Um poeminha de Jeremias Macário em homenagem a Manuel Bandeira e, em especial, aos ciganos

Num sábado à noite, lá pela madruga, estava eu ouvindo uma boa música e degustando meu vinho. Alguém bateu em minha porta e fui atender. Para minha feliz surpresa, era o velho poeta Manuel Bandeira. Disse que estava numa farra com amigos e resolveu passar para um abraço e me fazer um convite.

Tomou uma taça de vinho e foi logo me chamando para ir com ele para Passárgada.

– Agradeço o seu convite, meu camarada Bandeira, mas não vou para Passárgada. Estou de malas prontas para o país dos ciganos:

Vou me embora para meu país dos cantantes,

Lá serei poeta dos ciganos todos os anos,

Com minha estrela de cinco pontas no peito,

Na cintura meu punhal cravejado de rubis,

Entre as mais belas mulheres dançantes,

Anéis de ouro e saias coloridas esvoaçantes.

Como meu espírito de guerreiro sempre quis.

 

Vou ser líder kaku homem grande boró,

Ser Rom, Sinti e falar o meu Romani,

Com meus irmãos em carroças viajantes,

Entre tsigane, kalderask, ursari e rudari,

Be m longe desse mundo do gadjé marimé,

Não mais um vatrasi propriedade de um dono,

E em minha rede sonhar no meu sono cigano.

 

Não vou ser lacaio desse governo velhaco,

Prefiro ser um cigano da Hungria valaco,

Viver nas tribos da protetora Santa Sara,

Em meu clã cigano como lovara ou gitano,

Não mais nessa terra ser um servo vassalo,

Viajar por aí galopando em meu cavalo,

Pois morada e casa de cigano é uma estrada.

 

Vou ser tocador, latoeiro ou caldeireiro,

Até um nobre conde ou duque de dinheiro,

Nômade livre e não mais preso sedentário,

Bem longe desse enfado miserável salário,

Serei rei e farei contos que nunca contei.

.

 

Vou ter saudades de você, amigo Bandeira,

Quando for banhar na encantada cachoeira,

Passear pelas terras do Nilo, Tigre e Eufrates,

Como cigano manouche e Ziguener dos embates,

Não mais como da Romênia um escravizado,

Sem mais essa opressão do trabalho forçado,

Nem viver nos campos nazi de concentração,

Mas como legal calonkalé da Espanha/Portugal,

 

No meu país cigano vou ter meus lares,

Sem ser acorrentado nas galés desses mares,

Lá serei chamado de egípcio ou como quer,

Como metaleiro ferreiro e festeiro de feira,

A peregrinar em Santes Maries de la Mer,

Fazer melodias nos rituais das magias,

No meu país cigano, meu mano Bandeira.

 

Vou me casar com minha bela turmalina,

Morena menina de olhos e cabelos pretos,

No círculo da fogueira sagrada a dançar,

Com minha doce de pedras verdes/vermelhas,

Brincos de ouro com ametistas nas orelhas,

Ao som dos ventos e o luar dos violinos,

Entre as ciganas a bailar com os meninos.

 

Minha morte será com festas e banquetes,

No caixão, enfeites de flores e moedas antigas,

Sepultado debaixo de uma frondosa árvore,

E voltar de novo com as minhas cantigas,

Pra lutar contra as perseguições do meu povo

 

Como menino no país dos peregrinos,

Dos tártaros, sarracenos e dos hindus,

Vou por aí a cantarolar sem rumo e destino,

Não mais como vadio viver em correrias,

Só ver minhas crianças brincar sua infância,

Sem o passado de ódio, morte e intolerância.

 

Vá meu mano para o seu país do cigano.

Vou para Passárgada onde também serei rei.