:: 28/mar/2026 . 13:21
LEMBRANÇAS DA QUERIDA PIRITIBA
Todas as vezes que vou a Piritiba, na Bahia, Piemonte da Chapada Diamantina, para visitar parentes (alô Leucia, primo-irmão Roque que já se foi, Roquinho, Ronieri, Rocia e Dadai) e alguns velhos amigos, são momentos de recordações do passado de menino moloque e também de tristeza quando vejo que antigos prédios históricos foram derrubados por administrações desmemoriadas, para dar lugar a novos equipamentos.
Dessa última vez, por exemplo, na semana passada, fiquei chocado e doeu muito quando passei pelo colégio Almirante Barroso, onde aprendi a escrever e a ler as primeiras letras e fiz meu primário. A escola, praticamente centenária, por onde passou milhares de alunos, está abandonada, caiando aos pedações e servindo de entulhos e coisas velhas da Prefeitura Municipal.
Como um dos mais antigos filhos, faço um apelo à prefeita Leandra Belitardo Barreto de Andrade Lima, do Solidariedade para que preserve nosso patrimônio. Seu foco de campanha foi educação e desenvolvimento, mas está provando o contrário, senhora prefeita, e, por ironia, não está sendo solidária em termos de conservação e reforma de um colégio que fez em tem história. Dalí saíram grandes nomes. Pelo menos, faça jus ao seu extenso nome.
Como em outras cidades da Bahia e do Brasil, que fazem questão de acabar com o patrimônio cultural e arquitetônico, o prefeito passado cometeu o crime de colocar abaixo o prédio da antiga prefeitura, que teve como primeiro mandatário, o Dr. Carlos Ayres de Almeida (PSD), eleito em 3 de outubro de 1954.
Oestado
O estado da primeira escola primária de Piritiba
No lugar, tão representativo para o município, foi construído um parquinho feio, sem muita utilidade, no final da popular “Rua dos Ricos” (naquela época nem era calçada). Confesso que evito olhar para o local. Assim eles vão destruindo nossa história com alegações de que o edifício estava condenado.
Vi outros pontos que foram descaracterizados, como um velho armazém de 100 anos onde na frente construíram uma lanchonete (sempre fechada). Não me lembro bem o nome da rua, só que em sua antiga calçada sentavam os moleques, como eu, para prosear, contar causos e brincar de esconde-esconde, de Cauboy, pau de bosta, jogo de gude, jogar pião, chicotinho queimado e até brigar com a turma da Rua de São Domingos. Era a rixa entre a rua de cima contra a rua de baixo.
Recordo bem que, naquela época, a gente comentava muito sobre a seleção brasileira campeã da Copa de 1958, na Suécia, com Pelé, Garrinha, Didi e outros craques que não existem mais. O armazém, de João Vermelho, era mágico como ponto de encontro de todas as noites da cambada que se sujava na terra.
A usina a diesel sustentava a luz até 10 horas (antes dava três sinais de aviso), mas a gurizada ficava até mais tarde na escuridão, para furtar frutas nos quintais e fazer outras tripolias. Para mim foram tempos sagrados.
Lembro de uma vez, quando estava trepado numa árvore frutífera (manga ou mamão), a mulher acordou assustada e me chamou de ladrão tarado. Foi uma carreira só e pulei o muro como um gato. Fazíamos questão de realizar essas aventuras puramente por prazer e para contar vantagens para os amigos. Cada um armava da sua.
Bons tempos de furtar melancias, umbus e queimar mandaçais e arapuás. Certa vez queimei um pasto ao tocar fogo na colmeia num galho de árvore e ainda tive o atrevimento de avisar ao dono que sua “manga” estava em chamas.
Meu pai, Mateus Macário, que tinha um terreno no Caldeirãozinho e era lavrador, nem sonhava saber dessas “loucuras” de moleque porque era pisa certa de reio, palmatória e cinturão. A repreensão era severa e fui pego com um batoque de matar passarinhos. Foi surra na certa. Bem que minha mãe me avisou!
Em Piritiba, morava na casa do casal Maricas e Nemézio para estudar, mas passava mais o tempo lendo gibis de Ritim-Tim, Zorro, Búfallo Byll, Tarzan, Roy Roggeres, Super-Homem e outros cauboys e “heróis” norte-americanos. Trocávamos essas revistinhas entre os colegas.
Queimava as aulas para tomar banho no Rio Maxixe onde aprendi a nadar. O que menos gostava era das férias porque retornava à roça para plantar mandioca, fazer farinha e vender na feira. Ficava com aquela vergonha quando aparecia um coleguinha de escola e me via vendendo na feira ao lado do meu pai. Sentia-me inferiorizado.
No período das aulas, me virava para ganhar uns trocados (tostões ou reis) para comprar gudes, gibis e ir ao circo quando aparecia na cidade. Pegava malas dos passageiros na estação ferroviária do trem de passageiros que ia até Senhor do Bonfim. Vendia lenha (quase não existiam fogões elétricos), água no “carote” transportada por jumentos e passava recados dos outros.
