A MULHER RENDEIRA E O ERUDITO
Depois de tanto fuçar nos estudos filosóficos, teológicos, da ciência, ler milhares de livros e colocar seu conhecimento e sabedoria acima da cabeça dos outros, o erudito foi acometido pelo vírus do sofrimento e da dor.
Não conseguiu desvendar os enigmas e os mistérios que nos cercam as origens planetária, do criador da vida, do infinito e o que há além da morte. Ele estava sendo consumido pelos próprios pensamentos, vivendo em compartimentos empoeirados. Suas pequenas máximas não alcançavam a fé.
Então, resolveu sair por aí pelo Nordeste para ouvir os mais humildes, os artesãos, os poetas, os cordelistas, repentistas e as expressões culturais do povo mais simples com suas crendices. Em suas andanças, no sertão mais agreste e profundo nordestino, terminou por se encontrar com uma velha senhora rendeira de bilros, que também sabia fiar, pacientemente, seu tecido naquele antigo tear que nos tempos atuais chamam de geringonça.
Por alguns instantes ficou embasbacado, boquiaberto ao ver a habilidade daquela mulher com os bilros e os fios entre os dedos das mãos no compasso certo com os pés no pedal, num ritmo perfeito da fiação, bem diferente do seu cérebro intrincado e confuso.
Deu um bom dia, ou boa tarde, sei lá, e cumprimentou a senhora em voz baixa, meio sem jeito, com receio de atrapalhar seu trabalho. Ao sentir sua inquietação, e ao olhar aquele senhor de barba de intelectual, aparência fina e educado, como é costume da gente do interior, a rendeira a ele se dirigiu:
– Pode falar, seu doutor, não fique aí parado. Seja bem-vindo à nossa renda e ao tear, profissões originárias e tradicionais das mulheres imigrantes portuguesas açorianas, mas que está se acabando com o tempo. As jovens agora só querem ir para as cidades de celular na mão.
– Como a senhora aprendeu essa arte tão preciosa e admirável de confeccionar fios que se entrelaçam, sem se embaralhar? – Indagou o doutor.
– Ah, seu doutor, tudo isso vem desde minha tataravó, que passou para minha bisavó e daí para minha avó, minha mãe e eu foi a única das sete filhas que aprendeu esse ofício de rendar. Ela contou a história de dona “Santinha”, Maria Amélia Furtado, a primeira rendeira famosa por essas redondezas. Tudo indica que ela era do Ceará.
O erudito, homem do querer esmiuçar, quis saber de mais coisas e até pediu desculpas se não estava atrapalhando sua obra. Poderia confundir sua ágil mão. Por um momento, ficou a matutar como o complicado se tornava simples e com resultados concretos no final, diferente das suas indagações filosóficas que paravam em algum ponto, confusas e sem respostas. Sua rotina era um quebra-cabeça.
– Não atrapalha não, seu doutor! Aqui a gente já faz tudo de olhos fechados, sem errar os pontos das linhas nos lugares certos. Pode ir falando que escuto. Passo o dia todo aqui sentada, no meu silêncio interior, que nem ouço o barulho dos humanos, só o canto dos pássaros e o gado berrando na cacimba quando bate a seca e a falta de água.
O erudito quis saber de mais detalhes sobre seu trabalho, quais fios usava, se não era cansativo, estressante e se aquilo dava algum sustento para a família, isto é dinheiro, “bufunfa”, grana.
– Aqui é uma terapia de vida e me sinto bem e feliz com isso. Faço com amor. Nada de estresse e cansaço! Evita a gente ficar pensando em besteiras. Nem me preocupo com o tempo e até entro pela noite com o nosso velho lampião. Normalmente utilizamos os fios de linho, algodão, seda, viscose e outros mais.
– Quanto a renda das rendas, seu doutor, dá para sobreviver e não passar fome com a venda de colchas, lençóis, fronhas, redes, blusas e outras peças artesanais que alguém compra ou levamos para as feiras das cidades. Tudo isso já é um outro processo depois da fiação no bilro e no tear.
Curioso, como todo estudioso do pensar e do saber, o doutor quis ver o produto final, que ele não consegue quando se depara com as dúvidas sobre Deus e outros mistérios existenciais e espirituais. Em sua mente, os temas e assuntos sempre estão além da sua cabeça. Mesmo assim, o mestre erudito acha entender de tudo.
A mulher rendeira o levou para uma sala apertada e mostrou suas rendas bem trabalhadas, feitas com todo carinho e dedicação, sem mistérios.
Ele ficou extasiado a olhar as rendas e bordados. Com as mãos, sentiu aquela textura fina, os traçados, os fios a deslizar e o cheiro do tecido em suas narinas.
Repentinamente bateu um estalo em sua cabeça, e o erudito propôs comprar toda produção da rendeira, e olha que nem pechinchou preço. O mais inesperado é que ele terminou por fazer uma parceria com a rendeira para adquirir seus produtos.
Depois daquela longa conversa experimental e prática, do hotel retornou para a capital e lá resolveu deixar tudo, inclusive sua cátedra como professor. Montou uma loja de rendas artesanais nordestinas com o nome “Mulher Rendeira”, para divulgar aquela cultura secular, ou porque não, milenar.
