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:: ‘Notícias’

O ÓDIO NÃO MORRE COM O ANO VELHO

Carlos González – jornalista

Um ano sem Jair Bolsonaro. Há motivos para uma parcela considerável da população brasileira comemorar? A resposta é dada pela conceituada revista inglesa “The Economist”, ao afirmar que o Brasil voltou à normalidade em 2023, superando o que chamou de “populismo mentiroso”. O efervescente movimento das pessoas nas ruas e nas lojas nesse Natal, com o anunciado aumento de consumo da população, não deve servir de parâmetro para se aplaudir os primeiros 365 dias do terceiro mandato de Lula.

Nessa virada do ano há lufadas de otimismo na atmosfera. Pesquisa Datafolha revelou que sete entre dez brasileiros esperam um 2024 melhor do que 2023. Segundo o ministro Márcio Moreira (Secretaria-Geral da Presidência) o governo em 2024 vai continuar apostando nas políticas econômicas e sociais, responsáveis pelos 38% de aprovação da população ao trabalho do petista. Certas promessas de campanha foram parcialmente cumpridas. Vamos lembrar o meio ambiente e a violência.

A televisão mostrou destruição de barcaças e aeronaves de garimpeiros que exploram ilegalmente o ouro nos rios da Amazônia. Louvável o desempenho da Polícia Federal (PF) e do Ibama. Mas os criminosos estão voltando, junto com os que exploram o comércio de madeiras nobres e os que queimam a floresta para abrir pastos para o gado. Há necessidade de uma intervenção mais rigorosa, com apoio do Exército e da Força Aérea, senão “a boiada vai passar”.

Revogar os decretos de Bolsonaro que beneficiaram a indústria armamentista nacional e o contrabando de armas e munição era um dos objetivos prioritários do lulismo. Nos primeiros meses deste ano foram fechados centros de treinamento de atiradores bolsonaristas, sem que isso diminuísse os crimes de homicídio e o poder de fogo das quadrilhas de traficantes de drogas. A campanha em favor do desarmamento da população acabou esbarrando em comissões da Câmara dos Deputados, onde uma maioria formada pelas bancadas da bala e evangélica, incentivada pelo lobby dos fabricantes de armas, votou contra os projetos de lei enviados pelo Executivo.

A Justiça acaba de determinar que o governo federal, o do Estado do Amazonas e da cidade de Manaus indenizem em R$ 1,4 mi os familiares de dona de casa que morreu por asfixia em 15 de janeiro de 2021. Entre o final de 2020 e começo de 2021, a capital nortista viveu uma dramática crise sanitária e humanitária por falta de oxigênio nas UTIs dos hospitais que recebiam pacientes com covid-19. O ministro da Saúde na época era o general Eduardo Pazuello, que, por sua negligência, recebeu como “prêmio” dos bolsonaristas fluminenses uma cadeira na Câmara Federal.

Essa e outras milhares de vidas perdidas na gestão Bolsonaro por falta de vacinas e insumos hospitalares poderão suscitar uma série de pedidos de indenizações na Justiça. Além de ter atrasado a compra de vacinas, de ter incinerado medicamentos de alto custo, de ter falsificado seu cartão de vacinação e de ter estimulado o uso da cloroquina e derivados para prevenção e cura da covid–9, o ex-capitão está deixando mais uma dívida para o governo Lula.

Ao dar palpites de questões da diplomacia, Lula cometeu erros que depois tentou consertar. Para recolocar o Brasil como protagonismo no mundo visitou em 62 dias 24 países em 15 viagens, a um custo em torno de R$ 1 bi. Estabeleceu um recorde, mas, em compensação, não trouxe joias sauditas. Silenciou as críticas da oposição repatriando em voos da FAB mais de 1.500 brasileiros que residiam em Israel e na Faixa de Gaza.

Eles estão lá no plenário da Câmara dos Deputados, inquietos, não têm ideologia, só falam nas emendas. É a turma do Centrão, que faz Lula de refém, como fez de presidentes anteriores desde FHC. Sem os bilhões de reais os projetos do Executivo não são aprovados. Pressionado, Lula foi obrigado a colocar em segundo plano pautas progressistas previstas para serem executadas este ano.

Infelizmente, o ódio não vai morrer com o Ano Velho. Na fala à nação na noite de Natal o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu que o “Brasil abraçasse o Brasil”, gesto que significaria o fim do ódio, sentimento que durante o mandato de Bolsonaro separou amigos e dividiu famílias.

