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:: ‘Notícias’

OS PREDADORES DO MEIO AMBIENTE E A SENHA PARA O ÓDIO E A INTOLERÂNCIA

Ao invés de combater as causas, ou atacar a raiz do problema, todas as vezes que a Amazônia e o Pantanal ardem em chamas, o cara do governo e seus seguidores mandam a marinha e o exército para a linha de frente apagar o fogo, como forma de maquiar uma agenda voltada para a destruição do meio ambiente. O certo não seria primeiro evitar os desmatamentos através do cumprimento das leis?

Essa é uma forma de tentar confundir a opinião pública brasileira e, ao mesmo tempo, enganar os grandes investidores nacionais e internacionais de que o governo federal está comprometido em preservar a natureza. No entanto, suas ações de abrandar a legislação ambiental entram em completa contradição.

“Fiscalização não é prioridade”

A primeira atitude do capitão ao assumir a Presidência da República foi dizer que a fiscalização contra os desmatamentos não era sua prioridade e, para comprovar isso, logo providenciou desmontar as estruturas do Ibama, do Instituto Chico Mendes e da Funai, como forma de passar a “boiada” dos regramentos, conforme ficou explícito na fala do ministro do Meio Ambiente, que está mais para predador.

Não dá para entender como um governo faz acordos com garimpeiros ilegais e alguns índios manipulados por criminosos, para interromper uma fiscalização num local onde a terra que antes era coberta por árvores, protegendo a flora e a fauna, virou escombros, sem contar a contaminação dos rios por produtos venenosos. Como entender um governo que exonera diretores e pune fiscais do Ibama porque foram rigorosos contra os grileiros e garimpeiros, queimando maquinários?

O ministro da Economia é outro que procura jogar o lixo debaixo do tapete ao justificar o aumento das queimadas brasileiras, consequência dos desmatamentos por parte de grileiros e produtores rurais, lembrando aos estrangeiros que eles no passado devastaram as florestas da Europa, o Velho Mundo, através das guerras sangrentas e do uso das terras para criação e produção de alimentos. Ainda pede que eles sejam gentis como nós somos.

Senhor ministro, primeiro um erro não justifica outro, e segundo, ao longo dos últimos 60 ou 70 anos, os governos europeus trabalharam para corrigir os grandes desastres cometidos contra o meio ambiente, fazendo a cobertura vegetal do solo através do reflorestamento de quase metade de seus territórios e despoluindo muitos rios! Foi como se dissesse: Se vocês desmataram, agora é a nossa vez, quando o caminho não é por aí.

O vice-presidente da República e agora presidente de um Conselho da Amazônia (só deles) reconhece que houve aumento do desmatamento, mas, do outro lado, nega os dados do Instituto Nacional de Pesquisas. É assim que eles querem convencer os investidores de que estão zelando por nossa casa? É subestimar a inteligência dos outros!

As senhas da destruição e do ódio

Todas essas práticas nefastas contra o meio ambiente soam como se o governo estivesse abrindo a senha para a entrada franca dos predadores, numa quebra das regras. É como se dissesse que esse governo não veio para construir, mas para destruir.

O sinal não foi aberto somente para os destruidores do meio ambiente, mas também para os racistas, nazifascistas, misóginos, os negacionistas da ciência, os defensores de uma intervenção militar e para os homofóbicos saírem de suas tocas para destilar seu veneno do ódio e da intolerância, daí o aumento dos feminicídios, dos ataques aos negros, aos homossexuais e outras categorias que não comungam com suas ideias antidemocráticas.

Como se estivéssemos nos tempos da ditadura, o Ministério da Justiça montou um dossiê para acompanhar, retaliar e inquerir contra movimentos antifascistas, inclusive professores, considerados opositores e inimigos de uma agenda autoritária e discriminatória que se instalou no governo atual sob o comando do capitão-presidente e seus generais de plantão.

 

 

 

 

O INTERVALO DO DIABO

E mais um texto-prosa que faz parte do livro “ANDANÇAS”, de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, que pode ser encontrado na livraria Nobel e na Banca Central, em Vitória da Conquista.

Salustiano Querosene do Pavio é um trabalhador braçal que nasceu e vive há anos nos confins dos grotões deste Brasil que muita gente diz que é aonde o diabo gosta e o vento faz a curva, cafundós do Judas ou o fim do mundo. Salustiano e a gente daquele pedaço de chão nem existem como seres humanos cidadãos, mas já ouviram falar das artimanhas do Diabo, ou do Belzebu Satanás chifrudo que não perde um descuido ou um intervalo de fraqueza para roubar uma alma.

Quando Salustiano não tem dinheiro, e isso é quase sempre, para comprar na venda o querosene de acender o candeeiro pra clarear seu casebre, ele apela para o óleo de mamona extraído dos bagos pisados no pilão. O pavio é feito do algodão colhido de um pequeno plantio de sua roça. Quando não tem algodão vai mesmo um pedaço velho de pano. O pior de tudo é a escuridão quando o Diabo mais aprecia para fazer suas assombrações.

Teve um tempo que Salustiano vendia querosene e pavio, mas o negócio não foi pra frente por causa dos fiados que não recebia. Restou o seu nome dado pelo povo. Essa expressão  “pobre diabo”, pessoa que trabalha como condenado e nada tem, escrava do poder e que não incomoda ninguém, é o típico Salustiano.

