“DA LIVRE MORTE”
No capítulo “Da Livre Morte” do livro “Assim Falava Zaratustra”, Nietzsche diz que “muitos morrem tarde demais e alguns cedo demais. Ainda nos soa estranho esse preceito: “Morrer a Tempo”.
Quem nunca viveu a tempo, como há de morrer a tempo? “Morre sua morte, aquele que cumpre seu destino, vitorioso, rodeado daqueles que esperam e prometem”. Ele fala dos homens que ainda não aprenderam como celebrar as mais belas festas. É enigmático.
De acordo com Zaratustra, “combatente e vitorioso odeiam igualmente vossa morte cheia de caretas, que vai se arrastando como uma ladra e, contudo, chega como soberana”.
Ainda sobre a morte, Nietzsche destaca que “em alguns envelhece primeiramente o coração, em outros o espírito. E alguns são grisalhos desde sua juventude, mas quem tardiamente se torna jovem por mais tempo permanece jovem”.
Prossegue em sua pregação, dizendo que “muitos falham em sua vida. Um verme venenoso lhes devora o coração. Que tratem ao menos de ter melhor êxito em sua morte”.
Ao fazer uma comparação com maçãs azedas e outros frutos, diz que existem aqueles que ficam e permanecem por excessivo tempo dependurados em seus ramos. “Que venham uma tempestade que faça cair da árvore todos esses poderes e bichados”!
“Na verdade, cedo demais morreu aquele hebreu a quem veneram os pregadores da morte lenta e para muitos foi fatalidade ter ele morrido cedo demais”.
“Ele só conhecia ainda lágrimas e melancolia dos hebreus, juntamente com o ódio dos homens de bem e dos justos, esse hebreu Jesus; por isso o acometeu o desejo da morte”.
“Por que não ficou no deserto, longe dos homens de bem e dos justos? Talvez tivesse aprendido a viver e a amar a terra e, mais ainda, a rir! Acreditai em mim, meus irmãos! Morreu cedo demais! Ele mesmo se retrataria de sua doutrina se tivesse vivido até minha idade! Era bastante nobre para se retratar” – assim falou Zaratustra aos seus discípulos.
“Mas não estava ainda maduro. O amor do jovem é imaturo e imaturo também seu ódio do homem e da terra. A alma e as asas do espírito lhes são ainda atadas e pesadas”.
“Assim, eu mesmo quero morrer, a fim de que, meus amigos, por amor de mim, ameis com mais amor a terra. E a terra quero voltar a ser, a fim de encontrar repouso naquela que me gerou”.
CARYBÉ, O ESCULTOR DOS ORIXÁS(I)
(Chico Ribeiro Neto)
Esse foi o título da minha matéria sobre Carybé, publicada na revista “Manchete” número 1.214, em 26/07/1975. A foto é do saudoso Lázaro Torres.
Como a entrevista é um pouco longa, publico hoje a primeira parte da conversa com esse artista, que disse: “Quem está certo é o vira-lata”. Carybé morreu em outubro de 1997.
Segue a primeira parte da matéria:
“A talha monumental em que Carybé deu corpo e alma aos santos do Candomblé provoca, logo à primeira vista, dois fortíssimos impactos que a gente nunca mais esquece. O primeiro, de ordem propriamente artística, deixa o espectador em delírio. Há tanta força naquelas formas, tanta vida naquela madeira, e é tamanha a angústia do artista para iluminar mais ainda os orixás que até os buracos furados na tábua parecem transportar para a composição pedaços do firmamento. O outro impacto é da ordem do labor.
A massa de trabalho bruto que tem aquela talha é qualquer coisa de alucinante. Contam as testemunhas oculares que Carybé, com as mãos totalmente rachadas e os dedos em sangue, vivia com montes de panos amarrados nos braços para poder segurar o cinzel e aguentar a dor, até “esquentar”.
