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RISCO

De Ana Luz, da sua obra QUADRAS

A maçã sempre esteve lá,

a esperar pela flecha.

É que só agora me dou

direito de atirar .

UMA GUERRA QUE VAI NOS ATINGIR

Carlos González – jornalista

Um povo oprimido há mais de meio século por homens e mulheres refugiados do regime nazista que, ao longo desses anos, aparelhou um dos mais bem respeitados exércitos do mundo, reage um dia violentamente, sem imaginar que a retaliação do inimigo será devastadora, apoiada por parceiros poderosos e pela imprensa internacional.  Esse é o enredo da peça teatral encenada no teatro de guerra do Oriente Médio, que, provavelmente, não irá passar do primeiro ato, devido a desproporção de forças. Os mais antigos diriam que o Hamas mexeu numa casa de marimbondos.

No último sábado, 7, o mundo recebeu com perplexidade e pavor a notícia de que o grupo Hamas, uma espécie de braço armado da Autoridade Nacional Palestina, promovia um derramamento de sangue em solo israelense. A organização, de natureza religiosa,  criada em 1987, tem como um dos seus lemas, reproduzido na sua Carta de Princípios, a frase: “Morrer pela causa de Alá é nossa maior esperança”.

Nos últimos dias o termo terrorismo vem sendo aplicado para caracterizar esse ataque suicida do Hamas, organização considerada pelos Estados Unidos e pela União Europeia como terrorista. No passado,  Israel se valeu dos grupos terroristas Haganá e Gangue Stern nas ações belicosas contra os palestinos. Como podemos classificar a invasão dos Estados Unidos e do Reino Unido ao Iraque, sob a justificativa de que o país asiático armazenava armas nucleares, químicas e biológicas, que nunca foram encontradas? Os 148 mil soldados das forças de coalização destruíram em pouco mais de 20 dias a frágil defesa inimiga, perdendo pouco mais de 120 homens. No lado iraquiano morreram 24 mil militares e 7.500 civis, entre eles o presidente Saddam Hussein, condenado à forca.

Inicialmente, o objetivo do Hamas era uma reivindicação antiga do povo palestino, a criação de um Estado autônomo, com capital em Jerusalém, vivendo em paz com seus vizinhos israelenses. Esse clima de harmonia nunca existiu por conta da implantação de acampamentos judaicos na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, e dos frequentes conflitos entre os dois povos. Eram comuns imagens de jovens palestinos atirando pedras nos soldados israelenses, que respondiam com munição letal.

Nessa inimaginável escalada bélica, que a inteligência militar judaica não percebeu, o Hamas lançou milhares de foguetes, ao tempo que seus militantes, nos ataques por terra, cometiam atrocidades que chocaram o mundo. Entre esses atos, considerados como crimes de guerra, foram relatados mortes de bebês e crianças, ataque a um festival de música que deixou mais de 400 mortos, execuções, tortura e estupros.

Os mais de 100 israelenses feitos prisioneiros estão ameaçados de execução, caso Israel mantenha os ataques com mísseis a alvos palestinos. Os números de mortes dos dois lados são desencontrados, mas, segundo os correspondentes de guerra, 260 mil palestinos já deixaram suas casas em busca de um lugar seguro.

Os que ficaram em Gaza, incluindo 25 brasileiros, estão condenados à morte, como prevê o embaixador da Palestina no Brasil, Ibrahim Alzeben, numa entrevista à “Folha”: “Nossos irmãos estão sendo submetidos a um ataque de “terra queimada”, referindo-se ao cerco por terra, mar e ar das forças armadas de Israel. “Ou se morre vítima dos bombardeios ou por falta de medicamentos, comidae água”, acrescentou.

O advogado e diplomata brasileiro Osvaldo Aranha tem o reconhecimento do povo judeu por ter se empenhado, como presidente da Assembleia Geral da ONU, pela criação do Estado de Israel na histórica sessão de 14 de maio de 1948, concedendo 53,5% do território sob domínio britânico aos refugiados da 2ª Guerra Mundial e 45,4% aos palestinos, que ocupavam a região. O nome do brasileiro batiza pelo menos ruas e praças de quatro cidades israelenses.