Mesmo temente a Deus, ele sabe e sente na carne e na alma que é um “pobre diabo”, só não sabia que desde a antiguidade, nos tempos dos bárbaros, antes e depois de Cristo, inclusive nas Cruzadas e na Idade Média, existiu uma sociedade secreta chamada de “O Intervalo do Diabo”, onde a entidade era reverenciada como deus da fortuna para uns poucos e da desgraça para os que se arrastavam na miséria e na ignorância.

Com ou sem sociedade, o Diabo, que não é nada de pobre, não dispensa seu intervalo na concorrência com Deus e sempre aumenta seu espaço através dos tempos, ainda mais materializada nos atuais, sem precisar de muito esforço e tentação. Às vezes, Ele se disfarçar de Deus para atrair a atenção e conseguir mais e mais intervalo, inclusive em horários nobres. A competição é uma arte na busca por mais clientes, e a disputa é acirrada.

Sem perceber, Salustiano sempre está caindo no papo Dele, mas não é só ele que é iludido, é muita gente mesmo, sem contar que o danado Rabudo é exímio marqueteiro e garoto propaganda dos templos sagrados. Se nas inquisições da Idade Média Ele deitou e rolou, agora na era do consumismo o Lúcifer está se esbaldando. O charme é que para confundir, o Diabo tem vários nomes e passaportes diferentes. Roda o mundo em mil disfarces exibindo suas artimanhas. Pode até ser feio para muitos, mas que o bicho é popular, isso é!.

Tem-se como certo que o Diabo é tirânico e vingador, mas esta caricatura também foi imputada a Deus pelo Antigo Testamento e através dos temidos frades pregadores da Igreja Católica com suas palavras que cortavam como chibatadas salgadas nas almas pecadoras condenadas a arder no fogo do inferno. Nos púlpitos condenatórios, o Diabo triunfa e ganha seus intervalos.

Dizem que Ele está sempre na espreita em cada rota, em cada estrada e encruzilhada da vida atrás do seu precioso intervalo em forma de prazer e dor. Salustiano Querosene sempre teve um bom coração e cuidou bem da sua família. Quando podia, ajudava seus semelhantes e procurava cortar outro caminho para desviar do Diabo, mas o capeta estava sempre na moita.

Um dia Ele chegou na varanda de sua casa bem de mansinho e cochichou uma intriga em seu ouvido de que sua mulher estava lhe traindo com seu melhor compadre. Pior que Salustiano já trazia uma ponta de cisma da amizade e do olhar entre os dois. Com o intervalo que conseguiu, o Chifrudo agora podia voltar depois para fazer o serviço completo.

Com aquilo no juízo, Salustiano Querosene, marcado pelas labutas do dia-a-dia, sem sucessos e sem garantias de uma vida melhor, foi se enchendo de raiva e amargura em seu coração. Os pensamentos ruins formigavam em sua cabeça roendo seus neurônios. Sempre foi temente a Deus, mas o Diabo tinha seu intervalo.

Sacudido por mais um fracasso em sua roça castigada pela seca e num intervalo fulminante da ira, Salustiano sangrou sua mulher em frente dos filhos. Matou ainda seu compadre vizinho e sumiu no mundo para terras estranhas onde ninguém nunca mais o encontro.

Todos disseram por aquelas redondezas que Salustiano estava com o Diabo no corpo. Alguém contou que viu ele com uma peixeira na mão passar veloz como o vento no cruzamento do povoado mais próximo. Parecia mais com uma onça escorraçada depois de um ataque surpresa. Rápido, o “pobre diabo” melado de sangue sumiu no agreste cinzento da paisagem árida.

 

 

 

OS VÍRUS SÃO BEM MAIS INTELIGENTES DO QUE OS NEGACIONISTAS DA CIÊNCIA

Em tempos de pandemia do coronavírus, para quem aprecia uma boa leitura, recomendo ler o autor de “Armas, Germes e Aço”, de Jared Diamond, fisiologista e biólogo, professor e membro da Academia Americana de Artes e Ciência que, em sua obra, faz uma viagem de 13 mil anos de história dos continentes. Concluiu que a dominação de uma população sobre outra tem fundamentos militares, ou nas doenças epidêmicas que dizimaram sociedades de caçadores-coletores e agrícolas.

Antes de entrar na parte terceira do livro “Do Alimento às Armas, aos Germes e ao Aço”, Diamond faz um relato científico sobre a evolução dos animais, incluindo o homem através dos tempos desde seus ancestrais gorilas e os chipanzés, passando pelo homo sapiens e o de neandertal. Mostra a viagem do homem para outros continentes e sua evolução através dos tempos.

Até o Novo Mundo e a Covid-19

A partir do ano 11 mil a.C. e, principalmente, oito mil no Crescente Fértil (Ásia), maior celeiro do mundo na produção de alimentos, o autor descreve a domesticação das plantas silvestres e dos animais mamíferos pelos agricultores e caçadores-coletores nos diversos continentes, a começar pela África, Eurásia, Ásia, Polinésia até o Novo Mundo das Américas.

Depois de uma longa introdução científica sobre as diversas formas de domesticação, suas causas e efeitos do surgimento agrícola dos grãos, legumes, fibras, tubérculos e a expansão da produção de alimentos (“Vastos Céus e Eixos Inclinados”), o autor entra no capítulo “O Presente Letal dos Animais Domésticos”, a parte mais interessante por nos remeter ao presente atual em que vivemos com o mortal Covid-19.