Passou a ser mais feliz, alegre, emotivo e baniu o sofrer. Deixou seus colegas estupefatos e sem entender aquela brusca mudança de atitude.
A mulher rendeira continuou a rendar, com toda paciência do mundo, e até melhorou de vida como fornecedora do novo cliente comerciante que garantiu a si mesmo não explorar sua mão-de-obra, ou de fada da artista da renda. “Olê, mulher rendeira,/olê mulher rendar,/me ensina a fazer renda/que te ensino a namorar”…
O FEMEAPÁ
Carlos González – jornalista
O carioca Sérgio Porto exerceu nas décadas de 50 e 60 várias atividades. Foi jornalista, escritor, teatrólogo e compositor. Uma das suas maiores criações como cronista do jornal “Última Hora” foi o “Festival de Besteiras que Assola o País”, o “Febeapá”, que ele assinava como Stanislaw Ponte Preta, cuja característica era criticar, com humor refinado, a ditadura militar e o moralismo social. Nos dias de hoje, Sérgio, se estivesse entre nós (morreu em setembro de 1968, com 45 anos), certamente teria idealizado o “Femeapá” – “Festival da Mentira que Assola o País”.
O criador das “Certinhas do Lalau” (concurso que reunia vedetes do teatro rebolado) elegeria Jair Bolsonaro como o principal protagonista das mentiras que, nos últimos anos, difundidas nas redes sociais, têm destroçado lares e amizades, incutido a desinformação de forma odiosa entre a população inculta, fácil de enganar, e sendo intolerante com a governança do país e o relacionamento entre os três poderes. Mentiroso e negacionista, ele tinha prometido “se recolher” se perdesse as eleições de 2022.
Provavelmente, Bolsonaro não teria passado mais de 30 anos como membro do baixo claro, entre sete mandatos como deputado federal e quatro como vereador da cidade do Rio de Janeiro, se no dia 16 de junho de 1988 o Superior Tribunal Militar (STM) – a maioria dos seus membros fora nomeada pela ditadura militar de 1964 a 1985 – não tivesse feito vista grossa para os planos terroristas do capitão Jair Messias Bolsonaro, absolvendo-o por nove votos a quatro. Cinco meses antes, em primeira instância, os juízes pediram, por unanimidade, a expulsão do militar “por ter praticado atos que afetam a honra pessoal, o pundonor militar e o decoro da classe”.
O capítulo que juntou insurreição com traição foi ao ar em 3 de setembro de 1986 com a publicação na revista “Veja” de um artigo assinado por Bolsonaro, reclamando dos baixos soldos pagos aos praças (soldado a aspirante) e oficiais subalternos (tenente e capitão). O crime de insubordinação lhe rendeu 15 dias de prisão. Um ano depois a mesma revista publicou uma entrevista, ilustrada com um croqui do funcionamento de uma bomba, com o ex-presidente detalhando um plano para espalhar o terror nos quarteis e no sistema de abastecimento de água do Rio.
A imprensa mentiu
Trinta e dois anos depois da audiência, no STM, o jornalista Luiz Maklouf Carvalho conseguiu o áudio das cinco horas da sessão secreta. Em seu livro “O Cadete e o Capitão” (Editora Todavia) ele relata em 700 páginas a negativa de Bolsonaro a todas as acusações; a pressão impositiva na sala do Tribunal do general Newton Cruz (apontado por crimes contra a humanidade durante a ditadura e mentor do atentado ao Riocentro em 1981) e do general João Figueiredo (último presidente do regime militar); a defesa – “meus comandados sempre têm razão” – do ministro do Exército Leônidas Pires Gonçalves.
Maklouf mostra que os participantes dedicaram grande parte da sessão para insultar a imprensa, que havia se livrado três anos atrás dos grilões da censura imposta pelos militares golpistas. A repórter Cássia Maria, que ouviu Bolsonaro em quatro encontros, com a presença de testemunhas, foi chamada de famigerada. A “Veja” foi classificada como “um reduto de judeus argentinos em busca de dinheiro”.
Para o escritor, não resta dúvida que a aversão dos militares à imprensa ajudou a absolver Bolsonaro, que ganhou notoriedade entre cabos e sargentos, que o elegeram vereador pela cidade do Rio, e sete mandatos em Brasília. Os votos que ele e sua clã receberam foram digitados nas urnas eletrônicas, cuja segurança contestou e nunca provou, ao revelar ser um mau perdedor em 2022.
Maklouf acredita que um dia virão à tona as atividades dos 11 anos passados pelo tenente Bolsonaro na caserna, nos últimos anos da ditadura. Sabe-se, apenas, que ele servia numa unidade de Artilharia e da sua amizade com o general Newton Cruz, chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI). Após despir a farda, na condição de parlamentar e presidente, sempre exaltou as figuras dos torturadores que agiam nos porões da ditadura, e continua negando que o Brasil viveu 21 anos sob um regime de exceção.
Após tomar posse na Presidência da República, Bolsonaro incentivou a criação, não oficialmente, do “Gabinete do Ódio”, vinculado ao Palácio do Planalto. Sob a orientação dos filhos, os “fakes news” passaram a abarrotar as redes sociais, sendo as notícias aceitas como verdade por 89,77% dos eleitores bolsonaristas, segundo a organização Avaaz, exercendo uma influência muito grande no resultado do pleito presidencial de 2018. Contrapondo-se à desinformação, os jornais criaram uma seção de esclarecimento aos leitores.
