abril 2024
D S T Q Q S S
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
282930  

:: abr/2024

CAMPO GRANDE-PRAÇA DA SÉ, UM TRAJETO DE LEMBRANÇAS

(Chico Ribeiro Neto)

Republicar crônica é igual a café requentado, mas essa que reproduzo hoje, pulicada no jornal “A Tarde” em 22/8/1990, ainda conserva um bom gostinho. Vamos a ela:

Sem pegar o ônibus circular, mas andando no bonde da lembrança, faço um percurso do Grande Grande à Sé, uma trajetória de infância, amor e fé.

No Campo Grande vejo as tardes fogosas do Dois de Julho, quando as meninas recém-tomadas banho balançavam os rabos-de-cavalo dentro de meus olhos. Zezéu, um candidato, pertencia a uma turma do Campo Grande e um dia quase brigamos com eles. Coisa de turma de rua, onde qualquer assobio errado era motivo de chamar pra porrada.

Muita coisa ainda vem do Campo Grande, como as festas dançantes do Cruz Vermelha ou a cerveja no “Brasa”, mas já estou passando pelo Forte São Pedro, onde a feira mudou pro outro lado. Já não se tropeça mais em peixe, e foi ali uma vez que comprei carne de cavalo por carne-de-sol. Quando botei na frigideira espumou tudo. Vem a antiga Manon – onde se tomava um suco de laranja de madrugada, era um acontecimento – e chego perto da Mercês, defronte ao 239, velho pensionato onde cheguei com seis anos e acordava com os primeiros bondes. Dobrando uma esquina caía no Politeama, bom lugar pro “baba” e onde uma vez quase ganhamos pra “Escolinha”, time que tinha o futuro André Catimba, já catimbeiro.

Aproxima-se o Rosário, que, talvez por ser pequeno, sempre achei um trecho tranquilo. A maior lembrança do Rosário é a banca de maçã na esquina. Logo adiante, o Clube Comercial, de grandes festas, coração palpitante ao dançar com as primas que me ensinavam os primeiros passos. Festa de radiola, parou, tem que virar o disco.

Lá vem a Piedade. Um pouco antes dela, a Igreja de São Pedro, em cuja esquina comprava os “catecismos” de Zéfiro, um delicioso pecado mortal. A turma da Piedade, à qual pertencia meu irmão mais velho, Luiz, e eu nem podia chegar perto: “Vá pra casa que tá na hora”. Boa de briga, a turma da Piedade acontecia no clube Fantoches, mas aprontava mesmo era sábado de noite e domingo de tarde, na própria praça. Muitos da turma já eram conhecidos dos policiais: “Você de novo!”

Instituto Histórico, onde fazia pesquisas às 2 horas da tarde, morrendo de sono. Um pouco adiante, a loja das “Mil Meias”, um nome mais ou menos assim, e então a esquina da “Primavera”, sorvete da Kombi do sino. Exatamente defronte à Florensilva, do lado de cá, um murinho que sempre teve encanador.

Defronte ao Relógio de São Pedro a pensão de Dona Quinquinha, grande escadaria que nos levava em cheio a um quadro de Iemanjá. Eu já acordava no coração da cidade. Era escovar os dentes, descer e entrar no ritmo. Foi ali, perto do Relógio, que brilhou uma namorada de Carnaval.

Antes de pegar o caminho do São Bento, uma paradinha junto a um banco em volta da árvore. Ali ficava o velho que nos vendia pedaços de filme para olhar de monóculo.

Rua do Paraíso, onde trabalhei na Tipografia São Bento, dobrando folhas de missal, e depois o Ginásio de São Bento, onde fiquei cinco anos, sendo um do antigo quinto ano com “prova de admissão”. Vêm as imagens do ginásio: jambo roubado, tamarindo, o “baba” de tarde, a coca sorvida de um só gole e o quebra-queixo comprado na Avenida Sete para distrair a fome.

Desço a Ladeira de São Bento e sinto medo de cair no chão, empurrado pelos foliões do primeiro trio elétrico que vi. Já contaminado, fazer o balão na Carlos Gomes e depois voltar com o trio até os Aflitos, suado e feliz. O Campo Grande leva o Carnaval e a Carlos Gomes traz de volta. Antes, subíamos até a Sé.

