:: 6/mar/2026 . 23:23
O CANGAÇO E AS MULHERES
Somente no final dos anos 20, quando Lampião fugiu de Pernambuco para a Bahia, foi que as mulheres começaram a entrar no cangaço, com Maria Déa, ou Maria Bonita, nascida em Santo Antônio de Gloria (Paulo Afonso), na Bahia.
A princípio, muitos cangaceiros não gostaram dessa novidade porque consideravam que a prática do sexo e o convívio com a mulher enfraquecia e amolecia o homem nos embates com a volantes nos sertões das caatingas. Alguns compadres chegaram a fazer advertências ao chefe.
O médico e antropólogo estudioso do assunto, Estácio de Lima, abre um capítulo em seu livro “O Mundo Estranho dos Cangaceiros” sobre a participação das mulheres no cangaço. Na época, início dos anos 40, ele era presidente do Conselho Penitenciário da Bahia e penetrou bastante nesta questão.
Naquela época, especialmente no Nordeste, o número de mulheres nas penitenciárias era mínimo em relação aos homens. Com o tempo, cresceu o contingente feminino, mas ainda existe uma proporção bem maior de homens na criminalidade.
De acordo com Estácio, “a mulher, aparentemente, é menos atraída para a delinquência em razão das personalidades de sua estrutura somática e dinâmica humoral; de uma força física menor, levando-a a maiores precauções; de uma educação multissecular, objetivando torná-la submissa e mais recatada; de uma sexualidade antes passiva que ativa, e isto é da mais alta importância; e não menos, do instinto maternal, que a às ternuras, sob variados aspectos”.
Acontece mestre, que este quadro em geral mudou muito com as lutas femininas na busca por igualdade social e de gênero. A mulher não é mais hoje aquela passiva e submissa de antigamente. Passou a buscar suas conquistas na sociedade, se bem que a criminalidade continua predominando mais entre os homens.
No reino das caatingas, segundo Estácio, “não encontramos, todavia, as mulheres nem mais cruéis, nem mais inconsequentes ou corruptas, embora experimentassem as vivências fundamentais dos companheiros. O caboclo, escravo da terra e escravizado por seus “donos”, encontra, na companheira, solidariedade e compreensão”.
Ele destaca que no país dos vaqueiros, dos jagunços, dos camponeses muito pobres e retirantes, a mulher não costuma viver parasitariamente. Ela maneja o arado, a enxada e sepulta as sementes com firmeza na dura nesga de terra.
Apesar de atingida pela sociedade, maltratada pelo clima e aniquilada pela fome, a propensão para o crime era menor. Mesmo assim, enfrentou de forma destemida as volantes, sugerindo medidas, discutindo e decidindo nas horas difíceis.
RAINHA E PRINCESA
Estácio descreve as mulheres no cangaço, destacando Maria Bonita, de Lampião, e Dadá (a Sérgia), de Curisco. A primeira como rainha e a segunda como princesa, diferente, que pegou em armas, lutando ao lado do marido, mesmo quando ele teve os braços esbagaçados por metralhadoras num enfrentamento.
Sobre Maria Bonita, o autor da obra afirma que jamais poderia ser considerada uma cangaceira, mas foi a figura feminina primordial do grupo. Portava somente armas curtas e dava um ou outro tiro nas brigadas. Não fugia da liça. Teve seis ou sete filhos, mas só uma criança sobreviveu.
A Déa, depois que se separou do marido sapateiro José, passou a ser chamada de Maria Bonita e nunca mais quis um destino diferente. Não se sabe se ambos eram fiéis, mas ela, sem dúvida. Virgulino sempre falava que era agradável “cobrir uma fêmea”. Existiram boatos de um certo namorico de Maria com Luiz Pedro, “mas é uma gritante inverdade”.
O FIM MACABRO DE LÍDIA
O antropólogo descreve as personalidades de várias mulheres do bando, como da Lídia, a Desdêmona, mulher de Zé Baiano, caso principal e trágico. Zé Baiano era um negro feio, alto, forte, valente, malvado e ferrava em brasa as mulheres que ele achava que deviam merecer castigo.
Zé Baiano apaixonou-se por Lídia, fogosa, moderna, jeitosa, sapeca e linda de corpo. Encontrou-a em Paripiranga e roubou a moça. Dizem que ela gostava de deixar os seios um bocado para se ver, com casacos folgados.
Com todas aquelas provocações, namorou o Bem-te-viu, um tanto meloso e derretido. O Besouro, um cangaceiro ordinário, vivia paquerando a Lídia. Certo dia, ele ouviu o mato estalar a certa distância e também “um ronco de onça comendo bezerro”.
Besouro aproximou-se como um felino e viu a moça agarrada ao Bem-te-viu. Disse que também queria. Lídia se recusou e ele ameaçou contar tudo a Zé Baiano. Percebendo o perigo, Bem-te-viu fugiu.
Na vista de todos, inclusive na presença do chefe-capitão, Besouro contou tudo. Lídia era corajosa e sustentou todo acontecido e ainda da chantagem de Besouro que queria lhe comer. “Se tenho de morrer que morra logo, mas esse cabra safado não me come”.
