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CENAS DE ZOMBARIA E DESRESPEITO

Como sempre em todo início de mês, o primeiro andar do Banco do Brasil, agência centro, (a situação de lotação não é somente nesta instituição) estava na manhã de ontem (dia 03/07) abarrotada de gente, especialmente de idosos que não sabem lidar com o treco da tecnologia. Para resolver seus problemas de ordem financeira (pagamentos, retiradas de aposentadorias e outras pendências) necessitam de orientações.

Estava lá para pagar uma multa de trânsito dos estradeiros pardais escondidos nas moitas, mas esse não é o caso. O que me deixou revoltado e me levou a fazer este comentário, ou crônica da vida, foi uma cena de zombaria e desrespeito praticados por uma funcionária fardada, não sei se terceirizada, que estava ali para agir no ordenamento das filas, mas dava um péssimo exemplo.

Como se não bastassem os furadores de filas tão abomináveis, a funcionária, por ordem sua, deixava que pessoas ligadas ao seu raio de relacionamento, não sei se de parentesco ou amizades, passassem na frente de uma filha de idosos para terem acesso às senhas. Estava bem claro ali o jogo de influência que não vem somente lá de cima.

Fiquei por um tempo a observar aquela atitude condenável e, para não me aborrecer – não tenho mais estômago para ver essas coisas que já me causam traumas em até ir à rua – fui embora sem resolver meu problema. A convivência entre certas pessoas está me deixando com tédio e me afastando do convívio social.

Em nosso país, infelizmente, a corrupção, o suborno e o jogo de influências de amizades e do “Quem Indica”, o famoso QI, não são privilégios somente de quem está lá nos três poderes. Eles são como pragas que invadiram todas as plantações em geral, sem distinção de classes.

Na vida dos afazeres do resolver “pepinos”, como pagamentos de contas, questões de empréstimos, problemas previdenciários, acertos financeiros e outras questões, entre as quais os cidadãos estão submetidos obrigatoriamente, quer queiram ou não, principalmente em bancos e repartições públicas, lá estão os sujos modus operandi de agir dos brasileiros que nos envergonham e entristecem.

Confesso que fiquei revoltado ao ver aqueles velhinhos (as) ali pacientemente esperando sua vez de pegar a senha e a mulher fardada atendendo seus amigos e amigas com abraços e papos, dando uma de grande mentora furadora de fila, como se tudo aquilo fosse normal. Aquilo poderia ser caracterizado como abuso de autoridade.

O pior é que ela concedia privilégios (jogo de influências) aos seus amigos de forma escancarada, como se estivesse agindo corretamente e no direito de desrespeitar e zombar de quem estava ali na fila obedecendo suas ordens. Ainda tem gente que fala que todos somos iguais perante a lei, nem nas coisas mais simples.

Além do povo brasileiro ser classificado como cordeiro, cordato e submisso, existe ainda aquela velha cultura de que você não pode ir de encontro contra quem está ali para colocar ordem, embora termine dando mau exemplo, senão a pessoa pode até ser presa por desacato e, ironicamente, perturbador da ordem pública.

 

FEDERAÇÃO REDE/PSOL AINDA NÃO FOI HOMOLOGADA POR CAUSA DA ESTADUAL

A esta altura das eleições de outubro em que os candidatos já estão fazendo suas campanhas nas ruas, a direção eleita da Federação Rede/Psol de Vitória da Conquista ainda não foi homologada e registrada na Justiça Eleitoral, tudo porque o presidente da Federação Estadual e do Psol, sr. Ronaldo Mansur tem colocado obstáculos para seu devido reconhecimento.

De pouco diálogo e conversa (tentei entrevistá-lo, mas não consegui), ele simplesmente vem negando o reconhecimento da Federação, alegando motivos que não convencem. O mesmo está ocorrendo com a diretoria municipal do Psol que, mesmo eleita em março passado com sete componentes, só três, inclusive do sr. Ronaldo como tesoureiro, tiveram seus nomes aceitos pelo presidente da estadual.

Na verdade, a diretoria está funcionando como se fosse uma comissão provisória devido à sua interferência, alegando que houve irregularidades nas indicações.  Está comissão, no momento, está sendo presidida por Ferdinand Martins. Muitos companheiros e companheiras vêm se sentindo desanimados diante desses imbróglios e até pensando em sair do partido.

Com essa situação indefinida e, levando em consideração que as convenções partidárias serão realizadas entre 20 de julho a cinco de agosto, quando os nomes dos pré-candidatos serão aprovados, corre-se o risco da Federação Rede/Psol em Conquista não ter candidatos ao legislativo, perdendo-se o prazo dos registros na Justiça Eleitoral.

Quero deixar bem claro que sou filiado ao Psol, mas não estou aqui falando em nome do partido, mas como cidadão e jornalista, para mostrar os absurdos que acontecem nessas agremiações políticas quando determinadas pessoas se acham donas e agem de forma ditatorial e unilateral.

