijos quentes e grudados!
Tinham os mais atrevidos e extrovertidos que iam mais diretos. No meu caso sentia até medo de tomar um fora. Como disse antes, não levava jeito, mas dava para o gasto. Muitas vezes chegava aos beijos e apertos, com aquele fogo todo que o “danado” lá dentro ficava todo excitado. Não importava se era menina, coroa e nem ligava para a cor da pele. Aconteciam coisas hilárias. Dificilmente se pegava um gênero errado. Nada de papo difícil.
Outras vezes ia ali para o Gabinete Português de Leitura, na Piedade, com um amigo e ficava de butuca de olho numa mulher, fazendo de conta que estava lendo ou pesquisando alguma coisa. Tinham os horários e dias certos das paqueras.
Quando pintava uma boa, não dava para levar num bar e restaurante por causa da conta. Entrava o “jogo de cintura” para dar uma desculpa. No caso de duas juntas, às vezes você queria uma, mas era a outra que estava de olho no paquerador. Na base do bilhetinho escondido, dava para pegar as duas, num outro encontro.
Nos bares, quando conseguia botar um dinheirinho no bolso, ficávamos na espreita tomando umas cachaças para esquentar, mas, as mulheres pouco frequentavam esses lugares, principalmente sozinhas, no máximo acompanhadas. Não dava muito reague, como se dizia no popular.
Nas festinhas de radiolas (os assustados) ou nos eventos de ruas, tínhamos que tomar umas quentes para ter coragem e chegar até a “mina”. Muitas vezes era mais paquerado do que paquerador. Ainda valia o olhar, como sinal de que a mulher estava a fim de você.
Na maioria, arranjávamos uma namorada, mas não tinha muita opção de lugar para levar, a não ser aqueles com alguma grana na carteira. Geralmente os namoros de esfrega-esfrega eram nos cantos, becos e nos escondidos. Não existia tanta violência naquela época e, na hora do vamos ver, nem estava aí para ninguém. Vida de pobre era assim e a “caça” era escassa.
Naqueles tempos os jovens, mesmo com mais dificuldades para a sobrevivência e sem muitas alternativas, eram mais alegres, divertidos e com amizades sinceras, sem essas frescuras de traumas por causa de apelidos e gozações uns com os outros.
Hoje são mais estressados, fechados e reclusos com seus celulares grudados nas mãos. Dão poucas importâncias às famílias e passam mais o tempo trancados em seus quartos. São menos sociáveis e nem respeitam mais os idosos, quanto mais os pais.
Com esse pavor de tudo ser considerado como assédio sexual, não se “bole” mais com as “minas” nas ruas e lugares fechados, embora as mulheres sejam mais independentes e frequentem mais bares, restaurantes e festas sozinhas. As pessoas ficaram mais arredias e se sentem vigiadas pelas câmaras. É aquela coisa de cada um ficar na sua.
Bons tempos daquelas paqueras de antigamente com frases hoje tidas como cascas grossas, mas quando dava certo, os papos tinham mais conteúdos. Hoje só saem besteiróis. As conquistas eram mais “suadas” e, na maioria, as paqueras terminavam em casamentos duradouros.
Muitas coisas ocorriam também nos transportes públicos, nos ônibus, kombis, mas poucos tinham telefones para marcar os próximos encontros. Tudo tinha que ser resolvido na hora.
“A FOGUEIRA DAS VAIDADES”
As vaidades do ser humano estavam represadas até o advento da internet e das redes sociais nos aparelhos de celulares e os avanços tecnológicos de interatividade nos canais televisivos. Abriram-se as porteiras das boiadas. A impressão que passa é que todos estavam presos nos armários.
Existe uma necessidade premente de se aparecer, não importando se de forma ridícula e até expondo suas privacidades mais íntimas. Não se valoriza mais o ser simples e humilde, não aquela humildade de se baixar a cabeça e a tudo aceitar e concordar.
Quem já assistiu ao filme “A Fogueira das Vaidades”, de Brian de Palma, com Tom Hanks, Bruce Willis, no papel de um jornalista sem prestígio e Morgan Freeman, um juiz fanfarrão e sem papas na língua, vai perceber como funciona esse jogo e o desejo devorador do humano de se mostrar para a sociedade, numa ansiedade de se notabilizar, mesmo que de maneira superficial e leviana. O filme foi baseado no best-seller de Tom Wolfe.
