O CAFÉ ACABOU DE ACABAR
(Chico Ribeiro Neto)
A gente sofre várias chateações domésticas. O coador de papel, quando você puxa um, sempre vem dois.
Dizem que “o pão do pobre só cai com a manteiga pra baixo”.
Você tá todo ensaboado e a água vai embora. Coisa muito chata: acordar de manhã e ver a pia cheia de pratos e panelas sem lavar. E ainda deixaram aberto o tubo da pasta de dente.
Aprendi com os antigos: nunca guarde roupa pelo avesso e nunca deixe sandálias e sapatos virados para baixo. Dá azar.
Faxineira quase sempre dá problema. Ela muda a ordem dos móveis da casa sem lhe consultar: “Ah, Seu Chico, o sofá aqui fica melhor”. Tenho um amigo que a faxineira resolveu arrumar os livros dele por tamanho.
Não gosto que coloquem comida no meu prato. Meu avô Chico Ribeiro tinha essa mania: “Esse menino não tá comendo nada. Chiquinho, coma mais um pouquinho de ensopado”, e tascava duas colheres cheias no meu prato. Tia Nina dava o arremate final e lascava três pedaços de abóbora no meu prato: “Abóbora é vitamina pura!”
Pior ainda é quando você vai na casa de alguém e servem uma torta horrível. Você tá fazendo esforço pra engolir e a dona da casa avisa: “Se quiser mais, é só pedir”.
Morei alguns anos em pensão quando estudante. Tinha uma nos Barris que não servia leite, cada hóspede que comprasse sua lata de leite e a levasse para o café da manhã. Começaram a roubar as latas nos quartos, Você escrevia seu nome no rótulo de papel que era arrancado pelo larápio. O jeito era gravar com canivete seu nome na própria lata. Depois do almoço serviam uma xícara de cafezinho. Um procurava distrair você numa conversa enquanto outro colocava uma colher de molho de pimenta no seu cafezinho.
Graças a Deus, nunca tive vizinho pidão, mas minha amiga já teve. Sua vizinha pidona toda semana faltava café na casa dela. Quando ela sentia o cheirinho de café pela área de serviço, corria logo pra lá com a garrafa térmica (o quente-frio) em punho: “Ô, boa tarde, você pode me arranhar um pouquinho de café, porque o meu acabou agora”. Um dia, minha amiga, já calejada de tanta pidição, respondeu: “Que coincidência, o daqui de casa também acabou de acabar!”
Mamãe Cleonice vem da cozinha da nossa casa, em Ipiaú (BA), com uma panela de café com leite, mexendo com uma colher para esfriar e colocar na xícara de cada um dos meninos: Luiz, Zé Carlos, Cleomar e Chico. Até hoje ouço o barulho da colher girando na panela e lembro o cheiro e o gosto desse café da infância que enchia minha xícara de amor.
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A CAATINGA E O MEIO-AMBIENTE
Cinco de junho foi comemorado o Dia do Meio-Ambiente e a nossa caatinga tem sido um dos biomas mais castigados pela ação predadora do ser humano. O Conselheiro disse que um dia o sertão iria virar mar. Contrariando sua profecia, diria o contrário, que o sertão está se tornando num deserto. Em algumas partes do nosso Nordeste, mais de 60% no semiárido, em algumas regiões a terra está se transformando em sal. Um vasto deserto já é visto em outras áreas. A seca tem sido um fenômeno que tem contribuído para isso, mas a mão do homem é mais pesada através da retirada da sua vegetação para as carvoarias, sem falar na ação predatória do solo. Muito tem se falado dos pampas, do pantanal, da Amazônia e do cerrado, e pouco da nossa caatinga, o único bioma existente na face da terra, esquecido pelos governantes. Com o aquecimento global, a caatinga cada ano fica mais quente, com temperaturas que chegam até 50 graus. As imagens clicadas da nossa máquina dizem tudo.