O mais contraditório é que a nossa esquerda política sempre taxa a direita, principalmente a extrema, de ditadora. No entanto, existem membros dirigentes, ditos esquerdistas “defensores da democracia”, que agem da mesma forma ou até mesmo pior.

Esse tipo de atitude individualista e personalista só prejudica e dificulta o andamento dos trabalhos dos diretórios regionais, inclusive quando se dá uma de mandatário, com possibilidades de interditar a executiva municipal para colocação de gente sua.

Não posso confirmar com certeza se é o caso específico da Federação Rede/Psol de Vitória da Conquista, mas já aconteceram fatos semelhantes com outros partidos. Esses impasses só servem para dar espaço aos adversários da direita e da extrema que estão avançando e mais organizados.

Por incrível que pareça, historicamente a esquerda do passado, casos do PCB, PC do B e outros grupos leninistas-marxistas tinham uma linha ditatorial e até machista dentro dos partidos, embora pregassem a democracia. Nos tempos atuais, isso não é mais admissível e esses pensamentos precisam ser banidos.

Outra questão pertinente, já que está dentro do tema em descrição, é que o discurso da esquerda ainda continua velho e arcaico. Por parte deles, detentores do poder, não existe a humildade de se fazer um mea culpa e corrigir os erros. Talvez, por isso os jovens estudantes de hoje tenham se afastado por completo da política.  Isso também vale para a classe trabalhadora e os movimentos sociais.

Em conversa com um amigo neste final de semana, recordávamos dos tempos em que os estudantes unidos em torno da UNE (União Nacional dos Estudantes) e das associações secundaristas iam em blocos para as ruas e tinham a força de eleger candidatos, tanto do poder executivo e legislativo.

Nas décadas de 50, 60, 70 e até 80, os estudantes com cartazes e bandeiras nas mãos atraiam o povo que seguia, aplaudia e apoiava suas proposições e os nomes por eles indicados. Infelizmente, isso tudo se acabou e, por alienação e falta de motivação, ninguém quer saber mais dessa velha política que não renovou seu discurso e suas ações junto às bases, as quais foram abandonadas e esquecidas.

A verdade é que a direita hoje está mais competente, atrevida e impetuosa. A impressão que se tem é que a esquerda se acomodou e não se atualizou aos novos tempos, daí o avanço da extrema em vários países do mundo, sobretudo entre os mais desenvolvidos.

 

A MORTE É SOBERANA

– Lá vem você com este assunto triste e macabro – disse um amigo meu quando falávamos sobre questões existenciais, vida na terra, origens e seus mistérios que nem a ciência é capaz de desvendar.

– Sei que quase ninguém gosta de tratar do tema e até faz de conta que ela não existe, principalmente os ricos e poderosos que fazem suas maracutais, usurpam dos direitos dos outros, roubam, corrompem, só pensam em se empanturrar no dinheiro e nas coisas materiais como se fossem eternos – respondi.

O filósofo Nietzsche, que morreu louco, dizia que a morte é como uma serpente que se arrasta como uma ladra e depois se torna uma soberana. Se comentamos e louvamos tanto a vida e ela está sempre presente na literatura, na poesia, na música e nas artes em geral, por que não discutir também sobre a morte? A morte só existe porque existe vida.

A vida tem seus aperreios e glórias, talvez tanto quanto a morte. Quer queira ou não, ela está sempre presente entre nós até com nomes esquisitos dados pela mídia, como curva da morte, trevo da morte, encruzilhada da morte e por aí vai. Meu amigo deu até risadas com isso, mas não é coisa para se rir.

Não quero entrar aqui no cerne filosófico e teológico da sua existência, do onde viemos, o que somos e para onde vamos. Isso nos leva à loucura do indesvendável do ser e só paramos na fé e na religião, nos conformando com o pouco que temos, uma prova das limitações do conhecimento e do saber.

Por medo, ou sei lá qual motivo, muitos acham que não se deve falar dela para não dar azar, não trazer maus espíritos. Foi mais ou menos nesse pensar que meu amigo procurou se desvencilhar desse papo sobre a soberana.

– Qual é cara, vamos conversar sobre coisas boas! Como sou chato continuei a dizer para ele que, como a vida, a morte tem seus imprevistos, suas artimanhas e se apresenta de várias maneiras e faces. A imagem que temos dela é de uma alma penada vestida de branco com uma máscara no rosto e uma foice na mão.

Ninguém gostaria de se encontrar com ela para bater uma prosa. Fala sério! Quando alguém a ver, tenta cortar por fora, mas não tem jeito, ela está por aí como enigma e mistério e cada religião a define da sua maneira. Os espíritas, por exemplo, dizem que ela não existe e que é só uma passagem para a vida.

Os cristãos católicos e evangelhos mandam tratá-la com resignação e orientam passar a vida se preparando para ter uma boa morte. Não sabia que ela era boa, mas uma traiçoeira que nos tira o prazer de vida, do curtir, do construir e do criar.