Acho até que todo jornalista deveria assistir essa obra cinematográfica por ser uma categoria onde muitos se perdem no caminho das vaidades, achando que são deuses e celebridades, quando deveriam estar simplesmente à serviço da notícia, guardando suas devidas proporções de modo a não se expor. A vaidade faz o profissional afastar-se do foco da responsabilidade e termina caindo na parcialidade, sem ética e escrúpulo.
Minha intenção não é focar a vaidade na classe jornalista, mas das pessoas comuns que buscam uma fama efêmera e vazia, de dois ou três minutos, principalmente nas redes sociais, com vídeos idiotas e imbecis, sem nenhum conteúdo, com intuito apenas de chamar a atenção, como se dissesse: Olha gente, estou aqui, eu existo.
São dancinhas esquisitas e exóticas, papagaiadas, rebolados, bundas e pernas de fora, inclusive de mulheres que acham que tais atitudes são demonstrações de empoderamento, quando, na verdade, estão sendo objetos e se rebaixando.
Não se trata de uma questão de conservadorismo, mas de coerência com o que se prega, quando na prática faz-se o contrário. Estou falando também dos homens. Perde-se o respeito por pura vaidade, se não me engano, um dos pecados capitais, ao lado da inveja. Todo vaidoso é invejoso. Nem é preciso dizer que nesse mundo moderno contemporâneo, escrachado e inescrupuloso houve uma grande inversão de valores.
O que mais se vê e se ouve nas redes sociais são pessoas sem nenhum preparo e formação, arrotando um monte de besteiras, sem nenhum fundamento e, do outro lado, milhões, automaticamente, clicando no sinal curtir, tornando-se seguidores de bobagens e exibições corporais. O pior é que os pais de hoje jogam as crianças nesses lances fúteis e inúteis, deformadores de personalidades.
Agora inventaram o tal do influenciador (a) digital de um povo que entra na onda e consome tudo que cai na rede, mesmo sendo peixe podre. Infelizmente, por falta de educação, cultura, conhecimento e saber, a nossa população de hoje idolatra o besteirol e o charlatanismo, como no caso desse BBB dentro de uma casa, dizendo que tudo ali é uma grande aprendizagem para a vida.
Vivemos num mundo das fogueiras das vaidades com seus milhões de seguidores. Isso acontece também na política e em tantos outros segmentos da nossa sociedade. A vaidade leva as pessoas a passarem a rasteira nos outros, utilizando métodos desleais e inescrupulosos.
A POLÍTICA É UM ENTRAVE PARA O PAÍS QUANDO DEVERIA SER UMA SOLUÇÃO
O imoral foi legalizado. Desde o Império, os esquemas escusos, inescrupulosos, corruptos e interesseiros nada mudaram. Na época de D. Pedro II, por exemplo, era a bancada da oligarquia do café que mandava na Câmara. Os oligarcas resistiram até o fim à abolição da escravidão. Para se vingar, de tudo fizeram para derrubar a monarquia em conluio com os marechais.
A partir dali, (no primeiro reinado de D. Pedro I já era assim), veio a República, coisa pública nenhuma (está mais para privada), e a política nesses 135 anos continuou sendo um entrave e não uma solução para o nosso desenvolvimento econômico e social justo e equilibrado. As desigualdades só se agravaram, com ciclos de altos e baixos. As elites capitalistas e os políticos coligados a elas mandam e o presidente só obedece.
Em boa parte do planeta, especialmente na Europa, a esquerda socialista falhou por falta de competência, seriedade, ética e honradez, e os extremistas malucos bárbaros cada vez mais estão ganhando seus espaços, disseminando matanças, ódio e intolerância.
Com essa política neoliberal, misturada com assistencialismo e populismo, sem alternativas para erradicar a pobreza, a extrema só avança porque a esquerda, em seu lugar de conforto (trocou a cachaça pelo o uísque), esqueceu de trabalhar as bases, deixando-as na ignorância como vítimas fáceis da manipulação dos vampiros que sugam seus sangues noite e dia.
