:: 1/fev/2024 . 23:00
AFINAL, QUAL É O SIGNIFICADO DE GENOCÍDIO?
Carlos González – jornalista
Genocídio, segundo os dicionaristas, significa promover uma série de ataques sistemáticos a uma população civil; extermínio deliberado de grupos étnico, racial ou político. A intensa operação militar, promovida pelo Estado de Israel, logo após o massacre articulado pelo Hamas, em 7 de outubro passado, que causou a morte de 1.200 judeus, dá ao mundo um exemplo de genocídio. Os bombardeios, sem alvos definidos, já mataram 22,3 mil civis, a maioria mulheres e crianças. O responsável por esses crimes contra a humanidade é o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, que reage enfurecido contra seus acusadores, como procedeu recentemente contra o governo da África do Sul.
A denúncia do país africano foi feita na Assembleia Geral da ONU e levada à Corte Internacional de Haia. A decisão tomada pelos juízes do tribunal com sede na Holanda frustrou os palestinos que esperavam uma ordem de cessar fogo. Ao governo israelense foi determinado que adotasse medidas para evitar um genocídio. Tel-Aviv refutou as alegações sul-africanas, qualificando-as de falsas, distorcidas e ultrajantes, e argumentando que está exercendo simplesmente seu direito de defesa.
“A galeria a seguir contém imagens fortes”. Ao clicar sobre o aviso dado no jornal “A Folha de S. Paulo” online, o leitor se comove com as fotos de crianças palestinas mortas ou desfalecidas, atendidas em hospitais improvisados. Desde o início dos bombardeios 10.6 mil pequenos seres humanos tiveram a vida interrompida. O governo de Israel diz que suas ações bélicas visam os homens do Hamas. Será que mulheres e crianças são membros do grupo terrorista que reivindica há 80 anos o fim do apartheid e a criação de uma pátria?
As famílias palestinas receiam enterrar os seus mortos. Sair às ruas em Gaza é como participar de uma “roleta russa”. Na caçada ao Hamas não há necessidade de calcular onde um míssil vai cair; barreiras de tanques impedem que socorristas do Crescente Vermelho (a Cruz Vermelha no Oriente) atenda aos feridos nas ruas.
O jornal de Tel Aviv “Yedioth Ahronoth” investigou a possibilidade do Exército de Israel ter colocado em prática o “protocolo Hannibal” na noite de 7 de outubro, atirando contra veículos que levavam terroristas e reféns. O comando militar reconhece ter matado três israelenses que haviam sido libertados pelo Hamas. Na semana passada, soldados disfarçados em profissionais de saúde invadiram um hospital e fuzilaram civis palestinos. Justificativa: “Eram terroristas do Hamas”.
No século passado, os dois povos foram vítimas de atos genocidas. Seis milhões de judeus foram assassinados pela Alemanha nazista durante a 2ª Guerra Mundial (1939-1945); nos anos do apartheid (1948-1994), centenas de africanos foram assassinados pelo governo colonialista da África do Sul. A perseguição dos palestinos pelos seus vizinhos começou em 1948 com a criação do Estado de Israel. Em maio daquele ano 750 mil palestinos foram expulsos de suas casas; em 1967 foram mais 350 mil, e, ao longo das últimas décadas, colonos judeus, com apoio do Exército, vêm dando continuidade às ações de banimento de um povo que há séculos ocupa aquela porção da Terra Santa.
Uma visão dos mapas da Palestina em 1948 e hoje revela que houve uma redução territorial tanto em Gaza quanto na Cisjordânia. O objetivo prioritário de Bibi Netanyahu não é destruir o Hamas, mas a ocupação por meio da força de toda a Palestina, cujo povo terá como destino a morte ou a fuga para o deserto.
Enquanto cresce entre as populações das grandes nações o antissemitismo, com frequentes manifestações, os governantes dos Estados Unidos e da Europa Ocidental – a ONU tem se mostrado irrelevante – fecham os olhos para o caráter expansionista de Israel. Nos Estados Unidos, a guerra em Gaza provocou uma convulsão nas universidades.
Mais da metade dos jovens entre 18 e 24 anos consideram os judeus uma classe opressora e se mostram revoltados com o financiamento e apoio de Washington a Israel, o que pode dificultar a reeleição do presidente Joe Biden. No final da década de 60 a juventude americana adotou um posicionamento semelhante. Os protestos foram contra a invasão do Vietnã, que resultou na perda da guerra e na morte de 56 mil militares.
Nem todos os judeus apoiam o massacre ao povo palestino. Um deles, o jornalista Breno Altman, usa seu site “Opera Mundi” para denunciar o caráter violento da ideologia sionista. Braço do governo de Israel no Brasil, a Confederação Israelita do Brasil (Conib) pediu à Polícia Federal (PF) que investigue o jornalista, a quem acusou de racista. Entidades jornalísticas já se levantaram em defesa do profissional de imprensa.
Candidato a prefeito de São Paulo nas eleições deste ano, Guilherme Boulos (PSOL) foi o mais novo brasileiro incluído na lista dos antissemitas criada pela Conib, que promete apoiar o político indicado por Jair Bolsonaro. A entidade ultradireitista, na verdade, se posiciona contra o presidente Lula, que se manifesta simpatizante da causa palestina.