Em abril, a Câmara dos Deputados rejeitou a proposta que tinha o objetivo de impedir os “fakes news”. Para Giovanni Cerini (PL-RS), “a iniciativa visa inviabilizar o projeto eleitoral de Bolsonaro”. Mais uma das muitas imoralidades patrocinadas por esse nosso Legislativo. Outros atos pusilânimes (anistia às irregularidades, inclusive financeiras, cometidas pelos partidos políticos; a condenação de crianças estupradas e a generosidade com os estupradores; e a proibição das delações premiadas) estão na pauta do Congresso para serem discutidos após o recesso do meio do ano.
Com Bolsonaro, 1º de abril é todo dia. A dedução é do site “Aos Fatos”, cujos pesquisadores checaram que em 1.185 dias de governo o ex-presidente deu 5.145 declarações falsas ou distorcidas, acolhidas por uma plateia de gente fanática e fundamentalista, que defende uma pauta de costumes semelhante a imposta pelo Talibã aos afegãos.
O jornalista Ruy Castro, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), escreveu em sua coluna na “Folha”, “que Bolsonaro tem processos e acusações suficientes para enjaulá-lo por 500 anos. Isso ainda não aconteceu porque a Justiça tem de seguir o seu curso “normal”. Vitorioso na eleição ou no golpe, implantaria uma ditadura que nos faria sentir saudade dos militares”.
CONVERSA DE CACHORROS
Antigamente os cachorros eram praticamente todos iguais e não tinham esse tratamento especial de hoje (nem todos). Não existiam lojas de Pet Shop e eram raros os veterinários para cuidá-los. Hoje, muitos têm até psicólogos, terapeutas e são melhores tratados que milhares de humanos. No entanto, os cachorros de rua continuam por aí abandonados e ao relento, mas se livraram das carrocinhas malvadas que eram um tormento e chororô.
Tem ainda o cachorro do rico e do pobre, o nordestino e o valentão feroz. Um dia essa cachorrada resolveu se reunir para bater aquele papo sério e contar os seus problemas, vantagens e histórias, como ocorre entre humanos, inclusive crianças, jovens e adultos, uns mais abastados e outros da pobreza. Cachorro também tem divisão de classes e é até marxista comunista.
No encontro, o primeiro a abrir a boca foi o cachorrinho (a) de madama e soltou seu escárnio e desprezo com seus irmãos de rua. Com toda aquela etiqueta e pose de privilegiado foi logo falando.
– Vocês vivem por aí sujos, pulguentos, comendo restos e sobras de comidas que dão, dormindo nas calçadas, marquises e no frio, fazendo suas “vergonhices” trepando até em público. Levam até chutes e pontapés desses brutos. Muitas vezes são até envenenados por importunações.
– Eu tenho casa confortável, como do bom e do melhor, vestido (a), sou vacinado, tenho meu veterinário e a madama me faz aquele carinho gostoso que excita até meu pingolinho. Ela toma banho nu comigo que me deixa doidão. Sou chamado de filho e que faço parte da família. O dono também faz aquele chamego e tem mais: tenho nome de gente famosa, de filósofo, poeta e celebridades. Ah, ganho festa de aniversário com bolos, decoração, velas, presentes e parabéns.
O cachorro (a) rico metido a besta esnobou o quanto pode, mas saiu de lá um vira lata peduro atrevido e outros amigos e começaram a jogar duro contra o serelepe boçal de raça estrangeirada de nomes complicados.
– Vocês não passam de uns manipulados objetos, brinquedos de diversão nas mãos dessas peruas e babacas da elite nojenta. São usados para pura diversão. Sua turma não tem liberdade de correr ruas e avenidas, não sabe se virar para sobreviver e nunca aprendeu atravessar uma rua na faixa certa, sem ser atropelado pelos carros.
Do grupo apareceu outro e disse mais umas boas de olho em riste fazendo tremer os intrometidos. Jogou duro! Como diz no popular, soltou os cachorros nos riquinhos perfumados.
– Experimentam sair por aí pelas cidades e logo serão mortos e massacrados. Vocês só sabem viver em apartamentos ou casas fechadas entre quatro paredes com horário marcado para sair para cagar e mijar fora. Nem têm o direito de transar com o parceiro ou a parceira que quer. O casamento e combinado. Aqui nossa comunidade é socialista onde um ajuda o outro e andamos em bando. A nossa prosa é bem mais interessante que essa conversa mole e fresca de burguês.
No meio da fuzarca, entrou outro de uma raça diferente esquisita e começou aquele bate boca acirrado. Pura baixaria! Os vira-latas chegaram juntos e encararam com dentes cerrados, com intenção de bater forte e partir para a briga. Foi aquela algazarra, e os mauricinhos e patricinhas murcharam as orelhas.
O cachorro nordestino, como cabra da peste, não deixou por menos com uma peixeira do lado.
– Qual é! Quer encarar? Vocês nem sabem nem o que é fome e ser retirante de lugar em lugar. Nosso couro é duro como de jacaré e somos bons de porrada, arretados e não temos medo de fantasmas. Sabemos caçar e já andamos até no cangaço. Botou para quebrar.