A recusa de não ter atendido uma antiga reivindicação palestina, o direito a um Estado – um processo que se arrasta até hoje -, a ONU estimulou o conflito entre os dois povos, que já completou sete décadas, com milhares de perdas de vida, principalmente entre os árabes, que se veem na condição de alvos de um apartheid. Apoiados por grandes grupos financeiros de origem judaica localizados no Ocidente, notadamente nos Estados Unidos, Israel, pelo seu poderia militar, é visto como uma ameaça aos países árabes que o cercam.

A negativa dos ricos judeus alemães de financiar os planos do regime nazista de Adolf Hitler foi um dos pilares do Holocausto. Entre 1933 e 1945, mais de 6 milhões de judeus foram assassinados nos campos de concentração nazista. Os que conseguiram sobreviver e não perderam seu patrimônio emigraram para o território palestino, onde aguardaram a decisão da Assembleia Geral da ONU.

Geograficamente, Israel está situado na Ásia, mas seu ciclo de vida como nação está direcionado para a Europa.  O seu povo tem características que o aproximam do europeu; não são boas suas relações com as nações do Oriente Médio; organismos europeus aceitam a participação dos israelenses, inclusive a UEFA (a seleção judaica disputa as eliminatórias da Copa do Mundo e da Eurocopa contra as equipes europeias) .

A guerra no Oriente Médio ascendeu a polarização entre direita e esquerda no Brasil. Apesar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter divulgado nota condenando o que chamou de ataque terrorista do Hamas, o seu antecessor não perdeu a oportunidade para propagar mais juma mentira, vinculando o PT ao grupo palestino. Depois que Jair Bolsonaro foi mergulhado nas águas do Rio Jordão, Jerusalém se transformou numa espécie de Meca para os evangélicos brasileiros.

Numa rápida iniciativa do governo brasileiro, aviões da FAB estão retirando os quase 1.700 brasileiros que residiam ou faziam turismo em Israel. A maioria deles, com dupla nacionalidade, eleitores de Bolsonaro, deixou o Brasil para estudar nas universidades locais, para trabalhar voluntariamente nos kibutz (agrupamentos que funcionam como cooperativas com caráter socialista) ou para servir ao exército. No período em que fui aluno do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR), em Salvador, dois companheiros israelitas (nascidos fora de Israel, mas professam a religião judaica) do curso de Artilharia revelaram que gostariam de vestir o uniforme do exército de Israel.

Se a guerra Rússia – Ucrânia vem afetando há mais de um ano a vida do brasileiro, que a todo instante é penalizado com aumentos da gasolina e do gás de cozinha, com reflexos nos produtos de maior consumo, esse novo conflito que se desenrola no Oriente Médio irá trazer maiores sacrifícios ao nosso povo. Vamos acabar construindo o nosso próprio Muro das Lamentações.

 

 

OS “MENINOS” MALVADOS

Sabe daquelas histórias do menino malvado (hoje existem muitos) que tinha prazer de maltratar os animais, do moleque “diabinho” que amarrava latas no rabo do gato e depois soltava o bichano que corria em disparada? O mais capeta botava uma bombinha na ponta da corda amarrada no rabo do felino. Imagine o desespero do animal! Só os mais velhos sabem dessas presepadas.

Como se tratava de coisa de criança, sem a devida consciência do mal que estava fazendo, merece nosso perdão, mas se o pai pegasse o filho fazendo isso era aquela surra. Hoje em nossa sociedade, temos vários meninos malvados, malcriados e que não respeitam nem os idosos, quanto mais outras estripulias como bater em professores. Não podem ser mais punidos com castigo.

É só uma metáfora para falar dos “meninos” malvados adultos que, além de devastar nosso planeta com desmatamentos, queimadas, lixo e gases tóxicos, provocando o aquecimento global e colocando a culpa no “El Nino” (O Menino), agora fazem terror com as guerras impiedosas de extermínio da raça humana.

Esses “meninos” malvados, com todo seu poderio, inteligência e ganância capital estão varrendo a própria humanidade da face da terra. Como se não bastassem as tragédias e as catástrofes climáticas anunciadas como início do fim – calor de mais de 40 graus em quase todos os continentes e regiões, ciclones, tufões, enxurradas e terremotos – o mundo está pegando fogo literalmente através dos foguetes e armas de alta destruição.