Em algumas civilizações ela é festejada com pompas, danças, música e rituais alegres na crença de que ela é vida e espírito ancestral que vai viver em outra parte, até nas florestas e nas montanhas.

Tem aquela história do barqueiro Caronte grego, filho de Érebo, que transporta os mortos por uma moeda para a outra margem do rio turvo. Ninguém consegue ver o seu rosto. Essa ideia mitológica pode ter vinda dos povos egípcios ou mesopotâmios. A moeda é um óbolo de Caronte (forma de pagamento) colocada na boca dos mortos antes do enterro. O rio dividia o mundo dos vivos do mundo dos mortos.

Tem gente que quando está naquela angústia, naquele sufoco, com graves problemas para resolver, numa fase depressiva, na pobreza, na fome, na prisão e onde nada dá certo, pede até que ela venha logo. Nessas ocasiões, aí é que ela não vem mesmo e se faz de pirracenta malvada. Não dá liga e vai dar seus passeios por outras bandas.

Já imaginou como ela tem várias maneiras de se apresentar! Às vezes é súbita e ligeira. Chega logo cedo nas crianças e jovens, sem pedir licença e causa muito sofrimento e dor. Outras vezes deixa você ficar bem velho e depois lhe joga num leite de uma cama a penar, em casa ou num hospital.

Na vida, é preciso também ter a arte de enganá-la. Quando ela bater em sua porta, não atenda ou diga que está muito ocupado numa atividade, como a escrever um poema, fazendo um texto sobre ela, enchendo seu ego, um conto, um romance, uma peça teatral, um roteiro de cinema ou outra atividade qualquer e convença a retornar outro dia.

Vá protelando o quanto puder, mesmo sabendo que a soberana é persistente e nunca vai desistir. Um, dia chegará sua hora. Existem situações, porém, que são os próprios homens e mulheres que atalham o natural e se tornam próprios mentores da soberana, quando na ira e na violência tiram a vida do outro.

O Estado, por exemplo, o monstro dos monstros, é a própria morte ou faz um pacto com ela e parte para o extermínio. As guerras são feitas em nome dela por ambição, ganância e poder. É, fiquei falando só, porque meu amigo não me aturou e caiu fora.

 

 

“DOS GRANDES ACONTECIMENTOS”

Nesse capítulo, Zaratustra, personagem da obra de Nietzsche fala das Ilhas Afortunadas onde fumega um grande vulcão. O povo diz que a ilha está colocada num penhasco na porta do mundo subterrâneo. Ali um navio lançou âncoras onde se encontra a montanha fumegante. Sua tripulação foi caçar coelhos quando viram um homem atravessar o ar, e uma voz pronunciou estas palavras: “Já é tempo! Não há um instante a perder! ”.

Quando olharam mais de perto viram que era Zaratustra em direção à montanha do fogo. O piloto disse: É Zaratustra que vai para o inferno. Correu o boato de que ele desaparecera sem dizer para onde. No entanto, ao fim de três dias, o povo julgava que o demônio levara Zaratustra. Os discípulos preferiram acreditar que foi Zaratustra quem levou o demônio.

Depois de cinco dias ele apareceu quando se deu o diálogo dele com o cão de fogo. Nas palavras poéticas (Nietzsche deprecia os poetas e diz que todos são mentirosos e enganadores), Zaratustra afirma que a terra tem pele e essa pele sofre enfermidades de doenças e, uma delas, chama-se homem. A outra é o cão de fogo.

“Cruzei o mar e vi a verdade” – “Assim Falava Zaratustra”. Sei da tua profundidade, cão de fogo! “De onde tiras o que vomitas”? “Bebes a água do mar e é daí que vem o sal da tua eloquência. És o ventríloquo da terra. Esses demônios são salgados, mentirosos e triviais.

“Sabeis rugir e obscurecer com vossas cinzas! Tendes as maiores bocarras e aprendestes bem a arte de fazer ferver o lodo”. Por onde andas existem coisas lamacentas e cavernosas. Tudo isso quer liberdade que é teu grito predileto, mas perdi a fé nos grandes acontecimentos, pois em torno deles existem rugidos e fumaça – disse Zaratustra.

Prosseguiu dizendo para o estrépito do inferno que os acontecimentos maiores não nos surpreendem nas horas mais ruidosas, mas nas mais silenciosas. “O mundo gravita, não em torno dos inventores de novos estrondos, mas em volta dos inventores de novos valores, em silêncio”… Que importa que uma cidade seja mumificada e que caia na lama uma estátua! Aos destruidores de estátuas, destacou ser mesmo uma loucura jogar sal no mar e estátuas na lama.

O Estado é um cão hipócrita

Sobre essa questão, Zaratustra deu um conselho para os reis, às igrejas e a todos aqueles que são fracos em idade e virtude: “Deixai-vos derrubar para volverdes à vida e para que a vós retorne a virtude”!