Nisso, entraram dois valentões, um rottweiler e outro pit bull, daqueles tipos guarda-costas e leões de chácaras, rosnando como feras selvagens com garras dentárias de estranguladores.
– Ei, vocês todos aí, vamos acabar com essa putaria, com essa pouca vergonha, coisa de cachorrada. Melhor ir circulando cada um para seus lugares, bando de fanfarrões! Querem apanhar?
Interessante! Em nossa sociedade brasileira acontecem coisas semelhantes no aspecto social e comportamental humano. Os mais fortes de poder são os que mandam e obedecem quem tem juízo.
CANTO NOTURNO, A CANÇÃO PARA DANÇAR E A CANÇÃO DO SEPULCRO
Com tons poéticos e filosóficos, Nietzsche, em “Assim Falava Zaratustra,” diz que é insondável o que os olhos não podem penetrar e nele me afogo. A sabedoria e a vida se parecem. Têm seu anzol de ouro.
Na noite, falam mais alto todas as fontes que jorram, e minha alma também jorra. Todas as canções dos amantes despertam na noite. Minha alma é uma canção de um homem que ama. Em mim há uma coisa insaciável que é o desejo de amar e fala a linguagem do amor. Sou noite e, se não fosse, minha solidão seria estar rodeado de luz.
O filósofo compara as estrelas cintilantes como vagalumes celestiais e expressa que ficaria cheio de ventura em receber vossa luz, mas vivo em minha própria, absorvendo as chamas que de mim brotam.
Para ele, a mão que nunca se cansa de dar tem uma sorte maldita. Ó eclipse do meu sol! Ó desejo de desejar! Ó fome devoradora na saciedade. Em sua visão, há um abismo entre dar e receber. Aquele que sempre dar corre o risco de perder o pudor. Aquele que reparte sem cessar acaba por calejar as mãos e o coração.
“Meus olhos já não se arrasam de lágrimas ao ver a vergonha dos que imploram. Minha mão endureceu demais para experimentar o tremor das mãos cheias”. Mais adiante, fala que muitos sóis gravitam no espaço vazio. Sua luz diz a tudo o que é obscuro.
Como tempestade, voam os sóis por suas órbitas. É a maneira deles de viajar. Só as criaturas noturnas tiram vosso calor do luminoso. Tudo é gelo em torno de mim e minha mão se queima ao tocar o gelo. Se é noite, por que hei de ser luz, ter sede do noturno e solidão. É noite e falam todas as fontes que jorram. Minha alma é também uma fonte borbulhante. Despertam todas as canções dos que amam. Minha alma também é uma canção que ama.
Em canção para dançar, Nietzsche afirma ser advogado de Deus perante o diabo que é o espírito do peso. No vale, quando as donzelas veem Zaratustra, elas param, mas ele manda prosseguir. Diz ser selva e noite de árvores sombrias, mas quem não se amedrontar, encontrará sob meus ciprestes coroas de rosas.
“Saberá também encontrar o pequenino Deus preferido das donzelas dançarinas. Está junto da fonte, tranquilo, de olhos fechados. Ele pede que as dançarinas não se zanguem com sua presença, se contra o pequeno Deus ando tanto irritado. Ele pode gritar e chorar.
Da sabedoria, sempre estamos sedentos dela e não nos saciamos. Olhamos através de seu véu, sempre versátil e obstinada. Pode ser má e falsa e me afoga no insondável. Ela diz: Tu queres, tu desejas, tu amas! E só por isso elogias a vida.
De acordo com sua filosofia, ninguém pode responder pior do que quando diz a verdade à sua sabedoria. “Eu nada amo mais profundamente do que a vida”…
Por que? Para que? Onde? Como? Não é uma loucura viver ainda. É a noite que assim me interroga. Perdoai-me a tristeza.
Na canção do sepulcro, ele fala de uma ilha taciturna onde lá estão os sepulcros da sua juventude. Vos todos, olhares de amor, momentos divinos! Como vos desvanecestes depressa! Penso hoje em vós como em meus mortos.
Dos mortos prediletos, afirma chegar a si um suave perfume que alivia seu coração e faz correr as lágrimas. Esse perfume comove o coração do navegante solitário.
Nietzsche fala dos fugitivos que morreram para ele. Sou ainda o herdeiro e a herança de vosso amor onde florescem as virtudes silvestres de todas as cores. Não fugistes de mim e nem eu de vós. Não somos culpados reciprocamente de nossa infidelidade.
Eu te amaldiçoou, oh morte soberana que abreviastes minha eternidade, como se interrompe um som na fria noite. “Matastes as visões e os prodígios mais caros da minha juventude. Tirastes de mim meus companheiros de jogo, os espíritos bem-aventurados. Em memória deles, deposito esta coroa e esta maldição.
“Para mim todos os seres devem ser divinos. Me assombrastes com imundos fantasmas. Na sabedoria da minha juventude, todos os dias devem ser sagrados para mim. Assim me falava outrora a sabedoria de minha juventude. Afasta de mim tua sombra fantasmagórica”.
“Outrora eu suspirava por bons presságios e então lançastes em meu caminho uma monstruosa coruja. Como cego percorri caminhos felizes e neles lançastes vossas imundices. Envenenastes meu melhor mel e o zelo de minhas melhores abelhas”.
