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:: 31/mar/2026 . 22:04

A GENTE FALA MUITAS BESTEIRAS

Sem sentir, de forma impensada, no dia a dia os brasileiros falam muitas besteiras, termos carimbados, clichês, expressões e frases contraditórias, engraçadas e ilógicas, isto tudo sem perceber. Mesmo assim, na nossa cultura, elas têm seu devido sentido. A nossa língua tem dessas coisas e nos trai.

Não consigo entender, por exemplo, esse “obrigado” natural quando alguém lhe faz um favor. Dá a impressão que a pessoa realizou aquela ação por obrigação.  Não deveria ser agradecido? Fica dúbio. Dizem que somos descentes diretos dos macacos, nosso ancestral, mas temos muito do papagaio imitador.

Quando alguém está em estado terminal, com uma doença grave, todos comentam que o paciente “está correndo risco de vida”. Na lógica seria até bom porque existe esperança de continuar a viver. O certo não seria estar correndo risco de morte?

Outra expressão que me deixa intrigado é “estou correndo atrás do prejuízo” quando se leva um tombo financeiro ou se está passando dificuldades de outras espécies. O correto não seria estou correndo atrás do lucro? Correr atrás do prejuízo é piorar ainda mais a situação.

Em conversas entre amigos, em encontros ou até mesmo numa mesa de bar sobre assuntos amorosos, ouve-se a frase de que “meu casamento não é um mar de rosas”. Não é mesmo, porque as rosas têm espinhos no caule. Não quero mesmo esse mar de rosas. Sabemos se tratar de uma metáfora ou sentido figurado.

“Tem, mas acabou”. Como é que uma pessoa possui uma coisa, objeto ou produto, mas acabou. Todo mundo fala isso sem observar a contradição, o paradoxo. Como “tem, mas acabou”? No comércio em geral se ouve muito isso de vendedor ou lojista.

“Vê aí o áudio que eu te mandei”. Como alguém pode ver um áudio. O certo não seria escrever escuta o áudio?  Outra frase que soa até hilária é responder “não conheço, mas sei quem é”. Como você sabe quem é, se nem conhece a pessoa em referência? “Tá louco, meu”!

O pai, a mãe ou o responsável pelas despesas da casa, acorda cedo e reclama para o desleixado (a) que “a luz dormiu acessa”. Ora, meu amigo, luz não dorme, quanto mais quando ela está acesa. “Tô com fome de comida, agora é só amanhã”. Fica bem complicado e confuso entender o sentido. Amanhã vai continuar com fome de comida?

“Não vi nem o cheiro”. Ninguém ver cheiro, sente. “Tá ruim, mas tá bom”. Essa não dá para se engolir. Se a coisa está ruim, não pode estar boa. Você chupa uma fruta bem azeda e diz que está boa? Assim por diante, vamos soltando esses dizeres contraditórios e sem lógica.

Esse negócio de fazer seguro de vida me deixa encafifado. Não deveria ser seguro de morte? Por acaso, a vida tem seguro para não morrer?  Outra expressão que não bate em minha cachola e com a nossa realidade social e política deste sistema perverso é dizer que “todos somos iguais perante a lei”.  Não é assim que funciona quando ela se trata de julgar um pobre e um poderoso.

Além desses termos esdrúxulos, soltamos muitas coisas que saem do nosso subconsciente ou inconsciente que aprendemos desde os tempos da infância com os nossos país. A maioria tem raízes culturais religiosas que estão entranhadas no nosso povo brasileiro.

Não dá para encarar com seriedade que a “voz do povo é a voz de Deus”. Os eleitores, por exemplo, votam nesses políticos ladrões, bandidos e corruptos e foi Deus quem os elegeu, quem mandou? Nos últimos 30 ou 40 anos, o Rio de Janeiro só deu governador envolvido com maracutais. Quer dizer que aí está a voz de Deus?

Tudo que conseguimos ou alcançamos, dizemos “graças a Deus”. Até ateu fala isso de forma maquinal. Fulano ganhou na loteria, “graças a Deus”. Percebeu que Deus está em tudo, até quando o time de futebol sai vencedor ou o jogador faz um gol. “Fiz um gol, graças a Deus”. Ele está até no dominó, na dama, no baralho e jogos de azar. O bandido diz graças a Deus quando executa sua ação com sucesso e ainda mata um bocado de gente.

O cara compra uma calça nova, um celular, um carro e supérfluos e sai por aí dizendo que foi Deus quem deu. Tem aquela antiga do pobre que tem dez filhos e fala que foi “assim que Deus quis”, ou “foi Deus quem quis”. “Seja o que Deus quiser” é bem corriqueiro.

 

 

 





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