MEU BEM-TE-VI AMIGO
Do poeta e cordelista José Walter Pires, do seu livro “Crepusculares” – Sonetos
Sinto que, aos poucos, flui uma amizade
Com o meu bem-te-vi, que, confiante,
Desce de uma mangueira, e, saltitante,
Pousa no meu quintal com liberdade.
Esvoaça com sua agilidade,
De um lado ao outro, olhando o circunstante,
No seu trilar festivo e cativante,
Sem demonstrar qualquer temeridade.
Que volte sempre e pouse sem receio,
Pois não irei fazer-lhe nenhum mal
Com essa relação que tanto anseio.
Assim, nessa constância, robustece,
O apego que, de forma natural,
Nasce desse avoar que me embevece.
ESSA NOVELA DO TELEMARKETING NUNCA SE ACABA E NÃO TERÁ FINAL FELIZ
Há muito tempo, os órgãos do governo e a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) anunciam medidas para as empresas de telemarketings pararem de atanazar as pessoas com ligações e mensagens indevidas nos celulares. Elas se fazem de ouvidos moucos e passam por cima das tais leis nos tirando do sério e nos estressando.
Os representantes desses organismos recomendam que os usuários e consumidores façam suas reclamações e notificações junto à Anatel, aos Procons e juizados de primeiras causas. Ameaçam com multas pesadas, como se fosse mesmo para valer. É tudo um faz de conta. Mais parece uma novela sem final.
Ora, neste país, sabemos muito bem que os poderosos não pagam multas, só os pobres que não têm advogados para recorrer. Contra agressores do meio ambiente, por exemplo, “aplicam” multas de milhões de reais, mas sabemos que não pagam. Isso também é fake news. Se fosse tudo verdade, a empresa entraria em falência. Nos fazem de bestas e subestimam nossa inteligência.
As pessoas hoje vivem em correrias, preocupadas com seus problemas e preferem a simples ação do recusar e deletar do que passar mais raiva se deslocando de seus lugares para dar queixas, sabendo que o processo é lento, burocrático e termina apenas numa advertência à empresa abusadora. Além do mais, nossa Justiça continua sendo morosa para os mais pobres e cega para os ricos.
Na verdade, poucos se atrevem a fazer suas reclamações e terminam se decepcionando porque não conseguem os resultados esperados depois de tanta perda de tempo e se irritar. Por sua vez, fazer uma reclamação virtual à Anatel via internet é um terror. O sistema não funciona e a pessoas passa horas para ser atendida. Depois de muito tempo, seu protocolo fica lá esquecido no sistema, ou no lixo como antigamente.
Na grande maioria, funcionário público no Brasil presta um péssimo serviço ao usuário por causa da maldita estabilidade vitalícia. Por que muita gente tira um diploma somente com intuito de fazer um concurso público? A resposta está na ponta da língua.
Depois de um determinado tempo, o servidor concursado se acomoda e trata o consumidor em geral com desdém e menosprezo. Ainda existe uma lei onde o brasileiro não pode “desacatar” quem está do outro lado do balcão, mas quem está fora para resolver seu problema tem que ficar calado e aguentar a falta de humor do estabilizado no emprego, que só pode ser demitido por justa causa, em casos raros.
Nem todos, mas muitos optam pelo concurso público porque não têm coragem de enfrentar uma empresa privada onde o empregado tem que mostrar produtividade e se for relapso pode ser demitido. Terminei enveredando por outro assunto, mas uma coisa puxa outra.
O profissional do telemarketing só cumpre ordens do patrão para no final do mês dar resultados, senão vai para o olho da rua. Com seu corpo de advogados, a empresa sabe muito bem como burlar as leis, feitas para os poderosos. Os representantes dos órgãos governamentais falam duro para ficarem bem na fita e nós ficamos com caras de abestalhados acreditando neles.