É a inteligência, inclusive a artificial, destruindo a própria inteligência, que há séculos vem dizendo que tudo vem sendo feito em benefício do ser humano. Os bobos da corte só fazem aplaudir. Sem nenhuma moral, uns ficam chamando os outros de terroristas. São como os Neros malvados que tocam harpa enquanto Roma é consumida pelas chamas.

É só ler a história desde séculos antes de Cristo e você vai entender que não existe essa de mocinhos e bandidos, de bons e maus, de bonitos e feios. Revise toda história da humanidade e você vai descobrir e compreender quem primeiro jogou a pedra ou apertou o gatilho, inclusive me refiro ao caso atual de Israel a partir das matanças indiscriminadas para tomar Canaã, a terra prometida, sob o comando de Moisés e depois de Josué. Aquele pedaço de território já era habitado.

O interessante é que cada um deles tem o seu deus protetor e se acha com a razão. Os deuses deles que se virem e briguem entre si para defender o seu povo maluco e estúpido. Oram nas mesquitas, nas igrejas, nas sinagogas e mosteiros para que ajudem a realizar suas carnificinas com sucesso.

A história é longa de revides e revanches com terrorismos dos dois lados. A situação piorou mais ainda com a criação do Estado de Israel, em 1948, de comum acordo com as nações poderosas, no caso principal a Inglaterra e os Estados Unidos. Por que deixaram os palestinos num curral, ou matadouro, e não instituíram seu Estado?

Antes disso, quem foram os “meninos” malvados que praticaram atos de terror contra árabes, cristãos e palestinos, para forçar a construção de um Estado? Quem administrava aquela região depois da Segunda Guerra Mundial eram os ingleses.

A panela de pressão sempre está explodindo e vai continuar assim, porque é assim que querem esses “meninos” malvados e sádicos, que também são responsáveis pelo “fumacê” que está poluindo todo nosso ar e deixando o planeta sufocado. Não se enganem de que vamos reverter essa autodestruição humanitária, ou apocalipse final.

 

 

 

UM DIA ADVERSO

Pense num dia em que você sai de casa com tudo planejado na cabeça para resolver os pepinos e as coisas terminam saindo do seu comando! É o chamado dia adverso onde só dá o avesso. No sábado passado aconteceu isso comigo, e aí lembrei daquele filme norte-americano “Um Dia de Cão” quando o cara se desespera no trânsito engarrafado e destila toda sua raiva nos outros, como se fosse um louco psicopata.

Não cheguei a este ponto, mas fui obrigado a fazer outras coisas que não estavam em meus planos. Primeiro, marquei uma reunião na casa de um amigo e quando lá cheguei no horário ele havia saído parta socorrer um colega de trabalho, coisa de carro. Entrei em contato e ele me pediu desculpas. Antes passei no banco e minha conta estava negativa. Comecei com o pé esquerdo, ou direito, sei lá!

Quando estava para visitar um companheiro jornalista e tomar umas geladas, conforme o combinado, recebo um áudio de uma amiga me solicitando socorro para pegá-la num hotel lá na Avenida Integração. A pessoa estava muita avexada e não parava de passar mensagens porque ela teria que deixar o hotel meio-dia para não ter que pagar outra diária.

Tomei dois goles da cerveja agoniado e lá foi eu. Pequei um engarrafamento na Avenida Spínola e o horário estava se esgotando. Da Avenida Integração tocamos para uma pousada na Avenida Juracy Magalhães para pegar uma mala pesada que deu a maior trabalheira para descer as escadas.

De lá, retornarmos para a Integração (antiga Rio-Bahia) e tornei a subir mais escadas arrastando essa mala enorme. Os antigos hotéis não têm nenhuma acessibilidade e nem elevadores. Era pouco mais de meio dia e a fome bateu com a fraqueza.

Nessa ida e volta ela foi me contando que foi desempregada e ainda havia sido vítima de assédio sexual. Esse é um assunto delicado que prefiro não entrar em detalhes, mas fiquei chocado com sua situação e o aperto em que estava passado. Muitas vezes pensamos que nosso sofrimento é maior que dos outros.

Para não me alongar muito na história (ocorreram outros percalços) terminei indo para a Feirinha do Bairro Brasil, coisa que não estava em meu roteiro do dia. Comprei um tilápia fresca em um daqueles galpões de carnes e fui tomar uma gelada e um caldo de buchada para aliviar a tensão e a fome. Àquela altura, o relógio marcava pra lá das 14 horas.

