:: 15/fev/2024 . 23:18
CARNAVAL TAMBÉM É CULTURA
Carlos González
Evidente que essa afirmativa não se cinge ao Carnaval de Salvador, rotulado pela turma da imprensa, que “maceta” e chora com Ivete Sangalo, de “maior do mundo”. Refiro-me aos enredos das escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo, e às apresentações de frevo, ciranda e maracatu nas ruas e praças do Recife e nas ladeiras de Olinda. Seria injustiça deixar de fazer menção aos blocos afros da capital baiana, em especial ao Ilê Ayê, que há 50 anos vem preservando a cultura dos povos africanos.
O anúncio do bicampeonato da escola Mocidade Alegre no Carnaval de São Paulo, com o tema “Brasileia Desvairada – a busca de Mário de Andrade por um país”, significa um incentivo à cultura nacional, especialmente à literatura. Fundada em 1967, originária do bairro do Bom Retiro, a escola já ganhou 12 troféus como participante do Grupo Especial paulistano.
Certamente, muitos curiosos devem ter procurado saber quem foi Mário de Andrade (1893-1945). O autor de “Macunaíma” e um dos fundadores do modernismo no país, dedicou-se na juventude aos estudos no Conservatório de Música de São Paulo. Com a publicação em 1922 de “Pauliceia Desvairada”, uma coletânea de poemas, ele passou a ser considerado como a força motriz que revolucionou a literatura e artes visuais no país, a partir da Semana de Arte Moderna de 22.
Além de poeta, contista, musicólogo, cronista, historiador de arte, a fotografia faz parte da biografia de Mário de Andrade. Sua maior produção fotográfica foi feita durante as viagens que fez ao Norte e Nordeste do país. Em vez de documentar um Brasil falsamente europeizado, ele rebuscou a história, a cultura, o povo e o folclore do interior. Seus ensaios publicados por jornais paulistas eram ilustrados com suas fotografias.
Procurei relevar a arte fotográfica na pessoa de um dos maiores expoentes da cultura brasileira para dar suporte à minha crítica e assombro com a indicação dos beneficiados pela Lei Paulo Gustavo em Vitória da Conquista. Entre os 101 trabalhos selecionados por 12 “analistas técnicos”, cujos nomes não foram divulgados, não constatei em nenhum deles a história desta cidade contada através da fotografia.
Sem a tecnologia dos equipamentos de hoje – os mais velhos devem ter posado para os lambe-lambe -, excelentes profissionais, amadores e profissionais, documentaram nos últimos 100 anos o crescimento do antigo Arraial da Conquista, fundado em 1783. Os gestores municipais dizem que a lei determina que 20% da verba se destina aos negros e pardos. Segundo o Censo de 2022, a maioria da população de Conquista se declara parda – exatos 56,8% e 10,1% negros.
“Eu aprendi o português a língua do opressor/pra lhe provar que meu penar também é sua dor”. São versos do samba-enredo do Salgueiro, que levou para a Sapucaí, no Rio, a história do povo yanomami. Mitos e tradições de nações indígenas e africanas são temas de aulas de cultura transmitidas no Carnaval a milhares de pessoas que lotam as arquibancadas e camarotes dos Sambódromos do Rio e São Paulo. Carros alegóricos, fantasias, baterias e as tradicionais “baianas”, são utilizados para elucidar esse alegre aprendizado.
Nas passarelas do samba desfilam também o turismo e o meio ambiente. Este ano, a Escola Acadêmicos de Tatuapé, originária da zona leste de São Paulo, presenteou os brasileiros, principalmente os baianos, com o enredo “Mata de São João – uma joia da Bahia”. Situado a 80 km de Salvador, o município vive economicamente em função do turismo, que pulsa no distrito de Praia do Forte, distante da pacata sede do governo local.
Além dos hotéis, pousadas e restaurantes para todos os bolsos, Praia do Forte, no começo da Linha Verde (acesso a Sergipe), tem como suas principais atrações, em qualquer época do ano, praias de águas tépidas e calmas, locais de preservação de tartarugas marinhas e baleias Jubarte; a Reserva de Sapiranga, apropriada para passeios ecológicos; e as ruínas do Forte de Garcia d’ Ávila, construído em estilo medieval entre 1551 e 1624.
Volto a Salvador e dou um pulo até o Circuito Dodô (Barra-Ondina), o preferido pelos ricos, famosos e celebridades, que não se arriscam a ir para o meio dos blocos, onde a plebe, oriunda dos bairros periféricos, e casais homoafetivos se espremem. A imprensa não divulga os fatos de natureza policial, como os dois estupros coletivos e mais de 600 denúncias de abusos sexuais, ocorridos no circuito vip.
Divulgadas incessantemente por uma parte da mídia, as “músicas” do Carnaval 2024 – um primor de talento e sensibilidade – receberam milhões de votos. “Macetando”, de Ivete Sangalo, virou o placar no último minuto, derrotando “Perna Bamba”, de Leo Santana. Os dois “compositores” já acertaram voltar à Barra em março. Prefeito Bruno Reis anunciou 10 horas com Bell Marques no aniversário de Salvador, nos mesmos 7 kms entre o Farol e a Praça Eliana Kertesz.