Na Praça Getúlio Vargas, ainda no chão poeirento, jogava baba quase todas as tardes, aquele de várzea com muitas pernas de paus, gritos, zoeiras, palavrões e brigas. Os moradores nos xingavam de moleques vagabundos e quando a bola caia dentro de um bar em frente, o dono ameaçava cortar a velha bola.
Primeira igreja presbiteriana de Piritiba
São muitas histórias e lembranças, como dos “doidos” Zabelê e Jegão. Eles viravam o “cão” quando os chamavam pelos apelidos. Quando eles iam passando, a meninada armava um esquema. Cada grupo ficava numa esquina diferente. De uma ponta um gritava Zabelê e da outra Jegão. O casal se separava e aí era só correria e pedradas.
Existiam ainda umas famosas fofoqueiras em Piritiba que faziam sucesso, sabiam da vida de todos moradores e eram temidas por causa de suas línguas ferinas. Fosse nos tempos atuais da tecnologia das redes sociais, com certeza teriam milhões de visualizações e seguidores.
Casos e causos a parte, tristeza pela derrubada de antigos equipamentos, mas amo minha querida Piritiba que em tupi-guarani quer dizer sítio do junco, atualmente com cerca de 18 mil habitantes. Naquela década de 50, possuía uns três mil habitantes.
Em consideração por ter ali me criado e depois como sacristão da vizinha Mundo Novo, do vigário Nicanor, e de lá ter partido para Rui Barbosa, depois para o Seminário de Amargosa, para ser padre, jornalista em Salvador, resolvi doar todo meu acervo cultural de mais sete mil itens a este município, mas a impressão é que os administradores não gostam de cultura e não deram uma resposta definitiva.
Piritiba, com sua origem ligado ao povoado de Cinco Várzeas, foi fundado por João Damasceno. Foi emancipada em 27 de setembro de 1952 pela lei estadual 503. Depois o ato foi extinto e reanexada a Mundo Novo, em 1956. Somente em três de agosto de 1958, pela lei 1.014, foi definitivamente emancipada. No entanto, seu aniversário é comemorado em 27 de setembro.
DOMINGO ERA GALINHA COM MACARRÃO
(Chico Ribeiro Neto)
Tem prato de mãe que é inesquecível. Um que Dona Cleonice faz até hoje é bem simples, não entra carne nem frango, mas é uma delícia: chuchu com ovos. A simplicidade é enriquecida com temperinho verde e o prato fica uma delícia. Como diz o outro, “você esquece até que não tem carne”. E ainda tem a cara de satisfação da mãe, à mesa, perguntando se a gente quer mais. Pois é: mãe que é mãe fica olhando o filho comer.
Os pratos têm a cara do dia. Sexta é dia de peixe, sábado é sarapatel e domingo é feijoada ou macarrão. Bife tem cara de segunda-feira, a terça parece com um cozido e a quarta talvez uma galinha de molho pardo ou fígado. Quinta é um dia meio indefinido pra comida, mas pode vir um lombo, daqueles que aguentam na geladeira até domingo e o caldo vai ficando cada vez mais gostoso pra uma farofinha.
Galinha com macarrão é a cara do domingo quando eu tinha 10 ou 12 anos. Caldo bom, gostoso, galinha morta ainda de manhã no quintal, “a moela é minha”, “mentira, mamãe, é que ele já comeu o coração”, “vê se deixa um . pouco do caldo qu’eu também quero”.
Depois da galinha, comida ainda procurando assento na barriga, uma “lapa” de goiabada pegada de mão mesmo, a boca toda melada e a roupa já pronta pro cinema, tudo ligeiro porque a sessão era às duas da tarde.
A Coca-Cola era pequena, mas dava pra dividir. Vixe, tá na hora de sair senão não pega o filme começando. Mamãe dá pouco dinheiro, a gente faz cara feia e consegue mais. Cleomar, meu irmão, sai na frente me dando pressa. Já no cinema, depois do segundo tiro, o primeiro arroto.
Era o Cine Santo Antônio, ali numa rua que vai dar no Convento de São Francisco, em Salvador. Se ainda restassem alguns minutos pra começar, trocávamos revistas ou vendíamos algumas apurando o dinheiro da pipoca ou do picolé na saída.
Lá dentro, a felicidade superava o imenso calor, o grito era fácil e o coração batia junto com as badaladas que anunciavam o início do filme. Aliás, dois filmes e um seriado. A gente entrava no cinema às duas e já saía com o dia escuro e a cabeça cheia de aventuras. “Será que o artista do seriado vai ficar uma semana pendurado naquele galho em cima da cachoeira, com mais de 20 bandidos lá embaixo atirando?”
Poucos anos depois, o Cine Santo Antônio fechou. Quando estava ali perto, gostava de passar pela porta do cinema, mesmo fechado, para olhar aquela sala de espera com o chão de azulejos e o portãozinho verde, que quando o porteiro abria era o estouro da boiada. Depois do filme, descer a ladeira correndo era uma delícia e tinha conversa pra chegar até em casa e ainda sobrava: “Você viu naquela hora?”.
Ver o filme “Cinema Paradiso” foi uma viagem ao Cine Santo Antônio.
(Crônica pulicada no jornal A Tarde em 25/7/1990)
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
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Antigo armazém de João Vermelho 