Antes de fazer o pedido, perguntei à moça da barraca (estava com pouco dinheiro) quanto era o caldo. Respondeu que era sete reais. Pedi uma cerveja “periquete” de quatro reais, segundo a mesma mulher que me atendeu.

Quando fui pagar a conta, veio a dona do estabelecimento, uma senhora já meio idosa, e me cobrou quinze reais quando deveria ser onze. Entrei em discussão e chamei a menina, supostamente sua filha, que ficou atarantada porque havia me passado os preços errados. “É, subiu tudo”. Imaginei: em questão de minutos! Que inflação varada!

Outra vez passou pela minha cabeça o filme “Um Dia de Cão” e tive que me controlar para evitar um quebra-quebra e ir parra na delegacia. Acontecem coisas em nossas vidas que não sabemos explicar. Uns dizem que são coisas do destino. Moral da história é que nem tudo que você planeja dá certo quando o dia é adverso.

DIA DO NORDESTINO

Não poderia deixar aqui batido o “Dia do Nordestino”, comemorado em 8 de outubro, do nosso sertão profundo, de gente simples sofredora, não o do cerrado cheio de águas e cachoeiras do famoso escritor Guimarães Rosa (com todo respeito), mas lhe parodiando, o da Caatinga Veredas, que nos leva às histórias de lutas, do cangaço, de Lampião, da Coluna Prestes, dos milagres, do Conselheiro, do “Padim Ciço” e demais personagens que fazem parte da nossa cultura.

Foi aqui em nosso Nordeste, que possui o único bioma do mundo, que proliferou a poesia do cordel e gerou grandes escritores, como Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Câmara Cascudo, José de Alencar, Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna, dentre tantos outros, sem falar no Águia de Haia, Ruy Barbosa, e no poeta dos poetas condoreiro Castro Alves em Espumas Flutuantes.

É também o nosso Nordeste dos repentistas, dos trovadores, contadores de causos e chulas, dos grandes compositores músicos como Zé Ramalho, Geraldo Vandré, Elba Ramalho, Luiz Gonzaga com sua sanfona ao som de Assa Branca, Humberto Teixeira, Zé Dantas, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Capinam, Tom Zé, Novos Baianos e toda uma geração conhecida mundialmente.

Neste “Dia do Nordestino”, quero também falar da nossa terra de bravos, mulheres e homens anônimos que fizeram e fazem parte da nossa história e da nossa rica cultura, cheia de mistérios, fé e religião. Nosso sertão é único, cinzento nos engaços e bagaços misturados com o mandacaru quando bate a seca, e verde e colorido quando chegam as trovoadas de final de ano.

Essa paisagem do seu solo e da sua gente queimada e mestiça do sol já é pura poesia e matéria-prima para as artes em suas diversas linguagens. É também o Nordeste dos retirantes, dos casos de pau-de-arara que daqui saíram na “Triste Partida”, de Patativa do Assaré, para construir São Paulo em terras estranhas e depois retornam com saudades do seu chão querido.

É o Nordeste da Bahia, dos heróis que consolidaram a independência do Brasil, do Maranhão, do Ceará, do Piauí, do Rio Grande do Norte, da Paraíba, de Pernambuco, de Alagoas e Sergipe. Por aqui atravessa o São Francisco, o “Velho Chico”, com suas águas dando vida aos ribeirinhos, banhando nossas margens e abrindo canais de irrigação para nossa agricultura.

É esse Nordeste que reverencio, do qual tenho orgulho de dizer que dele sou filho e repudio os preconceituosos e racistas que em muito contribuíram para que houvesse essa desigualdade regional, desde os tempos coloniais, passando pelo Império e pela República. Daqui exploraram nosso suor e ainda nos chamam de atrasados, mas, como diz a Bíblia, perdoai Senhor, porque eles não sabem o que dizem.