Estes dois aspectos definem a estrutura fundamental da personalidade de Carybé: um artista extraordinário, dotado de uma força de inspiração propriamente genial, e um trabalhador braçal absolutamente invulgar, um cavalo, um monstro. Sobre essas duas vigas-mestras de seu caráter correm então uma porção de traços diferente, contraditórios, tortuosos, difíceis, que fazem desse argentino-baiano um idólatra da liberdade e ao mesmo tempo um intransigente defensor da disciplina, uma alma de boêmio inveterado e um profissional rigoroso que não admite o amador nem mesmo no ramo da boemia. Esse novelo de virtudes e pecados incomuns confere a Carybé um poder de sedução praticamente irresistível.
Uma das conclusões filosóficas a que ele chegou sobre a vida, aos 64 anos de idade, resume sua visão de mundo:
“Quem está certo é o vira-lata. Dorme meia hora, acorda, dá um bordejo pelos restos de feira, dorme de novo, cansa de dormir, se espreguiça, boceja, e sai por aí catando vida no rumo de seu faro. Este negócio de dormir oito horas seguidas está errado. Porque o sujeito tem de ficar sempre de cabeça acesa”.
Carybé chega a essa conclusão refletindo sobre os tempos duros que atravessou antes de conhecer a estabilidade. Trabalhava no jornal “Pregón”, de Buenos Aires. Um ordenado fabuloso, máquinas novinhas, edifício próprio, enfim um jornal tão maravilhoso que tinha de ir à falência. E foi, Corria o ano de 1938 e o jornalista argentino mudou-se para São Salvador da Bahia, cidade pela qual vivia apaixonado. Mas a Bahia, contrariamente à lenda, não dá camisa assim tão facilmente. Sem dinheiro, Carybé foi morar debaixo do Trapiche Adelaide, na praia da Preguiça, partilhando a existência clássica dos que têm por cama uma folha de jornal.
“Foi um tempo maravilhoso, uma época de liberdade fantástica. Sem compromissos, dormia quando me dava sono, andava por aí, ia à Cidade Alta, e estava permanentemente de cuca acesa e limpa. Uma verdadeira vida de cachorro vira-lata”.
Mas nesses bordejos acabou conhecendo Mestre Bimba, criador da capoeira regional, homem respeitado por todas de cais de porto. Mestre Bimba arrumou para o argentino um lugar de foguista num daqueles “Ita” da canção e Carybé veio de porão para o Rio de Janeiro, onde tinha conhecidos com quem podia arranjar alguma grana para desarnar. Arrumou emprego na “Folha Carioca”, depois foi para a “Tribuna da Imprensa” do tempo do Lacerda, e depois para o “Mundo Ilustrado”.
Pela altura de 1950 já se tinha tornado íntimo amigo de Rubem Braga, que o apresentou ao Anísio Teixeira, que falou dele para o governador da Bahia, Otávio Mangabeira. O argentino foi contratado imediatamente pelo governo baiano e ficou trabalhando para o Estado, fazendo painéis para as escolas. Data também dessa época o álbum “Sete Portas da Bahia”, com mais de 300 desenhos. Carybé se estabelecia enfim, definitivamente, no reinado de seus sonhos, nessas terras da Bahia onde sempre desejara viver e morrer. Mas, até chegar lá conheceu muitas terras e longes mares. (Continua no próximo domingo)
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
CACHORRO TAMBÉM VAI À SESSÃO
Bem mais comportado do que os humanos barulhentos e mal-educados que ficam tagarelando alto uns com os outros, um cachorro apareceu na sessão especial “Matrizes do Forró”, realizada na última sexta-feira da semana passada pela Câmara de Vereadores (promoção da parlamentar Lúcia Rocha). Pouca gente viu, mas ele chegou sorrateiramente, passou pela plenária e visitou a Mesa Diretora e os vereadores. Assuntou as discussões; fez suas considerações como se não tivesse gostado do que ouviu; e deitou debaixo de uma das cadeiras reservadas à imprensa que não frequenta mais aquele recinto porque cola tudo do boletim virtual. Ficou lá quieto sem perturbar e parlamentar, mas, com certeza, deve ter ficado envergonhado de ver a plenária quase vazia numa sessão tão importante que debatia a história do nosso forró nordestino e sua descaracterização nos tempos atuais. Seu silêncio foi de protesto contra os ritmos de músicas sertanejas, arrochas, de carnavais e lambadas que passaram a dominar as nossas festas juninas. Foi ele quem saiu dizendo que trocaram o Gozagão pelo Safadão em nosso forró. Trocaram a sanfona, o zabumba e o triângulo pelos gritos das guitarras e dos rebolados nos palcos.
