UM CONHAQUE PRA FALAR DE AMOR
(Chico Ribeiro Neto)
“Já beijou na boca? Tem gosto de quê?”, perguntava o Caderno de Confidências aos adolescentes da década de 60.
É igual a ver o céu. A primeira namorada é uma sucessão de risos, emoções, sustos e sobressaltos. O coração bate forte, as pernas tremem, será que é verdade? Peguei na mão dela, subiu um arrepio no corpo todo.
Na hora do primeiro beijo a gente treme todo. Tinha um negócio de fechar o olho que eu nunca entendi bem.
Tinha uma zorra de uma técnica de onde botar a língua. Uma vez eu engasguei e comecei a tossir. Uma amiga me contou que treinava o movimento da língua num copo com gelo.
Aí estava consolidado. Beijou na boca já é namorado. E a rua inteira começava a falar: “Sabe da última?”.
Tinha um negócio de falar pra namorar: “Sabe, a gente já é amigo, mas eu sinto falta de algo mais próximo, entende?”. Aí você ouve um “talvez” que tem todo o sabor de um “Não”. Ou então ouve o terrível “vou pensar”, que de certo modo também tem cara de “não”, mas é melhor do que o “talvez”.
Tenho um primo que paquerava uma moça que ficava na janela. Ela correspondia aos olhares, mas cadê coragem pra falar? Um dia ele tomou um conhaque, foi lá e pediu para ela descer até a porta. Quando ela chegou na porta, começou a chover. Ele deu graças a Deus e foi embora. No dia seguinte dois conhaques resolveram o problema.
Lembro Carlos Drummond de Andrade:
“Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.” (Última estrofe de Poema de Sete Faces).
Nada mais humilhante do que sentir uma dor de barriga, daquelas brabas, na casa da namorada. É coisa pra terminar o namoro tal a vergonha que a gente passa.
No meu tempo de adolescente, década de 60, uma boa forma de começar um namoro era chamar a pretendida para ir ao cinema. Apagou a luz, acendem-se os beijos. A mão escorregava lentamente pelos ombros dela e, quando chegava perto do peito, era imediatamente afastada. Nem sempre…
Tava na hora de trocar as fotos com ela. Foto minha nenhuma prestava. Eu estava de calça curta em todas. Lembro que minha primeira calça comprida demorou pra lavar, pois eu não tirava pra nada. Só lavou depois de muita insistência de minha mãe Cleonice.
“O primeiro amor não fala… quase que não olha: suspira e treme; mas nessa linguagem muda diz muito… diz tudo” (Joaquim Manuel de Macedo).
Primeiro amor, primeiro beijo. Sabor de chiclete, calor do cinema, a gente pegando fogo, e a vida seria outra a partir daquele dia.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)