O cão de fogo indagou que Igreja? Que é isso? Ele respondeu que é uma espécie de Estado, mais enganosa. Cala-te, tu conheces tua espécie mais que ninguém. “O Estado é um cão hipócrita como tu que gostas de falar com rugidos e fumaça para fazer crer que sua voz, como a tua, saia das entranhas das coisas”.

De acordo com ele, o Estado quer ser a todo custo o animal mais importante da terra e consegue fazer o povo acreditar que o seja. O cão ficou louco de ciúmes, e da sua goela saíram fumaças e vozes terríveis que a cólera e a inveja poderiam sufocá-lo.

Ficou encolerizado? Então, vou falar de outro cão de fogo, cuja voz nasce no coração da terra. Seu hálito e a chuva são de ouro. Disse que ele é inimigo de teus gargarejos, de tuas erupções e da raiva de tuas entranhas. Seu ouro e seu riso, tira-os do coração da terra que é de ouro. O cão meteu o rabo entre as pernas e foi esconder-se num canto.

Sobre sua passagem voadora pelo ar, falou que ele não passava de um fantasma, de uma sombra viajante. Devo manter minha sombra em rédeas mais curtas, ou prejudicará minha reputação. Já é tempo e não há um instante a perder – assim terminou sua fala.

 

 

CARYBÉ, O ESCULTOR DOS ORIXÁS (Final)

(Chico Ribeiro Neto)

Reproduzo hoje a terceira e última parte da minha entrevista com Carybé, publicada na revista “Manchete” de 26/07/1975.

Carybé conheceu a fundo “essa cidade sagrada da Bahia, onde se reúnem todos os orixás do mundo para dar mais verdade à civilização”.

Segue a matéria:

“Carybé confessa que se deixou influenciar bastante pelo desenhista alemão George Grosz, que criticava o mundo do pós-guerra, e pelos pintores Gauguin e Van Gogh. Mas não gosta de ser chamado de pintor, de desenhista, de escultor, nada disso.

“Na profissão, sou como as mulheres de certas nacionalidades: faço tudo”.

Como não se inclui numa categoria profissional única, não dá a menor bola para a crítica. E acha até que a crítica podia perfeitamente deixar de existir. Paradoxalmente, Carybé crítica a chamada arte de vanguarda:

“Você vai a uma bienal e vê certas coisas que deveriam estar num parque de diversões. Quando alguém faz um livro, sabe pelo menos que aquilo é um negócio para ser lido. Mas quando um sujeito empalha um porco para que serve isto? Uma coisa que se faz para destruir depois não pode ser coisa feita com amor. É apenas para balançar o coreto. Dizem que é para agredir. Mas para que agredir? Ocorre com a pintura de vanguarda o que ocorre com o tal do ‘som novo’. Fazer som…Se aparecesse uma cor nova chamada ‘zup’, por exemplo, seria esplêndido. Mas o espectro está aí mesmo, tremendamente definido. E rico.”

Realista e sensato, Carybé não tem preconceitos contra artistas novos que o procuram:

“O chato é chato em qualquer idade. Tem cada velho chato por aí. Mas também tem cada jovem. Quando você vê que o rapaz ou a moça tem lenha para queimar, aí é ótimo. Mas às vezes chegam por aqui umas mocinhas de família rica que, não sabendo que rumo tomar, resolvem dar para pintoras. Aí, já viu.”

Ogã da mãe de santo Senhora, já falecida, do candomblé do Axê Opô Afonjá, Carybé é de uma honestidade profissional absolutamente exemplar. Apesar de profundamente instruído nos mistérios do candomblé quando resolveu fazer o primeiro painel dos orixás (“porque não existia ainda em nenhum lugar uma iconografia completa dos santos do candomblé”), passou o tempo todo consultando Mãe Senhora, Mãe Menininha de Gantois, Olga do Alaketu e outras autoridades. Até então, só havia representações esculturais ou gráficas de entidades como Exu, Ogun, Iemanjá e poucas outras.

Carybé personalizou os 29 orixás do culto, pondo um carinho particular no seu protetor, que é Oxossi, deus da caça e da floresta. Tem prêmios de Buenos Aires, da Bienal de São Paulo, já ilustrou livros de Jorge Amado, Rubem Braga, Gabriel Garcia Marques, uma edição de alto luxo de “Macunaíma”, “As Mil e Uma Noites”, tem um painel na Galeria Torre Boston, em Buenos Aires (um painel de três andares), outro na Galeria Belgrano, também em Buenos Aires, e executou os dois grandes murais do Aeroporto Presidente Kennedy, em Nova Iorque, “coisa alegre, muito alegre, para tirar o nervosismo de quem vai pegar avião.”

Amigo íntimo de Jorge Amado, que vê praticamente todos os dias, Carybé nunca quis saber da Europa:

“Cidade grande, com vida intelectual nos cafés e botequins, não tem a força (axé) do altiplano da Bolívia e do Peru, nem a vitalidade profunda dessa cidade sagrada da Bahia, onde se reúnem todos os orixás do mundo para dar mais verdade à civilização.”

