(Chico Ribeiro Neto)

Naveguei nas águas da praia do Unhão, em Salvador, com uns 14 anos, na catraia construída junto com o amigo Zoinho, com uma placa de Madeirit roubada na construção da Avenida Contorno para servir de casco da embarcação, depois batizada por meu irmão Cleomar de “Minas Gerais”, o velho porta-aviões que o governo brasileiro comprou da Inglaterra em 1956.

Foi uma felicidade ter um barco, toda a meninada queria passear nele. Os remos dormiam em casa, para não roubarem, e a catraia (também chamada de “quadrada”) dormia ancorada nas serenas águas do Unhão.

Sempre gostei dos nomes dos barcos e de saveiros. Revelam muita poesia, a sintonia com as águas, o sol e a lua.

Em sua página no Facebook o grupo “Velas de Içar – Saveiros da Bahia” revela uma pesquisa feita com nomes de saveiros de Bom Jesus dos Pobres – um dos portos de saveiros mais dinâmicos da Baía de Todos os Santos – nas décadas de 50, 60 e 70, que catalogou 46 nomes de saveiros de vela de içar que levavam mercadorias do Recôncavo para Salvador.

Destaco alguns nomes de saveiro: “Admirado”, “Amigo Fiel”, “Aurora”, “Chamêgo”, “Considerado”, “Deus Que Me Deu”, “Educado do Norte”, “Dois Amigos”, “Luar de Bom Jesus”, “Piolho de Cobra”, “Respeitado”, “Riso do Amor”, “Sonho Feliz” e “Sombra da Lua”.

Lá vem o “Minas Gerais”, cortando água. Pega aquele caminho que o sol traça no mar às 5 e meia da tarde quando se prepara pra dormir.

No barquinho só cabem dois tripulantes: Chico e Zoinho. Outros meninos seguram na catraia, deixando o resto do corpo no mar: Atum, Biúca, Tristeza, Cobra D’Água, Cascavel, Pé de Valsa e Mondrongo.

Zoinho dá o comando:

– Vamos remar!

– Para onde?

– Não sei, continue remando!

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)