Bolsonaro ainda não reconheceu a derrota. Seus devotos continuam a espalhar “fake news” (o projeto de lei que regulamenta as redes sociais foi engavetado), aguardando a volta do Messias, que deverá ser indiciado – mais outro processo – por incitação aos atos golpistas do 8 de janeiro. Em 2024, o ex-morador do Alvorada poderá se mudar para a Papuda.

 

 

PENSAMENTOS MIÚDOS (OU VAIKAIS)

(Chico Ribeiro Neto)

Como você anda?

Mastigando de lado

E andando de banda

XXX

Na escada rolante

Caiu uma lágrima

Por um instante

XXX

Notícia tem Sim e Não

Só depende do patrão

XXX

Besouro da alma

Quando pousa

Acalma

XXX

Viver é diário?

Sei não

Pergunte ao vigário

XXX

Bota a casa bonita

Pois amanhã

Chega visita

XXX

Comer ligeiro

Farinha pouca

Meu pirão primeiro

XXX

Notícia dura

Ela é bonita

Mas usa dentadura

XXX

O que é esperança?

Não é difícil

São olhos de criança

XXX

Cadê os sonhos?

O vento levou

Só um ficou

XXX

Vendedor de um pacote de saudades:

– É pra embrulhar ou o senhor vai levar assim mesmo?

XXX

“…Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.

Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e que brinca.

E por isso é que sei com toda a certeza

Que ele é o Menino Jesus verdadeiro…”

(Trecho do poema “O Guardador de Rebanhos”, de Fernando Pessoa, em Ficções do Interlúdio, Poemas Completos de A. Caeiro).

Feliz Natal a todos.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

 

AS AÇÕES DE “CARIDADE” NÃO TRANSFORMAM O CIDADÃO E NEM MUDAM SEU NÍVEL SOCIAL

Longe de mim criticar aqui as ações de “caridade”, cidadania ou solidariedade, como queiram, em favor dos mais necessitados através de doações de alimentos, o chamado Sopão, brinquedos para as crianças e outros itens. Todos fazem questão de aparecer  e falar os clichês, bordões e as frases de sempre.

No entanto, na minha modesta visão, leitura e reflexão, não são essas iniciativas que vão transformar o cidadão com uma penca de filhos “barrigas d´água e nem mudar seu nível social, econômico e educacional. Não passam de paliativos e consolos, principalmente em final de ano do espírito natalino. Depois de tudo, todos continuam como dantes…

O quadro de pobreza e miséria continua o mesmo em moradias periféricas, insalubres, sem tratamento de esgotos e até água potável, além da ignorância, o analfabetismo e a casa cheia de crianças vivendo sem a mínima dignidade humana.

Todos os finais de ano são campanhas e mais campanhas de Natal sem Fome, Natal do Bem e outros slogans que inventam, promovidas por entidades, instituições filantrópicas e ongs. Todos que dão e recebem naquele momento ficam felizes da vida, com direito a beijos, abraços e choros.

Os olhos brilham, mas dias depois voltam a derramar lágrimas quando a fome bate nas portas e a realidade retoma o seu devido lugar. Há quantos anos fazem isso e a quantos mais teremos que ver essas imagens que enchem as televisões, enquanto o Brasil permanece ostentando um dos piores índices no ensino público e onde existem as maiores desigualdades sociais do mundo?

É Feliz Natal e Boas Festas! Depois todos vãos para suas casas confortáveis saborear e banquetear suas comidas caras. A mídia televisiva, especialmente, com sua linguagem burguesa, volta seu foco e suas lentes para as mesas recheadas de chesters, perus, bacalhaus, vinhos, doces, panetones e produtos importados de várias espécies e qualidades.

É tudo colorido, luzes, festas e confraternizações. O nosso jornalismo dificilmente mostra como é o Natal na casa de um favelado, desempregado ou quem ganha um salário mínimo. As reportagens glamorosas enlouquecem os consumidores com apelos de compras; enchem a pança dos lojistas; e aumentam suas audiências. As grandes empresas jornalísticas querem é poder, lucro e bajulação.

Tudo funciona como uma máquina ou um robô, comandada pelo ser humano, que também está banalizado. Onde ficam o comprometimento e a indignação dos brasileiros para cobrar e exigir dos governos que implementem mudanças sociais sérias através de um conjunto de políticas públicas, distribuição de renda (as elites não querem) e priorização da educação?