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

 

 

 

 

TROCARAM O GONZAGÃO PELO SAFADÃO

O Nando do Cordel, menos mal, mas é um grande músico da MPB e compositor para outras ocasiões, como festas natalinas. Pior foi colocar Amado Batista para se apresentar no São João de Vitória da Conquista e, em alguns lugares, trocaram o forró autêntico do Gonzagão pelo lixo do Safadão, com sofrências e outros ritmos misturados. Tudo porcaria. Agora mesmo, na festa do São Pedro, o “Ita/Pedro”, de Itabuna, a prefeitura está anunciando, descaradamente, para o público, shows de pagode e sertanejo. Nas redes sociais, acompanhei muitas mensagens e vídeos de protesto contra o que as prefeituras estão fazendo com o nosso tradicional São João nordestino, destruindo a nossa cultura, para ganhar audiência com esses cantores de massa alienada. Os promotores das nossas festas juninas dizem que é disso que o povo gosta e aí injetam mais veneno, ao invés de contribuir para estimular e manter nossa tradição do forrobodó. Ouvi um vídeo clamando que acabaram com o São João de Caruaru, Arco Verde (Pernambuco) e Sergipe. Ainda se salva o de Campina Grande, na Paraíba. É verdade que teve bandas de forró pé de serra, mas, a maioria da terra que tocou nos palcos pequenos nos intervalos dos artistas contratados a peso de ouro, sem falar nos superfaturamentos e nos subornos por debaixo do pano. O Ministério Público e outros órgãos que controlam esse setor precisam acabar com essa pouca vergonha, principalmente em anos de eleições quando os prefeitos que mais “choram” falta de recursos para educação e a saúde, gastam os “tubos”. Nessa época aparece a bufunda, a grana.

CANÇÃO DA NOITE

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Sou navegante solitário,

Interior de mim mesmo,

Da terra que me gerou,

Para viver nesse aquário,

Entre o ódio e o amor,

E nem todo mundo

É feliz aqui,

Do ir e do vir,

Nesse açoite

Da canção da noite.

 

A canção da noite,

Me transporta,

Para o vale silvestre,

Ao encontro do mestre.

 

Sou canção da noite,

Das criaturas noturnas,

Fantasma do conhecer,

Que me traz dor e sofrer.

 

Na canção da noite,

Sou fluxo e refluxo,

Morte que se arrasta,

Como ladra macabra,

Que se torna soberana,

Como sua espada tirana.

 

A canção da noite,

É sepulcro dos companheiros,

Que se foram cedo,

Levando nosso enredo.

 

É insondável

O que os olhos não penetram,

E me afogo,

No insaciável,

Da fonte que jorra,

Desejos amantes cantantes.

 

Na canção da noite,

Das estrelas cintilantes,

Vagalumes celestiais,

De luzes vagantes,

Que me indagam o porquê

Da existência do ser.

 

Ao cruzar as montanhas,

A canção da noite,

Me leva em suas entranhas

Para morar em seu luar,

Bem longe desse lugar.

 

 

 

 

A MULHER RENDEIRA E O ERUDITO

Depois de tanto fuçar nos estudos filosóficos, teológicos, da ciência, ler milhares de livros e colocar seu conhecimento e sabedoria acima da cabeça dos outros, o erudito foi acometido pelo vírus do sofrimento e da dor.

Não conseguiu desvendar os enigmas e os mistérios que nos cercam as origens planetária, do criador da vida, do infinito e o que há além da morte. Ele estava sendo consumido pelos próprios pensamentos, vivendo em compartimentos empoeirados. Suas pequenas máximas não alcançavam a fé.

Então, resolveu sair por aí pelo Nordeste para ouvir os mais humildes, os artesãos, os poetas, os cordelistas, repentistas e as expressões culturais do povo mais simples com suas crendices. Em suas andanças, no sertão mais agreste e profundo nordestino, terminou por se encontrar com uma velha senhora rendeira de bilros, que também sabia fiar, pacientemente, seu tecido naquele antigo tear que nos tempos atuais chamam de geringonça.

Por alguns instantes ficou embasbacado, boquiaberto ao ver a habilidade daquela mulher com os bilros e os fios entre os dedos das mãos no compasso certo com os pés no pedal, num ritmo perfeito da fiação, bem diferente do seu cérebro intrincado e confuso.

Deu um bom dia, ou boa tarde, sei lá, e cumprimentou a senhora em voz baixa, meio sem jeito, com receio de atrapalhar seu trabalho. Ao sentir sua inquietação, e ao olhar aquele senhor de barba de intelectual, aparência fina e educado, como é costume da gente do interior, a rendeira a ele se dirigiu:

– Pode falar, seu doutor, não fique aí parado. Seja bem-vindo à nossa renda e ao tear, profissões originárias e tradicionais das mulheres imigrantes portuguesas açorianas, mas que está se acabando com o tempo. As jovens agora só querem ir para as cidades de celular na mão.

