O USO PERVERSO DA TRAGÉDIA
Carlos Albán González – jornalista
“El jarrón malo no se rompe” (vaso ruim não quebra), dizia meu avô Ricardo, imigrante espanhol da província de Pontevedra.. Pois bem, o ex-presidente Jair Bolsonaro, mais uma vez procura tratamento médico-hospitalar, apresentando um edema na perna esquerda. Enquanto isso, seus seguidores se articulavam, utilizando a tragédia que se abateu sobre o Rio Grande do Sul, para divulgar notícias falsas, em prejuízo das ações de resgate da população.
Transferido para um centro médico mais adiantado em São Paulo, o ex-presidente, diagnosticado com um quadro de erisipela, luta contra uma bactéria do gênero estreptococo. Pelo menos, por alguns dias, na companhia dos antibióticos para combater a doença, ele deixa a cena política e não atrapalha o governo federal, que tem procurado minorar o sofrimento do povo gaúcho.
Sempre é bom lembrar que nos anos de governo do ex-capitão o Brasil sentiu os efeitos impiedosos de outro tipo de tragédia. O país perdeu cerca de 700 mil vidas para a Covid-19, e continua perdendo (são mais de 3 mil este ano). Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 30% dessas mortes seriam evitadas se não houvesse um atraso por parte do governo federal na aquisição de vacinas.
Em Porto Alegre, Fernanda de Escóssia, diretora-executiva de Aos Fatos, plataforma de investigação contra a desinformação, revelou que as “fake news” estavam prejudicando o trabalho de alguns grupos de socorristas, como os barqueiros, que estão salvando as vidas das pessoas que moram nas ilhas do Rio Guaíba e da Lagoa dos Patos.
Os diplomados pelo Gabinete do Ódio, que funcionou no Palácio do Planalto no governo Bolsonaro, divulgaram que a Capitania dos Portos e o governo do Estado estavam multando os donos de barcos, muitos deles voluntários, que não possuíam habilitação.
O desmentido veio de imediato, assim como a informação de que o Planalto patrocinou o show de Madonna, no Rio de Janeiro. O ministro Paulo Pimenta, da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, teve que procurar os jornais para informar que o megaevento na Praia de Copacabana foi bancado por uma cervejaria e por um banco.
“Isso é muito cansativo. A todo instante temos que parar nossa assistência às milhares de vítimas desse desastre ambiental para desfazer as declarações de pessoas que zombam da vida humana, tripudiando sobre os mortos”, demonstrou Escóssia sua revolta em entrevista ao jornal “A Folha de S. Paulo”. O efeito dessas “fakes” é muito perverso, gerando ondas de pânico entre as pessoas que estão perdendo tudo que construíram.
Escóssia aconselha as pessoas a não se tornarem “inocentes úteis”, repassando conteúdos suspeitos. Na oportunidade, denunciou o que chamou de “monetização da tragédia”, ou seja, influenciadores sociais estão ganhando dinheiro com a divulgação das mentiras criadas pelos bolsonaristas. Nesse movimento de profissionalização das “fake news” estão engajadas as redes sociais e os financiadores, aqueles mesmos que apostaram e perderam no golpe do 8 de janeiro.
O Nordeste venceu
Na tarde de domingo, Bolsonaro, torcedor do Flamengo e do Palmeiras, confortavelmente instalado num leito do hospital, ligou a TV para assistir Botafogo x Bahia pela série “A” do Brasileirão. Nem precisou dizer para quem iria torcer. Vestiu a camisa alvinegra do clube carioca, na certeza, muito provável, de que o time nordestino seria esmagado no gramado do Estádio Nílton Santos. No começo da noite o humor de Bozó já não era o mesmo. Motivo: o Nordeste venceu.
Daqui da terra fico a imaginar a revolta do jornalista e escritor João Saldanha, vendo a camisa do Glorioso no corpo de um declarado simpatizante da ditadura militar de 64 e dos atos desumanos da tortura. Na condição de técnico da Seleção Brasileira, João Sem Medo desafiou um dos generais da ditadura, Emílio Garrastazu Médici, que forçava a convocação do atacante Dadá Maravilha. O desfecho da história todos conhecem.
Como agiriam hoje figuras históricas que vestiram o sagrado manto da Estrela Solitária. Cito alguns deles: Manga, Nílton Santos, Garrincha, Didi, Zagallo e Amarildo. O melhor Botafogo de todos os tempos – de 1957 a 1964 – era o único time no Brasil que enfrentava o Santos de Pelé, de igual para igual, e base, juntamente com a equipe paulista, das seleções nacionais de 1958, 1962 e 1970, tricampeã do mundo.