Zaratustra reclama que a morte entoou para seus companheiros uma surda e lúgubre melodia. Cantor assassino, instrumento da maldade, tu, que eras o mais inocente. Eu estava pronto para a mais bela dança e tu com teus sons mataste meu embalo. No final da sua conversa, ele diz que onde há sepulturas há ressurreições.
CARYBÉ, O ESCULTOR DOS ORIXÁS (2)
(Chico Ribeiro Neto)
Posto hoje a segunda parte da minha entrevista com Carybé, publicada na revista “Manchete” em 26/07/75.
Carybé faz uma afirmação de fé: “A força da Bahia dá mais verdade à civilização”.
Vamos ao texto:
“Carybé nasceu na cidade argentina de Lanus, de pai italiano e de mãe gaúcha de Santa Maria da Boca do Monte. Os pais tinham se casado em Missões, na Argentina, mas logo depois do casamento foram se instalar em Mato Grosso onde nasceu o filho mais velho, Arnaldo. Depois se transferiram para o Paraguai, onde nasceram mais duas irmãs. Na cidade de Pousadas, nas Missões, veio ao mundo o quarto filho, que também virou pintor.
Andarilho, o velho decidiu voltar para a Itália, onde Carybé viveu os primeiros oito anos de sua existência. Até hoje costuma relembrar que sua primeira língua foi o italiano. Depois da Primeira Grande Guerra, a família voltou para o Brasil estabelecendo-se no Rio de Janeiro, na zona da rua Pedro Américo.
Em 1929, os rapazes da família ganharam uma empreitada para a decoração do Carnaval dos três grandes hotéis da época: Copacabana Glória e o Palácio.
“Ganhamos uma verdadeira fortuna: 19 contos de réis. Aí, o velho inventou de viajar de novo e voltamos à Argentina, onde fiquei mandando crônicas e desenhos para os jornais.”
Carybé trabalhou em jornal durante 22 anos. Mas seu irmão curtia cerâmica e os dois começaram a fabricar louças e azulejos. Carybé entrou de forneiro depois ajudou a pintar as peças.
Em Buenos Aires, quando a barra começou a pesar, empregou-se numa fábrica de caixotes, de onde saiu com as mãos totalmente arrebentadas.
Sobre a história de seu nome, há várias versões. Como sempre, a verdadeira é a mais banal. Os dois irmãos artistas, Roberto e Hector Bernabo, eram bastante procurados. Mas sempre dava confusão quando alguém chamava um Bernabo. Hector tinha sido escoteiro quando criança, e entrou na Patrulha dos Peixes, onde ficara sendo um Carybé. Havia gostado do apelido por achá-lo sonoro e um belo dia, depois de grande, para acabar com a confusão entre os Bernabo, resolveu chamar-se apenas de Carybé. Pegou.
Artista inato, procurou uma vez frequentar um curso de pintura, em escola noturna que tinha professor, modelo e tudo.
“Mas achei chato, e em vez de ficar diante dos modelos posando achei melhor sair para a rua, e observar. Várias vezes fui convidado a ensinar em escolas de Belas-Artes. Numa, aceitei. Iria ensinar o quê? Nunca aprendi. Não sei fazer um quadro de uma vez. Começo apago tudo, deixo ele de castigo uns 15 dias contra a parede. Depois pego de novo, vejo o que está ruim e vou continuando. Mas acho que a escola vale, pelo menos para quem tem recursos porque fornece a ajuda de pessoas mais experientes, de eventuais orientadores.”
(Continua na próxima semana).
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
FLORES DO MEU QUINTAL
Um quintal sem flores é como uma alma sem cores. Nos momentos de mais introspecção ou quando se sente por dentro um vazio, elas lhe transportam para um outro lado do além, até mesmo para longe do conhecer e do saber que, na maioria das vezes, trazem sofrimento e dor. Elas podem não lhe dar uma resposta para seus enigmas e mistérios existenciais da vida, mas penetram em seu espírito e o faz aquietar-se, como se fossem calmantes naturais que fazem parar o tempo do passado, do presente e do futuro. Nas flores do meu quintal ainda tenho a me visitar o beija-flor e outros pássaros que cantam, encantam e espantam meus males. Elas são como almas vivas no meu caminho solitário do desconhecido. Dizem que também sou criador porque fui gerado da terra e a ela retornarei. Flores do meu quintal que não se cansam de sorrir para mim na alegria e na solidão do meu ser. São sábias as flores do meu quintal, como se fossem canções em noites de sarau. São poesias que não fazem distinção de crenças e fés. São curas para nossas doenças e dançam suavemente ao sabor do vento, tanto faz ser do norte ou do sul, do leste ou oeste. Elas são como rainhas e vinhas do nosso sertão Nordeste, tão agreste que abriga a flor do mandacaru.
ESCOLHO O TEU CHEIRO
Do livro “Suspiros Poéticos” – a beleza da lira cor – da poetisa Regina Chaves dos Santos, lançado na Bienal do Livro de Salvador, e participante do nosso “Sarau A Estrada”. Regina ofertou sua obra ao nosso “Espaço Cultural A Estrada” que agradece dele fazer parte como um dos mais raros perfumes da terra.