Entre os próprios partidos, inclusive de esquerda, que prega democracia, o que vemos são decisões ditatoriais de poderios dos chefes, vindas de cima para baixo, sem respeitar os filiados, principalmente os que estão nos diretórios municipais. Aqui, quem está no poder se acha dono dele, seja no executivo, no legislativo, no judiciário ou como presidente de um partido.
Desde a República para cá tivemos mais de 50 anos de ditaduras, a começar por Teodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, no início dos anos 1900, Getúlio Vargas (1930 a 45), Eurico Gaspar Dutra até os idos de 1950 e a ditadura civil-militar de 1964 que durou mais de 20 anos. Passamos pelo suicídio de Vargas (1954), ameaça de um golpe com Café Filho, a renúncia de Jânio Quadros, em 1961, a cassação de Collor de Mello (2002) e a derrubada de Dilma Rousseff pela direita, em 2016.
Pelo que eu saiba, na história deste país, fora dos regimes de opressão, todos os presidentes sempre foram reféns – não que pregue ditaduras – do Congresso Nacional, o mais caro do mundo e o maior cancro da nação, com seus caudilhos e negociadores de apoios, na base do toma lá e dá cá. Além de ser fisiologista, é cheio de traidores e cobras venenosas.
Com o passar dos anos só fez piorar com suas bancadas retrógradas e cada vez mais de direita extremista. Há 15 ou 20 anos, os evangélicos conservadores começaram a tomar assentos em suas cadeiras com suas ideias medievais. Essa gente se intitula de patriota e defende a instituição família, mas faz tudo ao contrário.
Por sua vez, o PT, que ficou 16 anos no poder, depois de quatro anos desastroso do capitão-presidente, voltou agora repetindo os mesmos erros do passado, com uma governança e um discurso neoliberal. Com um agrado do Bolsa Família e algumas políticas públicas de inclusão, o partido esqueceu de trabalhar suas bases que lhe deram sustentação no início e vem perdendo espaço para o retorno da extrema direita.
Diante do exposto, onde temos cerca de 35 partidos, a grande maioria meros barrigas de alugueis, cujos proprietários fazem seus conchavos lá em cima, sem ouvir seus filiados, as pessoas de bem, ilibadas e honestas desistiram ou se afastaram da política dizendo ser coisa suja, de gente que não tem escrúpulos e vergonha na cara.
Outra questão a ser avaliada é que, pelo esquema montado pelo próprio sistema eleitoral em vigor há anos, não há como as pessoas sérias e sem condições financeiras, disputar uma cadeira, seja no âmbito do Congresso, das Assembleias Legislativas Estaduais, das Câmaras Municipais e dos executivos.
Com o modelo de reeleições infinitas nos legislativos e dois mandatos para os executivos em geral, todos eles usam a máquina do poder na mão, não importando se de forma legal, mas imoral. A não ser para os herdeiros de votos, as chances para quem quer assumir um cargo pela primeira vez são raras. É outro motivo pelo qual os bons não querem entrar mais na política.
AS DESIGUALDADES NO FUTEBOL BRASILEIRO
Carlos González – jornalista
Pouco mais de 1.000 jogadores profissionais, vinculados a 27 clubes, comemoraram esta semana o título de campeões em seus estados. Uma conquista que, no passado, tinha um enorme valor, mas que ultimamente vem sendo esvaziada pela própria CBF, que impõe às federações filiadas um calendário anual prejudicial à maioria dos clubes, que permanecem sem atividades durante nove meses do ano. Distantes das festas e das gratificações, estão desempregados, a partir deste mês, cerca de 9.000 mil atletas. Alguns deles vão ser chamados para vestir a camisa dos 88 times que disputarão as séries “C” e “D” do Brasileirão. A maioria vai esperar janeiro chegar.
Vamos tomar como exemplo o futebol baiano. O Bahia está com a agenda cheia até o fim do ano, participando da Copa do Nordeste, da Copa do Brasil e do Brasileirão da série “A”; o Vitória se resume à disputa do grupo de elite do Nacional; Juazeirense, Jacuipense e Itabuna iniciam este mês uma dura prova, a quarta divisão do Campeonato Brasileiro, utilizando a malha rodoviária para cruzar o país.