Você vai ter uma visão geral das formas de contaminação do homem pelos diversos germes, bactérias, micróbios e vírus que já mataram milhões nos últimos quatro ou cinco mil anos. O leitor vai descobrir como os germes, os micróbios, as bactérias e os vírus são inteligentes durante seu processo de reprodução e evolução. São bem mais inteligentes que os humanos que não acreditam em suas existências e negam a ciência, se deixando contaminar e infectando os outros.

Comparando os caçadores-coletores com os agricultores, o biólogo diz que estes tendem a expirar germes piores, possuir armas melhores e tecnologias mais poderosas, além de ter governos centralizados capazes de empreender guerras de conquistas. Para ilustrar os elos que interligam a criação de animais e culturas agrícolas aos germes, ele conta o caso de um casal doente no hospital com uma enfermidade misteriosa onde depois o médico descobriu que o marido havia mantido relações sexuais com ovelhas. Com isso, Diamond quis mostrar a importância das doenças humanas de origem animal.

Os principais assassinos da humanidade

De acordo com ele, a maioria ama platonicamente seus bichos de estimação, citando o carinho exagerado por ovelhas. Um censo na Austrália constatou mais de 17 milhões de habitantes contra quase 162 milhões de ovelhas. “Muitos de nós, crianças e adultos, chegam a contrair doenças infecciosas dos animais de estimação”.

Destaca que a varíola, a gripe, a tuberculose, malária, peste bubônica, sarampo e cólera foram os principais assassinos da humanidade ao longo de nossa história. Essas doenças infecciosas foram transmitidas por animais, “embora a maioria dos micróbios responsáveis por nossas próprias epidemias agora esteja restrita aos seres humanos”.

“Até a Segunda Guerra Mundial, segundo ele, uma quantidade maior de vítimas morreu por causa de micróbios trazidos com a guerra do que dos ferimentos das batalhas”. Em sua conclusão, os vencedores das guerras passadas nem sempre foram os exércitos com os melhores generais e as melhores armas, mas quase sempre aqueles que carregavam os piores germes para transmiti-los aos inimigos.

Aponta que os exemplos mais terríveis do papel dos germes na história vêm da conquista das Américas pelos europeus a partir de Colombo, em 1492. “Mais numerosos que os ameríndios vítimas dos conquistadores espanhóis foram as inúmeras vítimas dos micróbios espanhóis assassinos. Muitos outros povos nativos foram dizimados por germes eurasianos e o inverso aconteceu com os conquistadores europeus nas regiões tropicais da África e da Ásia”.

Em sua observação, assinala que para um micróbio, a propagação pode ser definida matematicamente como o número de novas vítimas contaminadas por cada paciente original. “Esse número depende de quanto tempo cada vítima permanece capaz de infectar novas vítimas, e da eficácia com que o micróbio é transmitido de uma vítima para a seguinte”.

Os micróbios e as maneiras de passar para outros

Eles, os micróbios, desenvolveram diversas maneiras de passar de uma pessoa para outra, e de animais para as pessoas. O que melhor se propaga deixa mais “filhotes”, ou bebês, e acaba favorecido pela seleção natural. “A melhor maneira do germe se alastrar é esperar que seja transmitido passivamente para a próxima vítima. Essa é a estratégia de aguardar que um hospedeiro seja comido pelo próximo hospedeiro”. Um exemplo por ele descrito, é o caso da bactéria salmonela. Outro caso ocorre com o verme responsável pela triquinose, que passa dos porcos para nós, esperando que se mate o animal e seja comido sem o cozimento adequado.

“Esses parasitas passam para uma pessoa quando ela ingere carne de um animal. No entanto, o vírus do kuru nas regiões montanhosas da Nova Guiné era transmitido para pessoas que se alimentavam da carne humana. Alguns micróbios, porém, não esperam que o hospedeiro morra e seja comido. Eles pegam carona na saliva de um inseto que pica o hospedeiro e sai voando para achar um novo”.

Um dos exemplos são os mosquitos, pulgas, piolhos ou moscas africanas tsé-tsé, que transmitiam malária, peste bubônica, tifo e a doença do sono. Existe o micróbio que passa de uma mulher para o feto e contamina o bebê no nascimento.

As lesões da pele causadas pela varíola também transmitem micróbios por contato corporal direto ou indireto – assinala o cientista. O autor do livro cita, como exemplo, a ação criminosa dos homens brancos dos Estados Unidos que, para exterminar os índios nativos, enviaram-lhes de “presente” cobertores usados antes por pacientes com varíola.

“A bactéria do cólera provoca em sua vítima intensa diarreia que espalha bactérias no sistema de abastecimento de água das novas vítimas potenciais, enquanto o vírus responsável pela febre hemorrágica coreana propaga-se através da urina dos ratos. O vírus da hidrofobia (raiva) se aloja na saliva de um cão contaminado e ainda provoca no animal o furor de morder”.

Pelo esforço físico do próprio micróbio, os campeões, conforme aponta o biólogo, são vermes como o ancilóstomo e o esquistossoma que penetram na pele de um hospedeiro em contato com a água e a terra na qual suas lavras foram excretadas nas fezes de uma vítima anterior. “Do ponto de vista de um germe, são estratégias evolutivas inteligentes para se disseminar”.

Afirma o autor que os anticorpos específicos desenvolvidos contra um micróbio que nos contamina reduzem a probabilidade de uma reinfecção depois de curados. Por experiência, sabemos que há certas doenças, como a gripe e o resfriado comum, contra as quais nossa resistência é apenas temporária. “Podemos acabar contraindo a malária outra vez. No entanto, contra o sarampo, caxumba, rubéola, coqueluche e a varíola, nossos anticorpos conferem imunidade permanente”.