UMA SOCIEDADE FÚTIL E IMBECIL
Há noventa anos nascia o escritor e filósofo italiano Umberto Eco e, em uma de suas tantas entrevistas, disse que, com o advento da internet, do celular e das redes sociais, a nossa sociedade se tornaria mais fútil e superficial. Ele era também um estudioso da comunicação midiática.
A sua visão não pode ser considerada como uma profecia, mas uma reflexão sobre os rumos do ser humano e sua decadência mental frente ao avanço da revolução tecnológica da informática, não que ela não seja benéfica se bem utilizada.
Sobre a internet, ele afirmou que produz muito ruído, pois há muita gente a falar ao mesmo tempo. “Faz-me lembrar quando na ópera italiana é necessário imitar o ruído da multidão e o que todos pronunciam é a palavra “rabarbaro”.
“As mídias sociais deram o direito à fala de legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito a fala que um ganhador do Prêmio Nobel”.
Bem, citei aqui alguns pensamentos de Eco sobre internet e redes sociais, para colocar meu ponto de vista sobre como eu vejo o mundo de hoje sobre esta questão. Como uma onda de besteirol consegue arrastar milhões de seguidores imbecis? Como chegamos a este nível? Será o vazio humano espiritual?
Uma “blogueirinha” consegue atrair mais público numa plateia de qualquer evento cultural do que um Prêmio Nobel de Literatura, ou o maior pensador filosófico. O tal do influenciador digital se tornou numa “profissão” mais admirada. Se Cristo surgisse na era atual com seus ensinamentos profundos, será que teria tantos seguidores na internet?
Entendo que a revolução da informática, como a industrial, pegou a humanidade desprevenida, isto é, numa curva descendente do ler e saber pensar em termos de conhecimento, principalmente em se tratando da nossa juventude, ainda uma criança entusiasmada com seu brinquedinho, ou um adolescente eufórico quando se depara com coisas novas. Quando a internet chegará à sua idade de maturidade? Ainda vivemos na adolescência.
A internet tornou-se o mundo da fantasia para uma grande maioria que, sem sentido para a vida, ou pelo menos para sua existência como criatura, viu nela o seu deus material para realizar suas ilusões, sem perceber que tudo é efêmero e passageiro.
Por esse prisma, na ponga de uma humanidade em decadência de saber e de lideranças espirituais e políticas, a inversão de valores ocupou sua supremacia na história onde o fútil passou a ser o mais admirado e seguido.
Dia desses estava vendo na tv um lutador, que fica nos ringues tirando sangue e dando pancadas na cabeça e por todo corpo do seu adversário, como dois selvagens primitivos dos tempos dos gladiadores romanos, se glorificar que teve 250 mil visualizações nas redes sócias enquanto fazia uma tatuagem no braço, no formato de uma mordida humana.
O mais irônico é que a nossa grande mídia, a qual se coloca como combatente da linha de frente contra as mentiras e fake news nas redes sociais, é a maior incentivadora e divulgadora desses fúteis influenciadores digitais que deixam nossos jovens mais histéricos e até se tornam imorais. É essa mesma mídia a maior criadora dessa sociedade fútil, que faz questão de manchetar o besteirol.
COMO PARTICIPAR DESSA POLÍTICA?
O NOSSO SISTEMA ELEITORAL É COMO SE FOSSE UM VELHO BARCO CHEIO DE BURACOS POR TODOS OS LADOS EM ALTO MAR.
Na minha concepção, política deveria ser, acima de tudo, seriedade, lealdade e compromisso para com a população, com a sociedade e sua comunidade. No entanto, infelizmente, não tem sido assim que funciona. Sempre é feita de conchavos, negociatas escusas e traição contra o povo porque não se cumpre as promessas feitas em campanhas.
Por tudo isso, as pessoas boas têm procurado se afastar da política e tem muitos que nem querem falar nesse assunto, quando ela poderia ser a mola propulsora para a solução dos problemas do país. Nos bons tempo, nas décadas de 50 e 60, os jovens já começavam cedo a fazer política nas escolas através dos grêmios, das associações dos estudantes secundaristas e da própria UNE (União Nacional dos Estudantes).
