(Chico Ribeiro Neto)

Eu e meu irmão Cleomar, meninos no Porto da Barra, cavamos um túnel na areia da praia. Um cavando de cada lado até nossas mãos se encontrarem. “Como vai o senhor?”, nos cumprimentamos embaixo do túnel, sorrimos e mergulhamos.

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De um punhado de farinha apareceu uma rainha que tem que contar sete histórias para sobreviver.

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Descobri que a lágrima é salgada e que há sorrisos doces e sorrisos amargos.

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Descobri que gosto das pontes pequenas, principalmente daquelas pontes japonesas.

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– Do que foi que senhor mais gostou?

– De um, tudo.

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Aquele cisco doía no olho ou na alma?

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Tinha (ou ainda tem) uma bolacha chamada Paciência.

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Aprendi que se apontar para uma estrela nasce uma verruga na mão, que o mistério está dentro do peixe e que o melhor silêncio está no fundo do mar.

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“De tudo ficou um pouco.

Do meu medo.

Do teu asco.

Dos gritos gagos. Da rosa

ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz

captada no chapéu.

Nos olhos do rufião

de ternura ficou um pouco

(muito pouco).

Mas de tudo fica um pouco.

Da ponte bombardeada,

de duas folhas de grama,

do maço

– vazio – de cigarros, ficou um pouco (…)”

(Trecho do poema “Resíduo”, de Carlos Drummond de Andrade).

 

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