CONVERSA COM OS BICHOS

Esta crônica faz parte do livro “ANDANÇAS”, de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, lançado há pouco tempo e pode ser encontrado na livraria Nobel e na Banca Central, ou através do próprio autor pelo e-mail macariojeremias@yahoo.com.br e pelo tel 77 98818-2902.

Oh! meu gafanhoto: Veja o estouro da boiada. Não se tem mais certeza de nada. O mundo gira depressa e a locomotiva passa. O tempo engole a gente e não se espera o retardatário nas estações. É a corrida competitiva do ouro de tolo. Até os passarinhos não conseguem fazer seus ninhos sossegados. Quase que não se cruza mais com o vizinho. Não existe mais tropa de tropeiros, nem comitiva. As muralhas separam nações, para acirrar o ódio e o pavor.

O nível dos rios baixa e suas águas não escoam livremente. Correm apertadas entre lixo e erosão. Os bancos de areia avançam e o leito seco mata o sapo perereca. É o silêncio da morte chegando. Não mais as árvores das sombras cativantes. O vermelho guará prenuncia o perigo ao se alimentar da lama do mangue terminal. Na lança dos nativos, suas penas cores de sangue lembram o ritual da dança antropofágica.  Resta navegar, com presteza, nos desvios dos vazios.

O sertão está virando carvão, e o mar em esgoto venenoso. A terra se desloca, treme e arrebenta; cospe fogo como dragão; e sai de rotação. O tufão arrasta, contorce, torce e arremessa tudo que encontra em sua frente para o alto das montanhas. As ondas surgem como monstros marinhos; engolem o litoral; e sugam gentes e destroços. Destroem as façanhas dos homens e tudo vira um roto lamaçal.

As calotas se derretem; o clima esquenta, queima e a paisagem fica cinzenta. E eu cá, meu gafanhoto, a meditar na revolução e no paraíso original, sem o ímpeto de querer seguir a vida. Sonhei um mundo de poetas, sem polícia para bater, sem censores e sem câmaras de olhos malditos a vigiar. Sonhei um mundo sem grades, sem homens bombas e sem terras divididas em fronteiras. Sonhei com o vento sem fúria e com o livre viver, sem ter que me censurar antes de falar.

Não deixe, gafanhoto, que o sol derreta sua cara, nem se consuma nos desejos do inferno de Dantes. Não negocie ideologia e ética por estética.  Esteja vigilante para as armações das mentes. Contemple a luz do dia. Cuidado com a fera que espreita. Não deixe seu amor partir, mesmo que não seja eterno. Ouve o que diz a canção do mar nas dobras das ondas virando sal. Fica se for preciso ficar, para desafiar. Se não estiver incluído entre os melhores, não use como consolo o outro por ser o pior. Nunca se acomode com seu problema só porque o outro está em situação mais difícil. Seu cérebro pode estar cheio de estrias, rugas, celulites e varizes.

Não seja o próprio lobo de si mesmo. oh gafanhoto peregrino! Não se enrosque nos clichês dos desejos fúteis e supérfluos. As mãos se estendem nos sinais das vias, mas os carros seguem velozes e fechados, levando desesperanças. Outros cortam os caminhos. Os olhos verdes, azuis, pardos, castanhos e negros não se fitam mais. É isso aí, meu gafanhoto: Tenta refletir e controlar as emoções. As armadilhas dos amores são cheios de dores.  A naja e a ninfa têm suas próprias magias. O leão ostenta seu poder superior de rei. O uirapuru tem seu encanto no canto. O tangará faz sua dança sincronizada para sua fêmea namorar. O gavião peneira para nas alturas e desafia a gravidade, na busca da sua sobrevivência. O homem vive o desespero de vencer; de domar o tempo; o envelhecimento; e alcançar a imortalidade. Perdemos nossas referências e características. Temos reis e rainhas sem poder e sem trono. Procure, ao menos, ser a fênix.

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VIRTUAIS E COM COMPROMISSOS SÉRIOS

Como já comentei dia desses, essas eleições municipais para prefeito e vereadores vão ser bem diferentes, de pouco contato presencial, reuniões e palanques limitados, e bem mais virtuais através das redes sociais, sem excluir a propaganda impressa em folhetos, “santinhos”, cartazes e carros de som.

Diante desse quadro nacional, com um governo federal negacionista da ciência e sem liderança, sem contar a falta de gestão de muitos governos estaduais e municipais para controlar a situação e a pobreza e o desemprego generalizados que dificultam o isolamento social, não sabemos ao certo quando tudo isso vai passar.

Com essas incertezas, vamos continuar na insegurança e na ausência de confiança para a aproximação mais pessoal durante a campanha, principalmente, com relação aos grupos mais vulneráveis, não somente idosos, como pessoas com doenças crônicas e, infelizmente, os mais pobres.

VOTE EM QUEM TEM COMPROMISSOS

Como vai ser mais virtual e com outros métodos, o eleitor tem que ficar ainda mais atento, pesquisar mais o candidato e votar em quem tem compromissos com a vida, com o meio ambiente, com a educação, com a cultura de sua comunidade e, especialmente, com o social. Tudo isso tem que ficar bem claro para o eleitor, sem esquecer da competência, do preparo para o cargo e da honestidade do candidato. É só analisar o passado de cada um.