“DENTRO DA BALEIA E OUTROS ENSAIOS”

De George Orwell

EM SEU LIVRO DENTRO DA BALEIA E OUTROS ENSAIOS, O AUTOR FAZ UMA EMERSÃO SOBRE AS OBRAS DE HENRY MILLER E OUTROS, UMA DESCRIÇÃO SOBRE A DURA VIDA SUFOCANTE DOS MINEIROS NO CAPÍTULO “MINA ABAIXO”, UMA DESCRIÇÃO DOS INGLESES EM “INGLATERRA, SUA INGLATERRA”, “O ABATE DE UM ELEFANTE”, “LEAR, TOLSTÓI E O BOBO”, “POLÍTICA VERSUS LITERATURA”, “A POLÍTICA E A LINGUA INGLESA”, “A PREVENÇÃO CONTRA A LITERATURA” E, FINALMENTE, “SUMÁRIO DE MENINOS”.

Vamos aqui focar sobre o que o indiano Orwell fala sobre o escritor norte-americano Henry Miller, de “Trópico de Câncer” e “Primavera Vermelha”, em sua passagem pela Paris decadente dos anos 30, dos bares entupidos de bêbados, das pensões de percevejos, dos arruaceiros, dos artistas pintores, muitos dos quais “impostores”, das obscenidades e do antifascismo versus comunismo.

No capítulo “Dentro da Baleia”, ele afirma que conheceu Miller no fim de 1936, quando estava passando por Paris a caminho da Espanha. “O que mais me intriga nele foi descobrir que não tinha o menor interesse pela guerra na Espanha. Ele meramente me disse, em termos bastante enfáticos, que ir para Espanha naquela altura era a atitude de um idiota”.

Opinou ainda que se envolver naquelas questões da guerra, por um sentido de dever, era franca estupidez. Para Miller, combater o fascismo e defender a democracia eram conversa fiada. Uma perspectiva que não lhe incomodava era a civilização ser varrida e substituída por uma coisa diferente da humana.

Sobre um inquérito a respeito da guerra, feito pela revista Marxist Quarterly, Miller respondeu que não tinha nenhum desejo de converter alguém a lutar. Segundo Orwell, uma declaração de irresponsabilidade. Em sua opinião, os escritores dos anos 20 assumiram a postura mais progressista e os de 30 a do dizer amém.

Nesse aspecto, o Miller não assume nenhuma atitude, mas não ignora a situação. “Ele acredita na ruína iminente da civilização ocidental com muito mais firmeza do que os escritores “revolucionários”. Apenas não se sente convocado a fazer coisa nenhuma a respeito. Ele toca violino enquanto Roma queima e, ao contrário da imensa maioria das pessoas que fazem isso, toca de frente para as chamas”.

Na verdade, isso está ocorrendo nos tempos atuais quando nos incomoda o silêncio dos bons. Muitos contam um bocado de coisa sobre si mesmo, enquanto fala de outra pessoa, como em Max and the white phagocytes.

Orwell conta a história bíblica da baleia que engole Jonas, considerando um fragmento de fala infantil, e ressalta que estar dentro desse enorme peixe é uma ideia muito confortável, aconchegante e caseira. O Jonas histórico ficou bastante aliviado por escapar, “mas, na imaginação, no devaneio, inúmeras pessoas o invejaram”.

De acordo com ele, o próprio Miller está dentro da baleia. Apenas ele não sente nenhum impulso de alterar ou controlar o processo pelo qual está passando. Ele executou o ato essencial de Jonas ao permitir-se ser engolido, permanecendo passivo, aceitando

MEMORIAL CÂMARA

O Estado ainda continua ligado à religião e dizem que é laico

Os poucos pontos culturais existentes em Vitória da Conquista (museus, bibliotecas, arquivos), infelizmente, são raramente visitados. Falta de tempo, desinteresse total pela cultura, pelas nossas origens e as redes sociais da internet formam um conjunto de fatores para esta negativa explicação. Os jovens e estudantes de hoje não fazem mais pesquisas como antigamente. Do alto do comodismo e da preguiça, as pessoas preferem ficar sentadas nos sofás perguntando ao Google e recebem respostas limitadas, evasivas e, muitas vezes, truncadas e duvidosas. Um ponto desses a que me refiro que quase ninguém vai lá é o Memorial da Câmara Municipal de Vereadores de Vitória da Conquista, segundo informou a própria atendente. O local fica aberto todas semanas, de segunda a sexta-feira, mas dificilmente aparece um conquistense, ou grupo escolar, para conhecer o acervo e realizar uma pesquisa. Um povo sem história é um povo sem memória e, consequentemente, nem está aí para seus direitos e deveres. É um povo ignorante e submisso aos poderes. É o declínio da nossa civilização em geral, e isso ocorre não somente em Conquista. É uma pena porque esse triste retrato representa uma decadência do interesse pelo conhecimento e pelo saber. O Memorial da Câmara tem um conjunto de material, inclusive digitalizado e visual sobre a história do Arraial da Conquista, sua formação, jornais que circularam na cidade em épocas passadas, os principais fatos que marcaram a vida do município, os intendentes, vereadores e outros valiosos itens com conteúdos preciosos, não somente para estudantes, mas também para professores, intelectuais e pesquisadores.

