(Chico Ribeiro Neto)

Marinheiros soturnos carregam o navio “Amargura” com caixas de dores e de maus humores. Um marinheiro pirata consegue infiltrar, no meio dessa carga pesada, uma caixa de Esperança.

O capitão Cinzento, comandante do navio, que também tem uma perna de pau (a outra o tubarão comeu), berra as últimas ordens ameaçando jogar ao mar quem o desobedecer. Ninguém também ousa desafiar as ordens do Imediato, Carne de Pescoço.

O “Amargura” zarpa do Porto da Vida com o barulho dos seus motores. No cais poucos homens de cinza acenam com lenços cinza. Ninguém chora, só olham e acenam.

O apito do navio é mais triste do que o canto do “rasga-mortalha”, um tipo de coruja do Nordeste que, quando passa piando sobre uma casa, é sinal de que ali tem alguém prestes a morrer.

O capitão Cinzento ameaça jogar ao mar, com as mãos amarradas, aquele que perguntar para onde vai o navio, e depois vai catar cupim na sua perna de pau.

As caixas das dores balançam muito. As embalagens não contêm etiquetas de remetente nem destinatário. Nenhuma diz “Este lado para cima”. A única etiqueta é “Cuidado, Frágil”.

Há dores de todo tipo: de amor, de tristeza, de angústia, de cotovelo, de dedão do pé e de dente.

Os marinheiros do “Amargura”, quando bebem à noite, não cantam animados; dão gritos roucos, grunhidos de angústia e fazem uma dança sem graça que mais parece uma procissão.

Os que bebem demais pensam em jogar no mar a perna de pau que o capitão Cinzento tira pra dormir.

Pendurados no “Amargura”, os quatro botes salva-vidas se chamam “Medo”, “Fuga”, “Remédio” e “Queixa”.

Passa um navio que parece ter outro destino. Seu mome é “X do Problema”. Mais adiante passa o saveiro “Sonho”, tripulado por três crianças.

O “Amargura” cruza o Mar da Alma numa noite terrível. Uma tempestade varre o convés e faz o navio “jogar” muito. Com o balanço, as caixas no porão correm de um lado pra outro. A caixa da Esperança se parte e ela vai rolando até cair no mar. A Esperança não tem as mãos amarradas e sabe nadar.

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