Passou do tempo de dar um basta nos candidatos-vereadores que confundem seu papel de legislador com o de executivo e adotam aquela cultural coronelista do assistencialismo, confundindo e aproveitando da vulnerabilidade do eleitor.

A Câmara Municipal de Conquista, por exemplo, precisa de mudanças no sentido de legislar pelo coletivo da cidade, e não ficar cada um voltado, exclusivamente, para seu “lote”, atendendo e promovendo interesses particulares que, indiretamente, significa a compra de votos. Quem vota por favor está sendo vendido.

Nesse aspecto, no caso de Vitória da Conquista, a terceira maior cidade da Bahia, a Câmara de Vereadores precisa estar atenada e estruturada à altura do engrandecimento da cidade em termos de grandes projetos de infraestrutura, como a questão da água, da mobilidade urbana, do novo plano diretor urbano e definir uma política cultural para o município visando, sobretudo, a atração de mais investimentos públicos e privados para a geração de renda e emprego. O setor criativo sempre foi esquecido pelo poder público, como política secundária.

Mais uma vez, vai ser uma eleição de poucos recursos em que o candidato, pelo seu próprio perfil, tem que convencer o eleitor a votar em quem tem esses compromissos com a cidade, para exercer sua real função de vereador. Necessitamos de uma Casa com conteúdo e força, e não aquela que sempre diz amém para o executivo e faz vistas grossas no âmbito da fiscalização.

É tempo de mudar e eliminar quem é contra a ciência; excluir o fundamentalismo religioso; renegar os seguidores da morte; e, principalmente, que ainda conserva ideias preconceituosas, racistas e retrógradas, como defender intervenção militar e fere de morte a nossa democracia.

PARA ONDE CAMINHA A HUMANIDADE?

A minha interrogação é para onde caminha a humanidade? Não bastam as doações e as campanhas de cestas básicas quando se fixa somente no socorro material daquele momento de catástrofe, se não houver uma renovação dos espíritos. Ainda estamos num estágio muito atrasado quando ainda discutimos a cor da pele, a questão de gênero, as origens de cada indivíduo e quem é de direita ou de esquerda. Ainda estamos muito atrasados quando defendemos a opressão no lugar do livre pensar, sem atacar e violar o direito e a liberdade do outro.

Até há pouco tempo, e ainda hoje, mais raramente, tenho ouvido pessoas otimistas comentarem e dizer que a humanidade caminha para um termo de vivência solidária, com irmandade de fronteiras abertas para todos. Sinceramente, não é a paisagem que vejo, mas uma outra sombria, de governos extremistas, negacionistas da ciência, neonazistas, xenófobos, moralistas, racistas, fundamentalistas e nacionalistas.

Nem é preciso falar muito, mas quem ler e acompanha atentamente o passado tenebroso da história mais antiga e a recente, tudo parece nos levar àqueles tempos de trevas da Idade Média, do terror que foi o nazifascismo das primeiras décadas do século XX e do medo nuclear da guerra fria na polarização entre Estados Unidos e a União Soviética.

Violação dos direitos humanos

Pode até ser exagero, mas basta olhar para o comportamento segregacionista e extremista de um Donald Trump, de governos de linha dura e nacionalistas que estão se implantando na Europa, na Ásia, no Oriente Médio e no próprio Brasil, seguindo a mesma toada, para se chegar à conclusão de que estamos nos distanciando do humanismo desejado. Estamos sim, regredindo no tempo para um isolamento entre as nações, com o fim das liberdades e a violação dos direitos humanos.

Não consigo entender do porquê dessa onda mundial da negação da ciência, como na era da Inquisição, de tanta propagação de ideias retrógradas, atitudes racistas, desse nacionalismo de ódio e intolerância e radicalismo fanático religioso. Com a chegada desse coronavírus, a impressão que temos é que esse caminho extremista ao retrocesso se alargou e se escancarou mais ainda. Não acredito que o nosso planeta vá ser mais humano quando tudo isso passar.

Quando vejo um monte de gente dizer que as quase 90 mil mortes no Brasil pela Covid-19 é mentira da mídia, que o aumento dos desmatamentos e das queimadas no Pantanal e na floresta Amazônica é invencionice dos contras esquerdistas comunistas, que deve haver intervenção militar no Brasil e apoiar as mesmas posições preconceituosas e racistas do governo do capitão-presidente, em nome de uma falsa moral familiar e patriótica, não dá para pensar num futuro melhor.

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UM JORNALISTA DEFENSOR DA CIDADE NO LEGISLATIVO CONQUISTENSE

Carlos González – jornalista

Venho observando, desiludido e, porque não dizer, revoltado com os rumos que a política brasileira tomou nas últimas décadas, conduzida, com poucas exceções, por homens públicos que se utilizam da boa-fé do eleitor, lastimavelmente desinformado. Aproveitando-se de um mandato, ou de um cargo no governo, desviam recursos da educação e saúde, pondo em prática sua índole criminosa. Nas últimas eleições deixei de escolher os ocupantes das vagas nas casas legislativas (deputados e vereadores), como uma forma de condenar as quadrilhas de gravata e paletó. Prometi nunca mais entrar numa seção eleitoral.

Mas, nas últimas semanas mudei radicalmente de opinião, ao tomar conhecimento de que meu amigo e ex-colega Jeremias Macário é pré-candidato a uma vaga no Legislativo de Vitória da Conquista. Nos nossos bate-papos de fim de semana incentivei-o a se dedicar a esse pleito, por achar que ele conhece muitíssimo os problemas do município.

