(Chico Ribeiro Neto)

Posto hoje a segunda parte da minha entrevista com Carybé, publicada na revista “Manchete” em 26/07/75.

Carybé faz uma afirmação de fé: “A força da Bahia dá mais verdade à civilização”.

Vamos ao texto:

“Carybé nasceu na cidade argentina de Lanus, de pai italiano e de mãe gaúcha de Santa Maria da Boca do Monte. Os pais tinham se casado em Missões, na Argentina, mas logo depois do casamento foram se instalar em Mato Grosso onde nasceu o filho mais velho, Arnaldo. Depois se transferiram para o Paraguai, onde nasceram mais duas irmãs. Na cidade de Pousadas, nas Missões, veio ao mundo o quarto filho, que também virou pintor.

Andarilho, o velho decidiu voltar para a Itália, onde Carybé viveu os primeiros oito anos de sua existência. Até hoje costuma relembrar que sua primeira língua foi o italiano. Depois da Primeira Grande Guerra, a família voltou para o Brasil estabelecendo-se no Rio de Janeiro, na zona da rua Pedro Américo.

Em 1929, os rapazes da família ganharam uma empreitada para a decoração do Carnaval dos três grandes hotéis da época: Copacabana Glória e o Palácio.

“Ganhamos uma verdadeira fortuna: 19 contos de réis. Aí, o velho inventou de viajar de novo e voltamos à Argentina, onde fiquei mandando crônicas e desenhos para os jornais.”

 

Carybé trabalhou em jornal durante 22 anos. Mas seu irmão curtia cerâmica e os dois começaram a fabricar louças e azulejos. Carybé entrou de forneiro depois ajudou a pintar as peças.

Em Buenos Aires, quando a barra começou a pesar, empregou-se numa fábrica de caixotes, de onde saiu com as mãos totalmente arrebentadas.

Sobre a história de seu nome, há várias versões. Como sempre, a verdadeira é a mais banal. Os dois irmãos artistas, Roberto e Hector Bernabo, eram bastante procurados. Mas sempre dava confusão quando alguém chamava um Bernabo. Hector tinha sido escoteiro quando criança, e entrou na Patrulha dos Peixes, onde ficara sendo um Carybé. Havia gostado do apelido por achá-lo sonoro e um belo dia, depois de grande, para acabar com a confusão entre os Bernabo, resolveu chamar-se apenas de Carybé. Pegou.

 

Artista inato, procurou uma vez frequentar um curso de pintura, em escola noturna que tinha professor, modelo e tudo.

“Mas achei chato, e em vez de ficar diante dos modelos posando achei melhor sair para a rua, e observar. Várias vezes fui convidado a ensinar em escolas de Belas-Artes. Numa, aceitei. Iria ensinar o quê? Nunca aprendi. Não sei fazer um quadro de uma vez. Começo apago tudo, deixo ele de castigo uns 15 dias contra a parede. Depois pego de novo, vejo o que está ruim e vou continuando. Mas acho que a escola vale, pelo menos para quem tem recursos porque fornece a ajuda de pessoas mais experientes, de eventuais orientadores.”

(Continua na próxima semana).

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)