APOLOGIA AO SONETO
De autoria do poeta José Walter Pires, extraído do seu livro CREPUSCULARES
Apologia ao poeta Medeiros Braga
Como é belo, poeta, o seu soneto,
Transfigurado numa apologia,
Pois envolto na afável poesia
Fará jus às hosanas no coreto.
Quem sabe sinfonia em branco em preto
Nas notas recheadas de harmonia
Da batuta de plena maestria,
Como busco glosar neste dueto.
Desde Petrarca, o pai da criação
Transcende com a sua plenitude,
Trazendo na estrutura perfeição.
Por certo, resistiu, heroicamente,
Aos riscos enfrentados de amiúde,
Reinando virtuoso, plenamente.
SÓCRATES CONTESTADO
Nesta semana postaram num grupo do Zap um possível texto do filósofo grego Sócrates (470-399 a.C) onde muitos contestaram suas ideias sobre a queda da democracia. Teve gente que expressou seu ponto de vista no sentido de que o escrito não foi dele, o Sócrates, mas de outro intelectual qualquer. Cada um tem o direito de duvidar ou concordar.
Seja do filósofo ou não, quem emitiu tal opinião teve uma leitura apequenada dos direitos humanos, sobretudo quanto as mulheres quererem ser iguais aos homens e os pobres serem ricos. “Para mim o texto é preconceituoso e deslocado do nosso tempo onde a liberdade e a igualdade dos homens e mulheres é um direito constitucional” – declarou um dos membros do grupo.
Leia o texto e faça sua análise da previsão de Sócrates sobre a queda da democracia. Diz o seguinte: “A democracia deve cair porque tentará se adaptar a todos… Os pobres vão quererá riqueza dos ricos, e a democracia a dará a eles. Os jovens vão querer ser respeitados como os idosos, e a democracia vai dar-lhes isso. As mulheres vão querer ser como os homens, e a democracia vai dar-lhes isso. Os estrangeiros vão querer os direitos dos nativos, e a democracia vai querer dar-lhes isso. Os ladrões e os fraudadores vão querer funções governamentais importantes, e a democracia vai dar-lhes isso. E naquela época, quando ladrões e fraudadores finalmente e democraticamente assumirem a autoridade; porque os criminosos e malfeitores querem o poder, haverá uma ditadura pior do que na época de qualquer monarquia ou oligarquia”.
Na minha visão, não acredito que o escrito tenha saído do punho de Sócrates e, no texto existem muitos vícios de linguagens, mas essa não é a questão. Concordo em algumas coisas, em parte, como a de que a nossa democracia vem sendo ameaçada pelo extremismo de direita com suas ideias arcaicas e medievais.
Os pobres continuam a lutar para terem, pelo menos, uma melhoria social em suas vidas, mas essa democracia não concederá porque ela ainda é subordinada à elite burguesa que não aceita distribuir suas rendas. No que se refere às mulheres, existe o direito constitucional de igualdade, e é justo, mas muitas, infelizmente, terminam se masculinizando quando assumem cargos importantes de chefia e esquecem sua valorização feminina de decisão e determinação. Para provar sua competência, a mulher não precisa renegar sua feminilidade. Não acho que o texto seja machista como muitos julgaram.
No Brasil, por exemplo, é verdade que os fraudadores e malfeitores almejam o poder e terminam exercendo funções governamentais. Podemos constatar isso nas infiltrações dos traficantes e milicianos na política e, quando lá estão, pregam a ditadura.
A extrema direita não deixa de ser uma impostora que chega com sua linguagem mansa e ilude os incautos que acreditam nas palavras de mudanças, tendo em vista que não suportam mais tanto tempo de repetição da mesma política onde só faz aumentar a pobreza e as desigualdades sociais.