Conheço Jeré há mais de 40 anos. Trabalhamos juntos na Redação de “A Tarde”, num período em que os seus profissionais se orgulhavam do título que o jornal exibia, de “maior e melhor do Norte e Nordeste do País”. Especialista em várias áreas do jornalismo, Jeremias se dedicou com mais profundidade à economia, passando, com os anos, de repórter a editor, o que lhe deu oportunidade de assessorar instituições e empresas dedicadas ao comércio, indústria e agronegócio na Bahia.

Como prêmio ao seu trabalho, Jeremias foi promovido a chefe da Sucursal de “A Tarde” em Vitória da Conquista.  Sem contar com os instrumentos modernos das comunicações, que hoje facilitam o trabalho do jornalista, Jeré, ao lado de uma equipe de repórteres e fotógrafo, atravessou, como se fosse um bandeirante, todo o sudoeste baiano, a Chapada Diamantina, indo até as margens do Rio São Francisco, valorizando, principalmente, Vitória da Conquista, mostrando aos leitores do “vetusto vespertino da Praça Castro Alves” a economia, cultura, esportes, entretenimento, turismo e aspectos sociais de uma região até então pouco conhecida dos baianos.

A Sucursal tinha também uma função comercial, recebendo material publicitário e distribuindo, de domingo a domingo, os exemplares do jornal aos anunciantes e bancas. O proprietário de um ponto comercial na Avenida Olívia Flores me revelou que vendia na época 100 exemplares por dia. Marketing e relações públicas também faziam parte do trabalho de Jeremias, recepcionando e levando aos pontos turísticos da cidade as pessoas credenciadas pela direção do jornal, além dos colegas, independente dos veículos de comunicação a que pertenciam.

Título de Cidadão

A ocupação de difundir o município foi reconhecida pela Câmara de Vereadores, a chamada “Casa do Povo”, concedendo-lhe o justo título de Cidadão Conquistense, do que muito se orgulha o sertanejo nascido em Piritiba.

Aposentado, Jeré não vestiu o pijama. Com residência fixa em Conquista, trocou a velha Remington pelo computador, continuando a se dedicar ao mundo das letras, com a visão voltada para a cidade que o abraçou. Criou o blog “aestrada”, com a finalidade, sobretudo, de denunciar os abusos cometidos contra os indivíduos vítimas das desigualdades sociais e econômicas. Posicionou-se em defesa da cultura conquistense, abrindo o “Espaço Cultural aestrada”, onde recebe mensalmente em sua casa músicos, escritores, jornalistas e artistas plásticos, para discutir os mais variados temas culturais.

Diante do pouco que expus nestas linhas sobre a vida profissional e cultural de Jeremias Macário, perdi o direito de rasgar meu título de eleitor. Acho-me agora no dever de ir este ano à urna para dar-lhe uma cadeira na Câmara de Vereadores do município. Quero deixar bem claro que não falo como colega e amigo de Jeré, mais de um jornalista observador, que se interessa pelas condições de vida e planejamento das cidades; com 45 anos passados das redações do “Estadão” e “A Tarde”; com viagens a trabalho; e como subcoordenador de Jornalismo nas gestões de quatro prefeitos de Salvador.

 

 

AS VÍSCERAS DESSA GENTE!

É mais um texto extraído do livro “ANDANÇAS”, de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, recentemente lançado e que pode ser encontrado na livraria Nobel e na Banca Central, da Praça Barão do Rio Branco, em Vitória da Conquista, ou ser adquirido diretamente pelo autor através do e-mail macariojeremias@yahoo.com.br e tel 77 98818-2902.

A sociedade tecnoconsumista cria, recria, inventa, reinventa, acresce botões, classifica os estilos sexuais e nos trata como poções. Ela dissolve, ilude, engana, derrete, conduz, seduz, atiça desejos supérfluos, discrimina, agride e tritura tudo na máquina das ilusões.

Os idiotas consumistas genéricos acreditam; perdem suas identidades; exercitam a beleza estética; e tornam acéfalos de espírito. Eles querem o espetáculo contraditório disforme de massas musculares enormes, ou corpos esqueléticos coliformes, mas nos ensinam que temos o livre arbítrio.

Conte sua história. A felicidade do sucesso é expor a vida íntima em troca de três minutos num programa de audiência televisiva evasiva. Tudo que se revela não passa de um monte de mentira contraditória, sem vitória. A imagem da lente inventa e foca as vísceras; amplia as fezes e os vermes; e extirpa o pus lá de dentro do ventre. O homem é esmagado como barata nojenta.

É viva a corrida da busca pela glória! Não importam os meios. Tem que ser competitivo vencedor. A alma sempre está à venda numa bandeja de prata e não falta o comprador-financiador. A máquina foi feita para fabricar o stress, com suas técnicas infalíveis. Você tem que ser o primeiro a chegar à boca do cofre, senão outro pode arrombá-lo.

Como na roleta russa, o suor ferve e escorre na pele; as veias parecem explodir; o coração arrebenta, enquanto se espera o detono da bala. Num só impacto, sua cabeça será esfacelada. Cada corrida é um teste. É o jogo de vida ou morte. Tudo por um punhado de dólares, como na cobiça do faroeste.

Seu cuspe não vale nada se não alcançar a maior distância. Não é preciso aprender a ser humano e ter espírito de cooperação. Seu lado sentimental e emocional vive em constante processo de ebulição. Só existe uma via hegemônica, ou logo se falece na estrada. Nada de pensamento diverso. Siga a métrica e a rima do verso.