– Como a senhora aprendeu essa arte tão preciosa e admirável de confeccionar fios que se entrelaçam, sem se embaralhar? – Indagou o doutor.

– Ah, seu doutor, tudo isso vem desde minha tataravó, que passou para minha bisavó e daí para minha avó, minha mãe e eu foi a única das sete filhas que aprendeu esse ofício de rendar. Ela contou a história de dona “Santinha”, Maria Amélia Furtado, a primeira rendeira famosa por essas redondezas. Tudo indica que ela era do Ceará.

O erudito, homem do querer esmiuçar, quis saber de mais coisas e até pediu desculpas se não estava atrapalhando sua obra. Poderia confundir sua ágil mão. Por um momento, ficou a matutar como o complicado se tornava simples e com resultados concretos no final, diferente das suas indagações filosóficas que paravam em algum ponto, confusas e sem respostas. Sua rotina era um quebra-cabeça.

–  Não atrapalha não, seu doutor! Aqui a gente já faz tudo de olhos fechados, sem errar os pontos das linhas nos lugares certos. Pode ir falando que escuto. Passo o dia todo aqui sentada, no meu silêncio interior, que nem ouço o barulho dos humanos, só o canto dos pássaros e o gado berrando na cacimba quando bate a seca e a falta de água.

O erudito quis saber de mais detalhes sobre seu trabalho, quais fios usava, se não era cansativo, estressante e se aquilo dava algum sustento para a família, isto é dinheiro, “bufunfa”, grana.

– Aqui é uma terapia de vida e me sinto bem e feliz com isso. Faço com amor. Nada de estresse e cansaço! Evita a gente ficar pensando em besteiras. Nem me preocupo com o tempo e até entro pela noite com o nosso velho lampião. Normalmente utilizamos os fios de linho, algodão, seda, viscose e outros mais.

– Quanto a renda das rendas, seu doutor, dá para sobreviver e não passar fome com a venda de colchas, lençóis, fronhas, redes, blusas e outras peças artesanais que alguém compra ou levamos para as feiras das cidades. Tudo isso já é um outro processo depois da fiação no bilro e no tear.

Curioso, como todo estudioso do pensar e do saber, o doutor quis ver o produto final, que ele não consegue quando se depara com as dúvidas sobre Deus e outros mistérios existenciais e espirituais. Em sua mente, os temas e assuntos sempre estão além da sua cabeça. Mesmo assim, o mestre erudito acha entender de tudo.

A mulher rendeira o levou para uma sala apertada e mostrou suas rendas bem trabalhadas, feitas com todo carinho e dedicação, sem mistérios.

Ele ficou extasiado a olhar as rendas e bordados. Com as mãos, sentiu aquela textura fina, os traçados, os fios a deslizar e o cheiro do tecido em suas narinas.

Repentinamente bateu um estalo em sua cabeça, e o erudito propôs comprar toda produção da rendeira, e olha que nem pechinchou preço.  O mais inesperado é que ele terminou por fazer uma parceria com a rendeira para adquirir seus produtos.

Depois daquela longa conversa experimental e prática, do hotel retornou para a capital e lá resolveu deixar tudo, inclusive sua cátedra como professor. Montou uma loja de rendas artesanais nordestinas com o nome “Mulher Rendeira”, para divulgar aquela cultura secular, ou porque não, milenar.

Passou a ser mais feliz, alegre, emotivo e baniu o sofrer. Deixou seus colegas estupefatos e sem entender aquela brusca mudança de atitude.

A mulher rendeira continuou a rendar, com toda paciência do mundo, e até melhorou de vida como fornecedora do novo cliente comerciante que garantiu a si mesmo não explorar sua mão-de-obra, ou de fada da artista da renda. “Olê, mulher rendeira,/olê mulher rendar,/me ensina a fazer renda/que te ensino a namorar”…

 

 

O FEMEAPÁ

Carlos González – jornalista

O carioca Sérgio Porto exerceu nas décadas de 50 e 60 várias atividades. Foi jornalista, escritor, teatrólogo e compositor. Uma das suas maiores criações como cronista do jornal “Última Hora” foi o “Festival de Besteiras que Assola o País”, o “Febeapá”, que ele assinava como Stanislaw Ponte Preta, cuja característica era criticar, com humor refinado, a ditadura militar e o moralismo social. Nos dias de hoje, Sérgio, se estivesse entre nós (morreu em setembro de 1968, com 45 anos), certamente teria idealizado o “Femeapá” – “Festival da Mentira que Assola o País”.