Sempre pensei no dia em que aquelas bolas do Edifício Sulacap iam descer a Ladeira da Montanha. A lembrança do pastel chinês no início da Carlos Gomes e da “Winchester”, loja de armas, ambos destruídos para alargar a rua. A Montanha dos primeiros amores, o caminhão que servia comida na madrugada (grande lombo!) e os camelôs do peixe-elétrico. Poucos, na verdade, poucos mendigos.

Logo depois vinha o prédio de “A Tarde”. Ainda não sabia o trabalho que dava para produzir notícia e nem que um dia ia para dentro dela. Achava bonito aqueles caras de papel na mão e sempre agitados. Subo a Ajuda jogando as pernas devagar, escorregando nas lembranças. Aliás, ali sempre tinha um pouco de água escorrendo de algum lugar.

Lembro do primeiro ônibus “frescão” que a Vibemsa colocou e da rodomoça falando pelo microfone, lá na Vitória: “Senhores passageiros, bom dia. Os senhores estão a bordo de uma rodonave da Vibemsa que deverá fazer o percurso Barra-Praça da Sé em aproximadamente 15 minutos. Boa viagem!”. Você se sentia num Boeing.

Vejo a padaria onde comprava doce de jenipapo em tirinhas e vai chegando a Praça da Sé, Bar Brasil, Cine Excélsior, amendoim torrado com areia, laranja descascada, abará azedo, música alta e meu ônibus chegando.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

SOJA NA CIDADE

Poderia ser uma fazenda de feijão (o Brasil ainda importa mais da metade do seu consumo), que está sempre no cotidiano da mesa dos brasileiros, mas a foto que saiu das lentes da minha máquina é uma grande produção de soja nos limites de vários bairros de Anápolis, em Goiás, o que significa que o visitante ou turista da cidade não precisa ir muito longe para conhecer essa cultura, tão cultuada pelo grande agronegócio porque ela rende dólares no exterior e não reais. Todos sabem que o nosso país ainda é uma colônia, principalmente quando se apura o resultado da balança comercial, isto é, exportação versos importação. Este item é sempre superavitário a favor das exportações porque o maior peso está nas matérias primas, como grãos agrícolas, carnes, petróleo cru, ferro e outros metais. Como forma de dar dimensão a esse estado de coisa, dizem que o Brasil transporta um navio de soja para a China e volta com umas caixas de chips, vacinas ou outros remédios do ramo da química fina. Nossa capacidade industrial ainda é atrasada para o mundo atual. O mais feio é que nossos empresários do agronegócio, além de desmatar nossos cerrados e florestas, causando impacto ao meio ambiente, ainda abrem a boca para dizer que são eles que colocam o alimento na mesa dos brasileiros. Isso é uma mentira (fake news) porque quem nos alimenta é a agricultura familiar, pouco subsidiada pelo governo e pelos bancos. Por que um capitalista desse não planta feijão, arroz, trigo e milho para o consumo interno? Com essa política, vamos sempre ser exportador de produtos primários. Não acreditei quando vi, em Anápolis, quase que dentro da cidade, uma fazenda de soja. Ali naquela região, por onde você viaja o que mais se vê são plantações de soja, o ouro dos exploradores da bancada ruralista no Congresso Nacional, por sinal uma das mais retrógradas.

UMA CONQUISTA CASSADA

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Naquela manhã seis de maio,

Escorre da serra a neblina,

O sereno fino cai nas avenidas,

E cada um segue sua rotina,

Numa agenda cheia de lidas.

 

Ninguém imaginava,

Um cerco de fuzil,

Para calar nossa liberdade,

Na cidade do frio.

 

Com cem armas nas mãos,

Duzentas botinas assassinas,

Na caça de subversivos,

Que a tropa tirana de opressivos,

Chama todos de comunistas,

Nomes que estão em suas listas.

 

Assim aprenderam a lição,

Marchando sem razão,

Nos quarteis e nas prisões,

Para cassar uma Conquista,

Do prefeito Pedral,

Que venceu uma eleição,

Numa legal Constituição.

 

Uma Conquista Cassada,

Naquele dia fatal,

De uma gente encurralada,

Como se fosse feroz animal,

Por uma maldita ditadura,

Que matou nosso irmão,

Com choque elétrico,

Pau-de-arara, ferro e tortura,

E proibiu nossa livre canção.

