POR QUE ELA? POR QUE ELE? POR QUE MEU FILHO OU MINHA FILHA? NINGUÉM ESTÁ MAIS LIVRE DA VIOLÊNCIA.

O título é uma pergunta que carece de muita reflexão sociológica e filosófica. Outra indagação seria: A violência se alimenta do Estado ou é o Estado que se alimenta da violência? Para a primeira, diria que foi a sociedade que ao longo dos últimos anos alimentou a violência quando ela sempre foi indiferente à pobreza e aos problemas sociais de desigualdades.

Quando a violência começou a crescer no Brasil, ela passou a se alimentar do Estado que, no lugar de ocupar seu espaço de direito, deixou que os bandidos fizessem o seu papel, tomou as favelas e se aproveitou do povo carente de tudo, tornando-o prisioneiro dos traficantes e milicianos. Ela entrou para explorar e dar a “proteção” que o Estado não fez.

Do outro lado, o Estado também se alimenta dessa violência quando gera mais violência com tanques, soldados despreparados e armas pesadas, como se fosse a solução. Temos uma corporação militar arcaica que precisa ser repensada, reformada ou até mesmo extinta para criação de outra com outra linha filosófica.

Essa polícia militar que temos, que mata mais pobres e negros, e que está a serviço dos patrões do Estado, não passa de bucha de canhões ou pau mandado de uma política que há séculos não tem dado certo. Tem um ditado popular que diz que errar é humano, mas continuar no erro é uma burrice.

O pior de tudo é não admitir isso como fazem os donos do Estado que preferem continuar investindo pesado em armamentos, contratação de mais e mais policiais, grupamentos de violência e construção de penitenciárias do que cuidar melhor das nossa crianças e jovens, com educação e amparo social.

Temos ainda uma sociedade conservadora às mudanças, como a descriminalização das drogas, e indiferente à miséria que só sabe dizer que bandido bom é bandido morto. Ela acha que apenas dando uma cesta básica ou uma esmola na esquina da rua, no semáforo, está fazendo sua parte. O resto que se dane. É uma sociedade egocêntrica.

Essa sociedade de mentalidade burguesa de maior poder aquisitivo e rica achou e ainda acha que resolveria seus problemas se trancando em apartamentos luxuosos cheios de grades, porteiros eletrônicos e equipamentos tecnológicos sofisticados de última geração.

Como a violência no país só fez aumentar, e a tendência é piorar, invadindo os asfaltos pobres e ricos das médias e grandes cidades, agora o indivíduo chora quando alguém da sua família é atingida com golpes fatais, como estão vendo recentemente no Rio de Janeiro e em Salvador.

Por que ela, cara? Com suas lágrimas nos olhos, foi a pergunta feita pelo marido da mulher que foi morta na troca de tiros entre a polícia e os traficantes, O problema é que você nunca parou para pensar que um ente querido poderia também ser a vítima dessa violência que a própria sociedade vem alimentando há anos.

Poderia ter acontecido com outra pessoa qualquer, no caso os mais pobres que mais sofrem com a violência, e aí você permaneceria indiferente, como sempre foi, porque não foi consigo. Ela estava na hora e no lugar errado, como também aconteceu com um senhor trabalhador idoso que se encontrava dentro de um ônibus.

Nesse momento trágico, a dor não tem distinção de classe, mas sem essa de indagar do porquê com ela, se com essa violência, do tipo guerra civil em que vivemos, ninguém pode abrir a boca e dizer que é inatingível. Nos falta a consciência de que foi essa nossa sociedade que criou o monstro que agora está devorando o próprio criador. É o filme de ficção se transformando em realidade, onde o criador é engolido pela criatura.