O Brasil foi o primeiro país a realizar uma operação de repatriação de judeus brasileiros. A Força Aérea realizou cinco voos, a partir de Tel-Aviv, retirando da zona do conflito 1.100 pessoas. Até hoje ninguém questionou que esses brasileiros, com dupla nacional, optaram no passado por viver em Israel, servindo ao Exército ou cuidando de idosos e crianças. A vinda ao Brasil, à custa do governo, pode ser avaliada como um simples passeio, porque são muitas remotas as possibilidades de o conflito colocar em risco a população da capital israelense.
TÁ ESPERANDO O QUÊ?
Chico Ribeiro Neto)
Tô esperando o dia em que comecei a assoviar “Summertime” na fila do caixa no supermercado. A mulher do caixa assoviou também, o segurança começou a bater o pé, desligou a câmera e assoviou e dançou; o repositor de sabonete assoviou; o cara do açougue dançou; o da padaria também; a velhinha que reclama todo dia também dançou; o cara que chegou agora assoviou.
– Crédito ou débito?
XXX
Tô esperando ouvir “As 4 Estações”, de Vivaldi, numa noite fresca. E a Nona Sinfonia de Beethoven numa noite de chuva.
XXX
A próxima taça de vinho e o primeiro cantar do passarinho.
XXX
Ouvir “Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás”, de Raul Seixas, na voz de um cantador de ônibus no meio da Avenida Sete. “E não tem nada nesse mundo/ Que eu não saiba demais”.
XXX
Tô esperando o Dia da Nostalgia. Aquele dia em que todo mundo vai lembrar das coisas boas que já viveu. Nesse dia ninguém trabalha nem estuda. Só lembra. E apois num é que esse dia já existe no Uruguai? Em 24 de agosto, um dia antes da data que comemora o Dia da Independência do Uruguai, acontece La Noche de la Nostalgia, considerada a noite mais agitada do país. Os bares e restaurantes só tocam músicas antigas e promovem festas com temas nostálgicos.
XXX
Aquela onda que vem lá longe. Parece que ela vem grandona. Que maravilha é furar uma onda mergulhando de cabeça!
XXX
Aquela bola que espirrou na pequena área pra eu fazer um gol de calcanhar (de cagada) muito festejado pela torcida.
XXX
Tô esperando aquele café cheiroso com pão caseiro na casa de Dona Geralda, em Caculé, Bahia.
XXX
Um Brasil em que a educação seja a maior prioridade.
XXX
Um filme que me faça sair do cinema levitando, respirando a beleza de viver.
XXX
Aquela carta com a letra dela.
XXX
A primeira mordida no peixe frito ou no assado cabrito. Um prato de cozido com pirão e a couve e a abóbora boiando lá em cima. E o molho lambão do lado.
XXX
Tô esperando o próximo trem, o primeiro navio e a que horas a mulher do circo vai virar o terrível macaco. Espero a próxima gota d’água em cima da rosa.
XXX
Tô esperando o Carnaval pra me picar de Salvador.
(Veja crônicas anteriores em leiamais.ba.com.br)
O JUMENTO E O HOTEL
Símbolo do Nordeste pela sua resistência e ajuda aos sertanejos, sempre que me deparo com um jumento, ou jegue, e estou com a máquina na mão, vem logo o dedo e faço o foco para clicar. Por acaso estava eu conversando com meu “Velho Chico” e lá estava o jeguinho bem em frente do Rio Mar Hotel, por sinal rio-mar ou Oporá, que em indígena é Rio São Francisco, nome dado pelo português Américo Vespúcio, em 1501. Mas, voltando à imagem do jumento com sua carrocinha, será que ele estava ali esperando um hóspede para dar uma volta para mostrar a cidade de Juazeiro? Com tantas matanças desse animal pelos matadouros para exportar sua carne e sua pele para a China, o jegue está cada vez mais escasso, tornando-se, infelizmente, uma espécie em extinção. Os que ainda sobrevivem, continuam sendo animais de carga e sustento para muitas famílias. Na verdade, sua presença ali constitui um contraste em meio à evolução da tecnologia e aos meios de transporte. Em seu lugar são as motos que fazem aquela barulheira e poluição nas cidades, inclusive no campo onde ninguém mais quer andar nesse equino. É mais uma homenagem que faço ao jumento e, quando o vejo, sempre me lembro dos tempos de menino quando labutava com meu pai como lavrador, principalmente com a cultura da mandioca. Era ele que fazia todo transporte das raízes e da farinha para as feiras.
ÊTA VIDA!
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Êta vida!
Renhida de tanta lida:
Do nascer e crescer,
Do envelhecer e partir,
Do amar e odiar,
Do chorar e sorrir,
Do descansar e lutar,
Onde um vai, outro fica,
E o pobre a trabalhar,
Pro patrão se enricar.
Êta vida!
Vou a vagar por ai,
Como nobre ou faquir,
Com direito ao existir.
O tempo gira, gira,
O vento corta lento,
Às vezes veloz e algoz,
Arrastando tudo pela frente,
E essa gente diferente,
Nesse trem passageiro,
Na correria do dinheiro.
Êta vida!
Muitos dizem que ela é sabida,
Pela mulher foi parida.
Bodoque de atiradeira,
De descida e ladeira.
Êta vida!
De Natal e Réveillon,
Canção, amor e som,
Que atravessa o ano,
Com meta de plano,
Branco, dourado, verde/azul:
Superstição para cada um,
E eu não entendo mais nada,
Faço apenas meu zum,
Nesse mundaréu de povo,
Pra começar tudo de novo.
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