É mais fácil dar esmolas caridosas como pregava a Igreja Católica aos seus fiéis desde os tempos do seu nascimento, com a promessa de ganhar o reino dos céus. Dois mil anos depois e ainda estamos na cultura da caridade, com os nomes de solidariedade e “amor ao próximo”. Esses jovens e essa gente em geral sabem o que é revolução social, o que é socialismo humano?

Enquanto rolam pelo Brasil a fora as doações, as campanhas e as refeições natalinas aos miseráveis dos casebres e das ruas, que são alvos prediletos dos políticos nas eleições, o Congresso Nacional imoral (um dos mais caros do planeta) reajusta os benefícios de seus parlamentares, como das emendas, das quais dizem ter direito legal; o Fundo Eleitoral fica nos 5 bilhões de reais (ainda falam que é coisa pequena); e reduz o salário mínimo, projetado para 1.421 reais e aprovado para 1.412,00.

Como a grande maioria do nosso povo, infelizmente, é inculta, lá estão eles aplaudindo e comemorando o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) somente deles porque ficam com os bolsos recheados de dinheiro. Há mais de 40 anos, ainda repórter de economia, ouvia, em entrevistas do ministro Delfim Neto, da ditadura civil-militar, afirmar que era preciso crescer o bolo para depois dividir as fatias com os pobres. O tempo passou e eles hoje mal recebem os farelos que caem de suas mesas. E como será daqui a mais esse período?

Ninguém sabe, ninguém viu e todos nós fazemos de conta que é justo e que não adianta protestar e contestar. Onde ficam a consciência social e política? Ficam no lixo ou nas cestas básicas que alimentam mais ainda a pobreza a cada ano, com os milhões de famintos nas filas dos ossos e dependentes dos chamados caridosos, daquele filho de Deus que tem compaixão.

Será que foi tudo isso que o Cristo nos ensinou, ou foi a cultura religiosa comodista da caridade, para pagar seus pecados imorais cometidos durante o ano? Muitos acham que basta realizar uma ação coletiva uma vez ao ano para apagar seus pecados, suas atitudes individualistas, suas ambições a qualquer custo, suas indiferenças, seus métodos inescrupulosos de competição e, principalmente, seus modus operandi de se calar diante dessa política de castas capitalistas oligarcas selvagens e predadoras.

É ela mesma, essa burguesia egoísta e hipócrita, que fabrica a miséria, sabendo que será socorrida por essa sociedade alienada que compactua até com a violência militar e diz que bandido bom é bandido morto. Dentro de mais quarenta ou cinquenta anos (não estarei mais vivo) talvez estaremos realizando as mesmas práticas caridosas, no mesmo estágio de pobreza extrema ou pior em termos de desenvolvimento social. Até quando vamos repetir, ver e ouvir essas mesas cenas?

 

O CÉU FOI INFORMATIZADO E O INFERNO TAMBÉM RESOLVEU ENTRAR NA ONDA

O belzebu e sua tropa de malvados cramunhões não deixaram por menos e logo que o céu foi informatizado eles resolveram entrar no esquema e estão se dando bem nessa onda virtual. O diabo, ou satanás, saiu na frente e conectou sua rede de computadores com os aparelhos de celulares dos terráqueos, instigando ódio, intolerância, pânico e terror.

Aproveitou as redes sociais das operadoras para enviar fake news, cenas de pornografias, bacanais e mortes horripilantes. As crianças e os adolescentes estão sendo as maiores vítimas do vício doentio e matador. Tratou logo de tornar a humanidade mais imbecil e idiota.

De tão divertida que está a coisa, nem precisa mais ele sair por aí atentando as pessoas a praticarem o mal. Agora tem mais tempo para descansar e tirar sua soneca sossegado. Programou até férias. Ele está até usando o nome de Deus para fazer suas maldades de matanças, guerras, massacres e atrocidades.

Só que no inferno, a empresa que os diabos contrataram para fazer a informatização, superfaturou os serviços. É que lá dentro só tem malfeitores. Políticos, empresários e gananciosos em geral trataram logo de subornar dirigentes e pegar suas polpudas comissões.

O inferno ficou mais inferno e o satanás abriu uma CPI para apurar as corrupções. Os condenados foram para as camadas mais profundas onde só fica gente da pior espécie. O Brasil, por exemplo, tem um celeiro deles, todos das elites burguesas que fabricaram a miséria de milhões.