Com receio de um prejuízo financeiro, a direção do Itabuna pensou em abrir mão da vaga. O socorro virá através do governo do Estado, cedendo o Estádio de Pituaçu para os treinos e partidas. O Vitória garantiu o empréstimo de 16 jogadores da equipe sub-20. Assim, o Itabuna, que estava mandando seus jogos em Ilhéus, passará a residir temporariamente em Salvador.
Barcelona de Ilhéus, Jequié, Jacobina e Atlético de Alagoinhas (bicampeão estadual – 2021 e 2022) colocaram seus atletas na rua, com a promessa de voltarem a treinar em janeiro de 2025; Bahia de Feira de Santana, campeão baiano de 2011, caiu para a 2ª divisão e não tem previsão de quando tornará a pisar num gramado. Uma dura realidade que será compartilhada com o Santa Cruz, o mais popular clube pernambucano, cujo estádio, o Arrudão, deverá ir a leilão, por imposição dos credores.
Segundo o calendário da FBF (Federação Baiana de Futebol), o Campeonato Baiano da série “B” será jogado entre os dias 9 de junho e 11 de agosto. Até o momento não há um planejamento. Entre os dez clubes com vaga assegurada somente Vitória da Conquista, Galícia, Fluminense de Feira e Colo-Colo prometeram se inscrever.
O Estádio Lomanto Júnior está fechado para jogos entre equipes profissionais desde 9 de julho do ano passado, quando o Vitória da Conquista encerrou sua apática participação no Baianão, derrotando o Jequié, por 2 a 0. Pelo tempo sem uso, o gramado deve estar um tapete (fala aí, prefeita Sheila Lemos e secretário Eugênio Avelino).
Para voltar à elite do futebol baiano, o Vitória da Conquista promove no momento pela internet a venda do seu novo uniforme por R$125. O passo inicial é pagar a taxa de inscrição de R$ 8 mil, instituída pela FBF. A peregrinação habitual à prefeitura para pedir ajuda – em troca, os “cartolas” ouviam promessas – ainda não foi agendada. O momento é ideal para estender o chapéu. O ano é eleitoral e a Sheila está empenhadíssima em se manter no cargo. Procura o presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues. Antes de ser torcedor do Vitória, Nadinho é conquistense.
Nesses últimos meses de recesso, o presidente Ederlane Amorim cuidou das divisões de base do Vitória da Conquista. O time sub 20 participou nos últimos três anos da Copa São Paulo de Futebol Júnior, o mais importante torneio da categoria realizado no Brasil. O dirigente não esconde seu entusiasmo quando revela que o clube alviverde obteve o Certificado da Lei de Incentivo ao Esporte.
O programa do Ministério da Educação permite que doações feitas por pessoas físicas ou jurídicas a clubes que dão suporte às divisões de base sejam deduzidas do Imposto de Renda. Esses recursos são destinados exclusivamente à formação esportiva de jovens entre 13 e 20 anos.
Êxodo
“Vivemos uma terça-feira de fábula, deixando em êxtase os apaixonados pelo futebol”, escreveu o jornalista Juca Kfouri, após assistir esta semana ao jogo entre Real Madrid e Manchester City pela Champions. Futebol sem violência (apenas 18 faltas), sem simulações de faltas e sem a irritante “cera”. No feminino sucede o mesmo. Façam uma análise técnica da Seleção da Espanha, campeã do mundo, ou do Barcelona.
Quando as nossas equipes atingirão esse degrau? Se você não tiver bons atores não vai poder encenar um “Hamlet”, de William Shakespeare. Se você não dispõe de jogadores de excelente nível técnico não há condições de armar um time com as virtudes do Manchester City, carrasco do Fluminense na final do Mundial de Clubes.
Dentro de três meses o atacante Endrick estará se apresentando ao Real Madrid. Vai se juntar a outros brasileiros, Rodrigo e Vini Jr, que já brilham no clube madrilenho. Segundo a CBF, quase dois mil jogadores brasileiros estão atuando no exterior. Alguns foram negociados por milhões de euros; outros se aventuraram, como o sergipano Diego Costa, que deixou Lagarto em 2006 para jogar na Espanha, onde adquiriu a cidadania espanhola e vestiu a camisa da “Fúria”.