Nos tempos atuais, esta categoria está afastada por vários fatores, como alienação, em decorrência do baixo nível educacional, e consequente rebaixamento cultural (falta de leitura com o advento do celular), mas, sobretudo, porque nossos políticos, a partir da redemocratização do Brasil após a ditadura civil-militar-burguesa, transformaram a política em jogo de interesses particulares, fizeram do público coisa privado e deram as costas para o povo.
Os partidos políticos cresceram como uma praga do Egito e muitos viraram barrigas de aluguel. Dentro dessas agremiações políticas existe uma espécie de ditadura interna, tanto da direita como da esquerda, e o pior, com várias correntes e tendências de pensamento “ideológico” que só fazem separar ao invés de unir os membros em torno do seu princípio programático.
Pertenço, por exemplo, ao PSOL de Vitória da Conquista, mas não estou aqui falando em nome do partido que está enfraquecido, desorganizado (muitos caíram fora) e agora vem sendo teleguiado pela estadual, cujo presidente quer impor sua ditadura e mandar no diretório municipal. Isso desgosta, decepciona e frustra as pessoas sérias que intencionam dar sua contribuição como militante.
A esquerda de hoje não faz mais política em suas bases de origens, como junto aos estudantes, ao operariado e dentro dos movimentos sociais que foram abandonados pela militância que passou da cachaça para o uísque escocês. Ela hoje se enroscou com a burguesia e a elite para se manter no poder. Dá apenas umas cestas e uns auxílios como caridade.
A esquerda condena tanto a ditadura, mas entra em contradição quando seus dirigentes e diretórios usam esses métodos condenáveis dentro do próprio partido, como se fossem donos. Na maioria das vezes, quando dos apoios a determinados candidatos, as decisões saem de cima para baixo sem ouvir seus membros filiados. Passam o rolo compressor nas representações regionais e até intervém quando não aceitam o que eles querem.
É aí que as pessoas mais sérias e bem-intencionadas caem fora dessa bandalheira, dessa falta de respeito com as bases onde a democracia é alijada do processo. Temos um Congresso Nacional conservador, dominado pelas maracutais, penduricalhos e interesses próprios. Diante desse cenário nada alentador, os jovens, os honestos e éticos se afastam dessa política, ou politicagem. Esse cesto de frutas podres deixa de fora quem tem pretensão de entrar na política.
Temos ainda um sistema político eleitoral arcaico, desleal, desproporcional, burocrático, que se requer muitos milhões de reais para se eleger. É outro fator negativo para o afastamento da política. É difícil para quem está de fora, com boas intenções, entrar nesse esquema bruto e competir de igual a igual contra aqueles que já estão lá dentro com a máquina na mão, sem contar ainda com esse negócio de cotas que só faz criar mais ódio e intolerância.
Não estou aqui para ser o arauto da verdade, do exemplo de pessoa correta que tem a razão como única e absoluta, mas meu propósito é só fazer uma reflexão e indagar do porquê a quase maioria não quer mais saber de política e nem se engajar nela? Confesso que eu mesmo me sinto decepcionado e desestimulado com o que vejo e tenho consciência de que minha voz não tem eco nesse árido deserto.
Agora mesmo vem aí mais uma eleição municipal e já começaram as negociatas por cargos, as mentiras, as imposições de nomes, os xingamentos, as propagandas falsas e os esquemas inescrupulosos.
O mais desrespeitado é o eleitor, embora continue a ir à urna votar por favores, sem consciência política e manipulado como nos tempos dos coronéis. Na verdade, meu amigo e amiga, o voto ainda é comprado e vendido.
Permanece o voto de cabresto, e nossos jovens não estão preparados para escolhas conscientes e livres. Sei que é difícil dizer isso, e posso ser execrado com antiquado, mas não tenho medo de falar o que penso, mesmo com o risco dos julgamentos contrários.