“PERGUNTE AO CAVALO”
Como todos bem sabem, o cavalo é um dos animais mais antigos da humanidade e em algumas comunidades era considerado como um deus rei pela sua força e velocidade. Várias civilizações antigas tinham o cavalo como um ser mitológico, inclusive na cultura imaginária grega.
Os cavalos teriam sido originários da Ásia Central, mas existe outra versão de que tenham vindo da América Setentrional de onde emigraram para a Ásia e de lá para a Europa e África. Os árabes conseguiram apurar as raças mais velozes. Sempre foram utilizados nas guerras até meados do século passado (Segunda Guerra Mundial), quando foi substituído por armas mais sofisticadas, mortíferas e letais.
Graças aos cavalos, os romanos criaram seu vasto império. Cada rei e guerreiro tinha o seu predileto, como o de Napoleão, César Augusto, Alexandre, o Grande, Átila e outros. Até diziam que por onde o cavalo de Átila passava não nascia grama. Os índios idolatravam os cavalos, usados na caça e nas guerras.
Os incas quando viram os espanhóis em seus cavalos, sob o comando de Francisco Pizarro, chegando como trovões, os chamaram de deuses e assustados se rederam aos conquistadores. Na emboscada, o chefe Atahalpa foi feito prisioneiro, isso por volta de 1532.
Bem, fora sua história que é bastante rica, sobre o cavalo existe uma fábula budista. Contam que um buda saiu em disparada em seu cavalo e por pouco não esmagou o outro monge que conseguiu se salvar porque foi rápido e pulou fora do seu alcance.
Sem entender o que estava havendo diante daquela atitude agressiva e furiosa, o buda olhou assustado e gritou para seu colega: – Para onde vais tão apressado?
O outro virou rapidamente, e em alto e bom som respondeu: – Pergunte ao cavalo.
Estamos numa sociedade invertida em seus valores onde vivemos em disparada passando por cima dos outros, muitas vezes sem saber para onde vamos. É aí que está na hora de cada um procurar domar o seu cavalo que está dentro de si, senão você pode ferir o outro ou se arrebentar lá na frente. Livre-se do cavalo que está dentro de você.
Como dizia Nietzsche, “É preciso conter o coração, porque, se o deixarmos livre, depressa perdemos a cabeça”. O cavalo é um animal dócil quando bem cuidado. O pior é o cavalo que está dentro de cada. É desse que é preciso libertar-se.
Seu cavalo não deve sair por aí desbaratado atropelando quem quer que seja, como se estivesse numa guerra contra o inimigo. Infelizmente, é isso o que vem acontecendo nos dias atuais, nas competições, na indiferença, no ódio, na intolerância, na violência e na maneira de agir sem antes pensar no que está fazendo.
Cuidado para não passar seu cavalo por cima do outro com ofensas pessoais, mentiras, calúnias e difamações. As eleições estão chegando e é uma época propícia para cada um usar o seu cavalo que tem dentro de si para pisotear seu adversário com sua pata das fake news, da desonestidade e da corrupção através da compra do eleitor. Quando o sujeito é bruto, costuma-se chamá-lo de cavalo.
Treine seu cavalo para andar galante em seu galope e na sua picada cadenciados onde seja admirado por onde passar. O cavalo do russo Putin e o do judeu Benjamim Netanyahu, o “Bibi” tem o instinto do extermínio e da matança. E o seu cavalo agressivo contra o meio ambiente?
Para onde vais com tanta correria? Pergunte ao cavalo. Como dizia Nietsche em “Assim Falava Zaratustra”, não deixe seu voo (ou seu cavalo) se extraviar da terra. Todo poder a ela. Nesse mundo tão desumano, cada um deve se reconciliar consigo mesmo e aprender a controlar o seu cavalo. Não deixe que ele siga em disparada. Mantenha as rédeas firmes.
“CRISE CLIMÁTICA E SEUS IMPACTOS NO MUNICÍPIO DE VITÓRIA DA CONQUISTA”
A canalização subterrânea do rio Verruga que nasce no Poço Escuro e atravessa a cidade, a liberação de condomínios em suas margens e nascentes, entre outras agressões ao meio ambiente, poderão no futuro próximo provocar grandes enchentes e estragos materiais e humanos em vitória da Conquista.