  

POETAS E EXCLUSÃO

Poeminha de autoria do escritor e jornalista Jeremias Macário

Quando do sono despertam os poetas,

Os pássaros no raiar fazem suas sonoras,

E as visões misteriosas abrem suas frestas.

 

Dos barracos morros na porta bate a fome,

Na virada da noite dos tiroteios de balas,

Onde prospera a exclusão do Estado que some.

 

Nos mocambos a educação sem redes e sinais.

Corta a navalha a alma dos despossuídos,

E adormecem os poetas na língua dos intelectuais.

 

 

3 X 4 PEDACINHO DE NOSSA HISTÓRIA

(Chico Ribeiro Neto)

A gente só tirava fotos 3 x 4 em momentos importantes da vida: entrar no ginásio, matricular-se no colégio, na faculdade, carteira de identidade, certificado de reservista, primeiro crachá de emprego, e por aí vaí.

Eu ia tirar meia dúzia de 3 x 4 nos Lambe-Lambe do Relógio de São Pedro ou no Terreiro de Jesus, em Salvador. Quando acabava, o fotógrafo perguntava se você não queria levar 8 fotos pagando um pouco mais. A gente só precisava de 4 fotos, mas acabava levando as 8 e dava as restantes a parentes e à namorada, mas a dedicatória tinha que ser bem curta. Um “Te amo” resolvia tudo. De tão pequeno, o 3 x 4 era difícil de rasgar na hora de acabar o namoro.

Tinha 3 x 4 que desbotava com o tempo, uns ficavam amarelados. Quem tinha mais dinheiro tirava os 3 x 4 num Foto, uma loja num shopping onde a coisa era mais arrumada, tinha uma sala acarpetada cheia de luzes, ar condicionado e um banquinho vermelho acolchoado. O espelho era fundamental. Tirava de manhã pra ir pegar as fotos de tarde. Vinham numa cartela de plástico com o nome do Foto. Havia uma loja que colocava seu comercial na cartela onde vinham as fotos: “Nossa dúzia tem 14 fotos”.

O site da Câmara Municipal de Conselheiro Lafaiete (MG) tem um texto cujo título é “Saiba como ser tirada a foto para a Carteira de Identidade”, a seguir: “O fotografado deve apresentar fisionomia neutra ou um sorriso discreto, desde que em ambos os casos mantenha os lábios fechados, sem franzir o rosto” (conselheirolafaiete.mg.leg.br).

Fui pesquisar a 3 x 4 na música. Tem a “Retrato 3×4”, da banda Agito Capilar, que diz num trecho:

“Me dá um retrato 3 x 4

Que é pra eu botar na minha carteira

Se a saudade apertar

O retrato eu vou olhar

Durante a semana inteira”.

Belchior gravou “Fotografia 3 x 4”, em 1976, em plena ditadura, mostrando a saga dos jovens que saíam do interior do interior do Ceará para o Sul. Segue um trecho:

“Em cada esquina que eu passava um guarda me parava

Pedia os meus documentos e depois sorria

Examinando o três-por-quatro da fotografia

E estranhando o nome do lugar de onde eu vinha”.

E tem a brilhante “Devolva-me”, de Renato Barros e Lilian Knapp, gravada em 1966 pela dupla Leno & Lilian e brilhantemente regravada anos depois por Adriana Calcanhotto, cujo trecho segue:

“O retrato que eu te dei

Se ainda tens, não sei

Mas se tiver, devolva-me!”