Nessa nossa democracia, repleta de falhas e vulnerável, é pura balela se falar em eleições livres neste nosso país. O eleitor que vota por um favor recebido, por simpatia ou porque o candidato ou candidata são bonitos, não está sendo livre, mas induzido por uma ilusão de que está exercendo sua cidadania de liberdade democrática.
“ASSIM FALAVA ZARATUSTRA”
Na obra famosa de Friedrich Nietzsche, no capítulo “Dos Caminhos do Criador”, o filósofo, na palavra de Zaratustra, fala do solitário, aquele que procura a busca de si mesmo. Seu pensamento é complexo com muitos anunciados que nos faz refletir ainda nos tempos contemporâneos.
O filósofo escreveu no século XIX e sobre as mulheres ele seria hoje esconjurado, machista e retrógrado pelo seu menosprezo ao gênero feminino, mas este é outro assunto. Zaratustra dialogo com uma velha senhora quando seguia seu caminho. No final da conversa a velha lhe diz que ele não conhece bastante as mulheres, se bem que tem razão no que prega. Será porque para a mulher nada é impossível?
Sobre a morte, ressalta que uns morrem cedo e outros tarde, daí o preceito de que morre a tempo. “Se nunca vive a tempo, como há de morrer a tempo? Para ele, morrer ainda não é uma festa. Morre sua morte aquele que cumpre seu destino, vitorioso, rodeado daqueles que esperam e prometem. Fala do aprender a morrer no combate, abençoando os vivos. Combatente e vitorioso odeiam a morte “que vai se arrastando como uma ladra e, contudo, chega como soberana”.
Com referência ao solitário e a solidão, Zaratustra diz que, mesmo com toda tua força e coragem, um dia te há de cansar. Algum dia se abaterá teu orgulho, e tua coragem vai cerrar os dentes. Um dia clamarás: Estou só, tudo é falso!
Em sua reflexão, ele afirma que há sentimentos que querem matar o solitário. Se não conseguirem, eles mesmos terão de morrer! Quanto ao desprezo dos outros e a procura de ser justo com aqueles que te menosprezam, Nietzsche acrescenta que o solitário obriga muitos a mudarem de opinião a seu respeito. Por isso, “te odeiam com todas as forças”.
Acima deles te elevaste, mas quanto mais alto sobes, tanto menor te vêem os olhos da inveja. Ninguém é tão odiado como aquele que voa diante de todos. “Sobre o solitário, atiram baixeza e injustiça”. Zaratustra aconselha que o solitário se livre dos impulsos do amor porque ele estende depressa a mão ao primeiro que encontra.
“Há homens a quem não deves dar a mão, mas tão somente a pata. Além disso, quero que tua pata tenha garras. O pior inimigo, todavia, que poderás encontrar, és tu mesmo. Nas cavernas e nos bosques és tu que te espreitas a ti mesmo. Serás herege para ti mesmo, serás feiticeiro, adivinho, doido, incrédulo, ímpio e malvado”.
De acordo com sua fala, o solitário segue o caminho daqueles que amam. “Vai para tua solidão, com minhas lágrimas, meu irmão, com teu amor e com teu ato criador. Somente mais tarde, com passo claudicante, a justiça chegará a ti”.
No que se refere ao ser humano, Zaratustra o compara com o camelo, o leão e a criança, e afirma que existem coisas pesadas para o espírito sólido. Quanto ao camelo, o espírito é uma besta de carga a escalar altas montanhas. Padece fome na alma, ama os que nos desprezam e estende a mão aos fantasmas.
Com sua carga, conforme seus ensinamentos, o camelo corre ao deserto. Assim é o espírito. Na extrema solidão, o espírito se transforma em leão, rei do seu próprio deserto, e luta como um dragão. Tu deves brilhar nesse caminho de escamas de ouro.