Com um painel gigante e câmaras em todos os cantos do inferno, sentados em seus tronos de fogo e labaredas com seus tridentes, numa boa, os comandantes da infernalha assistem de camarote os horrores. Ficaram surpresos porque não tinham tanta noção que a humanidade era tão perversa e ruim.

A informatização está até servindo para tornar as coisas ainda piores na terra com as estripulias dos diabos. Por conta própria, o sistema faz tudo para aumentar as desgraças. Uma ferramenta preciosa que até elevou o PIB do inferno para as alturas.

Um dia desses o diabo chefão enviou uma mensagem para Deus com as seguintes provocações: “Em teu nome teus humanos fazem guerras, massacram os mais fracos como agora pelos teus ditos eleitos contra os palestinos onde nasceu teu filho, praticam a escravidão, jogam pedras nos terreiros de candomblé e estão arrasando tua terra, deixando-a desértica. Nem estou precisando fazer muito esforço para eles cometerem as crueldades e atrocidades. Não vais interferir”? Deus nem respondeu porque o bicho dos infernos está ganhando de goleada.

Com a informatização dos infernos e mais ofertas de compensações para os poderosos, as coisas estão fervendo no planeta terra e a chapa cada vez esquenta, meu camarada! Aqui está virando um departamento do inferno e o satanás conseguiu bilhões de seguidores malucos e bestiais. O peste ruim só faz rir de tantos adeptos que vão se juntando a ele.

 

 

O CÉU FOI INFORMATIZADO, E O INFERNO TAMBÉM

De tantas filas no portão de entrada, fichários tomando espaços, pedidos acumulados por todo canto e até documentos de registros perdidos, Deus resolveu informatizar o céu para também dar uma descansada. Antes fez uma reunião com seu filho e o Espírito Santo e ficou tudo acertado.

Chamou São Pedro e mandou contratar uma empresa especializada em programação, formar sua equipe de santos e anjos, recomendando contemplar as mulheres, negros e outras minorias para não ser processado pelas leis. Instituiu até o sistema de cotas. Maria ficou encarregada do gênero feminino. São Tomé não acreditou no que viu e Pedro ranzinza resmungou que aquilo não iria dar certo.

Tudo pronto e aquela parafernália de máquinas e computadores por todo lado ficou uma belezura. Implantou um sistema forte de segurança contra hackers e digitalizou tudo. Criou até sentenças por vídeo conferência e reuniões virtuais.  Instalou um painel da terra do tipo Big Brothers e agora é tudo no apertar do botão ou clicar nas telas.

As filas praticamente se acabaram e Deus até decidiu tirar suas sonecas mais longas e sossegado. As câmaras passaram a registrar tudo e tinha coisas de intrigas, fofocas e boatos que nem Ele sabia sobre as merdas e besteiras que faziam em seu nome. É Deus pra lá, Deus pra cá, tudo em vão.

Depois do céu informatizado, contam que Deus recebeu um recado de uma tal de “Suíça Baiana” que nem o próprio Supremo ouvia falar, pedindo chuvas e outros presentes, inclusive para o time de futebol da cidade ir para a 1ª Divisão do campeonato estadual.

São Pedro teve que explicar que se tratava de Vitória da Conquista, na Bahia/Brasil. “Ah sim, só podia ser coisa de brasileiro baiano. A cidade que espere por mais um tempo, pois está mais necessitando é de cultura. Quando a prefeita reformar os equipamentos culturais e aprovar um plano para o setor, aí eu atendo as solicitações. Gira aí a tela para outra imagem” – ordenou o Todo Poderoso.

Vez por outra a tecnologia dá um pau e sai do ar, sem falar nos intrusos e espertos que clonam cartões, trocam nomes e entram no céu como penetras. Foi então que São Pedro e outros de seus seguidores disseram: “Bem que avisamos que isso ia dar problema”.  Porém, o que importa é que Deus pode até lhe conceder umas merecidas folgas de férias.

Agora Ele está com a ideia de fazer uma conexão direta com os terráqueos que estão destruindo o planeta de cabo a rabo. A intenção é enviar mensagens escritas e áudios com advertências para os malfeitores, os corruptos, violentos, bandidos, avarentos, falsos, mentirosos e outras ruindades perversas, avisando que se continuarem assim não serão dignos do reino dos céus.

Cada comunicado negativo vai ter uma pontuação e aí o cara, ou a cara pode até ser eliminado da lista antes mesmo de morrer. Nem vão mais chegar perto do portal porque a pessoa do mal já foi condenada em vida. Seu nome vai ser simplesmente apagado.

Quem não está gostando muito disso são os políticos, trapaceiros, governantes que fazem da coisa público como se fosse sua e toda essa gente perniciosa. Não adianta deletar as mensagens. Diante de tantos erros e mazelas, inclusive contra a natureza, os celulares e notebooks aqui da terra vão ficar sobrecarregados.

É pessoal, fiquem atentos porque o céu foi informatizado e o diabo, satanás ou o belzebu também fez o mesmo para não ficar de fora e competir com Deus para ver quem leva mais almas para seu espaço. A concorrência ficou acirrada, mas sobre o inferno é outra história que conto depois.

CINDELERO NO NATAL

Chico Ribeiro Neto)

Seu Antenor achou interessante a brincadeira. Depois de tomar um vinho, começou a pensar no Natal, longe de todos os filhos e netos, e decidiu repetir um velho gesto de infância: resolveu botar na janela o seu sapato Vulcabrás número 44.

Lembrou da alegria de ganhar o primeiro velocípede e do trator que soltava fagulhas. Esperou dar perto da meia-noite, apagou todas as luzes e foi, pé ante pé, até a janela do quarto, no oitavo andar, depositar o seu sapatão. Esboçou um leve sorriso de criança e dormiu pleno.

Seu Antenor acordou às 7 da manhã com os gritos de uma vizinha lá embaixo: “Quem foi o filho da puta que fez isso?” O Vulcabrás 44 estava em cima do capô do carro zero que ela acabou de receber essa semana.

Final da história: o síndico teve que ir, de porta em porta, com o pé do Vulcabrás na mão, para tentar identificar entre os moradores o dono do sapato. Mandava um por um experimentar o sapato no pé esquerdo.

Não era o sapatinho de cristal deixado no baile pela Cinderela, mas um Vulcabrás, e quem o calçasse com perfeição não iria casar com a princesa, mas pagar os danos causados ao carro novo da irada vizinha. O Cinderelo se deu mal.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

TRISTEZA E REVOLTA NO NATAL

Carlos González – jornalista

Meu amigo e colega Jeremias, o artigo publicado hoje pelo blog “aestrada” vai despertar um misto de tristeza e revolta entre seus leitores mais pobres. Aqueles que na noite do dia 24 de dezembro colocam seu “sapatinho na janela do quintal”. Tristeza, porque vão saber que o Papai Noel não virá; revolta, porque estão tomando conhecimento que o seu vereador, o seu representante no Legislativo de Vitória da Conquista, deve estar neste momento viajando para passar as festas de fim de ano num luxuoso resort em Porto Seguro.

Enquanto suas excelências, até mesmo os “devotados” evangélicos, estão se bronzeando nas praias de Troncoso ou Arraial d’ Ajuda, bebericando um “scotch”, você, eleitor sofrido, está escorando as paredes de seu casebre ou tirando a água das chuvas que molhou o pouco que lhe resta, ou destruiu sua pequena plantação. É no Natal que se nota com mais clareza que neste país a fartura e a escassez convivem lado a lado.

As eleições vêm aí. Breve, caro leitor da Zona Rural, você vai receber a visita do seu “amigo da onça”. Ele vai bater nas suas costas, beijar a mão de sua mulher e afagar as cabeças dos seus filhos. Depois de tomar um cafezinho com beiju de tapioca, ele vai pedir o seu voto, para permanecer mais quatro anos no casarão da Rua Coronel Gugé, recebendo mais de R$ 20 mil mensais, além dos penduricalhos (plano de saúde, carro, gasolina, verba de gabinete, etc), para “trabalhar” dois dias na semana.

Você já imaginou se os eleitores de um determinado município decidissem não votar nos candidatos a vereador? Eles teriam apenas os votos dos parentes e dos puxa-sacos, ou seja, os 29 partidos políticos (entidades criadas para receber as verbas do Executivo) não fariam o quociente eleitoral. Acredito que essa possibilidade nunca passou pela cabeça dos eruditos juízes da Justiça Eleitoral.

O vereador ou edil é uma invenção portuguesa, haja vista que essas singulares figuras da política – muitos atendem por apelidos ou se chamam Hitler, em São Leopoldo (RS) e em Juiz de Fora (MG) – só existem em países colonizados por portugueses (Brasil, São Tomé e Príncipe, Moçambique e Cabo Verde). Em certos países, como Romênia, Espanha, México, Paraguai, Suécia e Estados Unidos, há a função de conselheiros não remunerados, escolhidos entre pessoas com serviços prestados à comunidade.

Humberto Brito, meu professor no antigo Instituto Normal da Bahia, conhecedor dos subterrâneos da História do Brasil, contou uma vez que, na sua fuga vergonhosa para o Brasil, D. João VI permitiu o embarque de alguns vereadores de Lisboa. A plebe ficou em terra para enfrentar sem armas os soldados de Napoleão Bonaparte. Além dos piolhos, que obrigaram as mulheres, inclusive a princesa Carlota Joaquina, a raspar as cabeças, o monarca fujão trouxe outras pragas que o brasileiro ainda não conseguiu se livrar.

Legisladores mais experientes, os representantes do país no Senado e na Câmara dos Deputados ditam as normas de comportamento, algumas ilícitas, assimiladas rapidamente pelos seus colegas das assembleias estaduais e pelas 5.570 câmaras de vereadores do país. Uma dessas práticas vergonhosas é a “rachadinha”, mantida em segredo, por motivos óbvios, por aqueles que perdem um pedaço do seu salário. O ex-deputado Jair Bolsonaro foi acusado, mas nada se provou, assim como seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e, mais recentemente, o deputado André Janones (Avante-MG).

Deputados federais de vários partidos de direita e centro-direita são membros do Centrão, um órgão virtual, cuja única finalidade é arrancar dinheiro do Executivo para aplicar em seus redutos eleitorais, sem necessidade de prestar contas. Os ex-presidentes Dilma Rousseff. Michel Temer e Jair Bolsonaro foram reféns desses maus políticos. Hoje, o presidente Lula é a bola da vez. Se não liberar as verbas os projetos encaminhados pelo Planalto não passam no Congresso.

 

Nos últimos meses o Centrão vem “investindo” na “indústria da seca”, em funcionamento no Nordeste do Brasil desde o Império. Aproveitando o estado de calamidade, por falta de chuvas, que castiga a região, deputados estão distribuindo, com o dinheiro das emendas parlamentares, caixas d’água, beneficiando os chamados “currais eleitorais”. Trata-se de uma política clientelista, que inverte prioridades, por não favorecer os municípios mais pobres, onde famílias precisam andar quilômetros para buscar água.

Um desses “barões da água”, é o deputado bolsonarista baiano Elmar Nascimento (União). Reportagem de “A Folha” revelou que ele manda e desmanda na Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (Codevasp), responsável pela distribuição das caixas de armazenamento de água. Líder do seu partido na Câmara, Elmar chantageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com ameaça de levar toda sua bancada para a oposição caso fosse confirmada a demissão do chefe da Codevasp em Bom Jesus da Lapa (BA).

 

OS SALÁRIOS DE PARLAMENTARES E JUÍZES DEVERIAM SER CONGELADOS

Estamos em pleno clima natalino e nem é preciso dizer que as coisas se repetem, com a mesma ansiedade de comprar e comprar, todos induzidos pelas propagandas com o empurrão da mídia. A ordem é consumir e consumir o quanto puder e se endividar para depois negociar, sem falar na sujeira do planeta. Tem aquela frase de praxe que é “Feliz Natal”!  Papai Noel é o ponto alto da festa. O Cristo não passa de um coadjuvante.

Tem os presentes para os familiares, o do antigo amigo secreto, o chocolate, as nozes, as castanhas, as lentilhas, o tradicional peru e outros produtos importados para encher a pança. Estou falando para a classe dos abonados. Para os pobres tem as doações, as cestas básicas e o Natal sem fome. As matérias jornalísticas são as rotineiras, bem como os rituais de saudações, abraços e tapinhas nas costas.

Confesso que costumo misturar uma coisa com outra, mas que tem algo a ver com a pauta em questão. É que são tantos assuntos para abordar que fico atordoado. Mesmo assim, pegando o gancho do Natal, tem aqueles que se reúnem em grupos corporativistas e resolvem dar presentes para si mesmos com o dinheiro dos outros e ainda tentam justificar o injustificável.

Estou falando do caso de políticos e magistrados que em final de ano costumam dar seus presentes com recursos do povo. No caso especifico de Vitória da Conquista, os vereadores aprovaram numa votação relâmpago, que levou exatos 45 segundos (sexta-feira 15/12), conforme informou meu companheiro jornalista Juscelino Souza, o aumento de 55,86% dos seus próprios salários, passando de pouco mais de 12 mil reais para dezoito mil e setecentos e quarenta e dois, sob o argumento de que estão sem reajustes desde 2013. Esse reajuste, a partir de 2025, representará o segundo mais alto entre os dez maiores municípios baianos.

Por outro lado, a Câmara de Conquista, como já comentei aqui, carece de uma maior transparência para que o povo fique sabendo o que está ocorrendo com as verbas públicas. Pouca gente sabe que os vereadores já haviam aprovado, no último dia 04/12, um aumento na verba de gabinete de 30 mil para 50 mil (manutenção da estrutura funcional dos gabinetes) no decorrer de apenas dois anos.

Além dessa verba de gabinete, os parlamentares ainda têm direito a dois mil e seiscentos para cobrir gastos com despesas necessárias ao desempenho do mandato e trezentos reais para ligações telefônicas, sendo que os membros da Mesa Diretora podem gastar até mil reais. Cada vereador tem um carro com combustível pago pela Casa.

Pelo que ganham, inclusive com as verbas de gabinete e outros penduricalhos, carros, combustível (olhe aí as rachadinhas!), é de dar pena! Só faltam pedir uma vaquinha para a sociedade. Coitados, pelo que tanto trabalham, eles merecem ser bem recompensados! Antigamente vereador era como os conselhos municipais que nada recebiam. Não se esqueçam que o número de parlamentares vai passar de 21 para 23 nas próximas eleições.

Pela realidade socioeconômica brasileira dos salários mínimos, das desigualdades sociais tão profundas (as maiores do mundo), pela pobreza extrema de milhões de famintos, pelas moradias em casebres e favelas em ruelas e becos de esgotos a céu aberto, os salários dos parlamentares em geral e dos magistrados, especialmente dos tribunais de ministros, deveriam ser congelados até que o país saísse desse quadro de miséria.

Hoje um ministro do Superior Tribunal Federal ganha quase 42 mil reais por mês (tem quase três meses de férias), passando para 44 mil a partir de fevereiro de 2024 e para 46.300,00 em 2025. Na magistratura brasileira existem casos aberrantes onde existem juízes que recebem mais de cem mil reais em seus contracheques, depois de uma série de bônus. Tentaram corrigir essas distorções e não conseguiram.

Um deputado federal ganha quase 34 mil e um senador recebe por mês mais de 39 mil reais.  Esses salários correspondem a 15 vezes mais do que a renda média dos brasileiros. A remuneração de um parlamentar é maior do que a do chefe do executivo. Aqui não se está colocando as verbas indenizatórias e outros benefícios. Por essas e outras, o Congresso Nacional é um dos mais caros do mundo.

A aprovação de aumentos pode ser legal e constitucional, de acordo com a lei carimbada por eles mesmos, mas é imoral e injusta. Quando se fala nisso, o cara é logo taxado de esquerdista comunista, sem contar moralista metido a merda. Enganem os idiotas, incultos, alienados e os submissos, mas não a todos por tanto tempo. Estão aí as latentes discrepâncias da nossa democracia, em resumo as injustiças sociais nela embutidas.

EM REVITALIZAÇÃO AINDA DESPEJAM ESGOTOS NA LAGOA DAS BATEIAS

AS OBRAS CONTINUAM LENTAS NA LAGOA DAS BATEIAS

Logo na entrada para quem vai visitar a Lagoa das Bateias sente-se o mau cheiro de esgotos, o que significa que a água está contaminada, mas tem gente desavisada que se arrisca tomar banho no local por mais que prepostos da Prefeitura Municipal tenha advertido sobre os riscos para a saúde.

Por muitos anos tomada pelas tabuas e sujeiras de todo tipo, somente agora o poder público resolveu realizar serviços de revitalização, mas, na verdade, muita coisa ainda tem que ser feita para que a Lagoa se torne um ponto turístico e de lazer da cidade.

A parte leste, próximo ao Bairro Santa Cruz, ainda está ocupada pela vegetação, e logo na saída para a Avenida Brumado, os esgotos ainda continuam caiando na Lagoa, sem contar que uma área vem sendo utilizada como pastagem para animais.

Existe muita propaganda para pouca coisa. Mesmo assim, aos poucos as pessoas começam a frequentar o entorno da Lagoa para a prática de exercícios físicos e também conhecer de perto as obras prometidas pela prefeitura, que continuam lentas.

A Lagoa das Bateias foi uma iniciativa do Governo do PT, de José Raimundo Fontes, há mais de oito anos, mas foi abandonada quando deveria ter sido conservada e preservada, para evitar mais gastos para sua limpeza como está sendo feito agora.

São coisas da política do nosso Brasil, essa de um governante adversário não dar seguimento e zelar pelo bem público feito pelo outro. Trata-se de uma mentalidade atrasada quando se está em jogo o dinheiro do contribuinte. Quando se parte para a recuperação, muito pela pressão do povo, os investimentos têm que ser maiores. Tudo isso gera desperdícios.

Tudo é feito no sentido de se ganhar uma eleição, como é o caso dessa Lagoa que, somente agora, está sendo revitalizada e não se sabe se todo serviço será concluído, ou se vai ficar apenas pela metade. Vamos esperar no que irá acontecer no próximo ano ou se é mais uma enganação para inglês ver.

 

 

AINDA EXISTE, E NÃO EXISTE MAIS…

Desde a invasão programada de Cabral com suas naus, lotadas de depravados, corruptos e tarados que aportaram em terras brasis, passando pelo período colonial e do império, ainda existe o banho de cuia, o homem que chama a mulher de intuia e imprestável, a casa que não tem energia elétrica e água encanada, o candeeiro e o fifó, a lata d´agua na cabeça, os esgotos a céu aberto nos casebres e favelas, o sarampo, a catapora, a papeira, a diarreia, outras doenças antigas e as mazelas sociais.

Ainda existe a corrupção e o suborno, a burocracia que emperra o processo de desenvolvimento do país, o patrão que ainda trata o empregado de escravo, o noivo que usa o cravo na lapela, a malandragem maliciosa, o gado que berra no agreste nordestino com fome e sede, a cacimba barrenta e a seca, os carros-pipas eleitorais, um Nordeste ainda atrasado, o retirante e milhões que ainda não têm o que comer.

Ainda existe a parteira, o curandeiro, a rezadeira, a feira livre e o escambo de mercadorias. Ainda existe para o criminoso o “não sei, o não vi” e o “eu sou inocente”. Ainda existe o “amigo da onça” que bate em suas costas e lhe chama de irmão. Ainda existe a procissão e o artesão de santos, o croché, o bordado e outros itens.

Ainda existe a injustiça e a profunda desigualdade social, a violação dos direitos humanos, o racismo, a homofobia, a discriminação e o preconceito. Ainda existe o relojoeiro, o sapateiro, o ferreiro, o alfaiate, o amolador de faca, o funileiro, o trapaceiro do conto do vigário do falso bilhete sorteado, o golpista e a falta de educação com milhões de analfabetos.

Ainda existe o voto de cabresto praticado pelos novos coronéis da política que prometem e nada fazem, as castas dos três poderes, as eleições compradas, as leis que são quebradas, a Constituição vilipendiada, o marido que bate na esposa e mata para limpar a honra, o estupro, a pedofilia, o encesto e o Severino que é enterrado em cova rasa. Ainda existe o namoro proibido e os vinis para tocar aquelas inesquecíveis, imortais e eternas canções.

Não existe mais a criança e o jovem que respeita e obedece ao professor e o idoso, o filho que dá benção ao pai e à mãe quando vai dormir e acorda de manhã, o gosto e o hábito pela leitura, a admiração pelos escritores, a carta escrita no papel para um parente distante, a vergonha na cara, o amigo sincero (coisa rara em extinção) e a moça donzela, nem o casamento virgem.

Não existe mais a preservação da natureza, das nascentes, sem a devastação das matas, a precisão das estações do ano, os ventos e as nuvens certas que anunciam a chegada das chuvas, o menino e a menina que brincam de ciranda, de roda, de esconde-esconde, de pião, de bola de gude no buraco, de peteca e nem o homem que vende o quebra-queixo na rua.

Não existe mais a máquina de datilografia, a montaria em jumentos para ir às cidades (agora são as motos), o casamento para sempre, a palavra como acerto de um acordo, tendo como aval o fio do bigode, as tropas que cortavam as trilhas dos sertões, as boiadas e os boiadeiros nas estradas, as rancharias no campo, a saudade dos berrantes e a vida em calmaria.

Não existe mais os trens de passageiros transportando gente, bruacas e bugigangas. Não existe mais o agueiro, o vendedor de lenha nas ruas das cidades, o carregador de malas, o médico da família, a pessoa de total confiança, o andar a pé nas ruas das grandes cidades nas madrugadas e as serestas para as amadas. Não existe mais o telefone fixo e nem o gravador tamanho tijolo, quanto mais aquele objeto, produto ou peça que não se acabava.





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