Regina Chaves
Uma noite para uma vida inteira…
E eu te prometo amor, amar-te – eternamente!
Sentindo que este amor que nos chegou ontem, embriaga faceira o meu coração, m- tomando conta de todo o meu ser!
Mergulho na imensidão desse querer, totalmente diferente e, – completamente apaixonado!
Simples assim,
– Dos mais raros perfumes escolho o teu cheiro
O teu cheiro de flo-da-pele provocando em mim, arrepios, – na magia do teu sorriso!
Eu te prometo amor, amar-te desde ontem – a vida inteira!
Sabes por que?
– Porque dos mais preciosos perfumes, eu escolho, o teu cheiro!!!
EDUCAÇÃO PRECÁRIA, MAIS ATRASO E VIOLÊNCIA NUM PAÍS TÃO RICO E POBRE
Uma mistura indigesta neste Brasil tão rico, tão pobre e desigual. Se os governantes, desde passados remotos, tivessem atentado para a priorização da educação das nossas crianças e jovens, não teríamos tanto atraso e tanta violência, que só no trânsito e em homicídios, mata mais de 150 mil por ano, uma guerra que supera todas as outras no planeta atual.
Enquanto esse Congresso Nacional conservador discute questões do PL do Estupro, privatização das praias, flexibilização das leis ambientais, mais agrotóxicos no campo, armas nas mãos da população, proibição da deleção premiada de presos, normas eleitorais para os políticos se perpetuarem no poder e outros absurdos, lá fora existe uma guerra civil de brasileiros matando brasileiros.
Sobre o meu comentário “Quem alimenta a violência”?, o professor Durval Menezes, em áudio no Grupo do Museu de Kard, acrescentou considerações importantes quanto a fome em nosso país, o terceiro maior produtor de alimentos do mundo com a maior área agricultável e que desperdiça 70% dos produtos. A fome também é uma grande violência contra a dignidade primária do ser humano.
Sobre a violência no trânsito e os homicídios, como bem falou o professor, morre menos gente nos conflitos entre Israel/Palestina (30 a 40 mil), Rússia e Ucrânia do que no Brasil, levando em conta somente essas duas áreas citadas (trânsito e homicídios). Temos ainda a violência de gêneros contra mulheres, homossexuais, LGBTs e estupros.
Não dá para conceber que 30 ou 40 milhões passam fome e metade da população de mais de 200 milhões de habitantes vive em favelas, barracos e periferias sem saneamento básico. Volto a indagar: Que Brasil é esse, tão rico e tão desigual? É uma questão histórica de séculos.
Essa situação vem desde os tempos coloniais, passando pelo império e a república que se tornou coisa deles da oligarquia capitalista selvagem e não nossa. O Brasil atravessou levantes, rebeliões, conjurações, ditaduras e redemocratizações, com ciclos de altos e baixos no crescimento econômico acumulativo sempre nas mãos de poucos. Esse quadro da desigualdade do sobe e desce continua profundo e vergonhoso perante o mundo.
O professor falou também da violência no trânsito e o alto número de homicídios, incluindo aí a guerra entre traficantes, milicianos e a polícia. De acordo com pesquisa do Atlas da Violência, não é concebível que a Bahia seja o estado com maior violência, destacando pela ordem cinco cidades do interior, como Santo Antônio de Jesus, Jequié, Simões Filho, Camaçari, Simões Filho e Juazeiro. Salvador está na nova posição e Feira de Santana é a décima mais violenta do país.
Neste cenário devastador da violência estão envolvidos políticos bandidos e corruptos como chefes de organizações criminosas que comandam o tráfico, o aliciamento, o suborno e as matanças daqueles que atravessam seus caminhos e fazem parte do poder através de eleições viciadas onde o eleitor ignorante e pobre de espirito é apenas um instrumento de suas manobras e manipulações.
Na educação somos uma vergonha nos índices de aproveitamento mundial, como agora ficou atestado no aspecto da criatividade dos jovens estudantes. Somos ainda um gigante adormecido pela própria natureza. Costa Rica, Colômbia, Chile, Uruguai e a própria Argentina, nossos hermanos, com todas suas crises, nos supera na educação e na cultura.
Dentre mais de 60 países, estamos entre o 44º em criatividade, e pior ainda em matemática. Singapura, Coréia do Sul e Canadá tiveram as melhores pontuações e se desenvolveram através da educação, mas aos políticos e governantes retrógrados e egoístas do Brasil, o que interessa é ter o povo aos seus pés, votando em todas eleições por favor e dinheiro.
Estamos agora nas festas juninas gordas das eleições onde os prefeitos e o poder público em geral soltam milhões de reais superfaturados para bandas e cantores de ritmos alienantes e assassinos das nossas tradições, trocando o Gonzagão pelo Safadão.
No entanto, para enganar os bestas e idiotas, passam o ano alegando não ter recursos suficientes para melhorar a educação, a nossa cultura e a saúde. Como explicar esse paradoxo? São os próprios poderosos que mais alimentam a violência.
QUEM ALIMENTOU A VIOLÊNCIA?
POR QUE ELA? POR QUE ELE? POR QUE MEU FILHO OU MINHA FILHA? NINGUÉM ESTÁ MAIS LIVRE DA VIOLÊNCIA.