O NOSSO JORNALISMO PRECISA SER MAIS QUESTIONADOR E INVESTIGATIVO

O CONTEÚDO, A ÉTICA E A RESPONSABILIDADE COM A NOTÍCIA DEVEM ESTAR ACIMA DA TECNOLOGIA

Sou da velha geração dos anos 70 dos tempos da maldita ditadura de 1964 quando tudo era mais difícil sem a tecnologia da internet.  Do meado para o final dos anos 90 surgiu o computador ainda rombudo e lento. Tivemos que fazer as mudanças na raça, sem perder aquela pegada jornalística das entrevistas do olho no olho. A partir dos anos 2000 para cá, fomos sendo engolidos pelos avanços do e-mail e das redes sociais, tornando o fazer mais fácil onde o profissional passou a morar mais na redação que nas ruas.

Sou dos idos da era analógica dos rolos de filmes de 36 chapas, da máquina de datilografia, do teletipo, da impressão a quente, do revisor, do copidesque, do telefone fixo, das fontes em off, das redações barulhentas onde um jogava papel no outro e botava esporas nos sapatos dos amigos, dos telex vagarosos onde as fotos vinham pontilhadas e sem nitidez, do diagramador  de régua e compasso, do editor que criticava o repórter e mandava refazer a matéria, mas se tinha mais conteúdo, espírito investigativo e questionamentos, regidos pelo básico do por que, do quando, do onde no sentido do bem informar o público leitor ou ouvinte.

Com os avanços tecnológicos de hoje onde o clicar dos sites (Google, Yahoo, Wikipédia e outros tantos), e não mais dos livros, lhe dão respostas e informações rápidas (às vezes deturpadas e limitadas), o entrevistador e o entrevistado ficam em telas próximas de cada lado, mas distantes um do outro ou nem se veem nos zaps, faces e instagrams. O nosso jornalismo ficou mais insosso e morno, um tanto preguiçoso, cheio de boletins de ocorrências e menos empolgante.

Com raras exceções, não é mais aquele jornalismo provocador e investigativo como antigamente, mas do amém. Fico a refletir que as televisões estão sempre mudando seus cenários de apresentações (dizem mais bonitos e interativos nas dimensões 3d), os impressos transformando seus visuais gráficos, os rádios aumentando seus raios de alcance (agora estamos na onda do podcast – nada de diferente), mas pouco se comenta sobre o reforço do conteúdo, das matérias mais completas e comprometedoras com o povo. Infelizmente, hoje confundimos muito o papel do jornalista e do entrevistado.

Existe uma cumplicidade entre as partes, e o repórter, operário da notícia, parece ter esquecido de se colocar no lugar da população, o que ela quer saber, principalmente nas perguntas que deixam muito a desejar. Fico estarrecido quando o jornalista diz ser grátis um show ou espetáculo pago pelo poder público. Não sei se é de propósito ou falta de consciência política. Isso não é informar. É desinformar e enganar o povo. Quem paga é o contribuinte que vai ou não vai ao evento.

Não basta a tela, jornal ou revista serem interativos, dinâmicos e coloridos como uma arara. As pautas e as matérias da nossa mídia em geral são requentadas e repetidas. Faltam criatividade e imaginação por parte dos chefes de reportagem e pauteiros (nem sei se existem mais). Quase não se escuta e não se lê mais matérias especiais de peso para serem premiadas.

A pessoa do outro lado tem que sentir aquela sensação de estar sendo representada numa entrevista. É aquela coisa de se dizer que o jornalista fez a indagação atrevida que todos gostariam de fazer, e não ficar com medo diante de qualquer autoridade ou passar a impressão de viés tendencioso e parcial, por mais que existam interesses comerciais e capitalistas da empresa de comunicação.

Precisamos de perguntas mais incisivas, objetivas e diretas (não se envolver emocionalmente com o entrevistado). Antes de mais nada, o jornalista tem que ser um cético. O repórter que está ali na labuta do noticiário do dia a dia, não é para emitir opinião, ser ancora, mas para provocar, e quem está do outro lado que faça sua interpretação, isto é, depois de ouvir as várias versões dos fatos, sem deixar buracos e dúvidas para o leitor ou ouvinte. Comentarista é uma coisa e repórter é outra. Cada qual na sua função.