Na cultura capitalista, só o cliente é tudo, e o empregado, instrumento do lucro a qualquer custo. As relações entre o patrão se resumem ao trabalho. Depois é só jogar fora o caroço. Não existem espaços para erros.

O mercado é regido pela tabuada rigorosa do somar e multiplicar. Nada de dividir e diminuir. É só decorar e seguir suas normas impostas. Quem não assim fizer, está fora. Não importa se é fingido ou hipócrita. A ordem vem de lá como se apresentar; apertar a mão; olhar reto; sentar sem cruzar; vestir almofado; e até andar de lado, bem caprichado.

Aprenda na cartilha o que deve ser dito à frente do entrevistador. Prepare-se para os enigmas do QI. Decifra, ou seja, devorado. Você é domesticado para mentir e mudar de personalidade, sem remorso. Você tem prazo de validade.

A aparência da sociedade consegue encobrir, por um tempo, as condutas desequilibradas e desajustadas. O princípio é ser corretamente político, e nada de apontar a verdade. Não seja maluco, meu camarada. Siga pelo caminho que lhe indicaram. Ser o que se é não é mais o ideal.

Nossa terra precisa de um novo movimento antropofágico. Uma gente que incinere este lixo exportado de fora. Nosso estômago está cheio de bichos estranhos roedores. Nossa carne não é a nossa carne. Nossas vísceras são de outros canibais. Nossas cabeças não são mais dos antepassados ancestrais.

Povo aniquilado pelas ditaduras da beleza, do som, do corpo sarado, da estética, dos cosméticos e das cirurgias de plásticas monstruosas. Por que nos exigem tantos estilos para tudo? Vivemos trancados num armário bolorento, com cheiro de mofo, mas achamos que está todo perfumado. A única opção é viver engarrafado.

Estamos cheios de feriadões fabricados pela mídia, que dita o nosso comportamento e fala o que ela quer e não o que queremos. Todos saem estressados das metrópoles, para ficarem mais estressados nas estradas e nas filas dos restaurantes com hotéis lotados. Brigam todo tempo com a mulher e os filhos. O tempo vai engolindo a gente, sem, ao menos, aprender a viver, para morrer.

Temos um monte de coisas, sem uma sequência lógica dos fatos, mesmo porque a vida não tem lógica, e a felicidade de agora já foi embora. Depois que falo já não é mais a mesma fala. Qual o agora você é feliz? O antes ou o depois?

Dinheiro muito pode ser pouco, e dinheiro pouco pode ser muito. Solidão pode ser amor, e amor pode ser solidão. As andanças não têm fim quando se procura o sentido, mas você vai continuar a andar. Mesmo sem sentido, o destino é andar, mesmo que não haja destino.

As pessoas são rotuladas por tipos, como o metrossexual, ubersexual, o nerd, o “X”, o “Z”, o “Y”, o “CDF”, o branco, o negro, o rico, o pobre, o feio, o bonito, o da terceira idade, sem direito a quarta, mas todos têm que ser consumista; andar de celular; dar presentes no Natal; se vestir legal; e usar as redes sociais, para serem normais.

Afinal, você é subdesenvolvido ou emergente? Diferente ou indiferente? Alienado ou escória da sociedade? Ativo ou passivo? Pensando bem, sou nada e o tudo, e a mosca na sopa de Raul Seixas. Sou a navalha e a faca de dois gumes. Sou o metal usado dos dois lados pelo poder, que diz ser cedo a aposentadoria aos 65 anos, enquanto o mercado capital discrimina aos 40. Fico sem saber quem sou e para aonde vou.

Minhas vísceras estão sempre abertas ao sistema, que vigia o tempo, constantemente, mesmo debaixo do esgoto. O roto fala do esfarrapado, e o correto é o tolo. Que bosta é esta de que a vida me deu régua e compasso, se nem sou dono do meu próprio passo! Sou um maço de cigarro amassado.

O MAIOR CULPADO É O PODER PÚBLICO

Como se não bastasse a pandemia da Covid-19, com mais de 1.500 casos, Vitória da Conquista está sofrendo também com a infestação do mosquito da dengue, da zica e da chicunkuhya, doenças que se confundem com o novo coronavírus, agravando mais ainda a situação. A população tem sua parcela de culpa por não ter os devidos cuidados, mas o poder público é o maior vilão nesta história.

Todos sabem que existe uma lei dentro do antigo Plano Diretor Urbano (a Câmara precisa aprovar um novo) que obriga que os donos de terrenos cerquem e limpem suas áreas, sob pene de punições e multas, mas a norma não é cumprida porque a Prefeitura Municipal pouco fiscaliza.

Praticamente, cada rua de Conquista fora do centro tem dois ou mais terrenos vazios onde viraram depósitos de lixo, sacos plásticos, latas, garrafas e até pneus, reservatórios ideais para a criação das larvas do mosquito que pode até matar. O quadro é ainda mais grave em bairros das periferias mais distantes que não têm serviços de tratamento de esgotos.

O paradoxo nisso tudo é que Vitória da Conquista é uma das cidades mais bem servidas do país no que tange ao saneamento básico, o que, a princípio, colabora em muito para evitar a proliferação de mosquitos e, consequentemente, doenças originárias dele. Portanto, a cidade não deveria estar passando por esse estado de infestação e contaminação.