Em sua concepção, somente o leão poderá criar a liberdade. Já o espírito dócil pensa criar novos valores. Para o jogo da criação é preciso uma santa afirmação de criança. Ensina que deves reconciliar contigo mesmo, manter-se sempre acordado, apesar da fadiga e conservar a alma serena.
As coisas ruins não combinam com um bom sono, o senhor das virtudes. “Existem sábios que pensam no sono sem sonhos”. Mantenha paz com o diabo do teu próximo. Com relação ao poder, Nietzsche, na fala de Zaratustra, ressalta que ele gosta de andar com pernas tortas. Em seus diálogos filosóficos, muitas vezes ele entra em contradição, ou parece ser isso.
ÊITA QUE AGORA MELARAM NOSSO FORRÓ!
TROCARAM O GONZAGÃO PELO SAFADÃO!
Dessa vez, com o São João gordo das eleições, estão lascando com o nosso forró ou forrobodó! Quem estão mandando nessa farra são Safadão, o maior faturador das festas juninas, Amado Batista, Calcinha Preta, Cueca Branca, duplas sertanejas, de arrocha, pagode, bregas e outros ritmos porcarias. No meio, para disfarçar, colocam algum forrozeiro.
Até os governos do PT, que tanto pregaram em seu programa partidário a defesa da cultura popular de raiz, entraram na onda, como no caso do São João de Salvador, no Parque de Exposições Agropecuárias, bancado pelo estado. Aqui em Vitória da Conquista, onde a prefeita sepultou nossa cultura, sem ritual fúnebre, já não é tanta novidade. Tem até o Amado Batista. Nos outros municípios a toada não é diferente.
Nas propagandas, os prefeitos colocam as grades das grandes “atrações” com os nomes dos pesos pesados dos cachês, mas quase nada das bandas regionais que fazem suas músicas durante o ano todo para ganhar uma graninha merreca paga meses depois. Esses têm que entrar nos editais burocráticos da concorrência. É uma tremenda luta para conseguir um espaço.
Estão divulgando aí um concurso das melhores músicas que pouco falam das raízes, dos costumes, do nosso forró, da terra e da vida do nosso povo nordestino, com o título de Zelito Miranda que deve estar se revirando no caixão. As letras têm um sotaque do axé music, dos arrochas e dos “sertanejos” melosos de amor vazio e fútil.
É isso aí, meu amigo, o nosso forró, que até já se tornou patrimônio imaterial nacional, está virando num grande carnaval fora de época, com guitarras, baterias e rebolados de mulheres nos palcos, jogando no lixo a sanfona, o triângulo e a zabumba. Esse negócio de forró pé de serra está se tornando coisa antiga e arcaica.
Para fazer média com o público alienado, o cara chega no palco falando de Luiz Gonzaga, Dominguinhos e outros nomes do nosso verdadeiro forró, baião e xaxado (devia lavar a boca) e depois arrasta o som miserável estrangeirado, misturado do tipo “tira o pé do chão galera”, com músicas de duplo sentido que agridem nossos ouvidos.
A mídia diz que é tudo de graça, a multidão ignara cai na folia e aplaude os prefeitos dos safadões e companhias. Tudo preparado para um pouco mais na frente, em outubro, pescar o voto do eleitor que depois da festa continua na mesma situação de dependência e submissão aos poderosos. Se eu ou você critica, sua voz ecoa no deserto. Será que adianta lutar contra a maré?
É assim que as coisas funcionam e não adianta resistir, meu camarada, porque será criticado como caduco, antiquado e saudosista. As coisas mudaram, seu babaca; são novos tempos da tecnologia; e que vá a memória e a história para as “cucuias” e os quintos dos infernos. É assim que eles dizem.
O Ministério Público anuncia que está vigiando e fiscalizando as grandes contratações e os superfaturamentos das prefeituras, observando os critérios dos investimentos em saúde, programas sociais e educação. É tudo conversa fiada, no faz de conta.