O título é uma pergunta que carece de muita reflexão sociológica e filosófica. Outra indagação seria: A violência se alimenta do Estado ou é o Estado que se alimenta da violência? Para a primeira, diria que foi a sociedade que ao longo dos últimos anos alimentou a violência quando ela sempre foi indiferente à pobreza e aos problemas sociais de desigualdades.
Quando a violência começou a crescer no Brasil, ela passou a se alimentar do Estado que, no lugar de ocupar seu espaço de direito, deixou que os bandidos fizessem o seu papel, tomou as favelas e se aproveitou do povo carente de tudo, tornando-o prisioneiro dos traficantes e milicianos. Ela entrou para explorar e dar a “proteção” que o Estado não fez.
Do outro lado, o Estado também se alimenta dessa violência quando gera mais violência com tanques, soldados despreparados e armas pesadas, como se fosse a solução. Temos uma corporação militar arcaica que precisa ser repensada, reformada ou até mesmo extinta para criação de outra com outra linha filosófica.
Essa polícia militar que temos, que mata mais pobres e negros, e que está a serviço dos patrões do Estado, não passa de bucha de canhões ou pau mandado de uma política que há séculos não tem dado certo. Tem um ditado popular que diz que errar é humano, mas continuar no erro é uma burrice.
O pior de tudo é não admitir isso como fazem os donos do Estado que preferem continuar investindo pesado em armamentos, contratação de mais e mais policiais, grupamentos de violência e construção de penitenciárias do que cuidar melhor das nossa crianças e jovens, com educação e amparo social.
Temos ainda uma sociedade conservadora às mudanças, como a descriminalização das drogas, e indiferente à miséria que só sabe dizer que bandido bom é bandido morto. Ela acha que apenas dando uma cesta básica ou uma esmola na esquina da rua, no semáforo, está fazendo sua parte. O resto que se dane. É uma sociedade egocêntrica.
Essa sociedade de mentalidade burguesa de maior poder aquisitivo e rica achou e ainda acha que resolveria seus problemas se trancando em apartamentos luxuosos cheios de grades, porteiros eletrônicos e equipamentos tecnológicos sofisticados de última geração.
Como a violência no país só fez aumentar, e a tendência é piorar, invadindo os asfaltos pobres e ricos das médias e grandes cidades, agora o indivíduo chora quando alguém da sua família é atingida com golpes fatais, como estão vendo recentemente no Rio de Janeiro e em Salvador.
Por que ela, cara? Com suas lágrimas nos olhos, foi a pergunta feita pelo marido da mulher que foi morta na troca de tiros entre a polícia e os traficantes, O problema é que você nunca parou para pensar que um ente querido poderia também ser a vítima dessa violência que a própria sociedade vem alimentando há anos.
Poderia ter acontecido com outra pessoa qualquer, no caso os mais pobres que mais sofrem com a violência, e aí você permaneceria indiferente, como sempre foi, porque não foi consigo. Ela estava na hora e no lugar errado, como também aconteceu com um senhor trabalhador idoso que se encontrava dentro de um ônibus.
Nesse momento trágico, a dor não tem distinção de classe, mas sem essa de indagar do porquê com ela, se com essa violência, do tipo guerra civil em que vivemos, ninguém pode abrir a boca e dizer que é inatingível. Nos falta a consciência de que foi essa nossa sociedade que criou o monstro que agora está devorando o próprio criador. É o filme de ficção se transformando em realidade, onde o criador é engolido pela criatura.
SARAU DEBATEU ÁRABES E JUDEUS NA PENÍNSULA IBÉRICA SÉCULO VIII AO XV
A ESCRAVIDÃO BRANCA OU CRISTÃ PELOS MUÇULMANOS TAMBÉM FOI UM TEMA EM DISCUSSÃO.
Mais uma vez, o Sarau A Estrada, que já recebeu o Troféu Glauber Rocha de Cultura e está completando 14 anos de existência, deu uma demonstração de força cultural e de resistência com a participação de intelectuais, professores, artistas, jovens estudantes e outras pessoas interessadas na troca do conhecimento e do saber.
Foi uma noite encantada na expressão das pessoas (mais de 30) que vieram ao nosso encontro no último sábado (dia 15/06/24), no Espaço Cultural A Estrada, quando foi discutido o tema “Árabes e Judeus na Península Ibérica no Século VIII ao Século XV e ainda sobre a “Escravidão Branca ou Cristã” que ocorreu no século XVI ao final do século XVIII na região da Berbéria (Tripoli, Tunísia e Argel”.
Árabes, Judeus e Escravidão Branca
Os trabalhos foram abertos pelo professor Itamar Aguiar que falou da importância do tema e das influências árabe e judaica que chegaram até o nosso país com a conquista de Portugal. Tratou da questão dos judeus trazidos por Portugal que chegando aqui eram obrigados a se tornarem cristãos, principalmente na época da inquisição.
Fernando fez uma profunda pesquisa dividida em diversos períodos, como o romano, visigótico, os judeus em Al-Andaluz, os judeus nos reinos cristãos, os árabes na Espanha, relação com os reinos cristãos, a economia e a cultura, o legado linguístico e toponímia – nomes de lugares.