A advertência é do professor Altemar Amaral Rocha, doutor em Geografia pela Universidade de Barcelona e pesquisador da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), em palestra feita ontem à noite (10/06), na Câmara de Vereadores, promovida pelo partido Rede, que compõe a Federação junto ao PSOL.
Com o tema “Crise Climática e seus Impactos no Município de Vitória da Conquista”, os trabalhos foram abertos pelo presidente da Rede, professor José Itamário, quando, na ocasião, lembrou das tragédias ocorridas pelas chuvas no estado do Rio Grande do Sul onde as tempestades e enxurradas ceifaram a vida de mais de 200 pessoas e provocaram prejuízos incalculáveis na economia local.
Em sua palestra, o pesquisador da Uesb fez um relato histórico da fundação do Arraial de Nossa Senhora das Vitórias até se tornar em Vila Imperial pelo fundador João Gonçalves da Costa, quando aqui chegou no meado do século XVIII, desbravou o Sertão da Ressaca e abriu várias estradas para o sul e para o norte de forma predatória, inclusive exterminando os índios descentes dos Pataxós (Mangoiós e Imborés).
Com relação aos tempos mais atuais, fez duras críticas ao relaxamento dos governantes municipais quanto à liberação de projetos imobiliários próximos às margens do rio Verruga, especificamente na parte leste da cidade, alertando para o acontecimento de desastres se Conquista receber pesadas chuvas num volume de 100 milímetros,
De acordo com ele, na situação de 50 milímetros ou mais, já está ocorrendo alagamentos e fortes enxurradas, principalmente nas ruas São Geraldo, Ascendino Melo e na Praça Victor Brito onde as águas caem no canal do rio Verruga até as imediações do Gancho em direção a Itambé.
A partir dali, até as imediações da Uesb, a prefeitura, transgredindo o código ambiental, concedeu autorização para construção de condomínios às margens do rio que no futuro podem ser inundados e causar vários estragos no futuro – ressaltou o professor.
Sobre o aterramento de nascentes em outras partes da cidade, justamente nas encostas da Serra do Periperi e adjacências, afirmou que essas mudanças climáticas vão afetar mais os pobres, constituídos por cerca de dois terços da nossa população de mais de 300 mil habitantes.
Altemar citou também os constantes alagamentos que já vêm acontecendo no Bairro Lagoa das Flores em decorrência de agressões cometidas à nascente do rio Catolé. Sobre todo esse cenário, nada animador, disse que vem empreendendo pesquisas há 30 anos e observando o desrespeito às leis contra o meio ambiente.
A depredação da Serra do Periperi, desde a abertura da Rio-Bahia (BR-116), na década de 1960, quando se deu a exploração predatória de pedras e areias para obras de construção civil, durante mais de 30 anos, foi outro ponto questionado. Quando chove, todo material restante da Serra desce dos bairros mais altos e provoca sérios estragos nas ruas da cidade.
Durante o vento, que contou com as presenças de membros do PSOL e de outros partidos, vários pronunciamentos condenaram a atual gestão da prefeita Sheila Lemos, dizendo ser um governo corrupto e que vem passando por cima da legislação ambiental, colocando a cidade em risco.
CÂMARA REALIZA SESSÃO ESPECIAL SOBRE MATRIZES DO NOSSO FORRÓ
A ausência de representantes da Secretaria de Cultura, Turismo, Esportes e Lazer – Sectel foi criticada pela maioria dos participantes da sessão especial sobre matrizes do forró, proposta pela vereadora Lúcia Rocha, e realizada na Câmara Municipal de Vereadores. Muitos parlamentares não se fizeram presentes ao ato, o que foi também lamentável, tratando-se da importância do assunto para valorização da nossa cultura nordestina.
Essa sessão é promovida todos os anos pela vereadora no mês de junho, dedicado aos santos São João, Santo Antônio e São Pedro, buscando o resgate das festas juninas. Lúcia Rocha destacou a identidade cultural que representa o São João para o povo nordestino. Ela disse ser fundamental preservar e valorizar essas tradições e manter o senso de pertencimento das comunidades.