Por outro lado, em decorrência do baixo nível educacional e cultural (pouca leitura) do nosso povo brasileiro, existe uma acomodação e alienação. Não há uma cobrança e crítica quanto a qualidade do nosso jornalismo, que caiu muito nos últimos tempos. Cada comunidade deveria ter o seu Conselho de Comunicação Social, para analisar o nosso jornalismo e apontar os acertos e falhas.

Ao contrário, há elogios baratos que me fazem lembrar daquela frase do cancioneiro Raul Seixas, de que “o jornalista quer é bajulação”. A vaidade, o pedantismo e o ar de superioridade são grandes males dos nossos coleguinhas. Aprendi na faculdade que jornalista não é notícia, nem vedete e pop-estar, só quando comete crime de irresponsabilidade ou morre. A liberdade de expressão está sendo banalizada.

Repito sempre que o direito à liberdade de imprensa acaba quando não se tem ética e responsabilidade. A partir disso, o profissional está sujeito a ser processado na justiça comum como um criminoso da informação. Nunca ache que é o sabe tudo e nunca se coloque como se fosse um quarto poder para julgar e sentenciar. Basta dos três poderes que usam e abusam de seus poderes.

Vejo hoje uma mídia (a maior culpa é das empresas) interligada financeiramente com o consumismo, com a oligarquia, com as elites burguesas e que mistura o comercial com o que é jornalismo. Uma coisa tem que ser separada da outra. Vejo um jornalismo que manipula a informação e, ao invés de informar, desinforma. Será que o jornalismo ainda é o cão de guarda da nossa sociedade?

PSOL DISCUTE CANDIDATURAS

Várias questões de ordem política e social foram discutidas pela Executiva Municipal do Psol de Vitória da Conquista em reunião realizada neste último final de semana, no Espaço Cultural A Estrada, onde seus membros definiram um calendário de encontros visando montar seu quadro de candidatos para o pleito de outubro deste ano.

Os nomes dos pré-candidatos serão fechados nas próximas conversações com o partido Rede, com o qual compõe uma Federação. A princípio existem sondagens para uma possível coligação com um partido, para disputar o executivo municipal, mas nada está ainda definido. Tudo vai depender de uma decisão da assembleia geral entre seus membros.

Os trabalhos da reunião, realizada no último sábado (dia 06/04) foram abertos pelo presidente Ferdinand Martins, estabelecendo com pauta os informes, a Circular e a Resolução 2024 tiradas do Congresso Nacional do Psol, que tratam do partido e das eleições, o Regimento Interno e o calendário de reuniões ordinárias, sendo que a próxima ficou marcada para o dia quatro de maio próximo.

Nos informes, Ferdinand falou do novo diretório regional, eleito no dia 16 de março, composto de sete membros, numa demonstração de força do colegiado político em Conquista. Ainda no campo dos informes, o presidente fez referências ao caso do Acampamento Parque Imperial, na Amaralina, com quinze famílias, onde o Psol se fez presente nas negociações.

Ferdinand citou que o acampamento é um espaço destinado à produção de alimentos, atualmente com ordem de despejo por particulares. No entanto, a área está sendo reivindicada pela Prefeitura Municipal como sendo da sua propriedade.

Durante o encontro, os participantes fizeram algumas considerações a respeito dos contatos que vêm sendo mantidos com a Rede sobre as eleições, para definição das candidaturas orgânicas de vereadores e majoritária, no caso específico de Vitória da Conquista. Pelos cálculos preliminares, a partir das 23 cadeiras que vão ocupar a Câmara de Vereadores, cada partido da Federação poderá apresentar no máximo 12 pré-candidatos ao legislativo, obedecendo a lei de 30% para as mulheres.

A VELHA GERAÇÃO DE OURO E A NOVA DE PRATA, BRONZE OU ZINCO

La se foi o nosso grande Ziraldo, com 91 anos, jornalista, cartunista, escritor, poeta, compositor teatrólogo e muitas outras linguagens artísticas (multiartista), mais um dos representantes da velha geração de ouro das décadas de 50, 60 e 70, que fez florescer nossa cultura, transbordou conhecimento e saber, protestou, criticou e denunciou as arbitrariedades (ditadura civil-militar de 1964) em busca da liberdade e contra a opressão.