“Para o que aqui nos interessa usaremos o fio do começo com algumas considerações dos passos da conquista romana que sustentaram a questão dos judeus em séculos antes de Cristo e adentraremos aos séc. V e VII d.C com os visigodos e a escravidão dos judeus, chegando ao sec. XV com a expulsão dos judeus não convertidos, em decreto assinado pelos reis Católicos, surgindo assim o grande movimento migratório de judeus, o dos sefarditas judeus provenientes de Sefarad, Espanha” – afirmou o palestrante em sua exposição.
Logo depois ele fez uma descrição sobre os árabes na Península Ibérica, destacando que a dominação islâmica não teve a mesma duração, nem as mesmas repercussões, em todas as zonas peninsulares entre Portugal e Espanha.
“Durante 781 anos, a Espanha medieval foi governada, total ou parcialmente por muçulmanos que presidiram uma extraordinária experiência cultural. A chave para entender o Al-Ándalus está em sua estrutura social não ortodoxa e em sua localização política entre dois mundos: oriental e ocidental”.
O jornalista e escritor Jeremias Macário falou sobre a Escravidão Branca que ocorreu na região da Berbéria (Tripoli, Tunísia e Argel), no período do século XVI ao final do século XVIII. Seu trabalho foi baseado no livro “Escravos Cristão, Senhores Muçulmanos”, do autor Robert. C, Davis, historiador e professor da Ohio State University, Phd em história do Mediterrâneo e da Itália.
Assinalou que essa escravidão foi um tipo de revanchismo dos muçulmanos às Cruzadas entre os séculos XI e XII. Eram corsários e piratas que aprisionavam os brancos ou cristãos em navios e nas regiões litorâneas da França, Portugal, Espanha e, principalmente, na Itália e depois pediam resgates ou levavam esses escravos para os banhos públicos (locais de prisões) que depois eram submetidos a trabalhos forçados.
O assunto é inesgotável, mas os nossos palestrantes Fernando Michelena, o professor Itamar Aguiar e o jornalista e escritor Jeremias Macário conseguiram fazer uma síntese histórica sobre o assunto, tão importante que deixaram legados e muitas de suas influências culturais para o nosso povo brasileiro desde a colonização portuguesa. Logo depois, os debates foram calorosos e valorosos, como do português Luis Altério, da historiadora Lídia, do professor Rubens Mascarenhas e tantos outros.
Cantorias, causos e poesias
Como sempre, após as palestras, o espaço foi aberto a declamações de poemas autorais, cantorias de viola por conta do nosso amigo Vanberto que nos abrilhantou com seu show, contos de causos, estórias populares e troca de ideias que vararam a madrugada. Num clima de interação cordial e fraternal entre amigos e amigas, tudo isso foi acompanhado de bebidas e comidas (cerveja, licor, vinho e uma cachacinha), com destaque para a saborosa dobradinha feita pela nossa anfitriã Vandilza Gonçalves, muito elogiada pela sua dedicação e gentileza.
Numa decoração totalmente junina, lembrando nossas tradições nordestinas, também de autoria de Vandilza, foi mais um sarau que marcou os corações dos participantes interessados por manter a nossa cultura e a nossa memória vivas. Tudo isso ficou registrado nos depoimentos das pessoas que fizeram parte do evento.
“Esses encontros lindos nos é de uma profundeza sem tamanho. O aconchego em que somos recebidos e acolhidos, então… Essa delicadeza e a voz que nos é permitida emanar e escutar (bater papo) atravessam o pensamento nos emergindo em um caldo de diferentes culturas. A cada encontro há uma energia boa. Assim também aos queridos amigos estradeiros que não puderam ir, fizeram muita falta. Contudo, todos foram lembrados nos nomes colocados nas bandeirinhas”- conforme impressão da nossa poetisa Maria Regina.
O nosso frequentador Dal Farias disse que a intervenção de Fernando, Itamar e Jeremias foi de uma contribuição primordial para nosso entendimento e compreensão do tema abordado, trazendo para todos a questão que foi a epopeia árabe para conquistar o ocidente, principalmente a península ibérica. Gostei das intervenções de Rubens e Luis Altério. Foi uma compilação dos meus estudos do velho mundo.
De acordo ainda com Dal, o que mais me encanta no sarau é o desprendimento. É surpreendente quando encontramos, não somente os intelectuais, mas também a fartura, a forma chique, mesmo que rústica, do bom receber e do compartilhamento. Vamos valorizar o Sarau Cultural A Estrada porque somos gratos por este espaço.
Cleu Flor também fez seus agradecimentos e apreciações, bem como Luis Altério, Itamar Aguiar, o nosso fotógrafo José Silva e seu filho Denis, o contador de causos Jhesus, Armando e sua esposa Rose, Humberto e Rose, Liu Telles, quando afirmou termos voltado ao tempo em que as pessoas batiam papo uns com os outros. Todos (mais de 30 presentes) expressaram seu grau de contentamento por mais uma noite cultural.
Segundo o palestrante Fernando, o querer unir a todos os que como eu, agradecemos por ter desfrutado de uma noite deliciosa onde respiramos cultura, tolerância, alegria e camaradagem. Obrigado a todos pela agradável companhia e pelo acolhimento dos anfitriões.






