Diego Costa regressou ao Brasil e hoje defende o Grêmio, recebendo um salário acima de R$1,5 mi. Com 35 anos está incluído entre os 20% de jogadores que ganham acima de R$ 200 mil. Ainda segundo a CBF, mais de 50% dos atletas cadastrados recebem um salário mínimo. Muitos contratos feitos com os clubes são temporários, vigendo de janeiro a abril, período de disputa dos campeonatos regionais.
Houve uma época em que um Bahia x Vitória no velho Estádio Octávio Mangabeira, com a presença de tricolores e rubro-negros, registrava um público de 90 mil pessoas. Domingo passado, na final do Campeonato Baiano, a Arena Fonte Nova recebeu 48,5 mil tricolores, que deixaram nas bilheterias a soma de R$ 1,7 mi. A média de público em 51 jogos foi de apenas 7.002, sexta posição entre os principais torneios regionais do Brasil.
“A MÁSCARA DA ÁFRICA” VII
Ainda em sua viagem ao Gabão, pelos idos de 2008/09, a terra dos mestres da floresta, os pigmeus, V. S. Naipaul observou que “qualquer que fosse a religião formal professada pela família (cristã, no caso) havia aqueles antigos costumes africanos que tinham de ser honrados e que eram talvez mais prementes do que a fé exterior formal”.
Ele conversou com seu amigo Rossatanga-Rignault que contou a história dos quatros macacos sentados num cemitério com faixas vermelhas nas testas. “ O vermelho é uma cor muito poderosa do Gabão. Estavam perdidos e, por fim, encontraram o caminho de volta para a aldeia.
Por falar em aldeia, Rossatanga diz que, levado pela sua mãe, quis fugir dela. Lembra que, quando chegaram lá, um homem lhes disse que não jogassem lixo, nem qualquer outro elemento poluente, no córrego que passava pela aldeia. Um espírito ou gênio vivia ali e não gostava que o córrego ficasse sujo. Um americano afirmou que aquilo era magia negra e, para provar sua tese, cuspiu no córrego.
Rossatanga narrou para Naipaul que dez minutos depois não havia mais água ali, e o povo gritou e protestou. A aldeia ficou em pé de guerra. “Tivemos que fazer um monte de coisas por meio do curandeiro local para aplacar o gênio do espírito”. Assinala que “gastamos muito dinheiro e, depois de várias cerimônias e rituais, a água voltou depressa”.
Rossatanga se tornara um crente na magia da floresta e, como outros crentes, tinha diversas histórias para provar sua tese. Ele descreve outra passagem sobre uma ponte que tinham que fazer no rio e que a comunidade alertou para que os engenheiros pedissem permissão ao gênio.
Os engenheiros holandeses apenas riram daquilo. “Todos os dias morria um operário na obra. As pessoas ficaram muito assustadas e até mesmo os engenheiros acharam que deviam suspender o trabalho. Disseram que iam trazer um exorcista junto com o curandeiro local para aplacar o gênio. Executaram diversos rituais e, finalmente, tiveram licença para construir a ponte”.
“Acredito que esses espíritos da floresta estão ligados à psique do nosso povo, mesmo das pessoas que vivem na cidade. Essa é uma razão pela qual as igrejas evangélicas americanas tiveram tanto sucesso aqui. Elas também invocam o espírito do Senhor para remover o mal. É parecido com o que fazemos quando vamos ao curandeiro para remover o mal. O princípio é o mesmo. O ponto comum é o espírito”- comentou Rossatanga.
Para ele, não se trata de uma religião, mas de uma crença. Em sua comparação, a crença da floresta, o mundo orgânico, o mundo que conta, é como uma pirâmide. “O primeiro nível são os minerais, o segundo nível são as árvores e a flora, o terceiro são os animais e o quarto são os seres humanos”.
Em falando dos idosos, em seu entendimento, são especiais porque têm o poder e estão próximos aos ancestrais. Somente os ancestrais podem anteceder junto a Deus. “Cada família tem um ancião que consegue falar com o ancestral. Em cada família existe um homem escolhido para a função. O modo de cultuar é através da iniciação, um rito e uma prática fundamental”.