Na condição de ex-morador da Barra posso avaliar o sofrimento dos meus ex-vizinhos. O clima insuportável começa dois meses antes do Carnaval e não termina com o Arrastão de Carlinhos Brown e Ivete. Ao ouvir a palavra arrastão, a jornalista Mônica Waldvogel, da GloboNews, imaginou que grupos de menores assaltantes estavam invadindo as praias da cidade. Na realidade, a péssima iniciativa de Brown, acompanhada por outros artistas, não deixa de ser um crime, classificado de intolerância religiosa, uma grave ofensa aos católicos que celebram a Quaresma.
Em 2019, o então prefeito de Salvador ACM Neto vetou o projeto de lei de autoria do vereador Henrique Carbalall (PV), que acabava com o Arrastão, alegando que se baseou numa análise técnica e jurídica dos órgãos competentes. Confessou sua condição de católico e afirmou que o prolongamento do Carnaval na Quarta-Feira de Cinzas não afetava o funcionamento dos serviços públicos. A Igreja Católica nunca se manifestou a respeito.
DONO DE BAR DEVIA BEBER
(Chico Ribeiro Neto)
Todo dono de bar devia tomar uma pra ficar mais inteirado dos assuntos. Há os contrários a essa ideia achando que “macaco não pode vender banana.”
Desconfie de dono de bar que não bebe. Ele está sempre mal humorado, é um porre. Tem horror a bêbado e cospe de lado a cada cerveja que abre. E ainda tem aquele que vai logo perguntando: “Vão tomar quantas, porque eu já tô fechando?”
Se dono de bar bebesse poderia encontrar no final da noite, fechando o bar, uma bela morena de preto que só toma Campari.
Dono de bar que não bebe vai dormir triste e acorda aborrecido. Vai de mesa em mesa perguntar se você está gostando, senta na sua mesa sem ser convidado e ainda come do seu tira-gosto. Fica com o zoião vendo a banda passar.
Desconfie, amigo, do dono de bar que diz não beber, porque ele acaba bebendo escondido, “pra não dar ousadia.”
Dono de bar que não bebe não conhece a alegria de gritar: “Essa agora é da casa!” Dono de bar que toma uma entra em sintonia com o bêbado, viaja junto com ele, que diz belos poemas, passeia nas estrelas e dorme com sereias no fundo do mar.
Se todo dono de bar bebesse, alguns deles iriam esquecer de anotar o meu fiado.
Todo dono de bar devia tomar uns goró, molhar a palavra e “morder o rabo da cobra”, pra deixar de ser chato e de ficar lá do balcão olhando pra gente com cara de Madalena arrependida.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
NO BANCO DA PRAÇA
Ali mesmo ele arriou o seu corpo, não se sabe se por cansaço, por fome ou por embriaguez. Quem passa vai seguindo sua vida cotidiana e nem está aí para o moço que dorme no banco da praça, que também é utilizado para um encontro, um bate-papo com um amigo ou até o namoro de um casal. O banco da praça é também um local onde muitos dão uma parada para refletir sobre os problemas e até apreciar o movimento dos carros, dos transeuntes ou observar o comportamento dos outros, como fazem os poetas e escritores quando querem escrever uma crônica da vida. É no banco da praça que artistas escultores se inspiram para construir estátuas de famosos, como Jorge Amado, João Ubaldo, Vinícius de Morais, na Bahia, e Carlos Drummond, no Rio de Janeiro. No entanto, o moço ali, numa praça de Juazeiro (Bahia), flagrado pelas lentes da minha máquina não passa de um simples desconhecido que pode ser até um andarilho qualquer ou mesmo um mendigo. Não deveria ter uma estátua em homenagem a esse anônimo para que as pessoas refletissem mais sobre o outro, o desamparado e abandonado pela sociedade, cada vez mais desumana e individualista que só pensa em si? Ronnie Von fêz “A Praça” (letra e música): A mesma praça/o mesmo banco/as mesmas flores, o mesmo jardim/tudo é igual, mas estou triste. No banco da praça também pode ser título de um belo poema com diversas conotações.
O BRUXO DA BOLA
Autoria do escritor e jornalista Jeremias Macário
Os deuses do Olimpo
Te deram o divino dom,
De ser o bruxo da bola,
Com ela fazer malabares,
Como violonista do som,
E tu preferiste:
Festa e luxo,
Boates, cabarés e bares.
Passastes
Como cometa no fluxo,
Esse bruxo da bola,
Na enrola de muito Mané,
Com sua mágica,
Grudava a redonda em seu pé.
Fostes o espetáculo do mundo:
Por duas vezes o melhor,
No drible um cartola,
Maior que Garrinha na ré,
Maradona, Messi e Pelé.
Caneta pra lá,
Banho de lua,
Pedala pra cá,
Deixastes
O adversário no chão,
Comendo grama,
Achando ser pão,
E a bola cola,
No bruxo da bola.
A torcida contra
Levanta e canta,
Para aplaudir,
Gritar e curtir,
O bruxo da bola.
No campo ele sorrir,
Faz outra marola,
O bruxo da bola.
Lá vai o bruxo da bola,
Com ela presa na sola,
E o estádio inteiro,
Encanta com o efeito,
Que no canto enganou,
Desolou na rede o goleiro,
E goza o bruxo da bola.
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