EU ACEITO E NÃO ACUSO
Eu aceito sua mão em casamento. Juro amor eterno, ser fiel no respeito, na alegria e na tristeza, nos momentos mais difíceis, na pobreza e na riqueza. São palavras do altar que também faço na vida real, na minha aldeia e na tribo em que vivo. São compromissos não cumpridos.
O tempo vai se arrastando até a monotonia, e esse elo um dia se quebra quando batem as adversidades. Priorizei os direitos em detrimento dos deveres. Não acuso a mim mesmo como sou e nem reviso o passado como aprendizagem. Eu aceito porque acho que deve ser assim o viver sem acusar, aqui no sentido de contestar. Nem pedi para vir ao mundo. Não passo de um sopro.
O enlace matrimonial é apenas um contrato social como qualquer outro nesse sistema capitalista de aparências e vaidades onde sou levado a seguir normas como manda o figurino da ordem das coisas. A tudo eu aceito, mas não acuso nem os meus próprios atos.
Eu aceito fazer parte dessa engrenagem, ver o progresso destruir o ser humano e a própria máquina me triturar. A própria evolução da inteligência acaba de engolir ela mesma, porque é cativa e escrava do mercado e não está a serviço do humanizar. Aceito tudo que diz essa mídia vazia, sem conteúdo.
Não passo apenas de uma matéria-prima do poder selecionador das raças que cuida em eliminar, lentamente, de morte os mais fracos, e eu aceito e não acuso esse processo perverso do massacre. Eu aceito a violência e as matanças, as corrupções, os conluios e as injustiças sociais como se fizessem parte de uma lei natural, sem reversão. Aceito que as coisas são assim e não há como mudar.
Eu não acuso o meu comodismo, individualismo, meu egoísmo e passividade diante dos horrores da vida daqueles que padecem na fome e na exclusão total, sem a usufruir da dignidade merecida. Às vezes entro com um auxílio de doações solidárias para enganar minha consciência de que ela está em paz comigo mesmo.
Eu aceito ser apenas uma peça ou parafuso para fazer a máquina girar e nem questiono e acuso se ela tirou milhares de empregos dos excluídos que não tiveram formação escolar e ensino para acompanhar sua engenharia. Eu estou sentado sobre um iceberg derretendo e nem percebo. Não passo de um burguês-puritano dentro da barriga de uma baleia, como o Jonas da Bíblia.
Se tenho uma casa para morar, um carrinho na garagem ou na porta para rodar, um bar para tomar umas geladas com os falsos amigos, eu aceito o meu mudinho mesquinho e não acuso a decadência e o declínio da humanidade que está auto se destruindo.
Nem acuso o aquecimento global, os desmatamentos, as queimadas, os tufões e os ciclones, o consumismo do lixo e vou seguindo minha vidinha monótona, sem graça e nem penso na morte que pode bater em minha porta a qualquer hora. Sou um idiota imbecil que acha que já cumpriu sua missão na terra.
Eu aceito o anormal como normal, o errado como o certo e o desonesto como um bom predicado do “vencedor” a qualquer preço. Aceito o levar vantagem em tudo, ser bicho toupeira ou a avestruz que mete a cabeça no chão. Aceito tudo aquilo que os outros aceitam.
Não acuso quem rouba e só quero mesmo é passar o dia no celular hipnotizado nas redes sociais, lendo besteiras e fake news, disseminando o ódio e a intolerância. Não acuso a ignorância e aceito ser patrulhado em minha liberdade de expressão. Tenho medo de externar livremente o que penso para não ser moralmente linchado. Aceito a censura voluntária.
Por tanto aceitar, eu termino entrando em isolamento e depressão, o mal do século que eu não acuso como consequência dessa sociedade construída com pilares de areia. Como nas juras de amor, não passo de um traidor de mim mesmo, um simples carvão.
Eu aceito e não acuso porque sempre ando a dizer que não tenho tempo para refletir, conversar com os outros, responder as mensagens e só faço me encantar e concordar com as inovações tecnológicas (inteligência artificial), sem fazer indagações. Se os outros aceitam e acham ser bom para a humanidade, eu também aceito. Não quero entrar nessa de filosofar porque isso é coisa de intelectual desocupado.