Ziraldo era mineiro de Caratinga, região leste de Minas Gerais, criador de “O Menino Maluquinho” e da revista em quadrinhos “A Turma do Pererê”. Era cartunista desde o início da década de 1950 e graduou-se em Direito na Universidade Federal de Minas Gerais, em 1957.

Seu livro “O Menino Maluquinho” virou série televisiva. Sua primeira obra literária foi “Flicts”, lançada em 1969, cujo personagem se sente isolado por não se encaixar nas cores do arco-íris. Ele chegou a ser tema de dois desfiles de escolas de samba, “Nenê da Matilde”, em 2003 (São Paulo) e “Tradição”, no Rio de Janeiro

Estamos agora numa geração da era tecnológica dos meios de comunicação, dos aparelhos e máquinas sofisticadas, das fakes News, da inteligência artificial, um tanto superficial que praticamente não ler (nem todos), que só pensa em ganhar dinheiro, desprovida de conteúdo.

Para esta eu a chamaria de prata ou bronze. Outra geração está vindo a reboque das vilirações dos besteiróis, que são as crianças, adolescentes e jovens que temo ser a de zinco e latão, pelo baixo nível educacional, refém do celular, das inúteis redes sociais dos seguidores e manipulada pelo alto consumismo.

Sobre a saudosa geração de ouro, que talvez nunca mais surja outra igual na história da humanidade, especialmente brasileira, muitos estão partindo para o além, deixando seu rico legado, mas também deixando um vácuo pelas suas profundas obras publicadas, pelo seu senso humanista, enfrentamento, muita leitura e sabedoria.

Pelos tempos atuais de superficialidade, principalmente nas artes e no vazio do conhecimento geral, arriscaria o palpite de afirmar que essa geração de ouro dos movimentos sociais e políticos (anos 60), das transformações, das quebras de paradigmas, da rebeldia cultural, é insubstituível.

Muitos estão dando adeus, mas se tornando eternos, gênios e atemporais. Outros ainda resistem e estão entre nós, como Gil, Caetano, Tom Zé, Zé Ramalho, Milton Nascimento, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Chico Buarque de Holanda e tantos mais que lidam na literatura, no teatro, nas artes plásticas, na área filosófica e do pensamento crítico.

Destacaria que essa geração construiu a efervescência cultural dos anos 50, 60 e 70, onde o ler estava acima do apenas estudar para ter um diploma e ganhar uma vaga no mercado capitalista. Não é questão de saudosismo, mas jorrava humanismo, militância política e marchava, não com armas na mão, mas com suas lições de vida. Como fala a canção de Vandré, sabia fazer a hora e não esperava o acontecer.

Era e ainda é uma geração onde filho respeitava pai e mãe, reverenciava o professor nas salas de aulas, considerava e ouvia os conselhos dos idosos e, acima de tudo, tinha uma formação de caráter, ética, honestidade, princípios, garra e visão humanista. Não esta nova que inverte e confunde os valores entre o certo e o errado, o normal e o anormal, onde não mais conta a meritocracia e a capacidade.

Se tivéssemos o espirito cultural e religioso das tribos africanas, fixaríamos para esta velha geração, que está atravessando o rio para a outra margem, através do barqueiro, o ritual da ancestralidade, para sempre estarmos escutando seus ensinamentos nos momentos mais difíceis das nossas vidas e da própria nação.

“A MÁSCARA DA ÁFRICA” VI

Em “Filhos da Antiga Floresta”, do livro “A Máscara da África, o autor V. S. Naipaul fala da sua visita ao Gabão (2008/09), a terra dos pigmeus, os mestres da floresta, e abre com a frase do advogado e acadêmico Guy Rossatanga-Rignault (ancestralidade mestiça) de que “as religiões novas, o islã e o cristianismo, ficam apenas na superfície. Dentro de nós está a floresta”.

O escritor destaca que os colonizadores franceses, que tomaram o território nos anos 1840, não foram ávidos. Trinta anos depois chegaram a enviar um navio para retirar seu pessoal. “Os missionários, no entanto, se recusaram a sair, e a colônia sobreviveu. O tráfego fluvial se desenvolveu”.

