:: 23/fev/2024 . 23:29
“A MÁSCARA DA ÁFRICA-VISLUMBRES DAS CRENÇAS AFRICANAS”
OS REIS OU OS KABAKAS (CHEFES) CRUEIS DE UGANDA (BUGANDA) DO POVO BAGANDA DO SÉCULO XIX, A CULTURA TRADICIONAL DO CULTO AOS ESPÍRITOS ANCESTRAIS, OS SACRIFÍCIOS HUMANOS E A INVSÃO DAS RELIGIÕES ESTRANGEIRAS (O CRISTIANISMO E O ISLAMISMO).
O Prêmio Nobel de literatura de 2021, V. S. Naipaul, que escreveu “A Máscara da África” empreendeu uma viagem pelo continente em 1966 (revisitada 40 anos depois) e sentiu as mudanças, resultantes do progresso e da influência exercida pelo mundo exterior. Uganda virou uma bagunça e aumentou consideravelmente a pobreza e a miséria.
Mesmo expostos às grandes religiões do cristianismo e do islamismo, o sistema antigo de crenças, herdadas dos antepassados, ainda persistem. De Uganda, depois de mais de 40 anos, o escritor passou pela Nigéria, Gana, Costa do Marfim, Gabão e África do Sul, entre 2008 e 2009, visitando locais sagrados e conversando com intelectuais, autoridades políticas, chefes religiosos e pessoas comuns.
Em sua observação, constatou que ainda existem os laços que vinculam às crenças e práticas religiosas ancestrais. Neste livro, Naipaul, nascido na ilha de Trinidad, em 1932, graduado na Universidade de Oxford, nos oferece um amplo panorama dos dilemas enfrentados pela África de hoje. Seu romance mais famoso foi “Uma Casa para o Sr. Biswas”, escrito em 1961. Vale a pena viajar nas obras desse escritor.
“A Tumba de Kasubi” é o primeiro capítulo da obra “A Máscara da África” onde ele descreve sobre os kabakas cruéis Sunna e seu filho Mutesa, passando por Idi Amim, entre 1971 até 1979 (dizem que matou mais de 150 mil pessoas), e pelo governo do feroz Milton Obete, de 1981 a 1985. Entre 2008 e 2009, apesar do deslocamento de 1,5 milhão de pessoas e da epidemia da aids ainda havia 30 a 40 milhões de habitantes vivendo em Uganda (Buganda).
Nesse capítulo “A Tumba de Kasubi”, vamos falar um pouco de Sunna e Mutesa, bem como das mudanças com a invasão das religiões estrangeiras (anglicana, a presbiteriana e o islã) que chegaram prometendo a vida além da morte, enquanto o povo tradicional praticava a cultura de venerar os espíritos ancestrais que viviam nas florestas e eram seus guias. Foi aí que Uganda se deteriorou.
Em sua viagem por Uganda, Naipaul fala do kabaka Sunna, do meado do século XIX, conhecido pela sua grande crueldade, e a chegada dos árabes que espalharam o islamismo. Depois vieram as igrejas eclesiásticas narradas pelo escritor, em 2008/09. “Nas áreas nobres superconstruídas havia estruturas cristãs “evangélicas”. Também havia mesquitas concorrentes de vários tipos, como sunitas, xiitas e ismaelitas”.
De acordo com Naipaul, até os anos 1840, Uganda tinha ficado isolada, vivendo para si mesma, até a chegada dos mercadores árabes que foram bem acolhidos por Sunna. Seu filho sucessor Mutesa, que chegou a receber o explorador John Hanning Speke, em 1861/62, era tão cruel quanto o pai.
Speke presenteou o kabaka com armas, bússola, espelho e outros instrumentos, mas o povo baganda, com seu dom para a organização social e disciplina militar, possuía sua própria civilização. “Construíam estradas tão retas quanto as dos romanos; tinham a higiene em alta conta; e dispunham de uma frota no Lago Vitória, o maior da África.
“O fruto dessa decisão de mais de 139 anos atrás podia ser visto agora em Kampala (capital). A religião estrangeira, a julgar pelos edifícios eclesiásticos que competiam entre si nos morros, era como uma doença impregnada e contagiosa, que não curava nada, não oferecia nenhuma resposta definitiva, mantinha a todos num estado de nervos, travando batalhas erradas e estreitando a mente”. Essas religiões estrangeiras, segundo Naipaul, possuíam uma teologia complexa.
O príncipe Kassim, no entanto, tinha uma outra interpretação. Em uma conversa, o príncipe disse que ambas as religiões ofereciam para os africanos um além-vida, davam às pessoas uma visão de si mesmas vivendo depois da morte. A religião africana era mais etérea, oferecendo apenas o mundo dos espíritos e os ancestrais.
Em sua visita à Tumba de Kasubi, ele conheceu uma velha guardiã do túmulo de um kabaka, considerada privilegiada por ser uma das esposas. “Os kabakas não morriam. Desapareciam e iam para a floresta, que ficava bem em frente, na parte interna da tumba”.
Quanto ao funeral de um kabaka, conta em sua narração de viagem, que envolvia rituais que teriam vindo do passado distante. O cadáver do rei tinha que ser dessecado sobre um fogo brando durante três meses. O maxilar era retirado e adornado com contas ou cauris (conchas).
Nos velhos tempos, o sacrifício humano era uma prática comum quando se levantavam as pilastras ou se assentavam as fundações de uma tumba. Ressaltou que, quando Speke veio a Uganda, em 1861, Mutesa era kabaka, exercendo o mais despótico tipo de poder em sua corte, matando pessoas “feito galinhas”.
Certa vez, numa histeria, sem nenhum motivo aparente, levou a lança consigo ao harém e matou mulheres até que sua sede de sangue fosse saciada. Nessa época, nem havia sido coroado. Em 1886, o jovem sucessor de Mutesa, Mwanga, farto das novas religiões tão inconvenientes, ordenou que seus 22 pajens cristãos fossem queimados. Antes foram espancados a pauladas e chicoteados pelos carrascos do palácio e logo picotados a machadadas.
A tradição baganda ditava que o sangue de príncipes não era algo que pudesse ser espalhado. Era uma proibição religiosa e, por isso, não poderia haver pauladas e chicotadas para eles. Só podiam ser queimados em esteiras de junco.
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