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SAUDADES DE A a Z
(Chico Ribeiro Neto)
Crônica publicada no jornal A Tarde em 24/7/91)
Você já passou a limpo uma agenda de endereços? Todos hão de concordar que é um grande porre. A minha agenda velha estava caindo aos pedaços e entupida de nomes. Estava daquelas em que uma letra já começa a invadir a outra e quando você abre na letra A, a Z já está caindo no chão.
Há seis meses eu tinha comprado uma nova agenda que estava guardadinha na gaveta. Era só olhar pra capa dela, verde, e lá vinha a preguiça. Só muita disposição para iniciar a empreitada, mas felizmente já consegui terminar a missão de passar a limpo todos os nomes e endereços. Todos, não, pois a outra agenda tinha tanto tempo que tive de riscar alguns nomes cujas pessoas já tinham morrido.
Quem não morre, na verdade, é a minha velha agenda. Como que aborrecida, despetalando-se, ela soltou a capa esta semana, justamente quando eu estava terminando de preencher a agenda nova. Ciúme puro. Cadê coragem para jogá-la no lixo? Coloquei-a ao lado da nova e ela ficou lá, com um certo jeito de sabedoria que os mais velhos costumam ostentar. Foi dito e certo. No dia seguinte, precisei de um telefone cujo nome eu tinha pulado na hora de copiar. Corri rapidamente à agenda velha e lá estava a pessoa que estava procurando.
Copiar nomes, endereços e telefones só é tarefa chata no começo. Depois, começam as lembranças. Aquela prima de Jequié para quem nunca mais você ligou, o colega de ginásio que você encontrou na rua e que hoje é dono de hotel e um telefone mais do que providencial: o do orelhão da barraca de Seu Isidro, que recebe chamada e que permite sempre encontrar um colega do jornal por lá, entre uma cerveja e pratinhos de amendoim cozido.
Me aconselharam comprar uma agenda eletrônica, “você precisa se adaptar aos novos tempos, rapaz. Ela cabe até 500 nomes e é só você apertar o botão e PUFO!, aparece logo o nome que você deseja”.
Muito obrigado, prefiro ainda a agenda manual, onde posso colocar, além de endereços e telefones, a conta de luz, um recorte de jornal, o recibo do condomínio, resultados de exames e o último extrato do banco. De vez em quando, uma faxina, mas logo logo ela está gordinha de novo.
A agenda velha agora só tem a contracapa. Está amarrotada de tanto manuseio, mas não vai pro lixo. Aposenta-se com um merecido repouso na gaveta.
(Observação: essa crônica foi escrita há 34 anos. Uso agenda de papel até hoje e alguns nomes mortos me surpreendem. Lá está também, de forma cifrada, o emaranhado de senhas que nos obrigam a usar para sobreviver. guianaselvaabcinfinitoperto@tudojuntosemacento*1948pi).
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
CONQUISTA E AS CHUVAS
Não sou engenheiro e nem especialista no assunto, mas não é necessário para antever que Vitória da Conquista está na mira das tragédias e desastres em futuro próximo diante das mudanças climáticas (aquecimento global) com os temporais das fortes chuvas que hoje castigam o planeta e todo Brasil. Qualquer leigo mais esclarecido sabe que Conquista não tem mais estrutura para receber fortes chuvas, e o que vem acontecendo nas últimas semanas prova isso. Cabem às esferas municipal, estadual e federal, sem intrigas políticas partidárias, tomarem urgentes providências na realização de obras de macro e micro drenagem na cidade, porque os custos são altos e envolvem pesados investimentos. Conquista cresceu rapidamente sem uma infraestrutura adequada. Os serviços de drenagem feitos há mais de 30 ou 40 anos estão totalmente defasados e precisam ser ampliados, com capacidade para receber as grandes enxurradas, principalmente as que descem da Serra do Piripiri, durante muito tempo depredada pela ação humana. Não me lembro da demolição de casas condenadas pela Defesa Civil em áreas irregulares de risco, como ocorreram nesta semana. É um sinal que vem coisa bem pior por aí, a começar pelas encostas da Serra em bairros pobres, como Pedrinhas, Senhorinha Cairo (existem casebres no topo da Serra), Bruno Bacelar, Miro Cairo, imediações da Vila Serrana e outras localidades de invasões. Só vão cuidar quando acontecerem tragédias de grandes proporções. Toda essa encosta da Serra deveria ter sido preservada pelas prefeituras passadas, mas, exatamente elas têm a maior parcela de culpa pela destruição do meio ambiente. Não é por menos que já chamaram a Serra do Piripiri de “Serra Pelada”. Conquista está na rota das tragédias com deslizamentos de terras.
BEZERROS – HOJE E SEMPRE
Do livro “Retalhos Nordestinos” – poesia popular – do poeta José Fábio da Silva Albuquerque
Vou falar de um belo lugar
Com sua história ancestral
Lugar que possui muita luz
E povo que não tem igual
Em tudo é bem aclamado
Bezerros por nome chamado
Cidade sem par, magistral!
Sua história é bela e rica
E ao tempo dezoito remonta
Há três versões que são ditas
Por todo sujeito que conta
Embora a de uma promessa
Com facilidade e depressa
As outras duas desponta.
Com ela se conta uma história
De uma criança perdida
Que após lacrimosas rezas
Foi encontrado com vida
E como agradecimento
Uma capela é erguida.
O certo é que essa cidade
Desde a sua fundação
É respeitada por todos
Que habitam sua região
Seu dia é o dezoito de Maio
Pois nele imponente igual raio
Se deu a emancipação.
Bezerros é terra sagrada
Para todos nela nascidos
Pois nem o mundo inteirinho
Destrói os laços cingidos
Que de modos invulgares
Penso que os outros lugares
Estão todos nela contidos.
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