Com o estabelecimento da colônia, começou o corte, a derrubada da floresta primária. Licenças de trinta anos foram concedidas a chineses, malaios e japoneses. Eles são mais impiedosos e, ao cabo das licenças, “ haverá trechos de deserto no que antes foi floresta”.

Mesmo com as áreas desmatadas, segundo o escritor Naipaul, as florestas do Gabão ainda são uma das visões mais deslumbrantes do mundo. Ele conta a história de Rossatanga que nasceu na cidade e ainda criança sua mãe o levou para aprender os segredos da floresta. Para o filho, ainda jovem, a floresta era assustadora.

Na floresta, diz Naipaul, a noite cai muito depressa. A escuridão é densa. “Para entender a visão do povo do Gabão, é preciso entender a floresta”.

Rossatanga descreve que quando a escuridão chega à floresta, não existe som algum. Mas à noite há diferentes sons ou barulhos vindos dos animais caçando. “A noite e os barulhos configuram nossa mentalidade, porque as pessoas estão ligadas a tudo na floresta. O trovão não é só o trovão, como para vocês. É a voz de Deus: tente entender isso”…

Apesar de bons engenheiros, os franceses nunca construíram estradas no Gabão. A primeira ferrovia foi construída em 1981 pelo Gabão independente, mesmo contra as recomendações do Banco Mundial.

Em seu diálogo com Rossatanga sobre a floresta (para ele um muro), o escritor indaga sobre de que modo isso afetava sua crença. Rossatanga responde que “nós sentimos que tudo tem vida, inclusive as árvores. Existe uma árvore mística, uma árvore vermelha. Quando vamos à floresta, conversamos com ela e lhe contamos nossos problemas”.

Todos no Gabão acreditam na floresta e no princípio da energia que a floresta ilustra. Para Rossatanga, cada coisa viva é energia. Se alguém morre na família, sabermos que alguém pegou a energia dele”…

“Você mata é pega a energia. Também vamos ao curandeiro para tomar a energia de alguém. É por isso que, às vezes, as pessoas sentem que têm de fazer um sacrifício ritual. Somos uma sociedade matrilinear”  Nossa conversa sobre o Gabão prossegue no próximo capítulo.

 

O RETORNO SOFRIDO NUMA EMPRESA DE ÔNIBUS QUE JÁ DEVERIA ESTAR FECHADA

Para pagar minha língua, ou “nunca fale que dessa água não beberei”, disse que nunca mais entraria num carro da viação Novo Horizonte, mas aconteceu quando nosso veículo logo na ida para Goiás deu problema em Igaporã, entre 10 e 11 horas da manhã do último dia 15 de março passado.

Resolvemos prosseguir viagem para Anápolis e só tinha a Novo Horizonte e a Bahia Central que é da mesma companhia, saindo de Guanambi. Um monopólio que não deveria haver. Linha de ônibus entre municípios e estados mais parece demarcação de território de traficantes de drogas e armas.

Nem precisa aqui narrar com detalhes o sofrimento que passamos das 18 horas (ficamos do final da manhã e toda tarde na cidade) às 8 horas da manhã do outro dia dentro de um ônibus velho com sua vida útil ultrapassada, barulhento e com poltronas defeituosas, sem falar no mau cheiro do sanitário. Foi um teste para os fortes, ainda mais na minha idade e para o problema de coluna da minha esposa Vandilza. Mesmo assim, encaramos a jornada.

Como se diz no popular, uma barra pesada com paradas em todos os pontos desde povoados a cidades, sem contar o medo de ficarmos na estrada. Felizmente chegamos são e salvos em Brasília (completamos a viagem para Anápolis de carro), mas foi uma aventura e tanto. Coisa de louco, mas o pior nos aguardava que foi o retorno de Brasília, das 20 horas às 11 horas da manhã até Igaporã, na Bahia.

Muita reza e coragem para encarar uma empresa administrativamente desorganizada, bagunçada, veículos velhos, sem a devida manutenção e que sempre terminam ficando nas estradas, quando não acontecem acidentes fatais, como o mais recente perto de Potiraguá, com cinco mortes. De Anápolis, e Goiânia, passando por Brasília, não existe outra opção.