Segundo Lúcia, as matrizes do forró formam a base desse rico mosaico cultural, cada um trazendo suas características únicas e contribuindo para a pluralidade do forró como um todo. Como todos outros membros da mesa, a parlamentar cobrou mais valorização aos artistas da terra e pontuou sobre a ausência da Sectel.
O jornalista, escritor e ativista cultural do Sarau A Estrada, Jeremias Macário também usou da palavra quando fez duras críticas sobre a descaracterização que vem ocorrendo no forró nos últimos anos com a introdução de artistas e bandas de fora que tocam outros ritmos. Citou a lamentável ausência de prepostos da Secretaria de Cultura e afirmou que estão trocando o Gonzagão pelo Safadão.
Na ocasião, parabenizou a vereadora pela realização anual da sessão matrizes do forró, que envolve muito além da música, passando pela alimentação, moda e linguagem. Apontou que governos e prefeituras trocam forrozeiros e bandas tradicionais por outros ritmos alheios à cultura junina, como no caso específico do Governo do Estado e do município de Vitória da Conquista, especificando as contratações de Safadão e de Amado Batista.
Falou ainda o instrutor de forró Vinícius Gomes que cobrou avanços na valorização do forró e da dança para além do projeto junino, quando o forró ganha maior notoriedade, “A gente dança forró o ano inteiro”. Ele cobrou mais projetos culturais relacionados ao forró e à dança fora do período junino.
O produtor cultural Vadinho Barreto afirmou que os festejos juninos são uma expressão de fé do povo nordestino e profunda manifestação cultural. No Nordeste, em sua avaliação, os festejos são também expressões de devoção a Santo Antônio, São João e São Pedro.
O representante do Grupo de Quadrilha Junina Flor de Panela, Thiago, indagou aos presentes quantas pessoas sabem responder o número de grupos de quadrilhas em Vitória da Conquista. “ É algo difícil de se responder, pois pouco se comenta sobre os grupos de quadrilhas”. Adiantou que, em se tratando da terceira maior cidade da Bahia, Conquista deixa muito a desejar no que se refere ao incentivo aos grupos e movimentos juninos.
Assinalou as dificuldades enfrentadas pelos grupos de quadrilhas no sentido de realizar suas atividades e, como exemplo, citou o seu. Declarou que praticamente não existe apoio do poder público. Relatou que para manter os eventos muitos realizam pedágios em semáforos da cidade para arrecadar recursos.
O vereador Marcus Vinícius (PODE) se declarou apaixonado pelo forró e informou sobre o projeto do Festival de Música que ele pretende implantar em Conquista, com objetivo de promover a valorização da cultura conquistense. O seu colega Augusto Cândido, MDB, criticou a ausência de representantes do poder executivo na sessão e declarou que a Secretaria de Cultura foi convidada. Deveria se fazer presente, respeitando a Câmara e o município”.
“DA VIRTUDE GENEROSA”
“Quanto mais você cresce, mais você sente sofrimento” – disse Nietzsche em seu livro “Assim Falava Zaratustra”. No capítulo “Da virtude generosa”, Zaratustra deixou seus discípulos na cidade de nome “Vaca Malhada” e falou que queria prosseguir sozinho porque era amigo das caminhadas solitárias.
Antes disso, indagou por que o ouro tinha alcançado o seu mais alto valor. “Por ser raro e inútil, de brilho cintilante e brando. É somente por ser imagem de virtude suprema que o ouro se tornou o valor supremo. A virtude suprema é uma virtude generosa”.
Ao pregar sobre o amor, assinalou que, na verdade, é preciso que esse amor generoso se faça de todos os valores sua presa, “mas eu chamo sadio e sagrado esse egoísmo”. Ele se referia à ambição da pessoa querer se converter em vítima e oferenda. “Por isso tendes a sede de acumular todas as riquezas em vossas almas”.
Nietzsche falou sobre outro egoísmo, aquele ”demasiado pobre que morre de fome, que quer roubar sempre, o egoísmo dos doentes, o egoísmo doente”.