Não sei se a foto era 3 x 4, mas que a música é linda, isso é. Segue uma lembrança.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

EU ACEITO E NÃO ACUSO

Eu aceito sua mão em casamento. Juro amor eterno, ser fiel no respeito, na alegria e na tristeza, nos momentos mais difíceis, na pobreza e na riqueza. São palavras do altar que também faço na vida real, na minha aldeia e na tribo em que vivo. São compromissos não cumpridos.

O tempo vai se arrastando até a monotonia, e esse elo um dia se quebra quando batem as adversidades. Priorizei os direitos em detrimento dos deveres. Não acuso a mim mesmo como sou e nem reviso o passado como aprendizagem. Eu aceito porque acho que deve ser assim o viver sem acusar, aqui no sentido de contestar. Nem pedi para vir ao mundo.  Não passo de um sopro.

O enlace matrimonial é apenas um contrato social como qualquer outro nesse sistema capitalista de aparências e vaidades onde sou levado a seguir normas como manda o figurino da ordem das coisas. A tudo eu aceito, mas não acuso nem os meus próprios atos.

Eu aceito fazer parte dessa engrenagem, ver o progresso destruir o ser humano e a própria máquina me triturar. A própria evolução da inteligência acaba de engolir ela mesma, porque é cativa e escrava do mercado e não está a serviço do humanizar. Aceito tudo que diz essa mídia vazia, sem conteúdo.

Não passo apenas de uma matéria-prima do poder selecionador das raças que cuida em eliminar, lentamente, de morte os mais fracos, e eu aceito e não acuso esse processo perverso do massacre. Eu aceito a violência e as matanças, as corrupções, os conluios e as injustiças sociais como se fizessem parte de uma lei natural, sem reversão. Aceito que as coisas são assim e não há como mudar.

Eu não acuso o meu comodismo, individualismo, meu egoísmo e passividade diante dos horrores da vida daqueles que padecem na fome e na exclusão total, sem a usufruir da dignidade merecida. Às vezes entro com um auxílio de doações solidárias para enganar minha consciência de que ela está em paz comigo mesmo.

Eu aceito ser apenas uma peça ou parafuso para fazer a máquina girar e nem questiono e acuso se ela tirou milhares de empregos dos excluídos que não tiveram formação escolar e ensino para acompanhar sua engenharia. Eu estou sentado sobre um iceberg derretendo e nem percebo. Não passo de um burguês-puritano dentro da barriga de uma baleia, como o Jonas da Bíblia.

Se tenho uma casa para morar, um carrinho na garagem ou na porta para rodar, um bar para tomar umas geladas com os falsos amigos, eu aceito o meu mudinho mesquinho e não acuso a decadência e o declínio da humanidade que está auto se destruindo.

Nem acuso o aquecimento global, os desmatamentos, as queimadas, os tufões e os ciclones, o consumismo do lixo e vou seguindo minha vidinha monótona, sem graça e nem penso na morte que pode bater em minha porta a qualquer hora. Sou um idiota imbecil que acha que já cumpriu sua missão na terra.

Eu aceito o anormal como normal, o errado como o certo e o desonesto como um bom predicado do “vencedor” a qualquer preço. Aceito o levar vantagem em tudo, ser bicho toupeira ou a avestruz que mete a cabeça no chão. Aceito tudo aquilo que os outros aceitam.

Não acuso quem rouba e só quero mesmo é passar o dia no celular hipnotizado nas redes sociais, lendo besteiras e fake news, disseminando o ódio e a intolerância. Não acuso a ignorância e aceito ser patrulhado em minha liberdade de expressão. Tenho medo de externar livremente o que penso para não ser moralmente linchado. Aceito a censura voluntária.

Por tanto aceitar, eu termino entrando em isolamento e depressão, o mal do século que eu não acuso como consequência dessa sociedade construída com pilares de areia. Como nas juras de amor, não passo de um traidor de mim mesmo, um simples carvão.

Eu aceito e não acuso porque sempre ando a dizer que não tenho tempo para refletir, conversar com os outros, responder as mensagens e só faço me encantar e concordar com as inovações tecnológicas (inteligência artificial), sem fazer indagações. Se os outros aceitam e acham ser bom para a humanidade, eu também aceito. Não quero entrar nessa de filosofar porque isso é coisa de intelectual desocupado.





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