Os artistas e as bandas da terra pegam as migalhas, sem quase nada de visibilidade. São utilizados para apresentações nos intervalos dos grandes shows e nas pontas dos bairros. Dão um dinheiro tipo cala boca para as quadrilhas, para dizer que elas não morreram. A mídia faz sua média e dá destaque para os safadões da vida.
TUDO É 3
(Chico Ribeiro Neto)
Pai, Filho e Espírito Santo. Os 3 Reis Magos, os 3 Mosqueteiros, os 3 Porquinhos e, no céu, as 3 Marias. Somos divididos em cabeça, tronco e membros.
“Se temos duas pessoas, temos um debate; se temos 3, temos uma decisão”. (Autor desconhecido).
Cristo foi crucificado junto a dois ladrões e ressuscitou no terceiro dia.
O 3 é um número considerado sagrado e também um número de tempo: passado, presente e futuro; princípio, meio e fim. O triângulo é o mais importante símbolo da Maçonaria. E há também o “triângulo do prazer”.
“As três mulheres do sabonete Araxá me invocam, me bouleversam, me hipnotizam”. (Verso inicial do poema “Balada das Três Mulheres do Sabonete Araxá”, de Manuel Bandeira).
Um velho espanhol costumava alertar o sobrinho: “Nunca beba em 3 bares, pois no terceiro sempre dá alguma merda: briga ou discussão. Vá pra casa depois do segundo bar”.
Escova de dente sempre teve 3 tamanhos: pequena, média e grande. Agora tem a frescura de escova Plus, Ultrafina e até escova elétrica.
O número 3 aparece 467 vezes na Bíblia. Os 3 Patriarcas: Abraão, Isaque e Jacó. Pedro negou Cristo 3 vezes.
“Então vi três espíritos imundos que pareciam rãs, que saíam da boca do dragão, da boca do monstro e da boca do falso profeta. Eles são os espíritos maus que fazem milagres. Esses três espíritos vão aos reis do mundo inteiro a fim de os ajuntar para a batalha do grande Dia de Deus, o Todo-Poderoso”. (Apocalipse, 16:13-14).
Além de Cosme e Damião havia o irmão Doum. Conta-se que Cosme, Damião e Doum eram trigêmeos e com a morte de Doum os outros irmãos se tornaram médicos para curar as crianças. Então eram 3.
Lamento não existir a cédula de 3 reais. Muitos técnicos de futebol armam o time na tática 4-3-3. Dão uma vezinha ao 4.
Um, dois, três e já. Já tem casal de 3 (trisal).
Até quando morre você tem 3 opções: céu, inferno e purgatório.
“Três, três, passará
Derradeiro ficará”.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
UM MACACO GORILA OU UM ÍNDIO?
Você já se deteve por algum tempo a olhar o movimento das nuvens? Se já fez isso deve ter visto imagens e figuras diferentes de animais, pessoas, montes, plantas, árvores, um avião, um carro e outros objetos estranhos. Tudo vai depender da sua imaginação. Cada um vê uma coisa diferente como se fosse uma pintura do artista num quadro. Tudo é poético e subjetivo. O mesmo acontece quando se mira um conjunto de pedras num morro ou montanha. Existem também inúmeras figuras semelhantes dentro das cavernas, moldadas pelas águas do mar ou pelo tempo há milhões de anos. Em Itambé, na fazenda de um amigo, no declínio do entardecer, minha máquina teve a sorte de clicar esta imagem enigmática no alto de uma pedra na forma de um gorila ou de um índio cacique deitado. Poderia muito bem ser chamada de pedra do índio ou do macaco. Outros poderiam dar outra denominação. O azul para um pode ser um verde para o outro. Na vida real ocorre o mesmo: Cada pessoa tem o seu ponto de vista que precisa ser considerado. Fica aí a imagem fotográfica para sua imaginação: Um macaco gorila ou um índio?