“Com olhos de ladrão olha tudo o que reluz, com a avidez da fome mede aquele que tem abundantemente do que comer e sempre gira em torno da mesa dos que dão”. Ele perguntou aos discípulos qual coisa parecia pior de todas, e respondeu ser a degenerescência quando falta generosidade à alma.
“Caminhamos para as alturas, ultrapassando a espécie para atingir a espécie superior, temos horror ao sentido degenerado, o sentido que diz: Tudo para mim”. Para o filósofo, o sentido quando voa para o alto, torna-se imagem do nosso corpo, imagem de uma ascensão.
“Assim caminha o corpo, ao longo da história, evoluindo e lutando. E o espírito? Que é ele para o corpo? É arauto, companheiro e eco de suas lutas e vitórias”. Prosseguiu afirmando que todos os nomes do bem e do mal são imagens. Louco é aquele que delas (imagens) quer receber o conhecimento. Recomendou ter atenção a qualquer um dos momentos em que vosso espírito quer falar em imagens. “Ali está a fonte da virtude”.
Ao dirigir-se novamente aos seus discípulos, aconselhou que permanecessem fiéis à terra com todo poder de vossas virtudes. “Que vosso amor generoso e vosso conhecimento estejam a serviço da terra”.
“O espírito, bem como a virtude, tem-se extraviado e enganado assim de mil maneiras até agora em seu voo. Ai! Ainda agora habita em nosso corpo toda essa loucura e esse desvio: Tornaram-se corpo e vontade”
“Lutamos ainda passo a passo com o gigante Acaso e sobre a humanidade inteira reinou até hoje o absurdo, a falta de sentido”. Ensinou que o espírito e a virtude sirvam para o sentido da terra. Deveis ser lutadores e criadores. De acordo com Nietzsche, o corpo se purifica pelo saber e se eleva com as tentativas conscientes. Para aqueles que conhece, todos os instintos se santificam.
Em sua visão, a terra ainda deverá se tornar um lugar de cura. O homem que busca o conhecimento não só deve poder amar seus inimigos, mas também odiar seus amigos.
Ele fala também em festejar com seus discípulos o meio-dia, fazendo uma alusão à vida. “E o grande meio-dia será quando o homem estiver na metade de seu trajeto, entre o animal e o super-homem, se mantiver firme, como sua esperança suprema, e festeja seu caminho para o ocaso, porquanto será o caminho para uma nova manhã”.
O que declina, em sua opinião, se abençoará a si mesmo por estar passando para outra esfera. E o sol de seu conhecimento atingirá o zênite. Para Nietzsche, todos os deuses morreram. Agora queremos que viva o super-homem.
FESTAS JUNINAS EM TORCA DE VOTOS
Carlos González – jornalista
A última relação divulgada pelo jornal “A Tarde”, com base em dados fornecidos pelo Painel da Transparência nos Gastos Públicos com Festejos Juninos, mais de 300 municípios, de um total de 417 na Bahia, ainda não tinham enviados a programação das festas populares deste mês. Em ano de eleições, não há como fugir à regra, os prefeitos, em busca de um novo mandato, utilizando de artifícios na contabilidade, gastam o que não podem em festas e publicidade.
O Painel foi criado pelo Ministério Público do Estado da Bahia (MP/BA). Trata-se de mais uma ferramenta de fiscalização, apropriada para este período do ano, que, em parceria com os tribunais de contas e outros órgãos estaduais e federais, está acompanhando a gestão eficiente dos recursos públicos.
Os gestores municipais estão obrigados a informar a natureza dos recursos empregados nos eventos artísticos promovidos entre 1º de maio e 31 de julho. Os primeiros 171 informes já foram encaminhados ao MP, revelando investimentos acima de R$ 195 milhões, empregados na contratação de 1.615 atrações, o que dá R$ 1,1 milhão para cada um, valor que não corresponde à realidade dos gastos, confessados pelos próprios prefeitos..