O criador das “Certinhas do Lalau” (concurso que reunia vedetes do teatro rebolado) elegeria Jair Bolsonaro como o principal protagonista das mentiras que, nos últimos anos, difundidas nas redes sociais, têm destroçado lares e amizades, incutido a desinformação de forma odiosa entre a população inculta, fácil de enganar, e sendo intolerante com a governança do país e o relacionamento entre os três poderes. Mentiroso e negacionista, ele tinha prometido “se recolher” se perdesse as eleições de 2022.

Provavelmente, Bolsonaro não teria passado mais de 30 anos como membro do baixo claro, entre sete mandatos como deputado federal e quatro como vereador da cidade do Rio de Janeiro, se no dia 16 de junho de 1988 o Superior Tribunal Militar (STM) – a maioria dos seus membros fora nomeada pela ditadura militar de 1964 a 1985 – não tivesse feito vista grossa para os planos terroristas do capitão Jair Messias Bolsonaro, absolvendo-o por nove votos a quatro. Cinco meses antes, em primeira instância, os juízes pediram, por unanimidade, a expulsão do militar “por ter praticado atos que afetam a honra pessoal, o pundonor militar e o decoro da classe”.

O capítulo que juntou insurreição com traição foi ao ar em 3 de setembro de 1986 com a publicação na revista “Veja” de um artigo assinado por Bolsonaro, reclamando dos baixos soldos pagos aos praças (soldado a aspirante) e oficiais subalternos (tenente e capitão). O crime de insubordinação lhe rendeu 15 dias de prisão. Um ano depois a mesma revista publicou uma entrevista, ilustrada com um croqui do funcionamento de uma bomba, com o ex-presidente detalhando um plano para espalhar o terror nos quarteis e no sistema de abastecimento de água do Rio.

A imprensa mentiu

Trinta e dois anos depois da audiência, no STM, o jornalista Luiz Maklouf Carvalho conseguiu o áudio das cinco horas da sessão secreta. Em seu livro “O Cadete e o Capitão” (Editora Todavia) ele relata em 700 páginas a negativa de Bolsonaro a todas as acusações; a pressão impositiva na sala do Tribunal do general Newton Cruz (apontado por crimes contra a humanidade durante a ditadura e mentor do atentado ao Riocentro em 1981) e do general João Figueiredo (último presidente do regime militar); a defesa – “meus comandados sempre têm razão” – do ministro do Exército Leônidas Pires Gonçalves.

Maklouf mostra que os participantes dedicaram grande parte da sessão para insultar a imprensa, que havia se livrado três anos atrás dos grilões da censura imposta pelos militares golpistas. A repórter Cássia Maria, que ouviu Bolsonaro em quatro encontros, com a presença de testemunhas, foi chamada de famigerada. A “Veja” foi classificada como “um reduto de judeus argentinos em busca de dinheiro”.

Para o escritor, não resta dúvida que a aversão dos militares à imprensa ajudou a absolver Bolsonaro, que ganhou notoriedade entre cabos e sargentos, que o elegeram vereador pela cidade do Rio, e sete mandatos em Brasília. Os votos que ele e sua clã receberam foram digitados nas urnas eletrônicas, cuja segurança contestou e nunca provou, ao revelar ser um mau perdedor em 2022.

Maklouf acredita que um dia virão à tona as atividades dos 11 anos passados pelo tenente Bolsonaro na caserna, nos últimos anos da ditadura. Sabe-se, apenas, que ele servia numa unidade de Artilharia e da sua amizade com o general Newton Cruz, chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI). Após despir a farda, na condição de parlamentar e presidente, sempre exaltou as figuras dos torturadores que agiam nos porões da ditadura, e continua negando que o Brasil viveu 21 anos sob um regime de exceção.

Após tomar posse na Presidência da República, Bolsonaro incentivou a criação, não oficialmente, do “Gabinete do Ódio”, vinculado ao Palácio do Planalto. Sob a orientação dos filhos, os “fakes news” passaram a abarrotar as redes sociais, sendo as notícias aceitas como verdade por 89,77% dos eleitores bolsonaristas, segundo a organização Avaaz, exercendo uma influência muito grande no resultado do pleito presidencial de 2018. Contrapondo-se à desinformação, os jornais criaram uma seção de esclarecimento aos leitores.

Em abril, a Câmara dos Deputados rejeitou a proposta que tinha o objetivo de impedir os “fakes news”. Para Giovanni Cerini (PL-RS), “a iniciativa visa inviabilizar o projeto eleitoral de Bolsonaro”. Mais uma das muitas imoralidades patrocinadas por esse nosso Legislativo. Outros atos pusilânimes (anistia às irregularidades, inclusive financeiras, cometidas pelos partidos políticos; a condenação de crianças estupradas e a generosidade com os estupradores; e a proibição das delações premiadas) estão na pauta do Congresso para serem discutidos após o recesso do meio do ano.

Com Bolsonaro, 1º de abril é todo dia. A dedução é do site “Aos Fatos”, cujos pesquisadores checaram que em 1.185 dias de governo o ex-presidente deu 5.145 declarações falsas ou distorcidas, acolhidas por uma plateia de gente fanática e fundamentalista, que defende uma pauta de costumes semelhante a imposta pelo Talibã aos afegãos.

