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:: 29/fev/2024 . 23:10

O EMBARQUE DA DOR

(Chico Ribeiro Neto)

Marinheiros soturnos carregam o navio “Amargura” com caixas de dores e de maus humores. Um marinheiro pirata consegue infiltrar, no meio dessa carga pesada, uma caixa de Esperança.

O capitão Cinzento, comandante do navio, que também tem uma perna de pau (a outra o tubarão comeu), berra as últimas ordens ameaçando jogar ao mar quem o desobedecer. Ninguém também ousa desafiar as ordens do Imediato, Carne de Pescoço.

O “Amargura” zarpa do Porto da Vida com o barulho dos seus motores. No cais poucos homens de cinza acenam com lenços cinza. Ninguém chora, só olham e acenam.

O apito do navio é mais triste do que o canto do “rasga-mortalha”, um tipo de coruja do Nordeste que, quando passa piando sobre uma casa, é sinal de que ali tem alguém prestes a morrer.

O capitão Cinzento ameaça jogar ao mar, com as mãos amarradas, aquele que perguntar para onde vai o navio, e depois vai catar cupim na sua perna de pau.

As caixas das dores balançam muito. As embalagens não contêm etiquetas de remetente nem destinatário. Nenhuma diz “Este lado para cima”. A única etiqueta é “Cuidado, Frágil”.

Há dores de todo tipo: de amor, de tristeza, de angústia, de cotovelo, de dedão do pé e de dente.

Os marinheiros do “Amargura”, quando bebem à noite, não cantam animados; dão gritos roucos, grunhidos de angústia e fazem uma dança sem graça que mais parece uma procissão.

Os que bebem demais pensam em jogar no mar a perna de pau que o capitão Cinzento tira pra dormir.

Pendurados no “Amargura”, os quatro botes salva-vidas se chamam “Medo”, “Fuga”, “Remédio” e “Queixa”.

Passa um navio que parece ter outro destino. Seu mome é “X do Problema”. Mais adiante passa o saveiro “Sonho”, tripulado por três crianças.

O “Amargura” cruza o Mar da Alma numa noite terrível. Uma tempestade varre o convés e faz o navio “jogar” muito. Com o balanço, as caixas no porão correm de um lado pra outro. A caixa da Esperança se parte e ela vai rolando até cair no mar. A Esperança não tem as mãos amarradas e sabe nadar.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

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“O ESTRANHO”

Não consegui um dedo de prosa com esse senhor solitário sentado numa cadeira com seu acampamento ao lado, ou uma espécie de barraca, na Avenida Bartolomeu de Gusmão, por isso que resolvi chamá-lo de “O Estranho”, como se fosse seu nome. Cheguei com minha máquina e tentei emplacar uma conversa para saber da sua graça, de onde vinha e o que fazia ali naquela tarde nublada costurando, se não me engano, uma camisa, calça ou calção. Mal me respondeu e não me deu nenhuma atenção. Quando se está com um problema ou aperreio na vida, cada ser humano age de uma forma diferente. Tem uns que vão logo se abrindo, contam sua história e pede uma ajuda para sobreviver. Outros são introspectivos, se fecham e não querem papo com ninguém. Tem   suas próprias razões para assim se comportar. Na minha jornada jornalística de 50 anos como profissional tenho, em alguns momentos, feito o dublê de psicólogo. Na grande maioria das vezes consegui arrancar até um bom papo e fazer uma entrevista, mas não com “O Estranho”, por mais que tenha tentado, e olha que sou insistente. No entanto, senti que melhor seria dizer um “tá bem” e desejar-lhe sorte. “O Estranho” estava “enfezado” ou banzo e, com certeza, passando por uma situação difícil que a nossa sociedade nem quer saber. Seu gesto foi de protesto e de menosprezo com a minha aproximação. Achei mais sensato não o importunar, se ele deu a entender que o deixasse em paz com sua dor, sua mágoa e sofrimento. “ vida é como ela é” – lembrei de Nelson Rodrigues.

VI O AGUACEIRO BATER

Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Como num beijo elétrico,

As nuvens pesadas escuras,

Riscam raios na serra,

Lembro da minha querida terra,

E o trovão celebra as aberturas,

Das chuvas de verão,

Das danças indígenas tupãs,

Chamando seus ancestrais xamãs.

 

Naquela tarde calorosa,

Vi o aguaceiro bater,

Na roça do meu gravatá,

O verde todo florescer,

Ao lado de você,

Toda linda charmosa,

E a nambu alegre cantar,

Na campina a perdiz e a juriti,

Vi o sonho clarear.

 

Vi o aguaceiro bater,

O facão brandir no terreiro,

No Nordeste faroeste inteiro,

Senti o cheiro do solo encharcar,

O mandacaru florar,

O mato viçoso exuberante,

O sertanejo forte gigante,

Na escola a criança,

Renascer a fé e a esperança.

 

Vi o aguaceiro bater,

Dentro de mim,

Com alma de poesia,

Minha deusa guia,

Do não e do sim,

Depois da seca danada,

Vi o lavrador com sua enxada,

O chão molhado cavar,

Para a semente semear.

 

Vi a lavoura nascer,

No milagre da natureza,

Espantar toda tristeza,

No aguaceiro a bater.

 





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