A consulta pública aos dados enviados pelo Estado e pelos municípios foi aberta esta semana pelos órgãos fiscalizadores. Além dos valores dos cachês pagos aos cantores e bandas contratados, os interessados terão acesso aos horários e locais das apresentações. O “Transparetômetro” será atualizado diariamente.
O Painel não menciona quais as punições previstas para aqueles que agirem fraudulentamente, uma prática tão comum, subentendida nas licitações públicas, ou no desvio de verbas destinadas à educação e à saúde.
Vamos nos afastar um pouco do calor da fogueira junina, lá no interior do Nordeste, para entrar no arraial dos políticos, todos de olho nas eleições de outubro. Nossa primeira visita é a Vitória da Conquista, cuja prefeitura foi alvo recentemente de investigações da Controladoria Geral da União (CGU) e da Polícia Federal (PF), com o objetivo de desarticular uma organização criminosa que atuava na Secretaria de Saúde do município, no período mais agudo da pandemia.
A “Operação Dropout” constatou irregularidades na aquisição de testes rápidos para detecção de Covid-19, no valor total de R$2.030.000,00. As licitações foram dispensadas porque havia urgência em evitar o avanço da doença e, consequentemente, promover a preservação de mais vidas. A empresa escolhida pelo município em duas compras foi a que apresentou o preço mais alto, gerando um superfaturamento de R$ 677.600,00. No ano eleitoral de 2020, Conquista recebeu mais de 31 milhões em recursos federais, destinados exclusivamente às ações de enfrentamento ao coronavírus.
Voltando aos festejos em homenagem aos santos de junho, notamos que a prefeita Sheila Lemos, candidata à reeleição, tem priorizado o entretenimento, ao contrário do seu antecessor e padrinho político, o evangélico Herzem Gusmão.
Em anos anteriores, no único palco montado na cidade, desfilavam artistas da região. Este ano, acompanhando a sistemática de governo de Bruno Reis, seu companheiro do União Brasil e prefeito de Salvador, Sheila apostou nos shows ao ar livre, com artistas conhecidos no país (Elba Ramalho, Ivete Sangalo, Targino Gondim e outros), pagando cachês altos.
Neste primeiro semestre, os conquistenses curtiram uma micareta; no momento, visitam e assistem shows na 53ª Exposição Agropecuária, no Parque Teopompo de Almeida, instalada com recursos do município; e, nos próximos dias, participarão da programação musical do São João, no centro da cidade e na zona rural. Portões abertos para o povo em todos os eventos.
Se não há cobrança por parte daqueles que foram eleitos com a finalidade de fiscalizar os atos do Executivo, no caso, a Câmara de Vereadores, a plebe permanece sem saber quanto seu alcaide está “torrando” em festas, com a agravante de que, segundo pesquisa, entre dez bandas que vão subir ao palco no interior da Bahia apenas duas cultivam o ritmo que consagrou Luiz Gonzaga e Dominguinhos.
Em Cruz das Almas, no Recôncavo Baiano, a prefeitura calcula gastar R$ 10 milhões com ornamentação da cidade e contratação de artistas; em Tucano, no nordeste baiano, o prefeito Ricardo Maia Filho pretende gastar R$ 3 milhões com pagamento aos artistas. A título de exemplo, Wesley Safadão vai faturar a bagatela de R$ 1,9 milhão para se apresentar nas duas cidades.
No século 27 aC, o imperador romano Otávio Augusto criou a política do “pão e circo”, que consistia em distribuir entre os miseráveis pão e trigo e em promover espetáculos no Coliseu.
O objetivo era manter os plebeus alienados, evitando qualquer possibilidade de revolta social contra os privilégios da burguesia.
Cientistas políticos afirmam que no Brasil, desde o período colonial, os gestores públicos mantêm viva a prática do “pão e circo”.
A doutrina assistencialista seria o “pão”; os festejos populares simbolizariam o “circo”. A finalidade é despolitizar a classe pobre para que ela continue votando nos tiriricas, negacionistas e corruptos; para que ela se afaste dos veículos sérios de comunicação e se apegue aos “fake news” distribuídos pelas redes sociais.


