Pelo péssimo aspecto dos carros, se este país fosse sério e existisse fiscalização isenta, a Viação Novo Horizonte já deveria estar fechada há muito tempo.  Conheço bem seus problemas desde quando aqui cheguei em Vitória da Conquista, em 1991, e fiz coberturas jornalísticas de dezenas de ocorrências em razão do não cumprimento dos trâmites recomentados pelos órgãos de transportes.

Bem, partimos de Brasília no mesmo ritmo e na picada que foi a vinda, confiantes que tudo iria dar certo. Chegamos aos trancos e aos barrancos com o ônibus com defeito até a cidade de Possi, ainda em Goiás, por volta de duas horas da manhã, num ponto de apoio cavernoso da empresa.

A única lanchonete aberta era toda fechada de grades e só uma menina atendia, sinal de que a coisa ali era “boca zero nove”, com pessoas mal-encaradas, bêbadas e drogadas. Os passageiros começaram a reclamar de que estávamos àquela hora da madrugada no meio de uma rua deserta e perigosa.

Criticamos a falta de organização da Novo Horizonte, do veículo velho para continuar rodando longas distâncias e o próprio motorista teve que concordar conosco. Só me restou tomar um cafezinho frio intragável da lanchonete de grades, com receio daquela gente ali um tanto suspeita.

Tentei puxar uma conversa com a atendente, mas não estava de bom humor, também, coitada, trabalhando naquela hora para ganhar uma merreca e ainda se expondo ao perigo de ser assaltada! Senti que não era bom ficar ali por muito tempo. O bicho podia pegar feio.

Depois de um bom tempo, apareceu um mecânico e consertou ou trocou a peça defeituosa do ônibus, garantindo nossa viagem, mas, àquela altura, ninguém mais confiava em nada. Eram mais de três horas da manhã, distante 30 quilômetros de Rosário, fronteira com a Bahia.

Cruzamos por Correntina, Santa Maria da Vitória, Bom Jesus da Lapa, Riacho de Santana e, aos solavancos, esticados quase que imóveis nas cadeiras, demos sorte de chegar em Igaporã por volta das 11 horas da manhã numa viagem hercúlea, mas que valeu a pena pelo conjunto da sua obra.

“PRAÇA DOS LEÕES” EM BOM JESUS DA LAPA

Mesmo cansados, ainda tivemos fôlego de retornar em nosso carrinho para dar uma espichada até Bom Jesus da Lapa e fazer uma visita à famosa gruta. Pernoitamos na cidade, cujo prefeito, no lugar de arborizar, para proporcionar uma melhor qualidade de vida às pessoas, fez uma obra megalomaníaca, construindo, no centro, uma praça com altos arcos no estilo greco-romana, com esculturas de leões e deusas gregas.

Pode ter sido do agrado e orgulho da população, mas, em minha opinião, considerei um desperdício do dinheiro público pelo valor ali investido (não sei quantos milhões), que não deve ter sido pouco, sem falar na mania de grandeza. Imaginei comigo que o idealizador do projeto, no mínimo, deve ser um grande admirador do Império Romano. Eu chamaria de Praça dos Leões.

Racionei como meus botões: Já que derrubou as árvores no ponto mais movimentado da cidade, em torno de bares e restaurantes, para erguer aquela estrutura pesada de concreto, por que, então, não fez uma praça com esculturas religiosas em homenagem aos romeiros, numa honraria aos mais de 300 anos de romaria?

Como os antigos reis da Grécia e de Roma, talvez ele tenha pensado em deixar seu nome para ser lembrado na posteridade. São coisas inexplicáveis para o meu entendimento que acontecem nesses rincões do nosso Brasil.

Confesso que levei um susto quando me deparei com aquela praça e pensei que estivesse em outro país ou entrando no túnel do tempo greco-romano. Pelo menos foi feita a ampliação da esplanada da gruta (com os mesmos arcos e uma imagem do Bom Jesus), isolando o trânsito de veículos e oferecendo mais espaços para os romeiros.

Foram essas as nossas considerações numa viagem de conhecimento cultura, diversão e lazer pelo estado de Goiás onde fizemos paradas em Brasília, Anápolis, Pirenópolis, Goiás Velho, a capital Goiânia e outras cidades, numa visita prazerosa ao meu filho Caio, sua esposa Larissa, meu neto Samuel e outros parentes. Apesar dos percalços, foi memorável e digna de descrição. Aqui deixamos os nossos registros, críticas e elogios.