O jornalista Ruy Castro, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), escreveu em sua coluna na “Folha”, “que Bolsonaro tem processos e acusações suficientes para enjaulá-lo por 500 anos. Isso ainda não aconteceu porque a Justiça tem de seguir o seu curso “normal”. Vitorioso na eleição ou no golpe, implantaria uma ditadura que nos faria sentir saudade dos militares”.

 

 

CONVERSA DE CACHORROS

Antigamente os cachorros eram praticamente todos iguais e não tinham esse tratamento especial de hoje (nem todos). Não existiam lojas de Pet Shop e eram raros os veterinários para cuidá-los. Hoje, muitos têm até psicólogos, terapeutas e são melhores tratados que milhares de humanos. No entanto, os cachorros de rua continuam por aí abandonados e ao relento, mas se livraram das carrocinhas malvadas que eram um tormento e chororô.

Tem ainda o cachorro do rico e do pobre, o nordestino e o valentão feroz. Um dia essa cachorrada resolveu se reunir para bater aquele papo sério e contar os seus problemas, vantagens e histórias, como ocorre entre humanos, inclusive crianças, jovens e adultos, uns mais abastados e outros da pobreza. Cachorro também tem divisão de classes e é até marxista comunista.

No encontro, o primeiro a abrir a boca foi o cachorrinho (a) de madama e soltou seu escárnio e desprezo com seus irmãos de rua. Com toda aquela etiqueta e pose de privilegiado foi logo falando.

– Vocês vivem por aí sujos, pulguentos, comendo restos e sobras de comidas que dão, dormindo nas calçadas, marquises e no frio, fazendo suas “vergonhices” trepando até em público. Levam até chutes e pontapés desses brutos. Muitas vezes são até envenenados por importunações.

– Eu tenho casa confortável, como do bom e do melhor, vestido (a), sou vacinado, tenho meu veterinário e a madama me faz aquele carinho gostoso que excita até meu pingolinho. Ela toma banho nu comigo que me deixa doidão. Sou chamado de filho e que faço parte da família. O dono também faz aquele chamego e tem mais: tenho nome de gente famosa, de filósofo, poeta e celebridades. Ah, ganho festa de aniversário com bolos, decoração, velas, presentes e parabéns.

O cachorro (a) rico metido a besta esnobou o quanto pode, mas saiu de lá um vira lata peduro atrevido e outros amigos e começaram a jogar duro contra o serelepe boçal de raça estrangeirada de nomes complicados.

– Vocês não passam de uns manipulados objetos, brinquedos de diversão nas mãos dessas peruas e babacas da elite nojenta. São usados para pura diversão. Sua turma não tem liberdade de correr ruas e avenidas, não sabe se virar para sobreviver e nunca aprendeu atravessar uma rua na faixa certa, sem ser atropelado pelos carros.

Do grupo apareceu outro e disse mais umas boas de olho em riste fazendo tremer os intrometidos. Jogou duro! Como diz no popular, soltou os cachorros nos riquinhos perfumados.

– Experimentam sair por aí pelas cidades e logo serão mortos e massacrados. Vocês só sabem viver em apartamentos ou casas fechadas entre quatro paredes com horário marcado para sair para cagar e mijar fora. Nem têm o direito de transar com o parceiro ou a parceira que quer. O casamento e combinado. Aqui nossa comunidade é socialista onde um ajuda o outro e andamos em bando. A nossa prosa é bem mais interessante que essa conversa mole e fresca de burguês.

No meio da fuzarca, entrou outro de uma raça diferente esquisita e começou aquele bate boca acirrado. Pura baixaria! Os vira-latas chegaram juntos e encararam com dentes cerrados, com intenção de bater forte e partir para a briga. Foi aquela algazarra, e os mauricinhos e patricinhas murcharam as orelhas.

O cachorro nordestino, como cabra da peste, não deixou por menos com uma peixeira do lado.

– Qual é! Quer encarar? Vocês nem sabem nem o que é fome e ser retirante de lugar em lugar. Nosso couro é duro como de jacaré e somos bons de porrada, arretados e não temos medo de fantasmas. Sabemos caçar e já andamos até no cangaço. Botou para quebrar.

Nisso, entraram dois valentões, um rottweiler e outro pit bull, daqueles tipos guarda-costas e leões de chácaras, rosnando como feras selvagens com garras dentárias de estranguladores.

– Ei, vocês todos aí, vamos acabar com essa putaria, com essa pouca vergonha, coisa de cachorrada. Melhor ir circulando cada um para seus lugares, bando de fanfarrões! Querem apanhar?

Interessante! Em nossa sociedade brasileira acontecem coisas semelhantes no aspecto social e comportamental humano. Os mais fortes de poder são os que mandam e obedecem quem tem juízo.





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