Ao ouvir tudo, Lampião pulou de onde estava como um acrobata e abriu com uma foice, em duas metades, a cabeça do delator. Por sua vez, Zé Baiano decretou o fim de Lídia. Lampião não interviu por achar que a moça era propriedade do preto e tinha todos direitos sobre ela. O código das caatingas era inflexível.
Com suas garras brutais, Zé Baiano matou a formosa Lídia com cacete. Foi um espetáculo macabro, com pancadas estúpidas, arrasadoras que esmagaram a cabeça da moça. O Bem-te-viu conseguiu escapulir para as bandas de Alagoas.
O Zé Baiano ficou ainda mais selvagem, mas teve um triste fim. Conheceu a filha do coiteiro Antônio da Chiquinha que não aprovou a união, mas não podia fazer muita coisa. No entanto, ajudado por camaradas, pegou Zé Baiano e seu grupo dormindo e a todos degolou a machado e a foice.
Os jornais noticiaram que “o ferrador das mulheres morre por causa de um rabo de saia”. No entanto, os sebastianistas acreditaram que Zé Baiano houvesse escapado para São Paulo. Antônio da Chiquinha foi morar em Salvador e se tornou camelô em Água de Meninos.
DADÁ, A GUERREIRA
Quanto a guerreira princesa Dadá (Sérgia Ribeira da Silva), criada em Glória (Bahia), mas nascida em Belém, Pernambuco, tinha personalidade mais incisiva e era uma grande combatente ao lado do seu marido Cristino Gomes da Silva, o Curisco, ou Diabo Loiro. Não teve a mesma fama de Maria Bonita, mas bem que merecia mais que a rainha.
Além de Maria Bonita e Dadá, ainda estiveram no cangaço, a Nenem, que pertencia a Luiz Pedro, que morreu baleada num combate que se feriu em Mucambo, perto do Rio São Francisco; Moça, mulher de Cirilo, que sabia atirar de fuzil; Otília, muito alegre e companheira de Mariano; Durvalina, amante de Vírginio, cunhado de Lampião e um dos cangaceiros mais temidos; Cila (Ismerilda), bonita e letrada, sabia ler e escrever, que foi mulher de Zé Sereno; Inacinha, mulher de Gato; Áurea que pertencia ao cangaceiro Manuel Moreno; Maria dos Santos que acompanhou Labareda por mais de 10 anos; Enedina pertencente a José Julião; Cristina, mulher de Português, bandoleiro que mal conhecia Portugal; Dulce, mulher de Criança; Verônica, mulher de Beija-Flor; e Lili, companheira de Moita Brava que levou seis tiros do marido por suposta traição.
SESSÃO ESPECIAL DA MULHER
Para comemorar o Dia Internacional da Mulher, que acontece neste domingo (dia 08/02), a Câmara Municipal de Vereadores de Vitória da Conquista realizou, nesta sexta-feira (dia 06/02), uma sessão especial onde se discutiu diversas questões relacionadas às mulheres.
Na ocasião, muitas mulheres foram homenageadas, como as ex-vereadoras Lúcia Rocha e Ligia Matos, além de tantas outras que atuam e lutam em defesa da categoria. A sessão foi presidida pela parlamentar Gabriela Garrido, que já foi delegada da mulher em Conquista.
A violência contra a mulher, que vem aumentando, esteve presente nas falas de todas que usaram a tribuna para expor seus pontos de vista a respeito do universo feminino. Segundo elas, o machismo ainda continua muito presente nos dias atuais, apesar das mudanças.
A ex-vereadora Lúcia Rocha, que já exerceu oito mandatos em Conquista, disse que durante este período sempre assumiu o compromisso de defender a mulher em todas suas atividades, inclusive através da inclusão de políticas públicas.
Lembrou que chegou a ser a única mulher vereadora do município, citando que hoje são cinco cadeiras. Para ela, ainda é pouco, mas já foi um avanço importante na história política da cidade. “Precisamos avançar muito mais”. Na oportunidade, expressou seu desejo de que Vitória da Conquista venha a construir um hospital exclusivo para as mulheres.
Ligia Matos agradeceu a homenagem e conclamou a todos presentes a lutarem cada vez mais por políticas públicas voltadas para as mulheres. Apontou que ainda existem muitas desigualdades sociais e de gênero. “Infelizmente, ainda não temos os 30% de mulheres no legislativo, conforme está previsto”.
No início do seu mandato, entre 2000/08, Lígia destacou que naquela época existiam muitas candidatas laranjas somente para preencher as cotas, e que foi uma defensora para que esse esquema não perdurasse.
Quanto a violência contra a mulher, Lígia ressaltou que os fatos comprovam aumento nos últimos anos e citou que, em 2025, somente em Conquista, 723 mulheres pediram proteção.
Márcia Viviane elogiou a ação do presidente da Casa, Ivan Cordeiro, por ter criado a bancada feminina, mas alertou que “ainda temos muito a conquistar”. Apesar de todo arcabouço das leis, de acordo com Viviane, a violência contra a mulher ainda é crescente.
Destacou que a mulher tem uma carga de trabalho exaustiva e conclamou os homens a ajudarem mais no dia a dia da casa. Afirmou que o Dia Internacional da Mulher deve ser de reflexão e finalizou dizendo que “queremos viver sem medo de agressões e abusos”.
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