Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Janeiro matreiro chegou,

Com uma ressaca de lascar,

Nem reguei minha flor,

Só contas a pagar:

Logo vem aí o IPTU,

Material escolar e o IPVA.

 

Lá vem fevereiro,

No arrastão do carnaval,

O mês mais curto ligeiro,

No calendário do varal,

Místico, profano-religioso,

E o tempo segue tinhoso.

 

Março é como começo de ano,

Dos estudantes às aulas,

Muita gente dando o cano,

No desarrumar das malas,

Só faturas e boletos vencendo,

E cobranças na porta chegando.

 

Geralmente abril abre comportas,

Para penitência e a paixão,

As nuvens parecem tristes e mortas,

No agreste só se ver sequidão,

O índio espanta as tragédias,

E os números superam as médias.

 

Maio surge com sorriso de amor,

Celebra-se o Dia das Mães,

Umas felizes, outras com sua dor,

Sente-se o som dos forrozões,

Anunciando o nosso festão,

E o comércio fatura seu milhão.

 

Junho é dos santos juninos,

Santo Antônio, Pedro e João,

Salve, salve os nordestinos!

Que têm o Rei do Baião,

É o mês das crendices e da fé,

Das quadrilhas e do arrasta-pé.

Julho é o mês do imperador,

De Júlio César, o romano,

Da Gália, o grande conquistador,

Com a força de um espartano,

No meio do frio invernoso

Na divisa do caminho espinhoso.

 

Chamam de agosto, o agourento,

Da sexta-feira treze, o terror,

Sempre grande acontecimento,

Mês do rei Augustus, o vencedor,

Getúlio nele se suicidou

E Jânio do Governo renunciou.

 

Setembro é bagaceira e lamento

Da primavera que pouco flora

Por causa do desmatamento,

Com tanto fogo e a natura chora,

Comemora-se a independência,

Que ainda não saiu da indigência.

 

Outubro é dedicado às crianças,

Também da Senhora Aparecida,

Romeiros cheios de fé e esperanças,

Crenças que refletem nossa vida,

De virtudes, vitórias e lasqueiras,

Uns subindo, outros descendo ladeiras.

 

Vem finados em novembro,

Ainda tinha o dois de todos os santos,

Dos meus pais sempre lembro,

Os anúncios entram com seus encantos,

Que comovem incautos passageiros,

Neste trem de estrangeiros.

 

Dezembro é o Natal sem Fome,

Mais o fim de uma estrada de andança,

A felicidade entra e depois some,

O rico no banquete enchendo a pança,

Boas festas, luzes e foguetórios,

E poucos com Cristo em seus oratórios.

 

Assim caminha o nosso povo,

Todo mês com suas cores,

Achando que tudo é novo,

Na mistura de alegrias e dores,

Embarca na mesma estação,

E repete na viola a velha canção.