Carlos González – jornalista

O carioca Sérgio Porto exerceu nas décadas de 50 e 60 várias atividades. Foi jornalista, escritor, teatrólogo e compositor. Uma das suas maiores criações como cronista do jornal “Última Hora” foi o “Festival de Besteiras que Assola o País”, o “Febeapá”, que ele assinava como Stanislaw Ponte Preta, cuja característica era criticar, com humor refinado, a ditadura militar e o moralismo social. Nos dias de hoje, Sérgio, se estivesse entre nós (morreu em setembro de 1968, com 45 anos), certamente teria idealizado o “Femeapá” – “Festival da Mentira que Assola o País”.

O criador das “Certinhas do Lalau” (concurso que reunia vedetes do teatro rebolado) elegeria Jair Bolsonaro como o principal protagonista das mentiras que, nos últimos anos, difundidas nas redes sociais, têm destroçado lares e amizades, incutido a desinformação de forma odiosa entre a população inculta, fácil de enganar, e sendo intolerante com a governança do país e o relacionamento entre os três poderes. Mentiroso e negacionista, ele tinha prometido “se recolher” se perdesse as eleições de 2022.

Provavelmente, Bolsonaro não teria passado mais de 30 anos como membro do baixo claro, entre sete mandatos como deputado federal e quatro como vereador da cidade do Rio de Janeiro, se no dia 16 de junho de 1988 o Superior Tribunal Militar (STM) – a maioria dos seus membros fora nomeada pela ditadura militar de 1964 a 1985 – não tivesse feito vista grossa para os planos terroristas do capitão Jair Messias Bolsonaro, absolvendo-o por nove votos a quatro. Cinco meses antes, em primeira instância, os juízes pediram, por unanimidade, a expulsão do militar “por ter praticado atos que afetam a honra pessoal, o pundonor militar e o decoro da classe”.

O capítulo que juntou insurreição com traição foi ao ar em 3 de setembro de 1986 com a publicação na revista “Veja” de um artigo assinado por Bolsonaro, reclamando dos baixos soldos pagos aos praças (soldado a aspirante) e oficiais subalternos (tenente e capitão). O crime de insubordinação lhe rendeu 15 dias de prisão. Um ano depois a mesma revista publicou uma entrevista, ilustrada com um croqui do funcionamento de uma bomba, com o ex-presidente detalhando um plano para espalhar o terror nos quarteis e no sistema de abastecimento de água do Rio.

A imprensa mentiu

Trinta e dois anos depois da audiência, no STM, o jornalista Luiz Maklouf Carvalho conseguiu o áudio das cinco horas da sessão secreta. Em seu livro “O Cadete e o Capitão” (Editora Todavia) ele relata em 700 páginas a negativa de Bolsonaro a todas as acusações; a pressão impositiva na sala do Tribunal do general Newton Cruz (apontado por crimes contra a humanidade durante a ditadura e mentor do atentado ao Riocentro em 1981) e do general João Figueiredo (último presidente do regime militar); a defesa – “meus comandados sempre têm razão” – do ministro do Exército Leônidas Pires Gonçalves.

Maklouf mostra que os participantes dedicaram grande parte da sessão para insultar a imprensa, que havia se livrado três anos atrás dos grilões da censura imposta pelos militares golpistas. A repórter Cássia Maria, que ouviu Bolsonaro em quatro encontros, com a presença de testemunhas, foi chamada de famigerada. A “Veja” foi classificada como “um reduto de judeus argentinos em busca de dinheiro”.

Para o escritor, não resta dúvida que a aversão dos militares à imprensa ajudou a absolver Bolsonaro, que ganhou notoriedade entre cabos e sargentos, que o elegeram vereador pela cidade do Rio, e sete mandatos em Brasília. Os votos que ele e sua clã receberam foram digitados nas urnas eletrônicas, cuja segurança contestou e nunca provou, ao revelar ser um mau perdedor em 2022.

Maklouf acredita que um dia virão à tona as atividades dos 11 anos passados pelo tenente Bolsonaro na caserna, nos últimos anos da ditadura. Sabe-se, apenas, que ele servia numa unidade de Artilharia e da sua amizade com o general Newton Cruz, chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI). Após despir a farda, na condição de parlamentar e presidente, sempre exaltou as figuras dos torturadores que agiam nos porões da ditadura, e continua negando que o Brasil viveu 21 anos sob um regime de exceção.

Após tomar posse na Presidência da República, Bolsonaro incentivou a criação, não oficialmente, do “Gabinete do Ódio”, vinculado ao Palácio do Planalto. Sob a orientação dos filhos, os “fakes news” passaram a abarrotar as redes sociais, sendo as notícias aceitas como verdade por 89,77% dos eleitores bolsonaristas, segundo a organização Avaaz, exercendo uma influência muito grande no resultado do pleito presidencial de 2018. Contrapondo-se à desinformação, os jornais criaram uma seção de esclarecimento aos leitores.

Em abril, a Câmara dos Deputados rejeitou a proposta que tinha o objetivo de impedir os “fakes news”. Para Giovanni Cerini (PL-RS), “a iniciativa visa inviabilizar o projeto eleitoral de Bolsonaro”. Mais uma das muitas imoralidades patrocinadas por esse nosso Legislativo. Outros atos pusilânimes (anistia às irregularidades, inclusive financeiras, cometidas pelos partidos políticos; a condenação de crianças estupradas e a generosidade com os estupradores; e a proibição das delações premiadas) estão na pauta do Congresso para serem discutidos após o recesso do meio do ano.

Com Bolsonaro, 1º de abril é todo dia. A dedução é do site “Aos Fatos”, cujos pesquisadores checaram que em 1.185 dias de governo o ex-presidente deu 5.145 declarações falsas ou distorcidas, acolhidas por uma plateia de gente fanática e fundamentalista, que defende uma pauta de costumes semelhante a imposta pelo Talibã aos afegãos.

O jornalista Ruy Castro, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), escreveu em sua coluna na “Folha”, “que Bolsonaro tem processos e acusações suficientes para enjaulá-lo por 500 anos. Isso ainda não aconteceu porque a Justiça tem de seguir o seu curso “normal”. Vitorioso na eleição ou no golpe, implantaria uma ditadura que nos faria sentir saudade dos militares”.