A mídia faz coberturas jornalísticas sempre colocando a população como a maior negligente por não deixar seus quintais bem tratados e limpos, sem água em vasilhames e plantas, mas pouco cobra do poder executivo quanto aos terrenos particulares cobertos de matagais, locais usados como lixeiras. Cadê a lei para impor penalidades pesadas aos donos de imóveis que não muram e limpam suas áreas?

A Prefeitura precisa ser mais rigorosa e fazer sua parte, não apenas distribuindo alguns agentes comunitários para visitar moradias que, quase sempre ao lado, têm um terreno totalmente sujo como fonte de propagação do mosquito. O legislativo também tem a obrigação de agir e cobrar do executivo que as leis sejam cumpridas, e não ficar apenas colocando postes e calçamento nas ruas para ganhar votos.

 

TEMPOS DE RETROCESSOS E NEGAÇÕES QUE NOS DEIXAM TRISTES E DEPRESSIVOS

Quando olhamos para o passado de quase 100 anos atrás e vemos nítidas semelhanças de comportamentos negacionistas da ciência das pessoas com relação à pandemia da gripe espanhola e a atual Covid-19, quando vemos o meio ambiente sendo destruído através do desmonte das estruturas de órgãos responsáveis pela preservação, quando vemos tanto preconceito, ódio e intolerância e que ainda tem gente do tipo, sabe com quem está falando, os mais sensatos ficam estarrecidos e bate momentos de tristeza e depressão.

Confesso que, da minha parte, depois de tantos tempos vividos, esse quadro tão arrasador me leva à depressão e tristeza de ver meu país sendo destruído, como que por uma força maligna que arranca do brasileiro a esperança e a fé, que sempre teve e acreditou num futuro melhor, com menos desigualdade social e mais justiça. Nos últimos anos e, mais recentemente, milhares que têm condições aquisitivas estão deixando o Brasil para morar em terras estranhas no exterior, como uma resposta de que não dá mais para ficar aqui.

Não dá para ver todos os dias tantas atitudes de retrocesso, como o desmatamento acelerado da Amazônia e a floresta ardendo em fogo, e não entrar em angústia. Causa-me espanto e revolta ver um desembargador em Santos, no litoral paulista, rasgar uma multa, amassá-la e jogar o papel no chão depois de ter chamado o guarda de analfabeto. “Sabe com quem está falando”? Mais de 500 anos depois e o nosso país não avançou. Continua primário e, talvez, pior, inclusive no segmento da produção de produtos.

Previa que a extrema-direita, o fanatismo e o fundamentalismo moralista iam subir ao poder, mas não imaginava que haveria tantos lunáticos escondidos para vomitar suas podridões armazenadas há anos em suas cabeças. Sempre critiquei as posições tomadas pelo ministro Gilmar Mendes, do Tribunal Superior Federal, mas sou obrigado a concordar com seu pronunciamento de que as forças armadas está, direta ou indiretamente, sendo conivente com esse genocídio, quando mais de 80 mil já foram abatidos pelo coronavírus.

O entendimento é que mais que triplicou a presença de militares generais e coronéis, mesmo que reformados de pijama, em cargos chaves do governo federal, como no Ministério da Saúde, cujo ministro interino é da ativa e nada do setor. O mais grave é que a maioria são neófitos no assunto, desbancando técnicos experientes civis de carreira, como aconteceu na área ambiental. Sobre essa questão, o que teria a dizer as forças armadas?

Embora numa democracia mambembe, estamos vivendo em pleno regime militar, sem uma intervenção de golpe do exército, da marinha e da aeronáutica através das armas. Como fica a imagem da instituição diante dessa avalanche de bombardeios a que o país está sendo vítima? Como entender um Ministério que quer a todo custo empurrar o uso da cloroquina contra o vírus, quando a comunidade científica mundial não recomenda? Como convencer os investidores externos de que os índices de aumento dos desmatamentos e queimadas são mentirosos e equivocados?

Como ocorreu há quase 100 anos com a gripe espanhola, no Brasil de hoje da Covid-19, por falta de uma liderança central e de uma coordenação conjunta, está se registrando uma mortalidade por rebanho, chamada também de imunidade por rebanho, o que significa crime de genocídio, sem que os responsáveis sejam julgados, condenados e presos. O Estado do Amazonas e alguns do Nordeste são exemplos.

Além dessa matança, que atingiu os mais vulneráveis economicamente, a pandemia serviu para tirar do armário do esquecimento mais de 38 milhões de pobres e miseráveis invisíveis, milhares morrendo todos os anos de fome e doenças variadas por falta de água potável, tratamento de esgoto e saneamento básico (mais de 100 milhões não contam com esses itens). Todos os dias a nossa Constituição é violentada, inclusive em outros tipos de violações dos direitos humanos.

No Brasil de hoje existem dois blocos divididos e se digladiando ideologicamente. Um extremista de direita que pede até Intervenção Militar e insiste que está com razão. O outro que condena os retrocessos, o preconceito a política de desmonte que aí está e também fala que está com a verdade. Cada bloco só se comunica isoladamente com quem comunga da mesma ideologia. Os dois não aceitam se interagir e discutir política.

Como, então, dialogar com uma pessoa que prega e apoia toda essa política de desmonte e retrocesso? Que é preconceituoso, racista, misógino, defende posições retrógradas na área da educação, acha que o coronavírus não passa de uma gripezinha e não se deve fazer isolamento social? Que chega a dizer que o governo atual é o orgulho para América Latina? Existe uma forma de aproximação entre esses blocos para que o país não continue dividido entre o ódio e a intolerância? Falta uma liderança, com um novo discurso, não o do passado.

 

 





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