 

SALVADOR MEU AMOR

(Chico Ribeiro Neto)

Diz um velho ditado: “Na minha terra cego conserta relógio com luvas de boxe”.

Vindo de Ipiaú-Bahia, cheguei a Salvador em 1954 e ainda peguei o bonde. Eu tinha 6 anos, a cidade era grande e as pessoas maiores.

Salvador bonita, com gente dançando. Sentado na cadeira de lona que meu pai Waldemar colocou no passeio, vi na Avenida Sete os três grandes clubes desfilarem: Fantoches da Euterpe, Cruz Vermelha e Inocentes em Progresso.

Meu tio Hugo precisava atravessar a Avenida Sete, mas a organização do desfile não permitia. Ele simulou um desmaio, parou o desfile e os amigos o carregaram até o outro lado, onde ele saltou e saiu andando calmamente, recebendo um monte de vaias.

Salvador do delicioso lombo num caminhão na Praça Castro Alves, de madrugada. Você subia uma escadinha e recebia seu prato maravilhoso para encerrar a noite.

Salvador do lindo Carnaval da década de 70 (“Não se perca de de mim/ Não se esqueça de mim/Não desapareça…), onde arranjei uma namorada que já tinha uma namorada que fez uma poesia pra mim que começava assim: “Para o amor do meu amor”.

Salvador do mergulho na praia do Unhão da minha infância. O maior desafio era nadar até avistar o Elevador Lacerda, e tinha que ir uma testemunha junto: “Chico viu o Elevador Lacerda!”

O pai do meu amigo trabalhava na companhia de aviação Panair do Brasil e deu a ele uma câmara de ar de pneu de avião ou de trator, não sei. Era uma bóia imensa que nós dois carregamos até a praia do Unhão. Duas filhas de um pescador, brotando beleza, pediram para dar uma volta com a gente. Fomos remando na bóia com as duas. Peitos, coxas e bocas boiando virados para o céu. Minha primeira lição de sexo. Vi estrelas e o Elevador Lacerda.

Teve um paulista que estava hospedado numa pensão perto do centro e foi conhecer Itapuã. Lá se encantou e tomou algumas doses de cambuí (frutinha redonda nativa usada de infusão na cachaça). Umas cervejas depois pegou o ônibus de volta. Foi orientado a saltar nas Mercês. Assim ele fez e perguntou onde ficava a Ladeira dos Desesperados. Ninguém  conhecia. Foi perguntando até a Praça da Sé até que  um iluminado matou a charada: a pensão ficava na Ladeira  dos Aflitos.

Um dia vi no Farol da Barra uma mulher abrir os braços para o mar e exclamar: “Obrigado, você é o meu melhor advogado”.

Obrigado, Salvador,  eu te amo de braços abertos para o mar.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

ENTULHOS NAS ESTRADAS

Quem viaja por aí está sempre se deparando com entulhos e lixos às margens das pistas próximas das cidades, como este flagrante que nossas lentes captaram na entrada de Brumado. É um retrato fiel de como o homem depreda e polui o meio ambiente, sem falar em sacos plásticos, cocos e garrafas pet que viajantes vão jogando nas pistas por onde passa. Se formos bem analisar, no fundo se resume a uma questão de falta de educação, por mais que se faça campanhas de preservação. Na saída da cidade de Ituaçu para Barra da Estiva, por exemplo, conhecida como portal da Chapada Diamantina, na região sudeste baiana, existe um lixão onde são depositados os restos produzidos por moradores. Outra visão triste dessa sujeira está na chegada de Itambé. Os poderes públicos são os maiores culpados por não cumprirem as leis de construção dos aterros do lixo e ainda não fiscalizar e proibir que particulares joguem seus entulhos à beira das estradas. Juntando tudo isso e mais os desmatamentos, os incêndios, a poluição dos rios e mares, dentre outras agressões à natureza, temos aí a autodestruição da própria humanidade através das mudanças climáticas que provocam catástrofes e tragédias. Como forma de enganarmos a nós mesmo, colocamos toda culpa no El Nino, que está indo para dar lugar a El Nina. O lixo só faz aumentar através do consumismo. Por essas e outras é que sempre digo que não temos mais retorno para reverter as altas temperaturas da terra.

 





WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia