“DENTRO DA BALEIA E OUTROS ENSAIOS” III
AS CRÍTICAS DE TOLSTÓI ÀS PEÇAS DE SHAKESPEARE E A DEFESA DE GEORGE ORWELL EM RESPOSTA AO RUSSO.
No capítulo “Lear, Tolstói e o Bobo”, o autor de “Dentro da Baleia e Outros Ensaios”, George Orwell expõe as críticas de Tolstói contra o escritor e dramaturgo Shakespeare onde, ao mesmo tempo, rebate o russo relatando partes negativas de sua vida e afirma que ele não tinha propriedade para menosprezar as obras do poeta inglês, especialmente quanto a sua habilidade para com as palavras, que soavam como música.
Ao analisar a peça Rei Lear, Tolstói, através do seu panfleto, considera que Shakespeare não é nem “um autor mediado”, quanto mais um gênio. Em sua apresentação sobre o do enredo de Rei Lear, o russo julga como estúpido, verborrágico, antinatural, incompreensível, bombástico, vulgar, tedioso e repleto de episódios inverossímeis, “loucos desvarios”, cheio de obscenidades, sem contar as faltas morais e estéticas.
“Lear é, de qualquer forma, plágio de uma peça mais antiga e muito melhor, Rei Leir, de autoria desconhecida, que Shakespeare roubou e arruinou”. Em seu panfleto, o russo arrasa o inglês com termos depreciativos. O veredicto final de Tolstói sobre Lear, conforme descreve Orwell, “é que nenhum observador não hipnotizado, se um observador assim existisse, conseguiria ler a peça até o fim com nenhum sentimento, exceto “aversão e fastio”.
Sua crítica áspera inclui todas suas outras peças, segundo ele, sem sentido que foram, dramatizados, como Péricles, Noite de Reis, A Tempestade, Cimbelino, Troilo e Créssida. Ele acha que Shakespeare tem alguma habilidade técnica, devido em parte ao seu passado, como ator, mas absolutamente nenhum outro mérito.
Para Tolstói, a linguagem do inglês é exagerada e ridícula, que enfia os próprios pensamentos aleatórios na boca de qualquer personagem que por acaso esteja à mão. “Demonstra “uma ausência completa de senso estético, e suas palavras ”não têm nada em comum com a arte e nem com a poesia. Shakespeare pode ter sido o que você quiser, mas ele não era um artista” – diz Tolstói, acrescentando que sua tendência é do “tipo mais baixo e imoral”. “Seu princípio é que o fim justifica o meio”.
Na análise do russo, a fama do inglês está em uma espécie de “hipnose das massas” ou em uma “sugestão epidêmica”. Ressalta ainda que o mundo civilizado vem sendo induzido a pensar que Shakespeare é um bom escritor. Sobre a fama do inglês, o russo declara que ela foi promovida por acadêmicos alemães no final do século XVIII. “Sua reputação surgiu na Alemanha e de lá foi transferida para a Inglaterra”.
Do outro lado, com relação às críticas de Tolstói, o autor de “Dentro da Baleia e Outros Ensaios”, retruca que o sentimento que se tem é de que, ao descrever o inglês como um mau escritor, ele está dizendo algo demonstrativamente inverídico. Para Orwell, não existe nenhum tipo de evidência ou argumento pelo qual se possa demonstrar que Shakespeare, ou qualquer outro escritor, seja “bom”, nem que seja “ruim”. “Não existe teste de mérito literário, a não ser a sobrevivência”.
“Teorias artísticas como a de Tolstói são bastante inúteis porque não apenas partem de princípios arbitrários como dependem de termos vagos, que podem ser interpretados de qualquer forma que se queira”. Orwell indaga o porquê dos ataques de Tolstói. Em sua opinião, o russo usa muitos argumentos fracos ou desonestos. “Sua análise sobre Rei Lear é “imparcial”, como duas vezes ele alega ser. Ao contrário, é um longo exercício de distorção”.
Orwell afirma que nenhuma dessas interpretações equivocadas é por si muito grosseira, mas o efeito cumulativo é exagerar a incoerência psicológica da peça. Diz também que Tolstói não é capaz de explicar por que as peças de Shakespeare ainda estavam sendo impressas e encenadas duzentos anos depois de sua morte. Mais diante chama o trabalho de Tolstói de simples adivinhação, pontuado por declarações falsas explícitas.
Destaca que muitas das acusações do russo se contradizem mutuamente. “De modo geral, é difícil sentir que as críticas de Tolstói são feitas de boa-fé”. Entende ser impossível que ele acreditasse na tese principal que, por um século ou mais, todo mundo civilizado tenha sido engolfado por uma mentira enorme e palpável que ele, e somente ele, tenha sido capaz de perceber.
Em determinado trecho, Orwell chega a concordar com Tolstói quando critica que a peça Lear não é muito boa por ser longa demais e ter excessos de personagens e de subtramas.
Entretanto, assinala que “Tolstói era capaz de repudiar a violência física e de enxergar o que isso implica, mas não era capaz de tolerância nem de humildade, e, mesmo sem conhecer nenhum de seus outros textos, uma pessoa poderia deduzir sua tendência à intimidação espiritual a partir desse único panfleto”. Sua rixa com Shakespeare vai além. É uma rixa entre as atitudes religiosas e as humanistas diante da vida – rebate Orwell.
O autor de “Dentro da Baleia e Outros Ensaios” observa que existe um episódio de semelhanças entre a peça de Lear e a vida de Tolstói que foi seu ato imenso e gratuito de renúncia. “Em sua velhice renunciou às propriedades, aos títulos e direitos autorais e fez uma tentativa, não bem-sucedida de escapar de sua posição privilegiada e levar a vida de um camponês. Tolstói renunciou ao mundo na expectativa de que isso o faria feliz, mas não foi feliz”.











